Domingo, Junho 21, 2009

Usura na cristandade


C'est à ce moment-là que se pose la grande question du prês à intérêt, nécessaire pour l'exportation des produits. En 1347 dejà, presque deux siècles avant la Réforme, l'évêque Adhémar Fabri avait rompu la règle religieuse selon laquelle le temps appartenant à Dieu, les hommes ne sauraient en tirer du profit. Il avait autorisé l'«usure», c'est-à-dire, le paiement d'un loyer pour de l'argent prêté, à condition que le taux en restant modeste.

Calvin est sollicité pour une semblable autorisation par les marchands protestants de la Nouvelle République. Il y réfléchit longuement. Il lui paraît légitime qu'un prêteur reçoive sa part de rétribuition pour de l'argent qui aura contribué à enrichir l'emprunteur, cette part devant rester raisonnable. En revanche, dit-il, il faut renoncer à «l'usure du pauvre». Mais qu'est-ce qu'une «part raisonnable»? Qu'est-ce qu'un «pauvre»? Prêteurs et prédicateurs ne cessent de se disputer sur cette question. Dès 1538, le taux légal est fixé à 5%. En 1557, il grimpe à 7%, en 1572 à 8,3%. En realité, le taux de 10% est courant, et sourtout à l'encontre des emprunteurs les plus pauvres.


(Joëlle Kuntz, L'histoire suisse dans un clin d'oeil)

Sábado, Maio 09, 2009

Quem manda? (2)


"[...] I know that as a consequence of my fund-raising I became more like the wealthy donors I met, in the very particular sense that I spent more and more of my time above the fray, outside the world of immediate hunger, disappointment, fear, irrationality, and frequent hardship of the other 99 percent of the population - that is, the people I'd entered public life to serve. And in one fashion or another, I suspect this is true for every senator: The longer you are a senator, the narrower the scope of your interactions. You may fight it, with town hall meetings and listening tours and stops by the old neighborhood. But your schedule dictates that you move in a different orbit from most of the people you represent."

(Barack Obama, The audacity of hope)

Quem manda?


"Increasingly I found myself spending time with people of means - law firm partners and investment bankers, hedge fund managers and venture capitalists. As a rule, they were smart, interesting people, knowledgeable about public policy, liberal in their politics, expecting nothing more than a hearing of their opinions in exchange for their checks. But they reflected, almost uniformly, the perspectives of their class: the top 1 percent or so of the income scale that can afford to write a $2,000 check to a political candidate. They believed in the free market and in educational meritocracy; they found it hard to imagine that there might be any social ill that could not be cured by a high SAT score. They had no patience with protectionism, found unions troublesome, and were not particularly sympathetic to those whose lives were upended by the movements of global capital."

(Barack Obama, The audacity of hope)

Sábado, Março 14, 2009

Registo

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

Palme


De sa grâce redoutable
Voilant à peine l'éclat,
Un ange met sur ma table
Le pain tendre, le lait plat;
Il me fait de la paupière
Le signe d'une prière
Qui parle à ma vision:
— Calme, calme, reste calme!
Connais le poids d'une palme
Portant sa profusion!

Pour autant qu'elle se plie
À l'abondance des biens,
Sa figure est accomplie,
Ses fruits lourds sont ses liens.
Admire comme elle vibre,
Et comme une lente fibre
Qui divise le moment,
Départage sans mystère
L'attirance de la terre
Et le poids du firmament!

Ce bel arbitre mobile
Entre l'ombre et le soleil,
Simule d'une sibylle
La sagesse et le sommeil.
Autour d'une même place
L'ample palme ne se lasse
Des appels ni des adieux...
Qu'elle est noble, qu'elle est tendre!
Qu'elle est digne de s'attendre
À la seule main des dieux!

L'or léger qu'elle murmure
Sonne au simple doigt de l'air,
Et d'une soyeuse armure
Charge l'âme du désert.
Une voix impérissable
Qu'elle rend au vent de sable
Qui l'arrose de ses grains,
À soi-même sert d'oracle,
Et se flatte du miracle
Que se chantent les chagrins.

