Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2005
Imagem
(Auguste Rodin)

(will you teach a... (12)

(will you teach a
wretch to live
straighter than a needle)

ask
     her
         ask
             when
                 (ask and
                 ask
                 and ask
again and)ask a
brittle little
person fiddling
in
the
rain

(did you kiss
a girl with nipples
like pink thimbles)

ask
     him
         ask
             who
                (ask and
                ask
                and ask
ago and)ask a
simple
crazy
thing
singing
in the snow

(e. e. cummings)

Peter Benenson

Imagem
Morreu na sexta-feira passada Peter Benenson, o criador de uma das melhores ideias do século XX. Infelizmente, ainda actual. Ainda não é possível brindar à liberdade em muitos lugares do mundo. Ainda há corredores da morte, desaparecimentos, julgamentos extra-judiciais, tortura, tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Ainda há muito a fazer.

Angelus

Imagem
(Jean-François Millet)

*

Angelus: orações ditas de manhã (6h00), a meio do dia (12h00) e ao fim da tarde (18h00) na Igreja Católica Romana, durante todo o ano excepto no Tempo Pascal, em que se recita a Regina Caeli em sua substituição. É por vezes acompanhado com o tocar do sino.


"Angelus" ou "O Anjo do Senhor" ou "Ave Marias" ou "Trindades"

V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria:
R. E Ela concebeu do Espirito Santo. Ave Maria...

V. Eis a escrava do Senhor:
R. Faça-se em mim segundo a vossa palavra. Ave Maria...

V. E o Verbo Divino se fez homem:
R. E Habitou entre nós. Ave Maria...

V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Ave Maria...

Oremos. Infundi, Senhor, nós Vos pedimos, a Vossa graça nas nossas almas, para que nós, que pela anunciação do anjo, conhecemos a Encarnação de Vosso Filho, assim pela Sua Paixão e morte na Cruz, e com a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, alcancemos a glória da ressurreiç…

No silêncio

Onde estaria agora a sua adolescência? Onde estaria a alma que se afastara outrora do seu destino para examinar, sozinha, a vergonha das suas chagas e para, no seu asilo de sordidez e de subterfúgios, se revestir realmente com velhas colgaduras desbotadas, com grinaldas que murchavam ao menor contacto? Ou, onde estava ele?

Estava só. Estava esquecido de todos, feliz, rente ao coração selvagem da vida. Estava só e jovem, cheio de vontade, e selvagem, só num deserto de ar livre, de águas salgadas, entre a colheita marinha de conchas e de algas, entre a claridade opaca do sol velado, entre as silhuetas alegres e claras de crianças e de raparigas, entre as vozes infantis e virginais que enchiam o ar.

Uma rapariga apareceu diante dele, de pé no meio da corrente - sozinha e tranquila, contemplando o largo. Era como se magicamente tivesse sido transformada numa ave marinha, estranha e bela. As suas pernas nuas, longas e esguias, eram delicadas como as de uma grua, e imaculadas, excepto no lug…

Maioria absoluta

Um governo com maioria absoluta tem oportunidades únicas e responsabilidade acrescida. Temos agora uma maioria inédita.

Interessa-me, para os tempos que se avizinham, saber o que pode fazer esta oposição e esta sociedade civil. Não me esqueço da frase de John F. Kennedy: "ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country".

O desterrado

Imagem
(António Soares dos Reis)

E agora?

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você…

Agradecimento

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado à entrada "Voto electrónico?" do AdP: obrigada!

Jovem pastora

Imagem
(Jean-François Millet)

Nos 150 anos do nascimento de Cesário Verde

Manhãs brumosas

Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época de banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, ma…

Telescópios e tangências

Quão longe estamos quando estamos perto? Quão perto estamos quando estamos longe?

Pisco-de-peito-ruivo

Imagem
(Frances Le Marchant)

Liderança

Quais os ingredientes que fazem um grande líder? Testosterona? Pura ambição? Bicos de pés?

Entusiasmo útil

E se a paixão de tantos pelo futebol fosse substituída por um entusiasmo mais útil?

Biblioteca

Imagem
(Maria Helena Vieira da Silva)

Descida da abstenção

Um bom sinal para a democracia.

