quinta-feira, dezembro 01, 2016

Luto por Antínoo

As mensagens afluíram; Pâncrates enviou-me o seu poema finalmente terminado; não era mais que um medíocre centão de hexâmenos homéricos, mas o nome que figurava ali quase em cada linha tornava-o para mim mais comovente que muitas obras-primas. Numénio mandou-me uma Consolação segundo as regras; passei uma noite a lê-la; não lhe faltava nenhum lugar-comum. Estas fracas defesas erguidas pelo homem contra a morte desenvolviam-se em duas linhas: a primeira consistia em no-la apresentar como um mal inevitável; em nos lembrar que nem a beleza, nem a juventude, nem o amor escapavam à podridão; em nos provar, enfim, que a vida e o seu cortejo de males são ainda mais horríveis que a própria morte, e que vale mais morrer que envelhecer. Servem-se destas verdades para nos inclinar à resignação; elas justificam sobretudo o desespero. A segunda linha de argumentos contradiz a primeira, mas os nossos filósofos não se preocupam muito com isso: já se não tratava de nos resignarmos à morte, mas de a negar. Só a alma conta; apresentavam arrogantemente como um facto a imortalidade daquela entidade vaga que nunca vimos funcionar na ausência do corpo antes de ter o trabalho de lhe provar a existência. Eu não estava tão certo: pois que o sorriso, o olhar, a voz, estas realidades imponderáveis, estavam destruídos, porque não a alma? Esta não me parecia forçosamente mais imaterial que o calor do corpo. Afastávamo-nos do despojo onde essa alma já se não encontrava: era, todavia, a única coisa que me restava, a única prova de que aquele vivente existira. A imortalidade da raça passava por suavizar a morte de cada homem: importava-me pouco que se sucedessem gerações de Bitínios, até o fim dos tempos, nas margens do Sangários. Falava-se de glória, bela palavra que dilata o coração, mas esforçavam-se por estabelecer entre ela e a imortalidade uma confusão mentirosa, como se o traço de um ser fosse a mesma coisa que a sua presença. Mostravam-me o deus resplandecente no lugar do cadáver; esse deus fora feito por mim; acreditava nele à minha maneira, mas o destino póstumo, o mais luminoso no fundo das esferas estelares, não compensava esta vida breve; o deus não substituía o vivente perdido. Indignava-me este furor que o homem tem de desdenhar os factos em proveito das hipóteses, de não reconhecer os seus sonhos como sonhos. Compreendia de outra forma as minhas obrigações de sobrevivente. Esta morte seria vã se eu não tivesse a coragem de a encarar de frente, de me ligar a estas realidades do frio, do silêncio, do sangue coagulado, dos membros inertes, que o homem recobre tão depressa de terra e de hipocrisia; preferia tactear na noite sem o auxílio de fracas lâmpadas. Sentia que à minha volta começavam a melindrar-se com uma dor tão longa: a violência escandalizava, aliás mais que a causa. Se eu me tivesse entregue às mesmas lamentações pela morte de um irmão ou de um filho ter-me-iam igualmente censurado por chorar como uma mulher. A memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem, sem honras, mortos que eles deixaram de amar. Toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento.

in "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, Ulisseia, tradução de Maria Lamas

"Como não morrer de fome em Portugal"?

Terminei há dias a leitura de um terceiro livro em pouco tempo de estrangeiros sobre as suas impressões no seu novo país. Depois de um retrato do Reino Unido por um português ("Bifes mal passados", de João Magueijo) e outro da Suíça por um inglês ("Swiss Watching", de Diccon Bewes), ambos muito interessantes e hilariantes, o humor inglês infiltrou-se num retrato de Portugal visto por uma inglesa ("Como não morrer de fome em Portugal", de Lucy Pepper).

Todos estes livros sofrem de um problema básico, que é serem demasiado pessoais, e não se conseguir distinguir o que é geral ou, pelo menos, comum, da reação de um nacional de um país A num outro país B.

