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A mostrar mensagens de Junho, 2006

Uma viagem providencial (VI)

Pesagem das rações e conferência de informação

A 8 de Maio, a ração individual foi de quarenta e cinco gramas de carne de porco, uma colher, das de chá, de rum, trinta gramas de pão e um quarto de litro de leite de coco. O rum, embora servido com tanta parcimónia, prestava serviços incalculáveis.

Os homens passaram a tarde a fazer uma limpeza geral na chalupa, a secar e a arrumar as suas coisas. «Até aqui - conta Bligh - distribuí as rações a olho, mas hoje construí uma balança com as duas metades de um coco. Tendo descoberto, por acaso, algumas balas no fundo da chalupa, calculei, pelo seu calibre, que seriam precisas vinte e cinco para pesar uma libra inglesa, o que significava que o seu peso por unidade era de dezoito gramas. Decidi adoptar esses dezoito gramas para cada ração de pão que se distribuísse. Em seguida, fiz uma espécie de conferência acerca do que sabia da Nova Guiné e da Nova Holanda e informei-os da sua situação neste oceano tão pouco frequentado pelos navegadores. Dei…
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(Robert Dodd, The mutineers turning Lt Bligh and part of the officers and crew adrift from HMS Bounty, 29 April 1789)

Uma viagem providencial (V)

Ao largo das ilhas Fidji

No decorrer do dia 7 passaram por algumas ilhas rochosas, donde viram sair duas grandes pirogas à vela que se lançaram em sua perseguição, mas que não tardaram a desistir. Pareciam construídas do mesmo modo que as do arquipélago dos Amigos, e Bligh supôs, com razão, que as terras que avistavam pertenciam ao arquipélago das Fidji. Mas, sempre entorpecido pela humidade, regista: «É com a maior dificuldade que consigo abrir um caderno para escrever, e lamento sinceramente não poder fazer mais do que assinalar a posição destas ilhas e dar ideia aproximada da sua extensão.»

De tarde começou a chover com violência. Todos se esforçaram então por recolher um pouco de água: atestaram os barris e encheram os quatro barrilitos pequenos e saciaram a sede pela primeira vez deste que tinham deixado a Bounty. Mas a chuva diluviana teve as suas desvantagens: encharcados até aos ossos e sem terem nada seco com que se cobrirem nem roupa para mudar, tremeram toda a noite, vítimas …

Uma viagem providencial (IV)

Aumenta a miséria dos homens da chalupa

Na noite de 4 para 5, a tempestade diminuiu de intensidade. Na manhã de 5, Bligh verificou o estado do pão: grande parte estava estragada e bolorenta, mas, em vez de deitá-lo fora, guardou-o cuidadosamente.

Embora a chalupa navegasse agora entre ilhas, a recordação do acolhimento dos indígenas de Tofoa era ainda demasiado viva para que tivessem vontade de aventurar-se em terra. A 6 viram ainda, de longe, algumas ilhas e, pela primeira vez, um peixe mordeu o anzol. Mas a sua alegria foi de pouca duração: "ficámos terrivelmente decepcionados - diz o comandante - porque o perdemos ao içá-lo para bordo." À noite, cada um recebeu para jantar trinta gramas de pão deteriorado e o seu sétimo de litro de água.

"Facilmente se imagina - observa o tenente Bligh - que lutámos com falta de espaço numa embarcação tão miserável." Tentou remediar a situação, estipulando que os homens descansassem por turnos: metade sentada e a outra metade esten…

Mulher a ler

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(Gwen John, Convalescent)

Já viram esta mulher a ler por aqui antes?

Uma viagem providencial (III)

O tempo enevoa-se

Quando o dia nasceu, a 3 de Maio, os homens verificaram, com desânimo vizinho do desespero, que o Sol subia no horizonte transformado numa bola de fogo vermelha. Era de prever, portanto, uma severa tempestade.

De facto, às oito horas, o vento começou a soprar com violência e o mar encapelou-se. As vagas eram tão altas que a vela pedia, inerte, cada vez que a chalupa era apanhada entre duas ondas, e enfunava-se brutalmente, apesar de pequena, quando a embarcação subia a uma crista. Bligh relata que não poderia arriscar-se a reduzir o pano, tão terrível e constante era o perigo: as vagas varriam a popa e obrigavam-nos a esgotar a água sem descanso e o mais energeticamente possível. «Raramente, estou certo - afirma Bligh -, os homens terão vivido horas mais angustiantes.»