Cependant qu'elle s'ignore
Entre le sable et le ciel,
Chaque jour qui luit encore
Lui compose un peu de miel.
Sa douceur est mesurée
Par la divine durée
Qui ne compte pas les jours,
Mais bien qui les dissimule
Dans un suc où s'accumule
Tout l'arôme des amours.

Parfois si l'on désespère,
Si l'adorable rigueur
Malgré tes larmes n'opère
Que sous ombre de langueur,
N'accuse pas d'être avare
Une Sage qui prépare
Tant d'or et d'autorité:
Par la sève solennelle
Une espérance éternelle
Monte à la maturité!

Ces jours qui te semblent vides
Et perdus pour l'univers
Ont des racines avides
Qui travaillent les déserts.
La substance chevelue
Par les ténèbres élue
Ne peut s'arrêter jamais,
Jusqu'aux entrailles du monde,
De poursuivre l'eau profonde
Que demandent les sommets.

Patience, patience,
Patience dans l'azur!
Chaque atome de silence
Est la chance d'un fruit mûr!
Viendra l'heureuse surprise:
Une colombe, la brise,
L'ébranlement le plus doux,
Une femme qui s'appuie,
Feront tomber cette pluie
Où l'on se jette à genoux!

Qu'un peuple à présent s'écroule,
Palme!... irrésistiblement!
Dans la poudre qu'il se roule
Sur les fruits du firmament!
Tu n'as pas perdu ces heures
Si légère tu demeures
Après ces beaux abandons;
Pareille à celui qui pense
Et dont l'âme se dépense
À s'accroître de ses dons!


(Paul Valéry, Charmes)

Domingo, Fevereiro 15, 2009

Inglês técnico



A lagartixa, o lagarto e o crocodilo


A um canto, a lagartixa, o lagarto e o crocodilo palestravam em família. Cousa digna da atenção do filósofo é que a lagartixa via no crocodilo uma formidável lagartixa, e o crocodilo achava a lagartixa um crocodilo mimoso; ambos estavam de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem gênio (versão lagartixa) e um presumido sem graça (versão crocodilo).

— Quando lhe perguntaram pelos avós, observou o crocodilo, costuma responder que eles foram os mais belos crocodilos do mundo, o que pode provar com papiros antiquíssimos e autênticos...

Tendo nascido, concluiu a lagartixa, tendo nascido na mais humilde fenda de parede, como eu... Crocodilo de bobagem!

— Notai que ele fala muito do loto e do nenúfar, refere casos do hipopótamo, para enganar os outros, confunde Cleópatra com o Khediva, e as antigas dinastias com o governo inglês...

Tudo isso era dito sem que o lagarto fizesse caso. Ao contrário, parecia rir, e costeava a parede da arca, a ver se achava algum calor de sol.


(Machado de Assis, A semana)

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

200 anos de razão




O mais revolucionário de todos os seres humanos: um coleccionador de detalhes de bichinhos e pequenas plantas e um argumentador infatigável. Grande vénia para o grande Charles Darwin!

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Um frango para dois comensais


Será o aumento do valor médio do rendimento per capita suficiente para caracterizar o progresso socioeconómico de uma sociedade? Poderia ser, se o dinheiro servisse só para comprar gravatas e conforto supérfluo. Mas serve também para aceder a cuidados de saúde: aos melhores ou aos mais básicos. O dinheiro não compra só mordomias num hospital privado. Compra também exames de diagnóstico caros ou tempos reduzidos em listas de espera.

Não é justo garantir ao banqueiro incompetente melhores cuidados de saúde do que ao diligente operário fabril. No entanto, esta injustiça é inevitável com a destruição do modelo social europeu.

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Sondagens: montante e jusante


Como caracterizar quem tem paciência para responder a sondagens e inquéritos? Carola? Desocupado? Devoto?

