domingo, dezembro 31, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

A pena de morte de Saddam Hussein

Que a populaça maioritária defenda a pena de morte parece um dado inquestionável. Será? A informação e a reflexão não poderiam fazer alguma diferença?

O caso de Saddam é apenas o caso extremo. Um caso em que não poderia questionar-se a desproporcionadade da pena depois de aceitar o princípio do olho por olho e dente por dente - e ele é muito aceite pela populaça.

Irrecuperável, dizem alguns. Assim seria Saddam. Mas por que não também o marido traído que mata a mulher? Por que não também o miúdo que rouba laranjas numa horta alheia? Onde está a misericórdia que devia estar presente na nossa matriz cristã? Onde está a esperança? A esperança na salvação ou, então, a esperança no Homem?

Matou "por prazer"? Mas isso não significa que se trata de um caso psiquiátrico? Matam-se os loucos, por serem loucos? Se não era louco, então haveria que condenar todos os seus cúmplices, os partidários do Baas. E talvez alguns mais.

A pena de morte previne novos crimes? Muito questionável. Dá resposta à sede de vingança das vítimas? As leis devem ser racionais.

Os estados devem ser soberanos no seu direito a matar? Por que raios?! Porque alguns o são? Porque alguns até matam crianças? Porque alguns, ditos civilizados, estão, de facto, em retrocesso civilizacional, tendo reintroduzido a pena de morte depois de a já terem banido?

Pergunto-me por que é que tropas em representação do meu país, que teria uma tradição abolicionista da pena de morte a defender, estão a colaborar no estabelecimento de um regime onde existe a pena de morte. Os políticos europeus deveriam ser mais consequentes nas suas tomadas de posição.

Amálgama do dia

1. O percurso até à rejeição da pena de morte em todas as circunstâncias é um percurso longo. O que impressiona são os que não têm sequer a disponibilidade mental para percorrê-lo.

2. O abandono a que educação familiar das crianças está sujeito, em cidades em tempos de stress, nota-se em pequenas coisas. Por exemplo, quando uma criança faz uma pergunta sem nenhum sentido, o adulto responde como se fosse uma pergunta normal, ou nem sequer diz nada. Não é que não possa haver espaço para algum non sense, que estimule a imaginação, mas seria muito natural que uma pergunta sem nexo fosse motivo para algum humor ou, então, para uma explicação pedagógica. (Quem não gosta das boas perguntas das crianças?) Mas só reparamos que há algo errado quando as palmadas demasiado toleradas já fizeram a escalada até aos maus tratos fatais.

sexta-feira, dezembro 29, 2006



Tantos ismos, de todas as cores e feitios, e é sempre a mesma velha história.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Porquê?

Depois de uns bonecos feios e sanguinários que passavam na televisão há alguns anos, é um alívio para os pais terem o Noddy: o boneco é o mais inofensivo que se poderia imaginar. Pena é só servir para crianças até aos dois anos...

E depois, o que é que conta? Porque é que gostamos mais de uns bonecos do que de outros, quando ainda não sabemos nada de nada?

De acordo com a Wikipedia, a imagem de marca de Bugs Bunny é a vitória. De facto, ele ganha sempre. Mas havia mais: o traço definido (muito pouco de coelhinho fofinho), a negação da inevitabilidade da caça, a superioridade da inteligência relativamente à arma do caçador. (Será que as crianças também podem ter consciência de "classe"? Os músculos não abundam...)

O riso sarcástico de Muttley, nas Corridas Loucas, era o riso de desprezo pela batota e pela cobiça desmedida. As coisas aqui complicavam-se, já não era só tomar o partido dos vencedores, mas ainda era preciso tomar partido. E Muttley era o sarcástico que não deixava de ser bom tipo.

Espírito natalício (II)

Por sugestão deixada numa caixa de comentários, aqui fica outra canção com uma Laurinda. Comentário no final.


Laurinda

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
És mais linda do qu'o Sol(e)
Deixa-me dormir uma noite
Nas bordas do teu lençol

Sim, sim, cavalheiro, sim
Sim, sim, cavalheiro, sim
Hoje sim, amanhã não
Meu marido, não esta cá
Foi pr'a feira de Marvão

Onze horas, meia-noite
Onze horas, meia-noite
Marido a porta bateu
Bateu uma, bateu duas
Laurinda não respondeu

Ou ela está doentinha
Ou ela está doentinha
Ou encontrou outro amor
Ou então procur'a chave
Lá no meio do corredor

De quem é aquele chapéu?
De quem é aquele chapéu?
Debroado a galão
É para ti meu marido
Que fiz eu por minha mão

De quem é aquele casaco?
De quem é aquele casaco?
Que ali vejo pendurado
É para ti meu marido
Que o trazeis bem ganhado

De quem é aquele cavalo?
De quem é aquele cavalo?
Que na minha esquadra entrou
É para ti meu marido
Foi teu pai quem tu mandou

De quem é aquele suspiro?
De quem é aquele suspiro?
Que ao meu leito se atirou
Laurinda, que aquilo ouviu
Caiu no chão desmaiou

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
Não vale a pena desmaiar
Todo o amor, que t'eu tinha
Vai-se agora acabar

Vai buscar as tuas irmãs
Vai buscar as tuas irmãs
Trá-las todas num andor
Que a mais linda delas todas
Há-de ser meu novo amor


(rimance popular)

(via)

Esta Laurinda não saiu muito bem na fotografia, pois não? A deslealdade não é bonita. Mas a canção vem de um passado que é difícil recriar: é um mundo onde não existia divórcio, onde o corpo da mulher era coisificado na lei, onde um marido podia achar que tinha um fornecimento contínuo de "amores" entre as filhas de uma casa. Ao folhear as Novas Cartas Portuguesas, de 1971/72, encontram-se memórias de como era a vida de mulheres mal casadas, antes do 25 de Abril. Já para não falar das histórias que vamos conhecendo.