O pão, que levavam dentro de sacos, corria constantemente o risco de se molhar e de criar bolor. Se a situação não melhorasse, as consequências podiam ser fatais, pois mesmo que os dezoito homens se salva…
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(Paul Gauguin, Les cavaliers sur la plage)

Tenho barcos, tenho remos

Tenho barcos, tenho remos
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
E não lhe posso chegar.

Tenho navios no mar
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
Não o posso consolar.
Tenho amor ali defronte
Não me posso consolar.

Já fui mar já fui navio
Já fui chalupa escaler
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.

Só me falta ser mulher
Só me falta ser mulher
Já fui moço, já sou homem
Já fui chalupa escaler.

(José Afonso)

Uma viagem providencial (II)

Em Tofoa, primeira decepção e uma morte

Quando, abandonando-os à sua sorte, a Bounty desapareceu no horizonte, o capitão Bligh e os seus dezoito companheiros cuidaram, antes de mais nada, de inventariar os seus recursos. As provisões que alguns camaradas compadecidos lhes tinham lançado constavam de: cerca de setenta quilos de pão, dezassete bocados de carne de porco, cada um com cerca de um quilo, seis litros de rum, seis garrafas de vinho, cento e vinte litros de água potável e quatro pequenos barris vazios.

Como a ilha de Tofoa ficava perto, Bligh decidiu ir lá buscar, imediatamente, água e fruta-pão, a fim de conservar intactos, durante o máximo de tempo possível, os poucos víveres mencionados.

Mas depois de percorrerem a costa viram apenas, no cimo de uma falésia abrupta, alguns coqueiros. Apesar dos perigos da rebentação e da dificuldade em escalar a falésia, conseguiram recolher uma vintena de cocos.

No dia seguinte aventuraram-se no interior da ilha, mas sem resultado. Encontraram…
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(Paul Gauguin, The Swineherd, Brittany)

Uma viagem providencial (I)

O cruel Christian

A primeira intenção de Christian fora expulsar o comandante e os camaradas no pequeno escaler, e para isso ordenara que o içassem para fora de bordo. O escaler foi, portanto, lançado à água. Era um pobre barco miserável, onde não caberiam mais de oito ou dez homens e muito pouca bagagem, e que, pior ainda, estava tão comido pelo caruncho, tão apodrecido (sobretudo nas pranchas do fundo), que eram de nove contra dez as probabilidades de se afundar antes de percorrer uma milha.

Eis a «carcação putrefacta» onde Christian tencionava abandonar à deriva o que fora seu comandante e dezoito inocentes, ou os que nela pudesse embarcar: encontrariam apenas aquilo que fatalmente os esperava - a morte no fundo do oceano.

No entanto, as vivas censuras do imediato, do contramestre e do carpinteiro acabaram por impressioná-lo e concedeu aos infelizes a chalupa. Nela se apinharam os dezanove. O seu peso, acrescido do dos poucos objectos que os autorizaram a levar, mergulhou de tal modo …

Interessante

The 100 Most Powerful Women, lista de 2005 da Forbes.

Liderança

Em Bligh, tão necessária na viagem de chalupa até Timor, mas tão lamentável nos incidentes que deram origem à revolta na Bounty e que, de uma forma ou de outra, acabou com a vida a tantos homens.

Em Gloria Arroyo, providencial para mil e duzentos condenados à pena capital.

Em Matan Ruak, Longuinhos Monteiro, Lu-Olo, Alkatiri e Xanana...?

Registo

Abolição da pena de morte nas Filipinas. (E eles verão que isto é Bom.)
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(Caravaggio, São João Baptista)

A sobrevivência de Bligh

Começo pelo fim. Tudo acaba bem. A viagem do capitão Bligh e dos que o acompanharam depois da revolta na Bounty é dos mais impressionantes relatos de uma sobrevivência e merece ser lido ou relido. É o que proponho.