No entanto, o livro de Lucy Pepper não deixa de ter mérito, porque é um caso raro de alguém que se integrou bastante na vida portuguesa, e que levanta questões que não podem deixar de nos interpelar.

Por exemplo, tal como há o preconceito internacional de que os ingleses cozinham mal, há entre os portugueses o preconceito de que a nossa cozinha não está nada mal. É apetitosa, ainda que simples. (Isso vê-se naqueles programas de televisão pimba ao fim de semana, em que o cozinheiro mais popular explica que o segredo é "só pôr sal" na carne que vai grelhar, para que se distinga bem o sabor da carne. Simplicidade, sim. Elaboração e sofisticação, confessamente nenhuma)

Quando temos a experiência de tentar mostrar as mil maneiras de comer bacalhau a algum amigo estrangeiro é que nos apercebemos que o bacalhau tem um sabor intenso e que nos levou décadas de habituação até que o apreciássemos devidamente. E que os doces portugueses têm todos imenso açúcar e, sim, ovos.

Mas a sério, Lucy Pepper, as sopas portuguesas mais saborosas são o caldo verde, a sopa de feijão e a canja, além das outras de que fala, com caldo cor de laranja e entulho a boiar, que costumam chamar-se sopas de legumes. Como denegrir assim a sopa portuguesa, ainda por cima enquanto se fazem elogios à horrível bata das donas de casa mais populares?

Todo o livro é inverosímil na parte em que se diz mal da sogra e da prestimosa vizinha, que faziam sopas para uma semana para as filhas da moça inglesa, que tinha como alternativa "vegetais cozidos"! (Cozidos, não estufados nem assados nem outra alternativa saborosa... Será que nem sequer aprendeu a fazer um refogadinho? Pobres crianças.) Só acreditei que a autora existia mesmo quando encontrei na internet fotografias mais focadas do que aquela com que costuma apresentar-se e, claro, depois da descrição do seu parto em Portugal. Mas se existe, como é que escreveu tudo aquilo? Divorciou-se e quer vingar-se do marido?

A descrição do sistema de saúde em Portugal - monstruoso - peca por defeito. Devia ser denunciado internacionalmente, todos os dias, como violação de elementares direitos humanos.

O horror pelo urbanismo português, em particular na região metropolitana de Lisboa, só pode ser compreendido. (Mas, lá está, depois da revolução, permitiu a muitas famílias migrantes um teto seguro para morar.)

Uma coisa que me impressionou foi a dificuldade da autora em ir à praia. Claro que andar de carro não ajuda nada a ir para as praias da Costa da Caparica. Ir de transportes públicos é muito mais simples, a partir do Areeiro, Campo Pequeno, Praça de Espanha ou Alcântara, e com a possibilidade de apanhar os pequenos comboios ao longo das praias. (Estes são caros para bolsas portuguesas, mas haja estrangeiros que desfrutem deles.) Já o passeio nas dunas, por favor. É ótimo. Para confrontar com a descrição hilariante do João Magueijo sobre as lamacentas praias inglesas.

Sobre as classes sociais sem mobilidade, claro que os ingleses são especialistas nesse horror, com uma monarquia no século XXI. Àparte as famílias ricas da linha de Cascais, com fortunas do tempo da ditadura (ou algo que o valha), a revolução permitiu a mobilidade social por via da educação. O capitalismo ultra-liberal cristalizou entretanto a estrutura que se formou, ampliando as desigualdades... também por via da educação, com colégios privados que permitem as notas altas para entrar nos melhores cursos superiores, e com as universidades privadas de vão de escada, inauguradas pelo cavaquismo.

Em conclusão, foi uma leitura que valeu a pena e que se recomenda.

quarta-feira, junho 15, 2016

Porquê?