Será que algum dia os tempos do aborto criminalizado vão, também, ser parte do passado?

Paradoxo do anonimato...

... é não poder falar aqui da razão da escolha do nome, "Laurindinha". Porque, não sendo nome próprio, há necessariamente uma razão.

domingo, dezembro 24, 2006

Fogo

A primeira contribuição original desta pastora (por supuesto que las hay!) para o YouTube, publicada aqui em 28 de Fevereiro, é este pequeno vídeo prometeico:


Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Fonte: abrigodepastora.blogspot.com


Que tal? Aconcheguem-se.

Santo Natal


(Vilhelm Hammershøi)

Associo o despojamento dos interiores nos quadros de Hammershøi ao meu imaginário sobre os Quakers, os tais amigos de uma sociedade religiosa, que já ganharam um Nobel da Paz. Suponho que nunca tenha havido nenhum quaker português...

quinta-feira, dezembro 21, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

Aquela triste e leda madrugada

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dúa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.


(Luís Vaz de Camões)

(Vilhelm Hammershøi)

Por detrás de uma pedra do abrigo, um papel esquecido

[exercício de escrita falhado]


Querido Y.,

Esta é a carta mais difícil que já escrevi até hoje. És a pessoa mais importante para mim. Sinto-me imensamente privilegiada por ter-te conhecido e por termos passados tantos bons momentos juntos. Sempre achei que não te merecia, que o criador tinha sido injunto ao não me dar mais qualidades, que de bom grado poria ao dispor da tua felicidade. Tu mereces tudo, mereces a perfeição.

Tentámos comunicar, conhecermo-nos, partilharmos projectos. Tentámos ser um, como no mito platónico. Mas não conseguimos fugir à nossa natureza, pois não? Continuamos seres imperfeitos, as nossas hormonas são produzidas a ritmos irregulares... Começamos a pensar para nós, a não compartilhar, a não comunicar.

Vi, nos teus olhos, a paixão arrefecer. Viste a realidade, apenas isso. Não posso culpar-te.

Por isso, ponho fim à nossa história. Antes que se torne pequenina, antes que nos tornemos mesquinhos. Teremos sempre o reino das doces recordações. Mas se não quiseres recordar, também aceito. Fecha este capítulo e começa outro, em tudo diferente. Quem sou eu para te condenar, se for essa a tua opção?

Apesar de tudo, ainda acredito nessa ideia tola das reencarnações. Que somos duas metades de um todo. Só que o todo é espiritual, e a carne e a natureza humana estão contra nós.

Até sempre,
Aleph

(Vilhelm Hammershøi)

Por detrás de uma pedra do abrigo, um papel esquecido

[exercício de escrita falhado]


K.

Senhor Doutor, espero que me possa ajudar. Vim consultá-lo porque cheguei à conclusão de que, sozinho, não consigo superar a dor que sinto dentro de mim. Não é uma dor física, é um sofrimento mental, mas nem por isso é menos intenso. A minha mulher pediu o divórcio, vai para três meses, e vai às consultas de aconselhamento familiar apenas para cumprir uma formalidade. Diz que já não me ama, e que o tempo não volta para trás. Ah!, Senhor Doutor, não sabe o que é, sentir este abandono, por parte de quem era a pessoa mais importante para nós. Os meus familiares e os meus amigos bem tentam animar-me, dizem-me que ela não me merece, mas o que eu sinto é apenas uma brutal solidão. Como se, de repente, fosse um lobo colocado no mundo, condenado a vaguear para sempre sozinho por entre florestas negras. Porque... Doutor... nunca mais me vou apaixonar. Pelo menos, nunca mais com a entrega com que estive com esta mulher. Estou cheio de frio! É o que me acontece agora, todas as noites, quando me vou deitar. Não consigo adormecer porque sinto a falta do calor do corpo dela. Por isso, parece que me sinto num congelador. Senhor Doutor, não sei como poderá ajudar-me. Como poderá devolver algum sentido à minha vida, se perdi a minha companheira que elegi de entre todas as mulheres e a quem amei de corpo e alma!

(Vilhelm Hammershøi)

Sob o signo do falhanço

O desgosto amoroso é sal para a literatura. Lembram-se da xaropada do "Amor de Perdição"? Do "Romeu e Julieta"? Já houve até quem concebesse um divórcio como experiência proto-literária. Tudo um pouco excessivo... Mas quanto do melhor Camões lírico ou de Bocage não deixaríamos de ler se não fosse os seus infortúnios?

(Vilhelm Hammershøi)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Espírito natalício

Entre os visitantes que aqui chegam a partir do Google, há sempre alguns à procura da letra da canção da Laurindinha. Pois bem, aqui a têm.


Laurindinha
(Música Popular Portuguesa)

Oh Laurindinha! Vem à janela! (Bis)
Ver o teu amor, ai, ai, ai
Que ele vai para' guerra (Bis)

Se ele vai p'rá guerra, deixai-o ir! (Bis)
É um rapaz novo, ai, ai, ai
Ele torna' vir (Bis)

Ele torna vir, se Deus quiser (Bis)
Ainda vem a tempo, ai, ai, ai
De arranjar mulher (Bis)

Ele torna vir, virá ou não (Bis)
Oh Laurindinha, ai, ai, ai
Dá-me a tua mão (Bis)


(via)

Dúvida

Serei só eu a achar os anúncios da TV Cabo ligeiramente insultuosos para quem não tem dinheiro para a pagar?

terça-feira, dezembro 19, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

Livre arbítrio

Free to choose? - Liberalism and neurology (The Economist).

Um vídeo de 2006




São 20'35'' que valem a pena - várias "lições" fundamentadas com números. A apresentação multimédia parece ser Flash, mas pode ser software proprietário. Muito interessante, de qualquer modo. Descoberto graças ao Adufe.

Entretanto, as "flores" começam a florir, no NationMaster (descoberto no Ponto Media - um blog com o formato ideal para consumo diário via Bloglines).

