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Silêncio (II)

- Senhor, doía-me que estivesses sempre em silêncio...

- Não estava em silêncio. Sofria a teu lado.

- Mas tu mandaste embora Judas: «O que tens a fazer, fá-lo depressa!» O que foi feito de Judas, Senhor?

- Eu não lhe disse isso. Disse, sim, que fizesse quanto antes aquilo que ia fazer, do mesmo modo que te disse a ti: «Pisa!» Porque Judas tinha dorido o coração, como tu agora.

Foi nesse momento que ele assentou o pé no fumie, sujo de sangue e de pó. Os cinco dedos do pé tinham calcado o rosto do homem que ele amava. Ainda agora não conseguia compreender o terrível acesso de alegria que sentira naquele momento.

- Não há fortes nem fracos... Quem pode garantir que os fracos sofram menos que os fortes? - O padre falava agora apressadamente, voltado para a porta. - Se já não há padres neste país que te confessem, eu te ouvirei. Dirás depois o acto de contrição... e irás em paz...

Kichijiro chorava tentando sufocar os soluços. Até que, por fim, largou a porta. Sebastião Rodrigues tinha tido a ousadia de administrar a esse homem um sacramento que só um sacerdote no legítimo exercício do seu munus lhe podia dispensar. Os seus companheiros iriam atacá-lo violentamente; dir-lhe-iam que era um sacrilégio, mas, traindo-os a eles, sabia muito bem que não traíra o Senhor. Continuava a amá-lo, embora de uma maneira muito diferente. Tudo o que acontecera até esse momento fora necessário para chegar a esse amor.

«Sou agora o último sacerdote neste país. O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida, até hoje, falará dele para todo o sempre.»

(in "Silêncio", Shusaku Endo, Círculo de Leitores)

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