O Reino Unido pode sair da União Europeia, mas Portugal não pode sair do Euro. Faz sentido?

quarta-feira, junho 01, 2016

Matar uma cotovia

Mr. B. B. Underwood nunca tinha escrito de forma tão amarga e estava-se nas tintas se lhe cancelassem alguma publicidade e algumas assinaturas. (Só que Maycomb não jogava segundo essas regras: Mr. Underwood podia gritar até suar e escrever o que quisesse que não perdia a publicidade e as assinaturas. Se ele queria fazer figuras tristes no seu próprio jornal, isso era lá com ele.) Mr. Underwood não escreveu sobre os erros judiciários. Escreveu antes de uma maneira que até as crianças podiam perceber. Mr. Underwood disse simplesmente que era pecado matar os aleijados, quer estivessem de pé, sentados ou a fugir. Ele comparava a morte do Tom à matança estúpida das aves perpetrada por caçadores e crianças, e Maycomb pensou que ele estava a tentar escrever um editorial suficientemente poético para voltar a aparecer numa futura impressão do "The Montgomery Advertiser".

Como poderia ser assim?, pensava eu, ao ler o editorial de Mr. Underwood. Matança estúpida... O Tom tinha sido alvo de um processo legal justo até ao dia da sua morte; ele tinha sido julgado e condenado por doze homens bons e honestos; o meu pai tinha lutado por ele até ao fim. Então, de súbito, a alegoria de Mr. Underwood tornou-se clara para mim: o Atticus tinha usado todos os instrumentos ao alcance dos homens livres para salvar o Tom Robinson, mas, naquele secreto tribunal que mora no coração dos homens, o Atticus não tinha a mais pequena hipótese. O Tom era um homem morto a partir do momento em que a Mayella Ewell abriu a boca e desatou aos gritos.


("To Kill a Mockingbird", de Harper Lee)

segunda-feira, abril 25, 2016

domingo, maio 01, 2011

And death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


(Dylan Thomas)

sábado, abril 30, 2011


(Vincent van Gogh)

Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

(José Régio)

terça-feira, abril 26, 2011



(Google doodle de 26/Abr/2011, celebrando o nascimento de John James Audubon)

Citação

«Nice people with common sense do not make interesting characters. They
only make good former spouses.»

(Isabel Allende, TED talk Tales of passion)

sábado, abril 23, 2011

(V)

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso)

domingo, abril 17, 2011


(Giovanni Segantini, Mezzogiorno sulle Alpi, 1891)

Uma trip de Umberto Eco

É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exactamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?

Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contados sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?


(Umberto Eco, O Cemitério de Praga)

Esta droga é boa, e não se vende nas farmácias...

Como pôr o guizo no gato?

Jorge Miranda não se oporia a que votos em branco fossem representados por cadeiras vazias no Parlamento, como foi sugerido em tempos neste blog.

Questionado sobre se se revê nos partidos do actual espectro partidário, admitiu que não, mas explicou que como não é abstencionista tem votado muitas vezes em branco – pelo que concorda com a proposta do antigo ministro de José Sócrates e economista Campos e Cunha de deixar no Parlamento lugares vagos provenientes dos votos em branco. “Daria um sentido positivo ao voto em branco. Seria uma forma positiva de manifestação de desagrado em relação aos partidos existentes”, insistiu, definindo o actual sistema de partidos como vivendo um “estado comatoso, sem qualquer capacidade de renovação”.

Numa fábula muito popular de Esopo, os ratos em consílio achavam uma excelente ideia pôr um guizo no gato que os atormentava, para os avisar de quando ele estava a aproximar-se. Só não conseguiam entender-se sobre qual deles ia pôr o guizo no gato...

Aqui a questão é que partidos alguma vez defenderiam tal ideia e votariam a favor de uma tal lei no Parlamento...