Os blogs, a China e o Google



Onde estão os chineses?

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Mulher a ler


(Vilhelm Hammershøi)

TLEBS

Uma modesta opinião. O texto da petição sobre a TLEBS não eliminou as dúvidas que tinha. Desde que me lembro que considero a gramática que aprendi na escola e, depois, as "árvores" que conheci numa gramática bastante insuficientes para compreender o funcionamento da língua e escrever sem erros e com clareza. Há alguns anos, ao contactar alguém durante a elaboração de uma obra de referência linguística, apercebi-me de que o "ensino" da língua aos computadores, ou seja, a sua racionalização, era um imperativo para o futuro. Também disto depende a projecção do português no mundo.

Por outro lado, é evidente que não se deve ensinar qualquer gramática para assassinar textos literários, na escola. Mas isto é válido para qualquer gramática. E o ensino e o treino da leitura e, em particular, dos clássicos, portugueses e universais, deveriam ter um tratamento próprio nos currículos escolares.

Será o material de apoio à TLEBS insuficiente? O que dá para descarregar pela rede e o sítio de discussão não dão resposta às dúvidas de professores e de pais? Não há suficientes novas gramáticas editadas? Não sei. Mas também me parece uma questão lateral.

Não vejo nenhuma razão para que o que hoje é conhecimento consolidado numa área de conhecimento deva ser impedido de entrar nas escolas. O facto de a terminologia não ser fácil nem familiar não é razão.

Multiplicidades

Diverte-me a associação da leitura de mais do que um livro à poligamia. É melhor esclarecer que a considero absurda. Se não, o que dizer dos mais de dez compêndios escolares de cada vez? Ou da colecção necessária, profissionalmente?

Sintomas

Em vésperas de época natalícia, ouvir de três bocas diferentes que preferiam que este ano não houvesse Natal. O consumismo enjoa.

domingo, dezembro 17, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

Acordai

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


(José Gomes Ferreira)

As instruções para o origami são incompletas

Pelas minhas contas, 27,5% dos portugueses saberão isso. (Mesmo assim, está feito, com alguma ajuda do YouTube.)

Esse grande escultor (amálgama)

Poucas páginas à frente da síntese iluminada de um dos livros que ando a ler, e que registei aqui, há uma indelével marca do tempo. A concepção da natureza é completamente datada e ultrapassada. O autor, de uma seriedade e honestidade intelectual brutais, comete os mesmos erros de Aristóteles. Mesmo assim, tenho a certeza de que gostaria de saber o que, hoje, qualquer aluno atento aprende no liceu: sobre fósseis e a lei de Hubble, por exemplo.

A seta do tempo na história da ciência existe. Se, daqui a mil anos, alguém comparasse as passagens que agora leio com perplexidade com qualquer texto deste século sobre as mesmas matérias, saberia qual foi escrito antes e qual foi escrito depois. Pelo meio, saberia que estiveram, necessariamente, novos dados empíricos e mais elaboradas formulações teóricas. (A actual difusão do criacionismo e da hipótese do "desenho inteligente" só se compreendem como epifenómenos não científicos, como contaminações das áreas de intervenção da ciência, a que só foi possível dar espaço por se ter levado Kuhn demasiado a sério.)

Pastora ignorante, interrogo-me sobre em que medida a seta do tempo do conhecimento científico, nas ciências da natureza, pode ter algum equivalente nas ciências sociais e na história. A forma como olhamos para nós próprios evolui para níveis de elaboração cada vez maiores, e em sucessão (um pouco como camadas geológicas). Poucas escolas de pensamento poderão dizer ser o seu desenvolvimento alheio às que as precederam. Do mesmo modo, os acontecimentos históricos e a evolução social são determinantes na definição dos seus objectos de estudo e dos seus métodos.

Comparemos, por exemplo, a aceitação da tortura generalizada de prisioneiros na Grécia antiga com a preocupação pela dor na execuções por injecção letal, nos Estados Unidos de hoje. Daqui a dez mil anos, quem as cotejar, saberá qual é o antes e qual é o depois.

Apesar de a evolução biológica humana ser demasiado lenta para que lhe vejamos a marca, de continuarmos igulamente violentos, as sociedades humanas têm evoluído, como resultado do seu desenvolvimento cultural. As guerras tomam outros contornos, fruto das lições tiradas das anteriores. Guerras por pequenas parcelas de terra ou por lutas dinásticas, como as que sucederam na Europa até ao século XIX, dificilmente se repetirão nos mesmos termos - pelo menos, enquanto houver memória da sua insensatez. As duas guerras mundiais e os milhões de mortos que provocaram levaram à criação de fóruns internacionais de diálogo de todos os estados do mundo. Hoje, uma grande fracção da população humana vive protegida pelas leis sucessoras da Déclaration des droits de l'homme et du citoyen e da Bill of Rights e a restante anseia por essa protecção.

Estão a ver onde é que vejo o sentido da seta do tempo, para lá da evolução da ciência (e da tecnologia, como corolário)? É como se a humanidade fosse um menino pequeno, que tem que aprender com os seus erros, mas acaba por aprender. Sempre, perguntarão? E deverá o adulto, ou seja, os que se julgam mais esclarecidos do que a multidão, prevenir quedas em abismos?

Pode discutir-se a previsibilidade do "destino final" do sentido da história e a intencionalidade e causalidade da política a longo prazo. Poderia, como primeira aproximação, fazer-se a analogia dos destinos humanos a um sistema meteorológico - de que não adianta fazer previsões de detalhe para mais de três dias, por ser um sistema caótico. Há, numa segunda aproximação, a evolução do clima, onde pode haver tendências, resultantes da acumulação de memória e de uma cada vez maior interacção entre agentes. Neste caso, o "mercado do carbono" é um imperativo.