Dissipa-se o abominável pesadelo

«Não me é possível - declara o extraordinário navegador - descrever a alegria que nos invadiu à vista daquela terra tão desejada. Parecia-nos quase inacreditável que, a bordo de um barco sem ponte, a céu aberto e com tão poucas provisões, tivéssemos conseguido atingir a ilha de Timor, quarenta e um dias depois de deixarmos Tofoa, e percorrido, nesse lapso de tempo, segundo a nossa barquilha, a distância de três mil e seiscentas e dezoito milhas náuticas, sem que nenhum de nós, a despeito da nossa indizível miséria, perecesse no decurso da viagem!

«No domingo 14 de Junho fundearam na baía de Coupang, onde foram recebidos com toda a bondade, hospitalidade e humanidade possíveis e imagináveis. As casas dos notáveis abriram-se de par em par para os…

Timor-Leste: dúvidas

1. A manifestação que hoje começou foi autorizada? Se sim, em que intervalo de tempo?

2. Qual o programa e com que organizações exteriores a Timor-Leste têm ligações os segundo e terceiro partidos mais votados timorenses?
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E ao 322.º post... um balde de água fria.

Dia Mundial dos Refugiados

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Durante quase quatro décadas de guerra, os exércitos angolanos e estrangeiros teriam espalhado entre 10 e 12 milhões de minas de 67 diferentes tipos. Angola, 1997.

(Sebastião Salgado)

Thought

Of obedience, faith, adhesiveness;
As I stand aloof and look, there is to me something profoundly affecting
                         in large masses of men, following the lead of those who
                         do not believe in men.

(Walt Whitman, Leaves of Grass)

Thought

Of Equality - as if it harm'd me, giving others the same chances and
                         rights as myself - as if it were not indispensable to my
                         own rights that others possess the same.

(Walt Whitman, Leaves of Grass)

Mulher a ler

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(Charles George Lewis)

This moment yearning and thoughtful

This moment yearning and thoughtful, sitting alone,
It seems to me there are other men in other lands, yearning and thoughtful;
It seems to me I can look over and behold them, in Germany, Italy, France, Spain,
Or far, far away, in China, or in Russia or India, talking other dialects;
And it seems to me if I could know those men, I should become attached to them, as I do to men in my own lands;
O I know we should be brethren and lovers,
I know I should be happy with them.

(Walt Whitman)

Registo

Ganhou o sim no referendo sobre mais autonomia para a Catalunha. (Quando é que a Espanha se desintegra? É para isto que serve uma monarquia?)
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(Auguste Renoir)

I sing the body electric

1

I sing the body electric,
The armies of those I love engirth me and I engirth them,
They will not let me off till I go with them, respond to them,
And discorrupt them, and charge them full with the charge of the soul.

Was it doubted that those who corrupt their own bodies conceal themselves?
And if those who defile the living are as bad as they who defile the dead?
And if the body does not do fully as much as the soul?
And if the body were not the soul, what is the soul?

(Walt Whitman)
Tóquio, 31 de Dezembro de 2007

Estou no (vosso) futuro e posso comunicar com o passado, em Junho de 2006. Querem perguntar alguma coisa?

L

Dúvida

Escreveria Luís Vaz em blogs lamuriando-se por a esmagadora maioria das "gajas boas" deste mundo lhe ser inacessível?

Desassossego

280.

Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do Universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine o futuro.

(Bernardo Soares)

Empregos

"Já não há empregos", ouve-se frequentemente. Habituamo-nos, portanto, ao trabalho sem direitos, sem contrato, com salários abaixo do salário mínimo, aos estágios sucessivos sem vencimento "para fazer currículo", aos recibos verdes sem direito a subsídio de doença nem a subsídio de desemprego. O trabalho não qualificado é preferencialmente para os imigrantes, pela fragilidade que facilita a exploração. Entre part-times e trabalho temporário, passa-se rapidamente da situação de falta de experiência profissional para a de idade avançada para o mercado de trabalho. O especialista não é valorizado, porque o mais importante é a "flexibilidade". Sem "conhecimentos", não há acesso a muitos postos de trabalho. E o empreendedorismo é só para quem pode.