Nas eleições legislativas de 2009, houve 99.161 votos em branco e 78.023 votos nulos. São mais do que os necessários para uma iniciativa popular, mas quem os organiza? Seria talvez mais fácil se os partidos que não elegeram deputados numas eleições tivessem financiamento na campanha eleitoral seguinte, proporcional aos votos que tivessem conseguido. Ou então, quem sabe, esses "movimentos apartidários" que há por aí pudessem fazer alguma coisa...

domingo, abril 10, 2011

De olhos postos na Islândia...

Para quando o referendo português sobre a renegociação da dívida? (Renegociar a dívida não é o que se aconselha a um particular quando ele se vê numa escalada de empréstimos?)

With great power comes great responsibility

É difícil imaginar um lugar em que as ideias para lá da espuma dos dias contam. Mas parece que existe... em França.

Confesso que já passei mais de cinco minutos da minha vida a ler textos de Bernard-Henri Lévy, e li Les Fleurs du Mal na penumbra da sua biografia de Baudelaire.

Ora, já Platão sonhou com reis-filósofos. E, tantas vezes, vemos resultados democráticos que fazem duvidar da bondade dos pressupostos da democracia...

Por tudo isto, e havendo posições de BHL das quais discordo totalmente, não posso deixar de sentir simpatia por se ter prontificado a ir quase à frente de batalha, deixar a cómoda neutralidade, e ter usado o poder da sua notoriedade para tentar influenciar a defesa de vidas civis e uma mudança de regime na Líbia.

Teorias de conspiração? Honni soit qui mal y pense.

Grande decepção:

Fernando Nobre.

sexta-feira, abril 01, 2011

quarta-feira, março 23, 2011

Elizabeth Taylor (1932-2011)





Morreu uma das mulheres mais bonitas do mundo. Eram intensos o olhar, as representações, as amizades (e, bom, o impulso para se casar e recasar).

quinta-feira, março 10, 2011

O Público já perguntou...

a Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas se e por quê participam - ou não - na manifestação de 12 de Março?

Reminder: 24 de Novembro de 1993.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Por que há-de ser vinculativa

uma eleição para um cargo unipessoal em que a taxa de abstenção é superior à votação do candidato com mais votos?

quinta-feira, outubro 28, 2010

Pour faire le portrait d'un oiseau



Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


Jacques Prévert

terça-feira, agosto 03, 2010

domingo, maio 16, 2010

Aos homens corajosos do meu país

Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



(Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo)

domingo, março 14, 2010

«Terminada a faina e preparado o banquete, comeram, e nenhum coração se lamentava do festim onde a todos os homens cabe a sua parte.»

(Homero)

segunda-feira, outubro 05, 2009

Mercedes Sosa

cantando "Gracias a la Vida", de Violeta Parra.



Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
así yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida.

terça-feira, setembro 01, 2009

"Com a cabeça metida no travesseiro"

Com a notícia de uma mudança de ministério, Paris tinha mudado. Todos se sentiam alegres; gente passeava, e lampiões em todos os andares davam uma tal claridade que parecia estar-se em pleno dia. Os soldados regressavam lentamente aos quartéis, estafados, de ar triste. Saudavam-nos, gritando: «Viva a Infantaria!» Eles continuavam sem responder. Na guarda nacional, pelo contrário, os oficiais, rubros de entusiasmo, brandiam o sabre, vociferando: «Viva a reforma!» e esta frase fazia sempre rir os dois amantes. Frédéric dizia gracejos, estava muito alegre.

Pela rua Duphot, chegaram aos bulevares. Lanternas venezianas, penduradas nas casas, formavam guirlandas de luzes. Um formigueiro confuso agitava-se na rua; no meio desta sombra, a espaços, brilhavam alvuras de baionetas. Erguia-se um grande sussuro de vozes. A multidão era demasiadamente compacta, o regresso directo impossível; e iam a entrar na rua Caumartin quando, de súbito, rebentou atrás deles um ruído, semelhante ao estalar de uma imensa peça de seda a ser rasgada. Era a fuzilaria do bulevar de Capucines.

