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A mostrar mensagens de Dezembro, 2005

Happy ending

Depois de deixar a filha no liceu Gúrov dirigiu-se para o Slaviánski Bazer. Deixou a peliça em baixo, subiu as escadas e bateu com cautela à porta. Anna Serguéevna, no vestido cinzento preferido dele, que estava ainda cansada da viagem e de ter esperado tanto desde o dia anterior; estava pálida, olhava para ele e não sorria mas, mal ele entrou, apertou-se-lhe contra o peito. O beijo foi longo, infinito, como se já não se beijassem há dois anos.

— Então, como vai a tua vida? — perguntou Gúrov. — Novidades?

— Espera, já te conto... Não, não posso.

Não podia falar porque chorava. Virou-lhe as costas e apertou o lenço contra os olhos.

«Que chore, que desabafe, temos tempo» — pensou e sentou-se na poltrona.

Tocou à campainha e pediu chá; já bebia o chá e ainda ela chorava, de pé, voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência amarga da vida deles ter aquela triste sina; por se verem à socapa, se esconderem das pessoas como ladrões! Então não era uma vida arruinada?

— Deixa, por fav…

Mulher a ler

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(Édouard Manet, "Na praia")

Personagens blogosféricas

1. O umbigo.

2. As ideias.

12. Uma escrita no limite - ou para lá dele, depende da sensibilidade - do bom gosto. Deu livro embrulhado em celofane, para vender mais.

15. Uma adolescente desavinda com o namorado que resolve publicar cartas magoadas de despedida. Dilacerante, se verdadeiro.

21. Um acusador de figuras públicas e de responsáveis pela investigação de um processo de pedofilia.

41. Um blogger famoso que confessa que escreve nos blogs a vida fragmentada, baralhada de novo, e voltada a dar.

79. Um pseudónimo servindo de veste. Talvez seja alguém com medo de perder o emprego ou de ser mal visto pelo chefe, não se sabe. Quem é que é completamente livre?

86. Uma blogger emergente que põe no blog uma declaração pungente de amor ao marido. Parece que a intimidade já não vale nada...

315. Um nome verosímil, uma escrita boa demais para não dar dividendos. Só acredito que é de carne e osso se encontro o mesmo nome associado a uma instituição ou a uma obra. Às vezes, para meu desapontamento, a …

Relembrando benefícios do frio...

Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos e já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gelar lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro... E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

(Eça de Queirós, "Os Maias")

Herança de três gerações de mulheres de fibra

«Mesmo que se tenha as tripas a cair da barriga, pode-se agarrar nelas com uma mão e trabalhar com a outra.» (sic)

Mulheres a ler

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(Ambrosius Benson)

Boas Festas!

Outra

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


(António Botto)

A jovem pastora

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(Jean-Jacques Henner)

Rescaldo dos debates das presidenciais

Será isto o sinal de maioridade de uma democracia? Perceber que todos os reizinhos vão nus?

(Sim, esta é a mesma Laurindinha que já aqui se manifestou ferozmente contra a abstenção.)

Dúvida

Como pode alguém que concorda e pratica a pena capital para delitos comuns afirmar convictamente que é contra a tortura e não a pratica?

O garfo do herege

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Exercício conceptual

Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
Torturaria você mesmo o indivíduo?
Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
Publicitaria o facto de ser um torturador?

*

A escada da tortura

1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Te…

Agradecimentos

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Ao magnífico Abrupto, pelo destaque dado à entrada Heresias: muito obrigada!

E, neste momento em que a pastora é alvo de uma enchurrada de "clicks", é justo agradecer também ao primeiro blog que para aqui fez uma ligação, o Meia Livraria; ao leitor que impediu que algumas entradas fossem apagadas, o autor do Local & Blogal; ao talentoso prosador do Retórica e Persuasão, pelas maiúsculas; aos seleccionadores da "primeira divisão" de blogs Frescos; ao Posto de Escuta; aos destaques pontuais - como o do Bomba Inteligente - e, especialmente, aos visitantes habituais. Obrigada pelo apoio! E desculpem se me esqueci de alguém.