Fico por aqui, porque agora não tenho mais tempo.

sábado, dezembro 16, 2006

Passeando



- Qual é o seu nome?
- Alberto Caeiro.
- Tem bilhete de identidade ou cédula pessoal?
- Nada. Só trago o meu rebanho.
- Tem pergaminhos a declarar? Toma chá?
- Não. Embriago-me às vezes com oxigénio...
- Tem pin-ups para troca?
- Só tenho o meu rebanho, já disse. (E não sou neo-zelandês...)
- ... Não... Assim, não pode entrar na Blogosfera Selecta.

quinta-feira, dezembro 14, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

«Cordeiro afável de voz suave»

O discurso de despedida de Kofi Annan na Truman Presidential Museum & Library, em 11 de Dezembro de 2006. (WikiSource)

Cinco lições:

My first lesson is that, in today's world, the security of every one of us is linked to that of everyone else. [...]

My second lesson is that we are not only all responsible for each other's security. We are also, in some measure, responsible for each other's welfare. Global solidarity is both necessary and possible. [...]

My third lesson is that both security and development ultimately depend on respect for human rights and the rule of law. [...]

My fourth lesson — closely related to the last one — is that governments must be accountable for their actions in the international arena, as well as in the domestic one. [...]

My fifth and final lesson derives inescapably from those other four. We can only do all these things by working together through a multilateral system, and by making the best possible use of the unique instrument bequeathed to us by Harry Truman and his contemporaries, namely the United Nations. [...]

Mulher a ler


Túmulo de Leonor, duquesa da Aquitânia
[Fonte]

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Leitura

Hoje a leitura foi luminosa e inspiradora. Trata-se de um senhor livro, exaustivo, que me acompanha há mais de ano e dia. (Sim, os livros bons podem demorar muito tempo a ler...) Há uma passagem que é uma síntese belíssima, que me provocou um reviver de momentos marcantes da infância e da adolescência. De além túmulo, a humanidade intemporal, na procura do seu melhor. Felizmente, ainda há dias assim.

Notas breves

1. Ao cuidado da PT: quantas semanas acham razoável esperar pela reparação de uma avaria na rede de cobre que torna impraticáveis os serviços que dela dependem? Obrigada.

2. Muito obrigada aos visitantes do AdP pela simpatia!

3. Estou perante um dilema. Começo a preferir o outro.

sexta-feira, novembro 17, 2006


(Vilhelm Hammershøi, A Woman Reading by a Window)

What think you I take my pen in hand to record?

What think you I take my pen in hand to record?
The battle-ship, perfect-model’d, majestic, that I saw pass the offing today under full sail?
The splendors of the past day? Or the splendor of the night that envelopes me?
Or the vaunted glory and growth of the great city spread around me? — No;
But I record of two simple men I saw to-day, on the pier, in the midst of the crowd, parting the parting of dear friends;
The one to remain hung on the other’s neck, and passionately kiss’d him,
While the one to depart, tightly prest the one to remain in his arms.


(Walt Whitman)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Lendo Whitman



Foi na Wikipedia, e apenas aí, na secção "Whitman and Sexuality" do verbete sobre Walt Whitman, que soube da suposta existência de Jeanine Granouille ou Jean Granouillee e da pretensa passagem do género masculino para o feminino num poema de Whitman, antes da sua publicação. A secção tem à cabeça a indicação "The neutrality of this article is disputed." Como Whitman é tão eloquente neste particular (como noutros), a discussão gerada tem o seu interesse.

Pilatos


(Antonio Ciseri, Ecce Homo)

Tantos Pilatos, por estes dias.

terça-feira, novembro 07, 2006

Queries to my seventieth year

Approaching, nearing, curious,
Thou dim, uncertain spectre - bringest thou life or death?
Strength, weakness, blindness, more paralysis and heavier?
Or placid skies and sun? Wilt stir the waters yet?
Or haply cut me short for good? Or leave me here as now,
Dull, parrot-like and old, with crack'd voice harping, screeching?


(Walt Whitman)

Conhecer o inimigo (3)


Fonte: The Quetico Foundation

Há o prosaico lobo ladrão, pilha galinhas e predador de rebanhos, das histórias dos antigos. A moral da fábula do imortal escravo Esopo, que em inglês se diz "don't cry wolf", a lembrar a necessidade de economizar as palavras, a mentira e os pedidos de socorro. O lobo das fábulas de La Fontaine, menos matreiro que a raposa. O lobo simbolizando a pulsão sexual na história do Capuchinho Vermelho. O lobo de Hobbes, que é o homem egoísta e explorador. O lobo, vagabundo solitário condenado a não encontrar o seu par, em "Ladyhawk". O lobo dentro de cada um de nós, fonte de agressividade, irracionalidade e violência.

Hoje, o condenado à morte mais televisionado fixou-se-me no pensamento. Não esqueço todos os mortos, desde as centenas que nasceram pertencendo à etnia errada, aos cidadãos do país invadido, aos colaboradores e aos membros da própria família. Mas poderia dar-se o caso de, nas suas circunstâncias, aquele indivíduo achar que fazia sentido o que estava a fazer? Se, por absurdo, eu me visse na pele do seu confessor numa extrema unção, obrigado a compreender o seu modo de pensar, será que seria capaz?

Indulto

Article 72:

The President of the Republic shall assume the following powers:

A - To issue a special pardon on the recommendation of the Prime Minister, except for anything concerning private claim and for those who have been convicted of committing international crimes, terrorism, and financial and administrative corruption.