No entanto, a maior despesa fixa dos comuns mortais, a habitação, requer rendimentos fixos. Não podemos ser todos Cortos Malteses, viver em constante aventura deambulante. Uma profissão ajudava, em tempos …
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(Vincent van Gogh)

A mis soledades voy...

A mis soledades voy,
de mis soledades vengo,
porque para andar conmigo
me bastan mis pensamientos.

¡No sé qué tiene la aldea
donde vivo y donde muero,
que con venir de mí mismo
no puedo venir más lejos!

Ni estoy bien ni mal conmigo;
mas dice mi entendimiento
que un hombre que todo es alma
está cautivo en su cuerpo.

Entiendo lo que me basta,
y solamente no entiendo
cómo se sufre a sí mismo
un ignorante soberbio.

De cuantas cosas me cansan,
fácimente me defiendo;
pero no puedo guardarme
de los peligros de un necio.

El dirá que yo lo soy,
pero con falso argumento,
que humildad y necedad
no caben en un sujeto.

La diferencia conozco,
porque en él y en mí contemplo,
su locura en su arrogancia,
mi humildad en su desprecio.

O sabe naturaleza
más que supo en otro tiempo,
o tantos que nacen sabios
es porque lo dicen ellos.

Sólo sé que no sé nada,
dixo un filósofo, haciendo
la cuenta con su humildad,
adonde lo más es menos.

No me precio de entendido,
de desdichado me precio,
que los que no son dichosos,
¿cómo pueden ser discretos?

No …

Timor-Leste: o que as línguas dizem

Gosto de conhecer peculiaridades linguísticas que revelem um entendimento da realidade muito diferente do meu. Por exemplo, nas línguas de Timor, há uma diferença entre "nós, contigo/convosco incluído(s)" e "nós, sem ti/vós incluído(s)". É como se houvesse uma necessidade diária de distinguir o universal do que é particular do grupo, sendo que este pode ser o clã, mas não só. Em populações pequenas e isoladas, a defesa das tradições e das memórias ancestrais parece vital para a manutenção de uma identidade comum. Tragicamente, parecem não ter entendido os perigos biológicos e culturais da consanguinidade e do isolamento.

Há também a diferenciação entre "irmão mais velho" e "irmão mais novo" (e o mesmo para as irmãs), que parece uma manifestação de respeito pelo tempo e pela experiência. Mas este respeito pode ser, muitas vezes, inimigo da democracia e do progresso.

Há, depois, a curiosa utilização da língua. Os líderes religiosos e políticos timo…

Timor-Leste: notas

Díli, 14 Jun (Lusa) (...) A violência das últimas semanas em Timor-Leste, que começou em finais de Abril com o despedimento de cerca de 600 militares que se queixaram de alegada discriminação étnica por parte da hierarquia das forças armadas, já causou mais de duas dezenas de mortos em confrontos entre grupos rivais. (...) AR.

O que aconteceria em Portugal se um grupo de militares abandonasse os quartéis durante semanas em protesto? Vejamos.

Lei n.o 100/2003 de 15 de Novembro

Artigo 72.o
Deserção
1 — Comete o crime de deserção o militar que:
a) Se ausentar, sem licença ou autorização, do seu posto ou local de serviço e se mantenha na situação de ausência ilegítima por 10 dias consecutivos; (...)

Artigo 74.o
Punição da deserção
1 — O oficial que cometa o crime de deserção é punido:
a) Em tempo de guerra, com pena de prisão de 5 a 12 anos;
b) Em tempo de paz, com pena de prisão de 1 a 4 anos.
2 — Os sargentos e os praças que cometam o crime de deserção são condenados:
a) Em tempo de guerra, com pena…
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(Paul Gauguin, Two tahitian women with mango blossoms)
Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

(Luís de Camões)

A linguagem das flores

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(Pierre-Auguste Renoir)


«Antigamente as flores tinham, entre os seus numerosos encantos, a tarefa de transmitirem subtis mensagens amorosas, mas na pressa do século vinte esta arte transformou-se numa linguagem morta. Não penso que convenha ressuscitá-la. É como o sânscrito, não há com quem o falar. (...)