Mulher a ler

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(Ambrosius Benson, Jovem lendo um Livro de Horas)

Heresias

Laurindinha não é uma doutora da Igreja nem almeja sê-lo. Prefere conhecer pedras e riachos a dogmas. Por isso, surgem-lhe, às vezes, algumas dúvidas sobre a doutrina católica.

Por exemplo, nunca percebeu muito bem até quando se tem direito ao limbo. Será até ao primeiro choro interesseiro?

E agora? Se a hierarquia católica decreta o fim do limbo, para onde vai Alberto Caeiro?

Limbos

Casar num país onde o divórcio não é possível e onde, para se vincular a certos direitos e deveres civis, é obrigatório jurar amor e fidelidade eterna. Depois, não crendo na eternidade, constatar também que o amor não é eterno.

Como fica o juramento?

Mulher a ler

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(Jean-Jacques Henner)

Um parágrafo de "Húmus"

Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Há momentos em que o caixão que passa às costas de um galego, me chama à realidade, ao espanto. Desvio logo o olhar, reentro à pressa na vida comezinha. Finjo que sorrio e esqueço. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte!…

Húmus

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Também ali há espaço para louras burras, posts idiotas, gente mesquinha...

Lembra-te que és pó.

Conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade


(Chico Buarque)

Mulher a ler

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(Ivan Kramskoy)

Pastoral

Mote

Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?



Voltas

É o vau mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
E d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?


(Francisco Rodrigues Lobo)

Oportunidade

Ouvir uma criança dizer que este Natal vai ser difícil, porque... (é preciso dizer?) Custa.

E, no entanto, não será também esta uma oportunidade para escapar à voragem consumista e para reencontrar o que é mais importante?

Como que fingindo que falta a electricidade, conseguir comunicar melhor com quem se partilha o quotidiano, tantas vezes com pressa, sem nos olharmos e ouvirmos já devidamente?

Mulher a ler

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Helen Keller

Memória de Bashô

o que o pequeno grilo me ensina
esqueço-o depressa
o que a branca lua me estende
deixo logo cair

solitário pernoito

com quem hei-de falar do grilo
e distribuir o branco da lua?

(Abrupto)

[daqui]

Os caçadores na neve

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(Pieter Bruegel, o Velho)

Detrás de uma pedra da parede do abrigo, outro papel esquecido

As Capelas Imperfeitas


O Panteão nunca chegou a ser acabado, daí provindo a designação de Capelas Imperfeitas ou Incompletas.
(de uma brochura sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha)


I. Os alicerces

Num belo país, cheio de montanhas, rios e prados, viveu, há já muitos anos, um pastor. Era jovem e alegre, e gostava de correr pelas planícies, a juntar o gado, e de sentir o vento na cara e no cabelo e o calor de um sol de Primavera a dourar-lhe as faces.

Tinha uma flauta que lhe tinha sido dada pelo avô, que também era pastor e sabia fazer flautas. Quando este morreu, numa amena noite de Verão, enquanto pastoreava na planície, tinha reunido uma vasta colecção delas, de todos os tamanhos e feitios. Nessa noite, o seu neto sonhou que todas aquelas flautas se erguiam no ar e tocavam uma melodia muito suave, como se estivessem nas mãos de anjos. E foi assim que o menino decidiu ser pastor.

Aprendera a gostar da natureza: desde as rochas à chuva, às formigas e às árvores. E até apren…

Detrás de uma pedra da parede do abrigo, um papel esquecido

A Mó

O prior prega
A ave voa
O rico ri
A mó, que moa.

O prior prega
o seu sermão
às velhas surdas
mas concentradas
que querem dele
a eternidade.

A ave voa
em liberdade
asas ao vento
vida sem tempo
nem ao Domingo
é Espírito Santo.

O rico ri
engalanado
pois conseguiu
um grande feito
é criminoso
sem ser condenado.

A mó, que moa.

