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A mostrar mensagens de Agosto, 2005

O poder do pânico

«O medo vai ter tudo»
(Alexandre O'Neill)

Pergunto-me como terá começado o boato assassino que hoje matou quase seis centenas de pessoas, em Bagdade. Terá sido intencional? (Em vez de um bombista, terá havido um efabulador suicida? Ou haveria realmente um bombista?) Ou terá sido um crescendo de equívocos que se foi propagando? O mais provável é nunca se vir a saber.

É terrível pensar que somos mais vulneráveis quando estamos juntos, em grande número. Até porque as multidões que se formam para grandes celebrações religiosas são constituídas, muitas vezes, por pessoas desesperadas, que têm na religião não só o seu bálsamo, mas também a sua tábua de salvação.

Este horrível acidente provocado por homens poderia ter acontecido em qualquer parte do mundo onde já se tivesse ouvido a palavra "terrorismo", embora fosse mais provável num lugar diariamente martirizado por atentados. Um lugar em que duas seitas de uma mesma região partilham um território e uma riqueza comum e tentam ag…

Respondendo a uma vaga de fundo da sociedade portuguesa, aqui a apresento (v.3):

ÍTACA

Quando começares a tua viagem para Ítaca
anseia por que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de conhecimento.
Dos Lestrígones e dos Ciclopes,
do irado Posídon não tenhas medo,
nunca encontrarás coisas dessas no teu caminho,
se o teu pensamento se mantiver elevado, se um distinto
sentimento o teu espírito e o teu corpo tocar.

Os Lestrígones e os Ciclopes,
o feroz Posídon não encontrarás,
se não os carregares na tua alma,
se a tua alma não tos apresentar.

Anseia por que o caminho seja longo.
Que sejam muitas as manhãs de Verão
que com tal satisfação, com tal alegria,
entrarás em portos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios,
para adquirires as boas mercadorias,
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos,
e perfumes inebriantes de todos os tipos,
a maior quantidade de perfumes inebriantes;
visita muitas cidades do Egipto,
para aprenderes e aprenderes dos sábios.

Mantém Ítaca sempre no teu pensamento.
A chegada aí é o teu propósito.
Mas não apresses de maneira nenhuma a viagem.
Melhor que dure m…

Ítaca rodeada pelas ondas

Ítaca

Não vale a pena suportar tanto castigo.
Procuras Ítaca. Mas só há esse procurar.
Onde quer que te encontres está contigo
dentro de ti em casa na distância
onde quer que procures há outro mar
Ítaca é a tua própria errância.


(Manuel Alegre)

Eureka!

Estaria George Steiner enganado? Será esta a muito aguardada outra coisa?

Pista para a leitura do primeiro "post": Norwegian Festival of Literature.

Dádiva de Atena em Lisboa

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© Laurindinha 2005

«Estudo afirma que homens têm QI médio superior às mulheres» (Lusa, 25/8/05)

1. «Os investigadores frisam no entanto "que quando os níveis de QI são iguais (entre homens e mulheres), as mulheres são mais eficazes do que os homens pois elas são mais conscienciosas e capazes de suportar longos períodos de trabalho".» (id.)

Poderemos concluir daqui que o QI não mede directamente a "capacidade para fazer coisas" e que, para uma mesma capacidade de realizar testes de QI, as mulheres são mais... inteligentes?

2. Usa-se o resultado para "ajudar a explicar" o desequilíbrio na distribuição por sexos dos prémios Nobel. Por que é que terão achado que é preciso uma "explicação" para lá dos factores culturais? Aparentemente, nem tentaram quantificá-los.

3. Em vez de prémios Nobel, por que não falaram de pornografia e de futebol?

Voto

"A sinistralidade rodoviária diminuiu oito por cento este ano face ao mesmo período de 2004."

E se as notícias que se repetem anualmente fossem boas notícias como esta?

Capucho (de milho)

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Agradecimentos

Ao blog Posto de Escuta, pelo destaque dado ao poema de Adolfo Casais Monteiro; ao Pensar enlouquece, pense nisso, pelo destaque a este Abrigo; e ao ...e Para Tudo o Resto - O que é isto? pelas palavras simpáticas: obrigada!

Eu falo das casas e dos homens

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se…

Rescaldo

Por onde o fogo passou, cheira ao que parece ser carne de bichos queimados. Os pássaros, que costumavam andar pela ribeira, andam agora, cheios de fome, pelas hortas, a comer couves. Já nem têm medo dos homens, quando estes os tentam afugentar.

Milho vermelho

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Imagem: USDA

Mais bonita em noites de luar, a tarefa de descamisar o milho era um trabalho comunitário entre familiares e vizinhos. Nas eiras, que então pareciam espelhos a reflectir a luz da lua, sentavam-se os convivas em pequenos bancos de madeira, em redor do grande monte de espigas apanhadas uns dias antes, à torreira do sol. Era trabalho para um, dois, ou mesmo três serões, dependendo da extensão das terras do dono e da generosidade do ano agrícola.