(Constituição iraquiana)


Presidente: Jalal Talabani
Primeiro-ministro: Nouri al-Maliki

segunda-feira, novembro 06, 2006

Dúvida jurídica

As condições em que decorre um julgamento e a conveniência política de uma determinada pena devem influenciar os juizes ao tomarem uma decisão?

sexta-feira, novembro 03, 2006

Últimos dias (2)

Lembro-me ainda de uma teoria, bastante difusa, que girava à volta da própria ideia de posteridade. Para acreditar na posteridade, para esperar e conceber que uma obra pudesse sobreviver-nos, era preciso apostar, segundo ele, numa eternidade da arte, das suas formas, dos seus valores... apostar numa independência das obras em relação à época em que nasceram e cresceram... Este livro não é deste tempo, dizem essas pessoas... Não pertence a este lugar... Só aparentemente está ligado a este momento da nossa história onde um vulgar acidente quis que ele surgisse... E nada, verdadeiramente nada, o retém e o amarra a este quadro de acaso do qual só procura escapar-se... Crer nas teorias da arte pela arte. Ora ele tinha passado a vida a combater essas teorias. Tinha dito e repetido que a mais pura, a mais acabada das obras, continha também a sua parcela de contingência. Tinha até sido ele quem primeiro baptizou de «modernidade» o gosto de ancorar os livros no fugidio, no transitório. O que implicava, muito logicamente, que ele não podia, no momento em que falávamos, reinvindicar, nem o direito nem o poder, de se deixar embalar na ilusão de um possível destino póstumo...

Falou-me ainda - mesmo se todos estes assuntos se emaranhavam, mais do que se sucediam - da sua própria obra. Ares familiares... Temas clássicos... Todas aquelas imperfeições, inacabamentos, recomeços, recusas, de que oito dias antes me traçara o catálogo, quando ainda estava só face à sua memória e à sua doença. Só que desta vez a evocação do futuro da sua obra era feita num tom de raiva e ressentimento que, com toda a evidência, já não visava apenas a cegueira dos seus pares... Há escritores a quem a simples perspectiva de um livro que lhes sobrevive tranquiliza e enche de alegria. Ora bem, ele achava-a absurda. Até mesmo desagradável, aparentemente. Considerava a imagem dessas páginas que teimavam em crescer, germinar, florir, nas cabeças alheias, quase tão repugnante como a das unhas e dos cabelos que continuam a crescer, segundo se diz, nos cadáveres. Ele recusava essa ideia. Expulsava-a do espírito. E não era preciso grande esforço para detectar nessa recusa uma parcela não só de ódio mas de ressentimento - como se estivesse invejoso, simples e loucamente invejoso, daquelas insuportáveis
Fleurs du Mal que tinham a pretensão de sobreviver, enquanto ele... ele ia morrer. Juntando uma coisa à outra, esta singular rivalidade às suas dúvidas e perplexidades antigas, o seu ódio redobrou. Mas agora contra si próprio. Contra os seus versos e o seu talento. Contra essa parcela «belga» que havia nele - como nos outros, mais que nos outros.

"Os últimos dias de Charles Baudelaire", Bernard-Henri Lévy, tradução de António Guerreiro, Círculo de Leitores, 1990

Conhecer o inimigo (2)



Fonte: Fauna Ibérica - Lobo ibérico (Canis lupus signatus).

Conhecer o inimigo (1)



Fonte: Fauna Ibérica - Lobo ibérico (Canis lupus signatus). (Viva o lobo ibérico!)

Aqui começa uma nova série, sobre muitos lobos de outras tantas histórias.

Blogosphere

Pretendendo participar na blogosfera escrita em língua inglesa, o primeiro problema é a quantidade de blogs, o segundo a falta de "âncoras" (assim como nos centros comerciais) que sirvam de ponto de partida. Antigamente - há alguns anos, pode já dizer-se - havia blogs portugueses que faziam referências a blogs em inglês, mas muitas das vezes apenas porque defendiam hiperbolicamente as mesmas ideias dos correspondentes nacionais. Não fixei nenhum.

Noto agora que há qualquer coisa de claustrofóbico com a blogosfera portuguesa. Ela traduz-se, por exemplo, na ligação a pouco mais do que um blog, e em apenas dois blogs portugueses a terem um número significativo de ligações à blogosfera brasileira.

Os interesses declarados no Blogger e as tags poderiam dar uma ajuda, mas cada sub-universo é ainda grande demais. Surge nesta altura das ruminações a possibilidade de usar aquelas técnicas de spam que vemos em tantas caixas de comentários... A golden rule não deixa dúvidas.

Quem foi mesmo que disse "think globally, act locally"? Humm...

Reunião de "humanistas"

Distintivos do grupo? Não há yuppies. Não está mal...

Depois do trânsito

Se:

- os níveis de sinistralidade nas estradas são excessivamente elevados;
- há automóveis a mais nas cidades;
- os acidentes implicam, muitas vezes, engarrafamentos e o consequente desperdício de tempo...

por que é que não se aumentam as penas de proibição da condução?

(Vincent van Gogh, Still Life with a Statuette)

Últimos dias (1)

Creio que o que me tocou, mesmo antes de discernir o próprio sentido do que ele tinha para me dizer, foi a sua voz. O seu ritmo. Aquele acento repentinamente rouco, tropeçante, cheio de gemidos, de estretores e de silêncios, um pouco como durante as suas crises - só que a crise parecia agora crónica. Em seguida foi o seu timbre, invulgarmente abafado, sufocado, despojado da cor e da música que eram até há pouco o seu encanto. Um tom desiludido. Desesperado. O tom de alguém que durante muito tempo se satisfez com palavras mas que de súbito vê claro e não menos claramente o diz - e que essa lucidez mergulha numa infinita tristeza. Depois, foi sobretudo algo ainda mais estranho, a desordem do seu discurso, uma frase sobrepondo-se a outra, um pensamento expulsando o precedente, tudo isto mais soluçado que enunciado, gemido ou gritado, mais do que falado. Um desregramento de ideias. Uma irrupção de palavras, aliás novamente apaixonantes, onde eu o reconhecia inteiro - mas sem que ele se preocupasse, desta vez, nem em ter nexo, nem em ser convincente, nem em me ajudar a segui-lo e a tomar notas.