«[E]ra possível [em Inglaterra, nas décadas que se seguiram a 1718] manter uma longa correspondência sem uma única palavra escrita usando diversas combinações num ramo. As damas punham grande cuidado na escolha do papel para os seus cartões, porque até as flores pintadas podiam conter outras intenções. Um lenço bordado com amores-perfeitos era uma indicação de que ela nunca esqueceria o seu apaixonado, com rosas, uma promessa de amor. Se a agulha criava com mestria a flor do marmeleiro, o destinatário podia considerar-se afortunado, porque indicava fidelidade total para o resto da vida. Chegou-se ao ponto de a orientação do laço num ramo determinar se os sentimentos se referiam ao doad…

Wishful thinking

E se Freitas do Amaral tivesse razão e o futebol tivesse mesmo um papel diplomático a desempenhar? Por exemplo, e se o Mundial de Futebol fizesse com que os revoltosos timorenses entregassem as armas e fossem para casa comer caracóis (cof!), beber cerveja e torcer por uma equipa qualquer?

Monopólios

O Google, o Blogger, o Technorati, o blo.gs são quase monopólios. Com as desvantagens dos monopólios, ao que parece. Não há por aí ninguém para lhes fazer concorrência?

Dúvida

Um adjectivo para os resultados das pesquisas do Google, que puxam descaradamente para o cimo da lista os blogs?

Longe das multidões

Nove dias de fim-de-semana prolongado, dias de sol e um mundial de futebol. Deve ser o paraíso de algumas pessoas. Enjoy!

A morte do líder terrorista

Mataram há dias um homem responsável pela morte de muitos outros homens e mulheres e crianças. Também mataram uma criança, um dano colateral. Ouviram-se vozes de júbilo pelo mundo inteiro, por ter morrido alguém que se transformou num monstro, julgando-se santo guerreiro em luta contra o mal. Criou-se mais um mártir, outros virão atrás dele. Entretanto, deste lado, enganamo-nos, julgando pertencer a uma qualquer civilização superior. Mas matamos, como eles.
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(Jeremiah Patterson)
Pois meus olhos não cansam de chorar
Tristezas, que não cansam de cansar-me;
Pois não abranda o fogo em que abrasar-me
Pôde quem eu jamais pude abrandar;

Não canse o cego Amor de me guiar
A parte donde não saiba tornar-me;
Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
Enquanto me a voz fraca não deixar.

E se nos montes, rios, ou em vales,
Piedade mora, ou dentro mora Amor
Em feras, aves, plantas, pedras, águas,

Ouçam a longa história de meus males
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes mágoas podem curar mágoas.

(Luís Vaz de Camões, WikiSource)

Registo

"Austrália quer luz verde da ONU para controlar Timor-Leste. Documento confidencial revela a estratégia de Camberra para a reunião do Conselho de Segurança na próxima semana" - capa do Diário de Notícias de 10.6.06. No interior:

A Austrália entende que o Estado timorense falhou e que as autoridades de Díli não estão em condições de recuperar o controlo do país. Pelo que deveria ser a ONU a liderar o processo de reconciliação, ajudando a credibilizar as principais funções do Estado, de forma a poderem ser convocadas eleições para Maio do próximo ano.

O que pressupõe, entre outros aspectos, que a polícia timorense pudesse ser comandada por um oficial estrangeiro, à semelhança do que sucederia com o aparelho judiciário do país. Mesmo que fosse necessário recorrer à nomeação de juízes, procuradores, defensores públicos e até oficiais de justiça internacionais.

Já quanto à estabilização, Camberra entende que as forças envolvidas nesse esforço deveriam manter-se sob comando e control…

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncios e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

O Me! O Life!

O me! O life!… of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless—of cities fill’d with the foolish;
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)
Of eyes that vainly crave the light—of the objects mean—of the struggle ever renew’d;
Of the poor results of all—of the plodding and sordid crowds I see around me;
Of the empty and useless years of the rest—with the rest me intertwined;
The question, O me! so sad, recurring—What good amid these, O me, O life?

Answer.

That you are here—that life exists, and identity;
That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.

Walt Whitman, Leaves of Grass
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APOD

Cleveland Volcano, Alaska.

