sábado, junho 04, 2011


segunda-feira, maio 02, 2011

Ouvindo...




Que c'est beau!...

domingo, maio 01, 2011

And death shall have no dominion


And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


(Dylan Thomas)

sábado, abril 30, 2011



(Vincent van Gogh)

Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

(José Régio)

terça-feira, abril 26, 2011




(Google doodle de 26/Abr/2011, celebrando o nascimento de John James Audubon)

Citação


«Nice people with common sense do not make interesting characters. They
only make good former spouses.»

(Isabel Allende, TED talk Tales of passion)

segunda-feira, abril 25, 2011

In memoriam




sábado, abril 23, 2011


(V)

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso)

domingo, abril 17, 2011



(Giovanni Segantini, Mezzogiorno sulle Alpi, 1891)

Uma trip de Umberto Eco


É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exactamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?

Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contados sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?


(Umberto Eco, O Cemitério de Praga)

Esta droga é boa, e não se vende nas farmácias...

Como pôr o guizo no gato?


Jorge Miranda não se oporia a que votos em branco fossem representados por cadeiras vazias no Parlamento, como foi sugerido em tempos neste blog.

Questionado sobre se se revê nos partidos do actual espectro partidário, admitiu que não, mas explicou que como não é abstencionista tem votado muitas vezes em branco – pelo que concorda com a proposta do antigo ministro de José Sócrates e economista Campos e Cunha de deixar no Parlamento lugares vagos provenientes dos votos em branco. “Daria um sentido positivo ao voto em branco. Seria uma forma positiva de manifestação de desagrado em relação aos partidos existentes”, insistiu, definindo o actual sistema de partidos como vivendo um “estado comatoso, sem qualquer capacidade de renovação”.

Numa fábula muito popular de Esopo, os ratos em consílio achavam uma excelente ideia pôr um guizo no gato que os atormentava, para os avisar de quando ele estava a aproximar-se. Só não conseguiam entender-se sobre qual deles ia pôr o guizo no gato...

Aqui a questão é que partidos alguma vez defenderiam tal ideia e votariam a favor de uma tal lei no Parlamento...

Nas eleições legislativas de 2009, houve 99.161 votos em branco e 78.023 votos nulos. São mais do que os necessários para uma iniciativa popular, mas quem os organiza? Seria talvez mais fácil se os partidos que não elegeram deputados numas eleições tivessem financiamento na campanha eleitoral seguinte, proporcional aos votos que tivessem conseguido. Ou então, quem sabe, esses "movimentos apartidários" que há por aí pudessem fazer alguma coisa...

domingo, abril 10, 2011

De olhos postos na Islândia...


Para quando o referendo português sobre a renegociação da dívida? (Renegociar a dívida não é o que se aconselha a um particular quando ele se vê numa escalada de empréstimos?)

With great power comes great responsibility


É difícil imaginar um lugar em que as ideias para lá da espuma dos dias contam. Mas parece que existe... em França.

Confesso que já passei mais de cinco minutos da minha vida a ler textos de Bernard-Henri Lévy, e li Les Fleurs du Mal na penumbra da sua biografia de Baudelaire.

Ora, já Platão sonhou com reis-filósofos. E, tantas vezes, vemos resultados democráticos que fazem duvidar da bondade dos pressupostos da democracia...

Por tudo isto, e havendo posições de BHL das quais discordo totalmente, não posso deixar de sentir simpatia por se ter prontificado a ir quase à frente de batalha, deixar a cómoda neutralidade, e ter usado o poder da sua notoriedade para tentar influenciar a defesa de vidas civis e uma mudança de regime na Líbia.

Teorias de conspiração? Honni soit qui mal y pense.

Grande decepção:


Fernando Nobre.

sexta-feira, abril 01, 2011

Registo



Déficit e dívida em percentagem do PIB, para vários países.

(dados de 2010 do FMI, via Ladrões de Bicicletas)

quarta-feira, março 23, 2011

Elizabeth Taylor (1932-2011)






Morreu uma das mulheres mais bonitas do mundo. Eram intensos o olhar, as representações, as amizades (e, bom, o impulso para se casar e recasar).

quinta-feira, março 10, 2011

O Público já perguntou...


a Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas se e por quê participam - ou não - na manifestação de 12 de Março?