Se eu procurar, com certo distanciamento, recompor aquela sequência de ideias, de imprecações, de fulgurâncias, verifico, em primeiro lugar, uma série de reflexões acerca daquilo a que ele chamava o fim da literatura. Os jovens são extravagantes, dizia ele... Vêem uma coisa... À sua frente... Nem por um segundo imaginam que ela nem sempre lá tenha estado, nem que possa lá não estar para sempre... Assim é com a literatura... Acreditam-na eterna... Acreditam que haverá sempre livros e pessoas para os escrever... Que erro!... Que ingenuidade!... Como se os homens não tivessem
vivido sem livros... Como se a ausência de livros não tivesse sido, durante séculos e séculos, o estado normal da humanidade... A literatura, surgida tão tarde... Depois da pintura, da escultura, da música... Depois de todas as artes, sem excepção, a terem precedido e lhe terem dado as suas dimensões... Pois bem, o que foi, será... Essas artes que a precederam vão, muito provavelmente, sobreviver-lhe... E ele estava em condições de me anunciar que aqueles livros pelos quais tínhamos tanto apreço não tardariam a regressar ao nada que foi durante muito tempo o seu destino... Bastava que eu o escutasse... Que olhasse à minha volta... Bastava que observasse o singular descrédito que começava já a abalar o próprio nome do poeta... «Nós somos os últimos, meu amigo... Os últimos... Ou então, o que vem a dar no mesmo: os primeiros na decrepitude da nossa arte.»

"Os últimos dias de Charles Baudelaire", Bernard-Henri Lévy, tradução de António Guerreiro, Círculo de Leitores, 1990

(continua)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Últimos dias (0)

Charles Baudelaire morreu numa pensão belga, vítima da sífilis. Bernard-Henri Lévy retrata-o através dos olhos de um admirador que o acompanha nos seus últimos dias.

Que teria eu feito para merecer tal desagrado? Seria o meu crime assim tão grande? A minha credulidade assim tão censurável? Aquele momento de ingenuidade, afinal tão anódino, que se devia, ele sabia-o muito bem, à confiança cega que eu tinha nele, seria suficiente para aniquilar toda a nossa maravilhosa cumplicidade? Tal ideia parecia-me inacreditável. Pior, ela escandalizava-me. Sim, eu começava a achar inacreditável e escandaloso o capricho - não encontrava outra palavra - de um homem a quem tinha servido durante cinco dias com tanta devoção e que me agradecia tratando-me como um lacaio ou um foliculário. Decepção. Amargura. Cólera, também. Humilhação. Por muito grande que fosse, ninguém tinha o direito de se conduzir daquele modo. Por muito Baudelaire que se acreditasse ser, não tinha o direito de tratar com aquela leviandade o autor do Rêve d'Aristote e das Dix Petites gloses pour servir à l'idée de modernité; podia fazer-me tudo, dizer tudo, eu estava pronto a ouvir as censuras mais veementes, o despedimento mais brutal - mas não aquela indiferença, aquele mutismo, para os quais nada nem ninguém me tinha preparado.

Estava no auge das minhas ruminações. Estava à beira de rebentar, de me insurgir. Tinha aversão àquele velho ingrato, entrevado, que de repente se comportava mal. Dizia a mim próprio que aquela maldade gratuita era talvez, no fundo, o sinal anunciador de uma senilidade próxima. Cúmulo da blasfémia, surpreendi-me mesmo a pensar que era essa a fonte de todos os seus males, de todas as suas infelicidades diversas e variadas que ele me contava desde há cinco dias... ele tinha-a procurado, afinal... não se lhe tinha furtado... Quem sabe se todas aquelas histórias vis que circulavam a seu respeito não tinham aqui o seu fundamento, a sua verdade?... Tais eram, pois, os meus sacrílegos pensamentos. Estava eu prestes a guardar as minhas canetas, a fechar o caderno e a fazer as minhas despedidas quando ele quebrou finalmente o seu silêncio. Era meio-dia. Eu iria compreender que todo aquele azedume, todo aquele ódio, não me eram tão destinados quanto o havia imaginado.


"Os últimos dias de Charles Baudelaire", Bernard-Henri Lévy, tradução de António Guerreiro, Círculo de Leitores, 1990

(continua)

(Jean-François Millet, Folhas de Outono)

domingo, outubro 29, 2006

Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.


Fernando Pessoa, O Jornal, 8-4-1915 (excertos)
in "O Banqueiro Anarquista", Fernando Pessoa, Antígona.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Brumes et pluies

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
- Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.


(Charles Baudelaire)

sábado, outubro 21, 2006

Registo

19.10.06 - Suspensão das actividades das ONG estrangeiras na Rússia.

(Sabemos como começa, não sabemos como pode acabar - ou sabemos? E a Rússia ainda é uma superpotência nuclear... Por isso, esta é uma boa oportunidade para a diplomacia das democracias ocidentais dar um ar da sua graça.)

domingo, outubro 15, 2006

terça-feira, outubro 10, 2006

Cuidados


(Vincent van Gogh)

1. Para se levar um livro com paperback para qualquer lado, uma capa improvisada é muito recomendável. Mesmo que os curiosos dos títulos alheios fiquem desiludidos por não terem a curiosidade satisfeita. O Sr. Gulbenkian tinha razão: livros em bom estado são outra coisa.

2. É tudo admirável: a disciplina do calendário, o grupo formado pelo interesse comum, o conceito original do blog de complemento à leitura. E as escolhas dos livros. Este mês a pastora também vai seguir a Leitura Partilhada e tudo o que forem descobrindo sobre o extraordinário livro de Borges.

segunda-feira, outubro 09, 2006


(Eleanor Fortescue-Brickdale)

Not to rage against the dying of the light

Um blog pouco activo pode ser metáfora dos últimos dias de uma vida. As forças a esvaírem-se, no estertor. O jejum como método de purificação. Algumas últimas visitas, sussurantes. A pobre ceifeira que cantava terá campa rasa sem inscrições. Outras vidas, outros blogs poderão continuar, algures, fruto do mesmo ímpeto. Traços curtos, paralelos, contribuem para o padrão de uma caixa de música que toca incessantemente.