Mulher a ler um romance

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(Vincent van Gogh)

Se eu tivesse voz

Se eu tivesse voz, pediria aos editores para publicarem mais livros de bolso. É que não dá jeito nenhum carregar tijolos de um quilo para ler o pão nosso de cada dia espiritual, enquanto se espera pelos transportes públicos. Mesmo quem leva uma pasta, leva-a, provavelmente, já suficientemente recheada.

Que seria dos pobres e cansados sem os livros de bolso da Europa-América ou da Penguin, da Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, das colecções do Público e da Visão e até, um pouco mais distante, da RTP?

Se eu tivesse voz, pediria apenas mais e melhor.

Elitismo?

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Seria pedir muito querer séries de divulgação de grande fôlego em horário nobre na televisão pública? E, enquanto isso não acontece, querer uma selecção mais restritiva dos concorrentes aos concursos desse horário nobre, com melhores prémios - uma espécie de superliga dos concursos?

Repararam?

Depois de assistir às prestações dos cinco candidatos presidenciais principais em debates televisivos, notei que há um aspecto em que o candidato Mário Soares bate os adversários aos pontos: a voz. E mesmo quando começou a tossir, tinha na manga um qualquer rebuçado-maravilha que logo aliviou a maleita...

Haikais de Boticas

O anel do monte
feito de nuvens.
Chove.

A moto-serra ruge,
longe. Perto, cai
uma folha.

Delicada estrada
para pequenos pés de pássaro.
Fios.

Solitária e cristalina
água. Leva-me
para a terra que me pertence.

(Abrupto)

[daqui]

Art, truth and politics

Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura de 2005, por Harold Pinter. A ler!

Paisagem com neve

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(Vincent van Gogh)

DUDH - Art. 3º

Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Sinais

Há dias, o coliseu de Roma esteve iluminado à noite por causa da pena de morte. Há dias também, a execução de um condenado à pena capital, nos Estados Unidos, foi evitada, in extremis. Por cá, apesar do consenso entre forças políticas sobre o assunto, ignoram-se estas execuções estatais bárbaras que ocorrem num país pretensamente civilizado.

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


(Álvaro de Campos)

Duas camponesas cavando num campo com neve

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(Vincent van Gogh)

Para que serve este blog anónimo?

1. Não serve para a denúncia nem para a maledicência. Isso seria cobardia.

2. Não serve como diário. Também aqui se acredita que o que se come ao pequeno almoço não interessa nada ao público. Também não é um "diário sem factos". Os estados de alma são demasiado pessoais.

3. Não serve como depositário de poesia lamechas. Ou, pelo menos, tenta-se que não sirva.

4. Não serve para ter audiências e para tentar mudar o mundo. Por aqui não há ilusões dessas. Quem pode nos blogs (sem fotografias "sugestivas") é quem pode fora dos blogs.

5. Serve para uso pessoal. Para coleccionar pequeninos tesouros. Se alguém quiser vê-los e gostar, tanto melhor.

6. Serve para registar acontecimentos importantes (como a saída do último soldado da Faixa de Gaza ou o início do questionamento do estalinismo pelo líder do PCP). Serve também para ignorar o que não interessa na vidinha pública deste país pequenino.

7. Serve para o que a imaginação e o bom senso permitirem.

251. Fragmentos de uma autobiografia

«O desgosto de não encontrar nada encontrei comigo pouco a pouco. Não achei razão nem lógica senão a um cepticismo que nem sequer buscava uma lógica para se defender. Em curar-me disto não pensei - por que me havia eu de curar disso? E o que era ser são? Que certeza tinha eu que esse estado de alma deva pertencer à doença? Quem nos afirma que, a ser doença, a doença não era mais desejável, ou mais lógica, ou mais [], do que a saúde? A ser a saúde preferível, por que era eu doente se não por naturalmente o ser, e se naturalmente o era, por que ir contra a Natureza, que para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente?

Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social - talhei dessa matéria de [] a estátua pesada da minha existência.

Deixei leituras, abandonei casuais caprichos …