Reminder: 24 de Novembro de 1993.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Por que há-de ser vinculativa


uma eleição para um cargo unipessoal em que a taxa de abstenção é superior à votação do candidato com mais votos?

quinta-feira, outubro 28, 2010

Pour faire le portrait d'un oiseau




Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


Jacques Prévert

terça-feira, agosto 03, 2010

Voto em branco


E se o voto em branco fosse representado na AR... por cadeiras vazias?

domingo, maio 16, 2010

Aos homens corajosos do meu país


Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



(Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo)

domingo, abril 25, 2010


domingo, março 14, 2010


«Terminada a faina e preparado o banquete, comeram, e nenhum coração se lamentava do festim onde a todos os homens cabe a sua parte.»

(Homero)

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Uma pequenina luz bruxuleante


segunda-feira, outubro 05, 2009

Mercedes Sosa


cantando "Gracias a la Vida", de Violeta Parra.



Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
así yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida.

terça-feira, setembro 01, 2009

"Com a cabeça metida no travesseiro"


Com a notícia de uma mudança de ministério, Paris tinha mudado. Todos se sentiam alegres; gente passeava, e lampiões em todos os andares davam uma tal claridade que parecia estar-se em pleno dia. Os soldados regressavam lentamente aos quartéis, estafados, de ar triste. Saudavam-nos, gritando: «Viva a Infantaria!» Eles continuavam sem responder. Na guarda nacional, pelo contrário, os oficiais, rubros de entusiasmo, brandiam o sabre, vociferando: «Viva a reforma!» e esta frase fazia sempre rir os dois amantes. Frédéric dizia gracejos, estava muito alegre.

Pela rua Duphot, chegaram aos bulevares. Lanternas venezianas, penduradas nas casas, formavam guirlandas de luzes. Um formigueiro confuso agitava-se na rua; no meio desta sombra, a espaços, brilhavam alvuras de baionetas. Erguia-se um grande sussuro de vozes. A multidão era demasiadamente compacta, o regresso directo impossível; e iam a entrar na rua Caumartin quando, de súbito, rebentou atrás deles um ruído, semelhante ao estalar de uma imensa peça de seda a ser rasgada. Era a fuzilaria do bulevar de Capucines.

- Ah! Alguns burgueses a menos, - disse Frédéric tranquilamente, porque há momentos em que o homem menos cruel se acha tão desligado dos outros que veria perecer o género humano sem um batimento de coração.

A Marechala, aferrada ao braço dele, batia os dentes. Declarou-se incapaz de dar mais vinte passos. Então, por um requinte de ódio, para melhor ultrajar na sua alma a Senhora Arnoux, levou-a até à residência da rua Tronchet, ao apartamento preparado para a outra.

As flores não tinham murchado. A guipura estava em cima da cama. Tirou do armário as pequenas pantufas. Rosanette achou estas atenções muito delicadas.

Por volta da uma hora, foi acordada por rufos longínquos de tambor; e viu que ele estava a soluçar, com a cabeça metida no travesseiro.

- O que tens tu, amor querido?

- É o excesso de felicidade - disse Frédéric. - Havia já muito tempo que te desejava!


(Gustave Flaubert, "A Educação Sentimental", Relógio d'Água, tradução de João Costa)


(Vincent van Gogh)

domingo, junho 21, 2009

Usura na cristandade


C'est à ce moment-là que se pose la grande question du prês à intérêt, nécessaire pour l'exportation des produits. En 1347 dejà, presque deux siècles avant la Réforme, l'évêque Adhémar Fabri avait rompu la règle religieuse selon laquelle le temps appartenant à Dieu, les hommes ne sauraient en tirer du profit. Il avait autorisé l'«usure», c'est-à-dire, le paiement d'un loyer pour de l'argent prêté, à condition que le taux en restant modeste.