- Ah! Alguns burgueses a menos, - disse Frédéric tranquilamente, porque há momentos em que o homem menos cruel se acha tão desligado dos outros que veria perecer o género humano sem um batimento de coração.

A Marechala, aferrada ao braço dele, batia os dentes. Declarou-se incapaz de dar mais vinte passos. Então, por um requinte de ódio, para melhor ultrajar na sua alma a Senhora Arnoux, levou-a até à residência da rua Tronchet, ao apartamento preparado para a outra.

As flores não tinham murchado. A guipura estava em cima da cama. Tirou do armário as pequenas pantufas. Rosanette achou estas atenções muito delicadas.

Por volta da uma hora, foi acordada por rufos longínquos de tambor; e viu que ele estava a soluçar, com a cabeça metida no travesseiro.

- O que tens tu, amor querido?

- É o excesso de felicidade - disse Frédéric. - Havia já muito tempo que te desejava!


(Gustave Flaubert, "A Educação Sentimental", Relógio d'Água, tradução de João Costa)

(Vincent van Gogh)

domingo, junho 21, 2009

Usura na cristandade

C'est à ce moment-là que se pose la grande question du prês à intérêt, nécessaire pour l'exportation des produits. En 1347 dejà, presque deux siècles avant la Réforme, l'évêque Adhémar Fabri avait rompu la règle religieuse selon laquelle le temps appartenant à Dieu, les hommes ne sauraient en tirer du profit. Il avait autorisé l'«usure», c'est-à-dire, le paiement d'un loyer pour de l'argent prêté, à condition que le taux en restant modeste.

Calvin est sollicité pour une semblable autorisation par les marchands protestants de la Nouvelle République. Il y réfléchit longuement. Il lui paraît légitime qu'un prêteur reçoive sa part de rétribuition pour de l'argent qui aura contribué à enrichir l'emprunteur, cette part devant rester raisonnable. En revanche, dit-il, il faut renoncer à «l'usure du pauvre». Mais qu'est-ce qu'une «part raisonnable»? Qu'est-ce qu'un «pauvre»? Prêteurs et prédicateurs ne cessent de se disputer sur cette question. Dès 1538, le taux légal est fixé à 5%. En 1557, il grimpe à 7%, en 1572 à 8,3%. En realité, le taux de 10% est courant, et sourtout à l'encontre des emprunteurs les plus pauvres.


(Joëlle Kuntz, L'histoire suisse dans un clin d'oeil)

sábado, maio 09, 2009

Quem manda? (2)

"[...] I know that as a consequence of my fund-raising I became more like the wealthy donors I met, in the very particular sense that I spent more and more of my time above the fray, outside the world of immediate hunger, disappointment, fear, irrationality, and frequent hardship of the other 99 percent of the population - that is, the people I'd entered public life to serve. And in one fashion or another, I suspect this is true for every senator: The longer you are a senator, the narrower the scope of your interactions. You may fight it, with town hall meetings and listening tours and stops by the old neighborhood. But your schedule dictates that you move in a different orbit from most of the people you represent."

(Barack Obama, The audacity of hope)

Quem manda?

"Increasingly I found myself spending time with people of means - law firm partners and investment bankers, hedge fund managers and venture capitalists. As a rule, they were smart, interesting people, knowledgeable about public policy, liberal in their politics, expecting nothing more than a hearing of their opinions in exchange for their checks. But they reflected, almost uniformly, the perspectives of their class: the top 1 percent or so of the income scale that can afford to write a $2,000 check to a political candidate. They believed in the free market and in educational meritocracy; they found it hard to imagine that there might be any social ill that could not be cured by a high SAT score. They had no patience with protectionism, found unions troublesome, and were not particularly sympathetic to those whose lives were upended by the movements of global capital."

(Barack Obama, The audacity of hope)