Voto electrónico?

Dificilmente me convencerão da fiabilidade do voto electrónico num país em que acontece o que aconteceu com o último concurso de professores e com as últimas devoluções de IRC.

Além disso, quem é que não consegue esperar umas horinhas, em que jornalistas, especialistas de sondagens e analistas têm a oportunidade de dar um ar da sua graça?

«He hum não querer mais que bem querer»

X

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
- Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

(Florbela Espanca)
Imagem
(Pablo Picasso)

Pedras basilares

Preâmbulo da Constituição de 21 de Agosto de 1911:

A Assembleia Constituinte, tendo sancionado, por unanimidade, na sessão de 19 de Junho de 1911, a Revolução de 5 de Outubro de 1910, e afirmando a sua confiança inquebrantável nos superiores destinos da Pátria, dentro de um regime de liberdade e justiça, estatui, decreta e promulga, em nome da Nação, a seguinte Constituição da República Portuguesa.

*

Preâmbulo da Constituição de 2 de Abril de 1976:

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.

Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.

A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corre…

I hide myself within my flower

I hide myself within my flower,
That wearing on your breast,
You, unsuspecting, wear me too—
And angels know the rest.

I hide myself within my flower,
That, fading from your vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.


(Emily Dickinson)

Miracle and wonder

Há coisas que só são possíveis com a internet. Encontrar a letra de uma canção de que recordamos um verso, por exemplo. Ou as maravilhas do peer to peer.
Imagem
(Pieter de Hooch)

Registo

Entra hoje em vigor o Protocolo de Quioto.

Paimemen Suojapaikka?!

Ah, sim, confirma-se.

Índice de má mémória

Imagem

Irmã Lúcia e manhãs submersas

O Filipe Alves, do Respública, escreveu numa caixa de comentários do AdP:

Acho que as suposições a respeito do "sequestro" de Lúcia e da sua falta de lucidez não passam disso mesmo, suposições... quem não tem fé não consegue compreender que existe quem queira viver afastado do mundo.
Caro Filipe, pode querer-se viver afastado do mundo por variadíssimas razões, de entre as quais a fé é apenas uma. Não tenho razões para não as respeitar e posso até compreender algumas delas, embora não esqueça que o ser humano é, por natureza, um animal social... O que não é certo é que o "consentimento" da irmã Lúcia tenha sido um "consentimento informado".

Agradecimento

Aos blogs Somatos, Neo-normal e Kitanda, respectivamente, pela dedicatória, pelo destaque e pela confiança: obrigada!

E aos 99 blogs que têm ligações para este Abrigo, muito obrigada também!

Maternidade

Imagem
(Pablo Picasso)

Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a carne lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
...Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

- O meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
- Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes …

Mártires da Igreja (V)

"Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Achas que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demónio, e que para as vencerem tiveram de mortificar o corpo pelo jejum e pela oração, há até um caso interessante, um tal John Schorn, que passou tanto tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos, evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo, que fechou o diabo numa bota (...)"

(in "O Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago, Caminho)

Irmã Lúcia

Morreu hoje, com 97 anos, a que foi pastora e viveu depois enclausurada.
Imagem

Mártires da Igreja (IV)

"(...) continua, e Deus continuou, Sabiano de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, Sebastião, flechas, Sagismundo, rei dos Burgúndios, atirado a um poço, Segundo de Asti, decapitado, Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, Sidwel de Exeter, decapitado, Sinforiano de Autun, idem, Sisto, idem, Tarcísio, lapidado, Tecla de Icónio, amputada e queimada, Teodoro, fogueira, Tibúrcio, decapitado, Timóteo de Éfeso, lapidado, Tirso, serrado, Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, Tropez de Pisa, decapitado, Urbano, idem, Valéria de Limoges, idem, Valeriano, idem, Venâncio de Camerino, degolado, Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, Vital de Ravena, lança, …

Mártires da Igreja (III)

"Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, Donato de Arezzo, decapitado, Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, Emérita, queimada, Emílio de Trevi, decapitado, Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, Engrácia de Saragoça, decapitada, Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabestrante, Escubículo, decapitado, Ésquilo da Suécia, lapidado, Estêvão, lapidado, Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, Eulália de Mérida, decapitada, Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, Fabião, espada e cardas de ferro, Fé de Agen, degolada, Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, Félix e o seu irmão Adaucto, idem, Ferreolo de Besançon, decapitado, Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, Filomena, flechas e âncora, Firmim de Pamplona, decapitado, Flávia Domitília, idem, Fortunato de Évora, talvez idem, Frutuoso de Tarragona, queimado, Gaudêncio de França, decapitado, Gelásio, i…

Mártires da Igreja (II)

"Deus suspirou e, no tom monocórdico de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por ordem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto por um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morto na fogueira, Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, Apolinário de Ravena, morto a golpes de maça, Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, Augusta de Treviso, morta por decapitação e queimada, Aura de Óstia, mo…
Imagem
(Jean-François Millet)

Mártires da Igreja (I)

A propósito do último estádio do desenvolvimento moral de Kohlberg, lembro-me sempre dos santos e, em especial, dos mártires. Não sei se conseguem ler a lista conhecendo os nomes da nossa memória colectiva, ditos todos de enfiada, sem se comoverem. Eu não consigo.

"Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, Insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas, Finalmente, estás a ser claro e directo, continua, Para começar por qu…

Agradecimento

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado à entrada "Cocktail sobre masculinidade nos dias de hoje": muito obrigada!

Rapariga a ler

Imagem
(Jean-Honoré Fragonard)

Onde é que já vi esta rapariga antes?

Registo

Jerónimo critica estalinismo

"Não copiamos nem temos saudades do modelo." O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, criticou, anteontem, os "desvios" verificados na União Soviética nos tempos da liderança de José Estaline. Em entrevista à TVI, o líder político reconheceu a existência de duas fases da experiência comunista na Rússia, sendo a última de "perda, de adulteração dos objectivos" iniciais da Revolução de Outubro. "Antes da 'Perestroika' já havia sinais de desvio", afirmou depois de questionado sobre o Estalinismo. "Foi a destruição de um processo pioneiro em termos de construção humana", tendo acrescentado que esse projecto foi "derrotado com consequências dramáticas para os povos daqueles países e até para os trabalhadores dos outros países".

(Público de hoje)

Delta

Imagem
"O rio bifurca-se sucessivamente no delta. Assim são também os pensamentos. Queria, com um sorriso, construir um mais perfeito delta de sinapses no teu cérebro."

Marca

Que marca poderemos deixar no mundo? Teremos um simples grão de areia para atirar para o Grande Mecanismo?

Sabedoria

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

(José Régio)

Pintassilgo

Imagem
(Frances Le Marchant)

A Regra de Ouro

"Não faças aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti."

Aceite por diferentes culturas e religiões. Uma base para o entendimento entre seres humanos.

(Mais versões da "ética da reciprocidade" aqui.)

Liberdade e igualdade

Aprecio a clareza com que neoliberais como o autor d'O Observador defendem os seus pontos de vista. No entanto, gostaria de ter alguma base de consenso para, a partir daí, ser possível o diálogo. Mas não sei qual possa ser. Porque me parece que ele não concorda com este texto:

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."(Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. 1.º).
Nem com este:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

(Constituição da República Portuguesa, Art. 13.º - Princípio da igualdade).

Tenho quase a…

Cocktail sobre masculinidade nos dias de hoje

1. Livro "Y: A Descendência do Homem", de Steve Jones (Gradiva).

2. Opiniões masculinas favoráveis ao filme "Lost in translation", para lá das opiniões favoráveis a Scarlett Johansson.

3. Anúncio a internet wireless em que o marido duvida imediatamente da lealdade da mulher que chegou tarde a casa.

Shake over ice.

Dentes-de-leão

Imagem
(Jean-François Millet)

The passionate shepherd to his love

Come live with me and be my love,
And we will all the pleasures prove
That valleys, groves, hills, and fields,
Woods or steepy mountain yields.

And we will sit upon the rocks,
Seeing the shepherds feed their flocks,
By shallow rivers to whose falls
Melodious birds sing madrigals.