Um especialista nacional em sondagens nunca tinha pensado na distorção provocada nos resultados das sondagens pela escolha de amostras de indivíduos com telefone fixo. Fascinante. Aposto que quem paga a realização e a publicação de resultados de sondagens também nunca pensou no efeito de "self-fulfilling prophecy"... Aliás, o fenómeno familiar do favorecimento do contratante só pode ser pura coincidência.

Domingo, Fevereiro 01, 2009

Procuradoras


Na televisão, uma grande reportagem sobre quatro procuradoras do Ministério Público. Mulheres poderosas do meu país. Mulheres inteligentes. Queria tanto ter orgulho delas... Queria, mas não posso. Tirando um "ter acabado com o terrorismo" das FP25, só referência a processos prescritos, mal conduzidos, adiados. No Reino Unido, demitem pessoas que demoram três anos a reponder a uma carta. Por cá, sem surpresa, não há ninguém responsável se se espera três anos pela resposta a uma carta. Que interesse tem que a papelada dos processos ocupe um andar ou quatro? Simplesmente não acredito que haja tanta sofisticação no crime nacional que não seja possível atacá-lo.

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009



(Félix Vallotton)

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009



(Franz Eyb)

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

Mulher a ler



(Valerie Ganz)

O pastor


Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho,
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.


(Eugénio de Andrade)

Domingo, Dezembro 28, 2008

Um bom meme em qualquer dia do ano




Bisous!

Sábado, Dezembro 27, 2008

Registo


Iceland's fall (Wall Street Journal, 27/12/08).

Registo


DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Há 60 anos, exactamente no dia 10 de Dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou em Paris a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Havia precedentes. Por exemplo, a famosa Charta Magna libertatum - a Magna Carta -, de 1215. Mas ela começa assim: "Estas são as demandas que os barões solicitam e o senhor rei concede", acabando, portanto, por abranger apenas os "homens livres".

A Declaração de Direitos (Bill of Rights) do Bom Povo de Virgínia, de 1776, já reconhecia os direitos dos indivíduos enquanto pessoas, mas não se estendia a todos, pois não incluía os negros, considerados "uma espécie inferior".

Em 1789, a Assembleia Nacional Francesa promulgou a célebre Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas este Homem era ainda só o varão branco e proprietário.

Na Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclama-se, pela primeira vez, que toda a pessoa humana, independentemente do sexo, condição social, raça, religião, nacionalidade, é detentora de direitos fundamentais, que devem ser respeitados por todos, pois são universais e valem em todo o tempo e lugar.

Mas não houve consenso. Oito países abstiveram-se de votar a favor. A Arábia Saudita e o Iémen puseram em causa "a igualdade entre homens e mulheres". A África do Sul do apartheid contestou o "direito à igualdade sem distinção de nascimento ou de raça". A Polónia, a Checoslováquia, a Jugoslávia e a União Soviética, comunistas, contestaram que alguém pudesse invocar os seus direitos e liberdades "sem distinção de opinião política".

Entretanto, em 1966, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou o "Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais" e o "Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos", que, para entrarem em vigor, precisariam de ser ratificados pelo menos por 35 países membros, o que só aconteceu dez anos mais tarde.

Embora a sua violação continue uma constante, como permanentemente informa e denuncia a Amnistia Internacional, há uma consciência universal crescente dessas duas gerações de direitos - civis e políticos, e económicos e sociais -, a que veio juntar-se uma terceira geração, cujos titulares não são os indivíduos, mas os povos, como o direito ao desenvolvimento, o direito à autodeterminação, a um meio ambiente sadio, à paz.

Continua o debate sobre a sua universalidade, que J.-Fr. Paillard sintetizou nesta pergunta: "Um instrumento ideológico ao serviço do Ocidente", para impor ao resto do mundo a sua visão do bem e do mal? M. Gauchet, por exemplo, disse: "Do ponto de vista de um dirigente chinês, indiano ou árabe, os direitos do Homem são antes de mais os direitos do homem branco a exportar o modelo de civilização que os tornou inteligíveis."

