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A mostrar mensagens de Abril, 2005
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(Vincent van Gogh)

Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

(Fernando Pessoa)

I.

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Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

(Fernando Pessoa)

Idiomático

Em geral, ao aprender um língua estrangeira, esta vem acompanhada com a cultura do seu país de origem. Na aprendizagem do inglês, uma das frases que mais me intrigou, por não ter correspondente prática em português, foi "How can I help you?"
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Fonte: Professorices

Somos livres (uma gaivota voava, voava)

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

(Ermelinda Duarte)

Subdesenvolvimento das mentalidades

É quando se condena um povo sem conhecer minimamente um único dos seus membros. E há-os, por aí, de entre todos os grupos discriminados, aos magotes...
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(Pablo Picasso)

Dúvida

Diz-se que o povo português é tolerante e se miscigenou com outros povos. Mas onde estão os heróis e as heroínas negros na literatura portuguesa? E na História de Portugal?

Deixa passar o meu povo

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
- certos e constantes -
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
- oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo -,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim,
oh let my people go...)
deixa passar o meu povo.

E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda - minha Irmã.

Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradead…

Para que serve uma maioria absoluta?

Para taxar mais-valias bolsistas, por exemplo?

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

(Alexandre O'Neill)

Agradecimento

Ao Dragão do Dragoscópio pela agradável surpresa: obrigada!

Lendo uma história

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(James Jacques Joseph Tissot, pormenor)

Ode Marítima

a Santa Rita Pintor


Sózinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Ólho pró lado da barra, ólho pró Indefinido,
Ólho e contenta-me vêr,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com êle, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Ha uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque êle está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Ólho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos …

Magnólia em veludo vermelho

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(Martin Johnson Heade)

Cena do ódio

A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares.
Foi escrito durante os três dias e as três noites que
durou a revolução de 14 de Maio de 1915

Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!
Ladram-Me a Vida por vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-La!
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar So…

Pedido de desculpas

Por não gostar de cartas em cadeia e por não poder ultrapassar as limitações do anonimato.

Madrigal

¡Oh Lucía de Granada,
muchachita morena
que vives al pie de Torres
Bermejas!... Si tus manos
... tus manos...

(Luna llena.)

¡Oh muchacha de abril,
oh Melisendra,
la de las altas torres
y la rueca!
Si tus senos..., tus senos...

(Luna media.)

¡Oh mujer de mi blanca
adolescencia,
atigrada y fecunda
Eva!
En mis brazos te retuerces
como las ramas secas
de la encina en la danza
de la hoguera.

¿Y mi corazón?
¿Era de cera?
¿Dónde está?
¿Y mis manos?
¿Y...?

(Luna ciega.)


(Federico García Lorca)
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Cante jondo

A mão onde poisava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada poisava
do que a noite trazia.

(Eugénio de Andrade)

A natureza expressiva

Os plátanos, que ainda há duas semanas estavam despidos, estão agora cobertos de folhas verdes. E o perfume das árvores é... inebriante!

Pinheiros de Calvi

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(M.C. Escher)

Odeio este tempo detergente

Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que fa…

Pessimismo

Em comparação com a pirâmide de idades dos países do Conselho da Europa, Portugal tem mais idosos e menos jovens. Ou seja, tem um problema de segurança social maior do que os outros para resolver.

Em tempos em que não ter emprego estável determina não só não ter o segundo filho, mas não juntar trapinhos, é natural que a taxa de natalidade continue a diminuir.

Por outro lado, a segurança social do estado muda as regras a meio do jogo. Para começar, não sabemos se, caso um dia destes um trabalhador tenha uma gripe ou uma intoxicação alimentar e tenha que ficar em casa durante uma semana, não vai receber ainda menos de baixa. Como se não bastasse a doença, ainda tem que sofrer a desconfiança do estado em si e na competência do seu médico de família.

Com a reforma, é a mesma coisa. Qual será a idade da reforma daqui a 10, 20, 30, 40, 50 anos? Qual será o valor da reforma? Será calculada com base em que critérios? Nada se sabe, apenas que tudo será pior do que agora.

Do outro lado, o privad…

Pirâmide etária de Portugal (2002)

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A fome de Camões

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.

Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!...

(Gomes Leal)

Agradecimento

A JVC, do blog Professorices, pela promoção na sua lista de leituras: obrigada!

Eating Poetry

Ink runs from the corners of my mouth.
There is no happiness like mine.
I have been eating poetry.

The librarian does not believe what she sees.
Her eyes are sad
and she walks with her hands in her dress.

The poems are gone.
The light is dim.
The dogs are on the basement stairs and coming up.

Their eyeballs roll,
their blond legs burn like brush.
The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

She does not understand.
When I get on my knees and lick her hand,
she screams.

I am a new man.
I snarl at her and bark.
I romp with joy in the bookish dark.


(Mark Strand)

Jarra com cinco girassóis

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(Vincent van Gogh)

Imigrantes

Alguma vez os leitores comodamente instalados em frente a um monitor de um computador se imaginaram na pele de um imigrante ilegal?

Dúvida

Se por aqui passar alguém que tenha tido a experiência da clandestinidade, será que me podia indicar o quanto é que o anonimato num blog pode corresponder a essa experiência? Um milésimo?... Um milionésimo?... Como seria a clandestinidade?

"Capitães de Abril"

Esta entrada intempestiva é só para dizer que esta pastora apreciou a muito poética metáfora da amiga imaginária de Salgueiro Maia no filme "Capitães de Abril".

"Recordam-se, vocês aí, escrupulosos detritos?"

(Alexandre O'Neill)

Eram jovens e eram milhares. Marchavam por um país melhor. Foram fazer sentir a sua indignação aos representantes do povo. Quando chegaram, a polícia recebeu-os à bastonada. Lembram-se? Umas semanas mais tarde, meia dúzia de irresponsáveis fez uma palhaçada de mau gosto amplamente reproduzida pela televisão. O saldo foi o epíteto de "geração rasca". Mas parece-me, ainda, que aquele ano condenou à condição de rascas todas as gerações futuras, e tornou rascas também as gerações que o decidiram.

A catedral

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(Auguste Rodin)

Fonte: Texere

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

(Alberto Caeiro)

Esfregar os olhos

Se virem uma pastora como a da entrada de baixo, supeitarão em algum momento que poderão estar na frente de um Alberto Caeiro de saias, alguém com uma relação radical com a natureza?
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(Jean-François Millet)

As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

(Maria Alberta Menéres)

Três mundos

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(M. C. Escher)

A bela e pura

A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou
Que alta noite a encontrei perdida
Num bordel onde um morto a assassinou.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

A arte e os grafiteiros

O que aconteceria se deixássemos num bosque um grupo de adolescentes com telas, tintas e pincéis? Pintariam apenas as assinaturas, como fazem nos muros de grafitti e nos interiores dos transportes públicos?

Descubra as diferenças

No filme "As Sandálias do Pescador", um papa fictício manda derreter os objectos de ouro do Vaticano para combater a pobreza do mundo.

Hoje, no funeral do Papa João Paulo II, milhões de pessoas tinham gasto milhões em viagens até Roma. A hierarquia católica garantiu ainda que este papa teve um funeral como os que todos os imperadores sonharam ter mas nunca conseguiram.