As I Ponder'd in Silence

As I ponder'd in silence,
Returning upon my poems, considering, lingering long,
A Phantom arose before me with distrustful aspect,
Terrible in beauty, age, and power,
The genius of poets of old lands,
As to me directing like flame its eyes,
With finger pointing to many immortal songs,
And menacing voice, What singest thou? it said,
Know'st thou not there is hut one theme for ever-enduring bards?
And that is the theme of War, the fortune of battles,
The making of perfect soldiers.

Be it so, then I answer'd,
I too haughty Shade also sing war, and a longer and greater one than any,
Waged in my book with varying fortune, with flight, advance
and retreat, victory deferr'd and wavering,
(Yet methinks certain, or as good as certain, at the last,) the
field the world,
For life and death, for the Body and for the eternal Soul,
Lo, I too am come, chanting the chant of battles,
I above all promote brave soldiers.

Walt Whitman, Leaves of Grass

INJUSTICE, n.

A burden which of all those that we load upon others and carry ourselves is lightest in the hands and heaviest upon the back.

Ambrose Bierce, The Devil's Dictionary

Muito obrigada

Pelas mensagens que chegam por meios que a tecnologia não permitia ainda há pouco tempo.

Saudades

Timor-Leste: perplexidade (II)

"O bispo de Baucau, D. Basílio de Nascimento, considerou hoje que a disponibilidade demonstrada por José Ramos Horta par a suceder ao actual primeiro-ministro timorense é «uma autocandidatura muito boa», mas admitiu haver outras hipóteses." (Lusa, 7/6/06)

"[H]á analistas internacionais a dizerem que tenho sido considerado um negociador muito duro dos litígios com os países vizinhos, particularmente com a Austrália. Quando se é primeiro-ministro e a última pessoa a decidir sobre o petróleo neste país, naturalmente está a colocar-se como alvo" - Mari Alkatiri (Lusa, 7/6/06).

"Não tarda, estão a dizer-nos que não vamos saber gerir as nossas riquezas. Ou que os terminais de gás nunca poderão ficar estacionados aqui em Timor-Leste." - Ângela Carrascalão

Canção

A voz da minha canção
é de uma dor que a alma toca,
que os agudos leva a boca,
os graves o coração.

     As palavras são as dores
que andam no pensamento,
padecendo o sofrimento
que as torna ainda maiores.
De tal som marcadas vão
que a sua voz a alma toca,
que os agudos leva a boca,
os graves, o coração.


(Pinar, Espanha, séc. XV, tradução de José Bento)

Frenologia

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Carl Sagan usou o cérebro imaginado por Broca, com as suas funções cerebrais acantonadas, como mote para um livro sobre "pseudo-ciência". Os usos da frenologia ao longo dos tempos são, aliás, de péssima memória (péssima mesmo!), mas os mapas frenológicos não deixam de ser curiosidades museológicas e a rede ajuda a encontrar preciosidades.

O cérebro que convenceu Broca da localização das funções cerebrais:



Mapas frenológicos para todos os gostos:









O último mapa é de um sítio que defende a frenologia, e onde se dão "exemplos" de como, supostamente, a forma do crânio estaria relacionada com características da personalidade.

Finalmente, quais são as origens do conhecimento das funções cerebrais? Vejamos.

For many millennia the function of the brain was unknown. Ancient Egyptians threw the brain away prior to the process of mummification. Ancient thinkers such as Aristotle imagined that mental activity took place in the heart. Greek scholars assumed correctly that the brain s…

Problemas da descentralização dos concursos de professores

Quando for norma as escolas contratarem os seus professores, os jornais (através da publicidade) e os CTT (através dos milhares de respostas aos anúncios) vão ficar a lucrar bastante. Nas escolas, terá de haver pessoas e tempo para receber essas respostas, ordenar as candidaturas e fazer eventuais entrevistas. Quais serão, nessa altura, os critérios de seriação dos candidatos, para além da nota de curso e da experiência profissional? A apresentação? Os resultados em anos anteriores? A avaliação dos pais? E quem vai controlar a transparência desses concursos públicos?
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(Henry Lamb)

Linhas editoriais avulsas para novos bloggers

1. Escrever posts sempre com menos de dez linhas, a pensar nos leitores de blogs.

2. Fazer de cada post um tratado que poderia ser publicado em livro.

3. Incluir fotografias de divas descascadas, para aumentar as audiências.

4. Escrever só textos próprios, que talvez um dia sejam de colunista da imprensa de papel.

5. Não incluir caixas de comentários, para parecer mais inacessível.

6. Incluir caixas de comentários, mas apagar qualquer beliscão ao blog.

7. Ter vinte colaboradores a escrever, cada um, três entradas sobre os cinco temas do dia na comunicação social, para garantir audiências e, assim, ter a ilusão da importância.