Entretanto, lá fora, a cacofonia continua. Miríades de opiniões e de certezas. A ignorância e a intolerância continuam. Contra elas, apetece o proselitismo, mas é um esforço inútil.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos." Por que não são só os direitos? O que está a "dignidade" a fazer naquela frase? Repudiou-se a escravatura, as castas e o sangue azul de direito divino. Mas a desigualdade de oportunidades e a exploração continuam e, por isso, a igualdade na dignidade é uma miragem.

Novos cogumelos nucleares ameaçam o horizonte. Os actuais detentores de bombas cederam nos princípios que herdaram e não temem o juizo da história. A rota é, portanto, para o desastre.

Um pessimista é um optimista informado? A internet é uma fonte inesgotável de informação. A vida real faz o resto.

quinta-feira, outubro 05, 2006

sexta-feira, setembro 29, 2006

Full of Life Now

Full of life, now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the States,
To one a century hence, or any number of centuries hence,
To you, yet unborn, these, seeking you.

When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were, if I could be with you, and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)


(Walt Whitman)

quinta-feira, setembro 28, 2006

Mulher a ler


Pierre Auguste Cot, Pause for Thought (Ophelia), 1870

A primeira mulher a ler que por aqui apareceu era, se não me engano, uma miuda sardenta vestida de cor-de-laranja, a ilustrar uma entrada sobre livros que falavam de livros. Depois, a pastora começou a achar graça às mulheres a ler, por serem tão pouco conformes ao ideal do eterno feminino de outros séculos, da mulher a seduzir, a fazer sala e a cuidar dos filhos e da casa. As mulheres de há duzentos ou trezentos anos que liam cartas e livros em arrumadas casas flamengas ou ao ar livre na América eram símbolo de um progresso civilizacional que se quis retratar.

De tempos a tempos, passam na televisão reportagens de todo o mundo de crianças que não vão à escola. É uma situação tão conhecida que o que choca mesmo é a nossa habituação e resignação. Os números da Unicef não deixam margem para dúvidas: as raparigas são sempre as principais vítimas do analfabetismo. Mas pensamos que esse mundo é muito longe. Só que ainda se encontram, em Lisboa, senhoras que nos perguntam o número do autocarro seguinte. E o que fazemos para remediar isto? Pouco. Por exemplo, a 28 de Setembro, depois de o ano lectivo ter começado há muito, o Ministério da Educação não teve ainda a coragem para dizer se, sim ou sopas, vai haver ensino recorrente este ano. Como se não bastasse o pouco caso com que são tratados os trabalhadores-estudantes neste país. Enfim... adeus, progresso, até depois.

terça-feira, setembro 26, 2006

quinta-feira, setembro 21, 2006

Planura

A morte parecia ser o único fim razoável para semelhante carreira; mas a morte é apenas um salto para a região do estranho desconhecido; não passa da entrada do imenso remoto, do fantástico, do aquático, do sem alicerces. Assim, para esses homens que suspiram pela morte, mas a não desejam e não podem suicidar-se, o oceano, o participante inúmero e o acolhedor eterno, exibe com sedução os sedutores e inconcebíveis terrores da sua planura; do coração dos Pacíficos infinitos, milhares de sereias lhe cantam:

«Vem para cá, coração despedaçado; aqui vivemos uma morte intermédia; aqui podemos ter, sem morrer, maravilhas sobrenaturais. Vem para cá! aniquila-te numa vida odiada pelo seu mundo terreno e que dela penso o mesmo; ofereço ainda mais esquecimento que a morte. Vem para cá! Levanta a tua própria lápide no cemitério, e vem para cá casar-te comigo!»

Ouvindo estas vozes vindas do leste e do oeste, da alvorada ao crepúsculo, o espírito do ferreiro respondeu: «Pois bem; aqui me tens!» E foi assim que Perth foi pescar a baleia.


(Herman Melville)

terça-feira, setembro 19, 2006

Liberdade de expressão?


Maomé, montando Buraq e na companhia do anjo Gabriel, visita o Inferno. Vêem mulheres penduradas pela língua por um demónio verde, por se terem rido dos seus maridos e terem saído de casa sem permissão. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive.

America

Centre of equal daughters, equal sons,
All, all alike endear'd, grown, ungrown, young or old,
Strong, ample, fair, enduring, capable, rich,
Perennial with the Earth, with Freedom, Law and Love,
A grand, sane, towering, seated Mother,
Chair'd in the adamant of Time.


(Walt Whitman)




Gravação de 36 segundos, em cilindro de cera, do que se pensa ser a voz de Walt Whitman lendo quatro linhas do poema "America". (The Walt Whitman Arquive)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Leaves of Grass



Capa da edição americana de 1855.

Desculpas?


Maomé, montando Buraq, voando sobre o Paraíso, observa as conhecidas houris ("virgens" prometidas aos heróis e aos mártires) colhendo flores e entretendo-se. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive.

Sim, desculpas sobre o tratamento das mulheres também seriam bem-vindas.

sábado, setembro 16, 2006

Sabor amargo


"Torture is not always impermissible. However rare the cases, there are circumstances in which, by any rational moral calculus, torture not only would be permissible but would be required (to acquire life-saving information). And once you've established the principle, to paraphrase George Bernard Shaw, all that's left to haggle about is the price. In the case of torture, that means that the argument is not whether torture is ever permissible, but when--i.e., under what obviously stringent circumstances: how big, how imminent, how preventable the ticking time bomb." (Charles Krauthammer, 12/05/2005, The Weekly Standard)

*

É um miúdo. Está sentado à minha frente a beber café. É um miúdo, mas uma parte teve de crescer à força.

Foi torturado. Mostra-me as marcas. (Os patifes estavam à vontade.) Diz-me que não falou. Penso que poderia ter sido pior, bem pior, mas que sei eu?