And I will make thee beds of roses
And a thousand fragrant posies,
A cap of flowers, and a kirtle
Embroidered all with leaves of myrtle;

A gown made of the finest wool
Which from our pretty lambs we pull;
Fair lined slippers for the cold,
With buckles of the purest gold;

A belt of straw and ivy buds,
With coral clasps and amber studs:
And if these pleasures may thee move,
Come live with me and be my love.

The shepherds' swains shall dance and sing
For thy delight each May morning:
If these delights thy mind may move,
Then live with me and be my love.


(Christopher Marlowe)

Agradecimentos

Aos blogs H Gasolim Ultramarino, pelas palavras simpáticas; A Caminho, pela recomendação; e Por Tu Graal, Luis Moutinho e Boticário de Província, pela atenção: obrigada!

Mulher a ler

Laurindinha põe a máscara de gente de carne e osso e vai à feira do livro de Lisboa de 2004, que está no seu segundo dia. Faz a melhor colheita do ano: três livros que são três clássicos do século XX e que, por uma razão ou por outra, só muito recentemente foram editados ou reeditados. Um já foi lido, emprestado, em edição esgotadíssima. Está um tempo morno, mas com uma brisa agradável, daquelas que uma primavera em Lisboa nos oferece. Vai até à esplanada panorâmica e pede uma água fresca. Senta-se e contempla o casario de Lisboa, o castelo e o Tejo. Ouve ao lado que, lá longe, é o castelo de Palmela. Abre os sacos, cheira os livros e folheia-os com curiosidade. Por detrás da máscara, Laurindinha sorri.

Máscaras

Imagem
(Jeff Booth)

“A mask tells us more than a face”
(Oscar Wilde)

Arquivos da internet

O acidente do Local & Blogal (um clique em "Delete this blog"?) levou-me a concluir que o projecto archive.org ficou muito aquém do prometido. Estará aqui uma oportunidade de negócio?

S.O.S.

O António Baeta Oliveira, leitor honorário deste blog por em tempos ter salvo umas quantas entradas de serem apagadas, teve um terrível acidente com o seu singular Local & Blogal. A cache do Google não parece ser, neste caso, de grande utilidade.

Se alguém que por aqui passar souber como pode ajudá-lo...

O sentido

"Lembras-te da injecção de adrenalina no coração, no 'Pulp Fiction'? Às vezes, acho que precisava de uma injecção assim, mas para me restituir o sentido da vida."

Mais livre

Há, pelo menos, uma situação em que me sinto mais livre do que os outros. É quando me falam sobre o ritual de assistir a uma qualquer série de televisão, que até reconheço ser inteligente, mas que dispenso.

Folhas

Imagem

2 little whos

2 little whos
(he and she)
under are this
wonderful tree

smiling stand
(all realms of where
and when beyond)
now and here

(far from a grown
-up i&you-
ful world of known)
who and who

(2 little ams
and over them this
aflame with dreams
incredible is)

e.e. cummings

S.f.f.

Estou a ficar com síndrome de abstinência da versão em linha da edição impressa do Público. Não há quem dê umas palmadinhas no servidor?

Adenda: Obrigada!

Fractura

Imagem
Um dia, há alguns anos, pensei que tinha acordado num país civilizado. A discussão no parlamento, no dia anterior, tinha-se prolongado até tarde, pelo que só de manhã, quando liguei o rádio, é que soube que tinha sido aprovada a despenalização do aborto. Fiquei radiante! Quando, uns minutos mais tarde, me encontrei com uma amiga, só faltou beliscarmo-nos uma à outra. Depois, vieram a astúcia do Professor Marcelo e o catolicismo do Engenheiro Guterres e voltámos a ser o país do costume.

Preciosismos

O sitePúblico.pt oferece-nos serviços de inquestionável valor. Por isso, o meu agradecimento. Mas já alguma vez repararam que a edição impressa não é colocada em linha às 5h00, como é indicado? E que as edições dos Domingos parecem sempre ter sido feitas por um demiurgo trapalhão? Um demiurgo que, hoje, adormeceu...

Pequenos mistérios no processo de fabricação de blogs

1. Por que será que os números do Technorati para cada blog variam constantemente, no tempo e também da página de cada blog para as página de outros blogs?