8. Escrever sobre futebol, manifestando simpatia por um clube, para, desse modo, ter a simpatia de uma fracção de leitores.

9. Escrever sobre geringonças que são novidades tecnológicas à mistura com descobertas científicas bizarras, mas fazê-lo em inglês.

10. Escrever posts mutantes.

Contribuições dos leitores do AdP:

11. Um blogue de sucesso deverá, inevitavelmente, inclui…

m.

No centro da carruagem, do lado da janela, virado para o sol, vai Mefistófeles. Olha para ela como quem troça pela notícia de mais um suicídio que mais uma família esconde sob outra qualquer causa. Ataque cardíaco, overdose involuntária, pneumonia mal tratada, tanto faz. Não são mortos próximos, mas olharam-na nos olhos e, por isso, sente uma espécie de dever de pensar em como foi o seu fim. Mefistófeles ri-se da sua consideração de que a morte maldita pode atingir todos e de que o dinheiro não traz felicidade. E ri-se do seu pesar.
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(Qi Baishi)

Propósito inadiável

O que magoa é ver o pobre
timorense esquálido beber
água do pântano,
onde se escoam lixos,
comer poeira
e saudar-me, quando
rodo na estrada,
ocioso.

Tantos e tantos outros,
timorenses esquálidos,
olham-me como se dever fosse
abrir covas,
plantar repasto
de milho, arroz e carne,
encher copos vazios,
de bebedeira e sonho,
que não magoe,
mortifique o ócio,
reanime o tempo.

Fugir é melhor que prometer
esperança em melhores dias.
Fugir é atrasar o discurso limite
travado pelas rodas
da dúvida maníaca.

Eu não prometo nada.
Invoco os montes
feridos pela luz,
mar que me circunda
em Díli terra-tédio e de má gente.

Afino-me pelo timbre
limpo das almas
dos timorenses esquálidos
que me soletram vivo.

E sigo,
limpo na alma e no rosto,
sujeito à condição que me redime.
Os Timorenses só terão razão
quando me matarem.

(Ruy Cinatti)

Timor-Leste: perplexidade

1. Uma constituição deve ser feita à medida dos protagonistas da altura, claro...
2. A Igreja timorense precisa de ser "envolvida" na construção da democracia timorense, não o pode fazer de motu proprio. Até, porque, entre um governo de Alkatiri e a anarquia, a escolha é...
3. Serão os GNR a prender o senhor Alfredo Reinado?

Timor-Leste: história de um país sem partido único, mas quase

(...) Companheiros da Luta [timorenses na diáspora],

O divisionismo, incentivado pelos caminhos ideológicos diversos e/ou opostos, levou os timorenses a considerarem-se inimigos, actuando em defesa das suas políticas. Ainda hoje, alguns tentam justificar essas acções para minimizar as culpas ou para afirmar que são inocentes. Creio que, exclusivamente pelos superiores interesses do nosso Povo, devemos apenas lembrar os factos que assinalaram a nossa história, como exercício mental para daí extrair lições, com o propósito de não contribuir, agora e no futuro, para que se faça sofrer o nosso Povo.

Se a violência fora a escolha preferida pelos dirigentes timorenses, a existência de um braço armado na dependência de um Partido, constituiria sempre um factor de interposição na reconstrução de uma unidade sem reservas. Para além disto, o próprio desenvolvimento da Luta retirava os funcionários político-ideológicos das FALINTIL, fazendo-as assumir uma missão mais nobre - a defesa da Pátria! Fo…

Jacarandás

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(c) Abrigo de Pastora, 2004 (reedição)

Alguém pode ir ver por mim a mais bonita rua de Lisboa por estes dias?