quinta-feira, janeiro 20, 2005

Eugénio de Andrade por Óscar Lopes e Eduardo Lourenço

"A linguagem de Eugénio de Andrade ascende, não há dúvida, até à mais antiga poesia mítica das metamorfoses elementares. Cada poema contém uma metamorfose que, embora mais essencializada pela experiência humana milenar, lembra as de Homero, Hesíodo e Ovídio, ou talvez mais ainda, lembra as daqueles poetas metafísicos gregos que entre si discutiram sobre a primordialidade da água, do ar, do fogo, da terra ou de um qualquer quinto elemento, inefável. Mas ao contrário de muitos poetas modernos, Eugénio de Andrade dissipa qualquer confusão entre a metamorfose no modo indicativo real (cumummente real) e a metamorfose em qualquer modo do imaginário (que não deixa de corresponder a uma realidade, mas nunca imediata e comum).

"Levando a imaginação mítica até aos menores interstícios ou junturas do poema, universalizando o princípio da metamorfose (que é, aliás, um dos princípios da dialéctica, o princípio de Heraclito, segundo o qual tudo se transforma), Eugénio de Andrade é, por isso mesmo, um desenganador de toda a baixa mitologia ideológica. Alguns dos seus poemas são um modo de realidade-esperança, o modo da mais íntima e apaziguante esperança que eu conheço.

"Uma esperança impensável, a não ser talvez em música e em poesia paramusical como essa, e que Eugénio de Andrade captou no limiar do que ainda pode dizer-se em palavras com sentido. Eis porque a sua poesia é, em português, das que mais me enchem de alegria."

(Óscar Lopes)

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"A primeira e a mais pura expressão da Poesia como arquitectura do real, a mais límpida manifestação da entrega sem reservas aos sortilégios do «puro poético», parece-nos ser a poesia de Eugénio de Andrade. No momento exacto em que a Poesia Portuguesa se revê com a máxima complacência nos poemas de Pessoa, o poeta de As Mãos e os Frutos volta lenta mas seguramente a consciência poética das «ideias» e dos «problemas» para «as palavras» como duplo mágico e imediato do mundo. A plenitude deste movimento só mais tarde será visível para todos mas já transparece nos adolescentes êxtases diante do rio ou da fonte em Pureza. Não significa isso que a consciência do poético seja inexistente em Eugénio de Andrade. Pelo contrário: poucos poetas terá havido entre nós que tanto tenham meditado sobre «o material poético», sobre a sua euritmia e sua externa musicalidade. Exactamente por isso pôde conceber o poema como beleza objectal, se assim se pode falar. O poema é, para Eugénio de Andrade, a sua morada de cristal, o lugar em que ele vive a sua plenitude ou a plenitude do seu encontro com os outros e o mundo, o mundo aparecendo sempre nele apenas como elo ou passagem para a glorificação do seu próprio-ser-poeta. Mas o poema é também, ou visa ser, morada de cristal, pura transparência sem sujeito. A exterior perfeição do poema - e Eugénio de Andrade foi o primeiro a concebê-lo como ânfora, como ser análogo da estátua ou rio - restaura o equilíbrio da Vida, a sua ameaça latente, mas no fundo incapaz de anular o êxtase cósmico, vital, espermático, de que o poeta é expressão viva e sempre renovada."

(Eduardo Lourenço)

(textos das contracapas de "Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa [1940-1979]")

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