No entanto, ainda recentemente - Junho de 1993 -, na Conferência das Nações Unidas sobre os Direitos do Homem, os Estados reafirmaram: "Todos os direitos do Homem são universais, indissociáveis, interdependentes e intimamente ligados." E, considerando a diversidade cultural em conexão com este universalismo, acrescentaram: "Se importa não perder de vista a importância dos particularismos nacionais e regionais e a diversidade histórica, cultural e religiosa, é dever dos Estados, seja qual for o sistema político, económico e cultural, promover e proteger todos os direitos do Homem e todas as liberdades fundamentais."

No início de um novo ano, que melhores votos que os do cumprimento pleno destes direitos?

Referindo o Preâmbulo da Declaração - "Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; considerando que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar, de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem..." -, um caricaturista do El País pôs Deus a ler e a exclamar: "Que preâmbulo! Não tinha lido nada tão bom desde o Sermão da Montanha."

Diário de Notícias, 27/12/2008

Terça-feira, Dezembro 09, 2008

Grande é o nosso pecado


"Se a miséria dos nossos pobres não for causada pelas leis da natureza, mas pelas nossas instituições, grande é o nosso pecado."

(Charles Darwin, Viagem a bordo do Beagle)

Domingo, Dezembro 07, 2008



(Jean Duvet)

As Adam, Early in the Morning


As Adam, early in the morning,
Walking forth from the bower, refresh’d with sleep;
Behold me where I pass—hear my voice—approach,
Touch me—touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.


(Walt Whitman)

Sábado, Dezembro 06, 2008

Shut not your doors


Shut not your doors to me proud libraries,
For that which was lacking on all your well-fill'd shelves, yet needed
      most, I bring
Forth from the war emerging, a book I have made,
The words of my book nothing, the drift of it everything,
A book separate, not link'd with the rest nor felt by the intellect,
But you ye untold latencies will thrill to every page.

(Walt Whitman)

Sábado, Novembro 29, 2008

art saves



(Fonte)

Escondeste-te portanto aí, entre os pináculos da Catedral de Milão, Beleza em estado puro? Tal como apareces, por vezes, numa mancha vermelha sobre uma tela, num recanto escondido de uma exposição?

Seriam tímidos, os mestres desta embriaguez escultórica? Teriam reservas sobre as figuras que lhes calharam em sorte? Podia ser. Mas os seus espíritos estão ali materializados, na pedra, incontornáveis, e tão belos, tão incrivelmente belos...

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Registo

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Registo


Jovem somali morta por apedrejamento

LUMENA RAPOSO
Somália. As milícias Al-Shabab, ligadas à Al-Qaeda, conquistaram em Agosto a cidade portuária de Kismayo onde estão a impor a charia - lei islâmica - ao abrigo da qual realizaram a primeira execução pública em dois anos. A de Aisha Duhulow

Crime foi cometido por um grupo de 50 homens

Aisha tinha 13 anos, dizem uns, 23 anos afirmam outros, e foi lapidada - ou seja, apedrejada até à morte - no estádio de Kismayo, a cidade portuária somali agora sob controlo das milícias islâmicas Al-Shabab. Durante o assassínio de Aisha, um familiar seu e alguns espectadores tentaram socorrê-la, o que fez com que os milicianos disparassem contra a multidão, matando uma criança.

Os extremistas islâmicos, associados à Al-Qaeda, justificaram a "misericordiosa execução" alegando que Aisha Ibrahim Duhulow praticou adultério, um crime de honra punido com a morte. Mas a família de Aisha nega a acusação, afirmando que ela foi violada por três homens e que foi detida quando os denunciou em tribunal. Nenhum dos acusados foi detido, assim como também não consta que tenha havido o julgamento normal para o caso de adultério. Mas Aisha foi morta. E de forma extremamente violenta.