2. Por que será que o Blogger deixou de contar o número de entradas de cada utilizador?

3. Por que é que, no Blogger, o ícone para edição de entradas "expresso" só aparece de tempos a tempos?

4. Por que é que o relógio do Blogger que insere a hora em que uma entrada é enviada anda sempre trocado?

5. E, finalmente, por que é que algumas entradas aparecem com a indicação de que não têm comentários do Haloscan quando, na realidade, os têm?

Mulher a ler no jardim

Imagem
(Mary Cassatt)

Dear Connie

The Grange Farm Old Heanor 29 September

I got on here with a bit of contriving, because I knew Richards, the company engineer, in the army. It is a farm belonging to Butler and Smitham Colliery Company, they use it for raising hay and oats for the pit-ponies; not a private concern. But they've got cows and pigs and all the rest of it, and I get thirty shillings a week as labourer. Rowley, the farmer, puts me on to as many jobs as he can, so that I can learn as much as possible between now and next Easter. I've not heard a thing about Bertha. I've no idea why she didn't show up at the divorce, nor where she is nor what she's up to. But if I keep quiet till March I suppose I shall be free. And don't you bother about Sir Clifford. He'll want to get rid of you one of these days. If he leaves you alone, it's a lot.

I've got lodging in a bit of an old cottage in Engine Row very decent. The man is engine-driver at High Park, tall, with a beard, and very ch…

D. Sebastião, rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

Fogo

Imagem
(Giuseppe Arcimboldo)

Conversa de gin tónico

Caro JVC,

Obrigada pelo convite para o gin tónico!

O JVC concorda com o direito ao casamento de casais homossexuais, mas tem dúvidas sobre o direito à adopção por parte destes casais.

Sobre este assunto, sobre o qual também tenho dúvidas, chamou-me a atenção um artigo do Diário de Notícias de 3 de Outubro de 2004, a propósito da discussão sobre este tema que então ocorreu em Espanha (a catolicíssima Espanha), onde acabou por ser aprovado o direito à adopção por casais homossexuais. Nesse artigo é referido que Dois estudos de 2002, um da Academia Americana de Pediatria e outro do Colégio Oficial de Psicólogos de Madrid pronunciaram-se a favor. e ainda «O importante de um lugar não é a sua forma exterior, se está construído em pedra ou em madeira. O mais importante, realmente, é que sirva para as funções de protecção que deve exercer», conclui o estudo do Colégio de Psicólogos. Neste, os peritos analisaram as dinâmicas familiares de 28 famílias «homoparentais» e encontraram «níveis elev…

Agradecimento

Muito obrigada ao Bomba Inteligente pelo destaque dado a este Abrigo!

Rêvé pour l'hiver

L'hiver, nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.

Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée...
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras : "Cherche!" en inclinant la tête,
- Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
- Qui voyage beaucoup...


(Arthur Rimbaud)
Imagem
(Harmenszoon van Rijn Rembrandt)

Elderly power

Tinha pensado interrogar-me aqui sobre o que acontecerá quando o envelhecimento da população for tal que a maioria da população tenha mais de sessenta e cinco anos. Mas o processo já começou. É só uma questão de extrapolar as tendências actuais.

Quererão as pessoas com mais de sessenta e cinco anos e menos de setenta reformar-se o mais depressa possível? Deve haver os dois tipos de pessoas, os que sim e os que não, embora a reforma tenha surgido e sido conquistada como corolário de um percurso de trabalho não necessariamente gratificante e como um período de descanso e de disponibilidade para fazer o que antes não era possível: viajar, ler mais, fazer jardinajem, etc. De que forma poderão os partidos, na definição das suas políticas, ir ao encontro destes anseios?

Há ainda que ter em consideração que os mais idosos que se mantiverem activos vão ser menos produtivos, porque as suas capacidades físicas e intelectuais vão diminuindo naturalmente. Além disso, no mercado de trabalho, a ex…

Ucranianas

Ontem contaram-me que há mulheres ucranianas a trabalhar em Portugal como empregadas domésticas e a ganhar um euro e meio por hora. Um euro e meio! Se fizerem as contas, percebem que não chega ao salário mínimo. Provavelmente, estão ilegais, pelo que não terão direito a segurança social ou a um seguro de trabalho. E não serão descobertas por nenhuma inspecção...