Calvin est sollicité pour une semblable autorisation par les marchands protestants de la Nouvelle République. Il y réfléchit longuement. Il lui paraît légitime qu'un prêteur reçoive sa part de rétribuition pour de l'argent qui aura contribué à enrichir l'emprunteur, cette part devant rester raisonnable. En revanche, dit-il, il faut renoncer à «l'usure du pauvre». Mais qu'est-ce qu'une «part raisonnable»? Qu'est-ce qu'un «pauvre»? Prêteurs et prédicateurs ne cessent de se disputer sur cette question. Dès 1538, le taux légal est fixé à 5%. En 1557, il grimpe à 7%, en 1572 à 8,3%. En realité, le taux de 10% est courant, et sourtout à l'encontre des emprunteurs les plus pauvres.


(Joëlle Kuntz, L'histoire suisse dans un clin d'oeil)

sábado, maio 09, 2009

Quem manda? (2)


"[...] I know that as a consequence of my fund-raising I became more like the wealthy donors I met, in the very particular sense that I spent more and more of my time above the fray, outside the world of immediate hunger, disappointment, fear, irrationality, and frequent hardship of the other 99 percent of the population - that is, the people I'd entered public life to serve. And in one fashion or another, I suspect this is true for every senator: The longer you are a senator, the narrower the scope of your interactions. You may fight it, with town hall meetings and listening tours and stops by the old neighborhood. But your schedule dictates that you move in a different orbit from most of the people you represent."

(Barack Obama, The audacity of hope)

Quem manda?


"Increasingly I found myself spending time with people of means - law firm partners and investment bankers, hedge fund managers and venture capitalists. As a rule, they were smart, interesting people, knowledgeable about public policy, liberal in their politics, expecting nothing more than a hearing of their opinions in exchange for their checks. But they reflected, almost uniformly, the perspectives of their class: the top 1 percent or so of the income scale that can afford to write a $2,000 check to a political candidate. They believed in the free market and in educational meritocracy; they found it hard to imagine that there might be any social ill that could not be cured by a high SAT score. They had no patience with protectionism, found unions troublesome, and were not particularly sympathetic to those whose lives were upended by the movements of global capital."

(Barack Obama, The audacity of hope)

sábado, março 14, 2009

Registo

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Palme


De sa grâce redoutable
Voilant à peine l'éclat,
Un ange met sur ma table
Le pain tendre, le lait plat;
Il me fait de la paupière
Le signe d'une prière
Qui parle à ma vision:
— Calme, calme, reste calme!
Connais le poids d'une palme
Portant sa profusion!

Pour autant qu'elle se plie
À l'abondance des biens,
Sa figure est accomplie,
Ses fruits lourds sont ses liens.
Admire comme elle vibre,
Et comme une lente fibre
Qui divise le moment,
Départage sans mystère
L'attirance de la terre
Et le poids du firmament!

Ce bel arbitre mobile
Entre l'ombre et le soleil,
Simule d'une sibylle
La sagesse et le sommeil.
Autour d'une même place
L'ample palme ne se lasse
Des appels ni des adieux...
Qu'elle est noble, qu'elle est tendre!
Qu'elle est digne de s'attendre
À la seule main des dieux!

L'or léger qu'elle murmure
Sonne au simple doigt de l'air,
Et d'une soyeuse armure
Charge l'âme du désert.
Une voix impérissable
Qu'elle rend au vent de sable
Qui l'arrose de ses grains,
À soi-même sert d'oracle,
Et se flatte du miracle
Que se chantent les chagrins.

Cependant qu'elle s'ignore
Entre le sable et le ciel,
Chaque jour qui luit encore
Lui compose un peu de miel.
Sa douceur est mesurée
Par la divine durée
Qui ne compte pas les jours,
Mais bien qui les dissimule
Dans un suc où s'accumule
Tout l'arôme des amours.

Parfois si l'on désespère,
Si l'adorable rigueur
Malgré tes larmes n'opère
Que sous ombre de langueur,
N'accuse pas d'être avare
Une Sage qui prépare
Tant d'or et d'autorité:
Par la sève solennelle
Une espérance éternelle
Monte à la maturité!

Ces jours qui te semblent vides
Et perdus pour l'univers
Ont des racines avides
Qui travaillent les déserts.
La substance chevelue
Par les ténèbres élue
Ne peut s'arrêter jamais,
Jusqu'aux entrailles du monde,
De poursuivre l'eau profonde
Que demandent les sommets.