No estádio de Kismayo, onde se encontravam cerca de mil espectadores, revela o diário britânico The Guardian, foi aberto um buraco no chão onde colocaram Aisha que, manietada de pés e mãos, ainda tentava resistir aos seus verdugos. Um grupo de 50 homens atirou contra ela as pedras que, para o efeito, haviam sido trazidas para o estádio. Por três vezes, Aisha foi retirada do buraco e observada por enfermeiras que atestaram ela estar ainda viva. E o apedrejamento prosseguiu... até à morte.

"O apedrejamento foi totalmente ilógico e nada teve de religioso. O islão não executa mulheres por adultério a não ser que quatro testemunhas e o homem com quem ela cometeu adultério venham a público atestá-lo", disse uma irmã de Aisha, cuja família, revela o Mail online, se afirmou furiosa com o ocorrido e cujo pai garante que a vítima só tinha 13 anos. Era a 13.ª de uma família de seis irmãos e seis irmãs e nasceu no campo de refugiados de Hagardeer, no Sul do Quénia, em 1995, onde a família chegou três anos antes em fuga de Mogadíscio. Aisha, que sofria de epilepsia, estaria de regresso à capital somali e teve de parar na cidade Kismayo, que as milícias extremistas capturaram no passado mês de Agosto.

A lapidação de Aisha foi condenada pela presidência da União Europeia e pela Amnistia Internacional, enquanto as milícias Al-Shabab prosseguem a sua política de radicalização da sociedade de Kismayo.

DN, 3.11.08

Terça-feira, Outubro 28, 2008

Não desapontar é...


"We are all atheists about most of the gods that societies have ever believed in. Some of us just go one god further."

Richard Dawkins

Segunda-feira, Outubro 27, 2008


Por que será lembrado o século em que nascemos? Por dois regimes totalitários, duas guerras mundiais e pela chegada do Homem à Lua. Preciosidades como esta ou esta serão, na melhor das hipóteses, curiosidades arqueológicas...

Terça-feira, Outubro 14, 2008



(Peter Vilhelm Ilsted)

Domingo, Setembro 28, 2008

Será que não devíamos pedir uma indemnização às tabaqueiras pelo Paul Newman?


(Este é um post quadrado, cor-de-rosa, de costureirinha. Voilá.)

Do que mais gostava no Paul Newman, mais do que da beleza canónica, do talento irrepreensível, do bom carácter com que doava os lucros do molho de tomate para bolsas de estudo (acho que é qualquer coisa assim), da humanidade do ressonar (confessado pela mulher), do que mais gostava no Paul Newman era mesmo daquele casamento de décadas e décadas, uma coisa própria de príncipe encantado que se preze, ou não terminassem as histórias de encantar com o inevitável "e viveram felizes para sempre" ou, em casos mais humanos como este, "até que a morte os separe".

Se me comovo com qualquer um desses casais de muitas décadas, professando ainda publicamente o seu estado de encantamento, comovo-me mais com o Paul Newman, estrela grande de Hollywood, indústria que se alimenta de vidas humanas para produzir sonhos empacotados para milhões de outras vidas. À nossa frente, filtrada pelos media, vemos a coragem de tantas dessas estrelas tentando ter uma vida pessoal com elementos que são denominadores comuns a todos os mortais. O Marlon Brando, falado por estes dias, por exemplo, viveu uma vida trágica, mas inegavelmente corajosa, procurando afinal coisas tão simples como qualquer ser humano.

Com o passar dos tempos, parece que há cada vez menos homens assim. Por isso, pergunto-me se não deveríamos pedir uma indemnização zilionária às tabaqueiras pela morte do Paul Newman.

Sábado, Setembro 27, 2008


"In a real sense, people who have read good literature have lived more than people who cannot or will not read. It is not true that we have only one life to live; if we can read, we can live as many more lives and as many kinds of lives as we wish."

(Sam I. Hayakawa)





Segunda-feira, Setembro 01, 2008



(Vincent van Gogh)

Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Quem sabe... um blog?


FEUILLET SANS DATE

Le mieux serait d'écrire les événements au jour le jour. Tenir un journal pour y voir clair. Ne pas laisser échapper les nuances, les petits faits, même s'ils n'ont l'air de rien, et surtout les classer. Il faut dire comment je vois cette table, la rue, les gens, mon paquet de tabac, puisque c'est celá qui a changé. Il faut déterminer exactement l'étendue et la nature de ce changement.