Pegava-se numa espiga, que se punha ao alto no colo, com o caule seguro entre as pernas, para permitir o trabalho seguinte. Começando então do lado da barba, tiravam-se as "folhas" exteriores, mais secas e ásperas. Depois, as camadas interiores, já mais suaves e, por vezes, húmidas, que pareciam uma roupa interior da cor de algodão natural.

A seguir, o passo mais difícil para os garotos, que era separar a espiga das suas roupagens exteriores e do caule da planta, com um movimento firme da mão e do pulso na planta, apoiada num …

Águia real

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Entrada que podia ser só um rascunho

Carlos: Sabes que há investigadores que acreditam que o comportamento de grupos humanos é, de certa forma, previsível?

Pedro: Patético... Podem continuar a sonhar. Achas que algumas vez poderiam ter previsto os ataques de 11 de Setembro?

Carlos: Talvez não. Mas talvez isso se deva ao facto de os grupos terroristas funcionarem em pequenos grupos, as células, como eles lhe chamam. Aí, é mais importante o factor individual, com tudo o que tem de imprevisível.

Pedro: Se os indíviduos têm livre arbítrio, como é que os grupos humanos não o têm, do mesmo modo?

Carlos: Como diz o António Damásio, o livre arbítrio pode existir, mas em pequena escala temporal. Quanto maior a escala temporal, maior é a influência do meio.

Pedro: Não te choca que se trate os seres humanos como meros números para uma estatística?

Carlos: Mas isso faz-se hoje curriqueiramente! Nas sondagens, por exemplo, para prever resultados eleitorais a partir de uma pequena amostra. Nos estudos de mercado, nas empresas de gestão de a…

"Hacia la ciudad espléndida"

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Através de uma listagem sobre textos emblemáticos sobre direitos humanos, descobri o discurso de Pablo Neruda de aceitação do Nobel. Está disponível em linha aqui. A voz de Neruda também pode ser ouvida, aqui (30 min).

Alguns excertos:

«Algo nos esperaba en medio de aquella selva salvaje. Súbitamente, como una singular visión, llegamos a una pequeña y esmerada pradera acurrucada en el regazo de las montañas: agua clara, prado verde, flores silvestres, rumor de ríos y el cielo azul arriba, generosa luz ininterrumpida por ningún follaje.

Allí nos detuvimos como dentro de un círculo mágico, como huéspedes de un recinto sagrado: y mayor condición de sagrada tuvo aún la ceremonia en la que participé. Los vaqueros bajaron de sus cabalgaduras. En el centro del recinto estaba colocada, como en un rito, una calavera de buey. Mis compañeros se acercaron silenciosamente, uno por uno, para dejar unas monedas y algunos alimentos en los agujeros de hueso. Me uní a ellos en aquella ofrenda destinada a …

Hypnerotomachia Poliphili

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Poliphilo sonha dentro do seu sonho

«A Hypnerotomachia Poliphili foi publicada em Veneza em 1499. A obra, do monge dominicano Francesco Colonna, foi descrita como sendo o mais belo livro jamais impresso. Foi o primeiro livro a ser desenhado e executado como uma unidade visual completa, com integração de tipos e ilustração. O gravador das matrizes de madeira originais permanece desconhecido, embora a sua autoria tenha sido atribuída a um vasto número de grandes mestres do Renascimento, incluindo Bellini, Montagna, Rafael e Botticelli.»

(SLNSW)



Poliphilo descreve as procissões triunfais

«A Hypnerotomachia Poliphili, que em latim significa «A Luta de Poliphilo pelo Amor num Sonho», foi publicada em 1499 por um veneziano chamado Aldus Manutius. A Hypnerotomachia é uma enciclopédia disfarçada em forma de romance, uma dissertação sobre tudo, desde arquitectura a zoologia, escrito num estilo que mesmo uma tartaruga acharia lento. É o livro mais longo que existe acerca de um homem que tem um son…

515

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(Lima de Freitas)

O que diz a Morte

"Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem." -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria.

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.


(Antero de Quental)
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(Albrecht Dürer)


Canção a caminho do Céu
(excerto)

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.


(Cecília Meireles)

Flora

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© Laurindinha 2005

Notícias do insólito moralizante

Há dias, uma notícia, julgo que do Público, chamou-me a atenção. Nela, referia-se que uma em cada vinte e cinco crianças criadas por homens que se julgavam seus pais seria, afinal, filha de outro homem. A notícia falava dos testes de paternidade através de análises do ADN, cada vez mais pedidos. Curiosamente, nunca era esclarecido se aquele rácio se referia aos indivíduos que pediam os testes ou à população em geral. Freud havia de ter uma explicação para esta omissão.

Hoje, também no Público, é noticiado que "Pentágono retira comando a general de quatro estrelas por alegada relação extraconjugal com uma civil", sendo que o "militar viu decretado o seu divórcio no mesmo dia em que teve de abandonar o posto". E ainda há quem critique a adopção da Sharia...

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esquece…

Inscrição

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(Edward Hopper)


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar


(Sophia de Mello Breyner Andresen)