Patience, patience,
Patience dans l'azur!
Chaque atome de silence
Est la chance d'un fruit mûr!
Viendra l'heureuse surprise:
Une colombe, la brise,
L'ébranlement le plus doux,
Une femme qui s'appuie,
Feront tomber cette pluie
Où l'on se jette à genoux!

Qu'un peuple à présent s'écroule,
Palme!... irrésistiblement!
Dans la poudre qu'il se roule
Sur les fruits du firmament!
Tu n'as pas perdu ces heures
Si légère tu demeures
Après ces beaux abandons;
Pareille à celui qui pense
Et dont l'âme se dépense
À s'accroître de ses dons!


(Paul Valéry, Charmes)

domingo, fevereiro 15, 2009

Inglês técnico



A lagartixa, o lagarto e o crocodilo


A um canto, a lagartixa, o lagarto e o crocodilo palestravam em família. Cousa digna da atenção do filósofo é que a lagartixa via no crocodilo uma formidável lagartixa, e o crocodilo achava a lagartixa um crocodilo mimoso; ambos estavam de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem gênio (versão lagartixa) e um presumido sem graça (versão crocodilo).

— Quando lhe perguntaram pelos avós, observou o crocodilo, costuma responder que eles foram os mais belos crocodilos do mundo, o que pode provar com papiros antiquíssimos e autênticos...

Tendo nascido, concluiu a lagartixa, tendo nascido na mais humilde fenda de parede, como eu... Crocodilo de bobagem!

— Notai que ele fala muito do loto e do nenúfar, refere casos do hipopótamo, para enganar os outros, confunde Cleópatra com o Khediva, e as antigas dinastias com o governo inglês...

Tudo isso era dito sem que o lagarto fizesse caso. Ao contrário, parecia rir, e costeava a parede da arca, a ver se achava algum calor de sol.


(Machado de Assis, A semana)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

200 anos de razão




O mais revolucionário de todos os seres humanos: um coleccionador de detalhes de bichinhos e pequenas plantas e um argumentador infatigável. Grande vénia para o grande Charles Darwin!

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Um frango para dois comensais


Será o aumento do valor médio do rendimento per capita suficiente para caracterizar o progresso socioeconómico de uma sociedade? Poderia ser, se o dinheiro servisse só para comprar gravatas e conforto supérfluo. Mas serve também para aceder a cuidados de saúde: aos melhores ou aos mais básicos. O dinheiro não compra só mordomias num hospital privado. Compra também exames de diagnóstico caros ou tempos reduzidos em listas de espera.

Não é justo garantir ao banqueiro incompetente melhores cuidados de saúde do que ao diligente operário fabril. No entanto, esta injustiça é inevitável com a destruição do modelo social europeu.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Sondagens: montante e jusante


Como caracterizar quem tem paciência para responder a sondagens e inquéritos? Carola? Desocupado? Devoto?

Um especialista nacional em sondagens nunca tinha pensado na distorção provocada nos resultados das sondagens pela escolha de amostras de indivíduos com telefone fixo. Fascinante. Aposto que quem paga a realização e a publicação de resultados de sondagens também nunca pensou no efeito de "self-fulfilling prophecy"... Aliás, o fenómeno familiar do favorecimento do contratante só pode ser pura coincidência.

domingo, fevereiro 01, 2009

Procuradoras


Na televisão, uma grande reportagem sobre quatro procuradoras do Ministério Público. Mulheres poderosas do meu país. Mulheres inteligentes. Queria tanto ter orgulho delas... Queria, mas não posso. Tirando um "ter acabado com o terrorismo" das FP25, só referência a processos prescritos, mal conduzidos, adiados. No Reino Unido, demitem pessoas que demoram três anos a reponder a uma carta. Por cá, sem surpresa, não há ninguém responsável se se espera três anos pela resposta a uma carta. Que interesse tem que a papelada dos processos ocupe um andar ou quatro? Simplesmente não acredito que haja tanta sofisticação no crime nacional que não seja possível atacá-lo.