(Jean-Paul Sartre, La nausée)

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Espécie de @#$%&^%$#@!


Posso propor que os deputados que aprovarem isto sejam pagos em fardos de palha?

Segunda-feira, Julho 28, 2008


Quando se aponta o dedo à melanina, lembro-me muitas vezes do divino baiano (preto?).

Acordo


*

«Depois de casado, eu chegava em casa alterado tarde da noite e a Vanda não se conformava, esquentava minha sopa amaldiçoando o Álvaro. Eu deixava por isso mesmo, não tinha como lhe explicar que, encerrado o expediente, me demorava sozinho na agência por conta própria, em leitura obsessiva. Naquelas horas, ver minhas obras assinadas por estranhos me dava um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque para mim, não era o sujeito quem se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele. Anoitecia, e eu tornava a ler os fraseados que sabia de cor, depois repetia em voz alta o nome do tal sujeito, e balançava as pernas e ria à beça no sofá, eu me sentia tendo um caso com mulher alheia. E se me envaideciam os fraseados, bem maior era a vaidade de ser um criador discreto. Não se tratava de orgulho ou soberba, sentimentos naturalmente silenciosos, mas de vaidade mesmo, com desejo de jactância e exibicionismo, o que muito valorizava minha discrição. E novos artigos me eram solicitados, e publicados nos jornais com chamada de capa, e elogiados por leitores no dia seguinte, e eu agüentava firme. Com isso a vaidade em mim se acumulava, me tornava forte e bonito, e me levava a brigar com a telefonista e a chamar o office boy de burro, e me arruinava o casamento, porque eu chegava em casa e já gritava com a Vanda, e ela me olhava arregalada, não conhecia os motivos de eu estar assim tão vaidoso. Eu tinha de fato um mau temperamento quando veio dar na agência o convite para o encontro anual de autores anônimos, a se realizar em Melbourne. Era uma correspondência postada em Cleveland, sem outro indício de remetente, tendo como destinatário Cohna & Casta Agency, num envelope preto que o Álvaro abriu e me passou achando graça. Joguei a carta na gaveta das coisas desimportantes, mesmo porque não trazia maiores informações além do nome de um hotel e uma data que sem querer registei, era o dia de anos da Vanda. Meses mais tarde, chegando em casa às duas da manhã, encontrei minha mulher sentada na cama com cara de sono, pois acordava cedo desde que virara apresentadora de telejornal. Quando me perguntou se eu ainda ia querer a sopa, num impulso lhe respondi que na televisão ela parecia uma papagaia, porque lia as notícias sem saber do que falava. Ela calçou os chinelos, vestiu um casaco de crochê por cima do pijama, foi devagar para a cozinha, ligou o microondas, e sem elevar a voz disse que pior era eu, que escrevia um catatau de coisas para ninguém ler. Dispensei a sopa, abandonei o lar com a roupa do corpo e me ajeitei na agência, onde ficava namorando meus artigos até adormecer no sofá. Depois de noites dormindo ali, com umas sobras da raiva e dor nas costas, pensei em voltar para a Vanda em consideração ao seu aniversário, e foi quando me lembrei do convite na gaveta. O Álvaro não se opôs à minha viagem para a Austrália, até fez alguns comentários sobre globalização e coisa e tal. Eu tinha dinheiro suficiente, com mais de trinta anos nunca havia deixado o país, julguei que na pior das hipóteses esfriaria a cabeça dando a volta ao mundo de avião. Passei em casa para fazer a mala, a Vanda não estava, deixei-lhe um bilhete informando que partiria para o congresso mundial de escritores.»

(Chico Buarque, Budapeste)

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Intocável




O que te salvará da pobreza, menina dalit? A democracia? A economia de mercado? A energia nuclear? Uma pretensa igualdade de oportunidades na escola?