Como é que há pessoas capazes de sujeitar-se a um salário assim? Como é que há quem lhes pague tão pouco?

Lendo as notícias

Imagem
(James Jacques Joseph Tissot)

The soul selects her own society

The soul selects her own society,
Then shuts the Door;
On her divine Majority
Obtrude no more.

Unmoved, she notes the Chariots pausing
At her low Gate;
Unmoved, an Emperor be kneeling
Upon her Mat.

I've known her from an ample nation
Choose one;
Then close the valves of her attention
Like stone.


(Emily Dickinson)

O drama do bebé 81

No Sri Lanka, um bebé sobrevivente do maremoto e uma multidão de mulheres que se dizem suas mães e querem ficar com ele.

Já não há sabedoria salomónica? Nem testes de ADN?

Prémio

Para a pior sinalética que já vi num hospital. Entre idosos atarantados e perdidos. O vencedor é o Hospital Amadora-Sintra.

Totonegócio

Mas alguém ainda jogou no Totobola depois do Totonegócio? Há coisas que não entendo.

Parede de xisto

Imagem

Gabriel, ou uma história singela

Foi a voz. A barba e o cabelo compridos e muito pretos e todo o figurino de vagabundo não chamaram a atenção dela. Estava encostado a uma caixa de electricidade, dessas que há pelas ruas, pouco menores do que um homem. Perto, havia uma paragem de autocarros, e várias senhoras idosas faziam fila à espera do seu autocarro. Uma meteu-se com ele. Que não devia pedir ali, que se precisava devia ir à igreja ali mesmo ao pé. Ele murmurou qualquer coisa sobre não pertencer àquela paróquia. Ela replicou, mais agressiva. E foi então que a voz se lhe abriu, para dizer: "Vocês não compreendem nada!". Era uma voz clara e doce, muito doce. E ela só ouviu esta voz, que pressentiu poder ser a do seu salvador, porque o autocarro passou naquele momento e porque estava sentada perto da porta, quando esta se abriu.

Dias depois, ela dirigiu-se-lhe, oferecendo-se para lhe pagar um corte de barba e cabelo no barbeiro da rua e um fato novo. Foram os dois até casa dela, onde ele tomou um banho e ves…

Optimismo relativo

No ranking dos países relativamente à taxa de mortalidade infantil do The World Factbook, da CIA, actualizado a 27 de Janeiro de 2005, Portugal surge em 201.º lugar, com uma taxa de 5,13 mortes no primeiro ano de vida por mil nados vivos. Melhor do que a média da União Europeia, o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos.

No 1.º lugar do ranking está Angola, com uma taxa de 192,50 por mil, e no 226.º e último lugar está Singapura, com 2,28 mortes por mil nados vivos.
Imagem

A abstenção, de novo

A abstenção é um "tema fracturante" entre os leitores do AdP. Dizem os abstinentes (só pelo nome, já deviam ter vergonha!) ou que não há escolha, porque todos os partidos são iguais, ou que são os políticos portugueses que sofrem de uma maleita generalizada que os torna preguiçosos e corruptos.

Posso conceder que, actualmente, não há muito lugar para a imaginação dentro dos partidos e que os políticos que temos são um reflexo da sociedade que somos.

Dito isto, o que pode ser feito? Até me parece bem simples, depois do que escrevi: procurar ter ideias criativas (e os blogs são um bom meio para as divulgar) e procurar ser melhor no dia-a-dia, nomeadamente a nível da participação cívica.

Agora pergunto-me: será que os abstencionistas são pessoas que intervêm de forma activa e original na sua comunidade? Ou será que são os que, quer seja numa aasembleia de meia dúzia de pessoas, quer seja nas eleições a nível nacional, estão só disponíveis para criticar destrutuivamente, e nun…

Sonnets from the Portuguese

XLIII

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.

I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints, - I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! - and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


(Elizabeth Barrett Browning)

Estudo

Imagem
(Frederic Leighton)