A forma como foi recrutado é típica: uma vítima na família. Vê o mundo de uma forma muito mais simples do que eu, mas não conseguiria convencer-me de que é menos válida. A organização a que pertenceu é responsável por mortes. Foi, sem dúvida, uma guerra, pelo menos no sentido comum do termo. Só com "combatentes irregulares", sem convenções de Genebra, com carta branca para a barbárie. (Não compreendo a necessidade de redundância de textos jurídicos. O artigo 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e a sua implementação a todos os níveis não seriam suficientes?)

Mergulho nos meandros da história do direito, da filosofia do direito, procurando uma forma de justificar o fim da tortura. Ainda não encontrei o que procurava. O debate em torno da emenda do senador McCain é demasiado circunstancial. Continuam a ser salvaguardadas as "circunstâncias excepcionais" e os "valores maiores". Vamos prevenindo os eventuais milhares, ou centenas, ou dezenas de vítimas de atentados em planeamento, mas a que preço? À custa do estado de direito, das liberdades e garantias, dos direitos do Homem, de pilares da nossa civilização.

domingo, setembro 10, 2006

Agradecimento

Pelos comentários aqui deixados que me obrigaram (mesmo - "imperativo categórico") a aprender mais: muito obrigada!

sexta-feira, setembro 08, 2006

Mulher a ler


Pintura flamenga, c. 1550

Ainda há esperança

Uma boa descoberta: um bookcrossing spot em Lisboa! Ou, como lhe chamam, "Crossing Zone".

Mote: «E caíram nos braços um do outro»

Diz uma lenda que, em dois montes da Ponta Leste, viviam dois clãs há muito desavindos. Calhou que o filho do chefe de um dos clãs se apaixonasse pela filha do chefe do outro clã, e que fosse correspondido. (Tema universalmente glosado...) Os dois jovens queriam casar-se, e sabiam que não seria a falta de búfalos para o barlaque que os impediria. O que temiam, e se verificou, foi a oposição intransigente das duas famílias. Sem outra solução, os dois foram até ao extremo de um penhasco, enrolaram-se num tais-mane, e saltaram. E caíram, nos braços um do outro.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A escada da tortura

(reedição)

«Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

  • Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
  • Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
  • Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
  • Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
  • Torturaria você mesmo o indivíduo?
  • Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
  • Publicitaria o facto de ser um torturador?

    *

    A escada da tortura


    1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

    2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

    3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturar o amigo/parente para descobri os planos do bombista.

    4. Um indivíduo relata que alguém partilha as mesmas opiniões políticas que o bombista. Temos de torturar esse aliado político para descobrir outros que o apoiem.

    5. Um indivíduo recusou-se a dizer à polícia onde está um suspeito. Esta pessoa tem de ser torturada para garantir que outros não se atrevem a fazer a mesma coisa.

    *

  • Onde colocaria o limite? Quando, se alguma vez, é que a tortura se justifica?
  • Pode justificar-se violar os direitos humanos de um indivíduo em algumas situações?
  • Como quer que a polícia ou os militares do seu país respondam a este tipo de situação?»


    (fonte)

    Ver também:
    Instruments of Torture/Historical Torture Museum.
  • sexta-feira, setembro 01, 2006

    O Líbano antes das guerras (II)

    «[...] O aliciante daqueles trapos não bastava para que a minha mãe se sentisse à vontade no Líbano, vivia com a sensação de estar prisioneira da sua própria pele. As mulheres não deviam andar sozinhas, no meio de uma confusão qualquer uma mão viril desrespeitosa podia surgir para as ofender, e se tentavam defender-se eram apupadas por um coro de gracejos agressivos. A dez minutos da nossa casa havia uma praia interminável de areia branca e mar tépido, que convidava a refrescar-nos na canícula das tardes de Agosto. Devíamos tomar banho em família, num grupo fechado, para nos protegermos das manápulas dos outros banhistas; era impossível deitarmo-nos na areia, equivalia a chamar a desgraça, mal tirávamos a cabeça fora da água corríamos para nos refugiar numa barraca que alugávamos para esse fim.»

    (Isabel Allende)



    Maomé, montando Buraq e na companhia do anjo Gabriel, visita o Inferno. Vêem um demónio a castigar "mulheres desavergonhadas" que expuseram o seu cabelo à vista de estranhos. Por este crime de incitação à luxúria nos homens, as mulheres são penduradas pelo cabelo e queimadas por toda a eternidade. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive (excelente!).

    O Líbano antes das guerras

    «O Líbano dos anos 50 era um país florescente, uma ponte entre a Europa e os riquíssimos emirados árabes, cruzamento natural de várias culturas, torre de Babel onde se falava uma dúzia de línguas. O comércio e as transacções bancárias de toda a região pagavam o seu tributo a Beirute, aonde chegavam por terra caravanas a abarrotar de mercadorias, pelo ar os aviões da Europa com as últimas novidades e por mar os barcos que tinham de esperar vez para atracar no porto. Mulheres cobertas de véus negros, carregadas com volumes, arrastando os filhos, andavam apressadas pelas ruas sempre com a vista baixa, enquanto os homens ociosos conversavam nos cafés. Burros, camelos, autocarros apinhados de gente, motocicletas e automóveis paravam simultaneamente nos semáforos, pastores com as mesmas vestes dos seus antepassados bíblicos cruzavam as avenidas conduzindo manadas de ovelhas a caminho do matadouro. Várias vezes por dia, a voz aguda do muezim chamava à oração desde os minaretes das mesquitas, fazendo coro com os sinos das igrejas cristãs. Nas lojas da capital oferecia-se o melhor do mundo, mas o mais atraente para nós era percorrer os zuks, labirintos de vielas estreitas marginadas por um sem fim de vendas onde era possível comprar desde ovos frescos até relíquias faraónicas. Ah! o cheiro dos zuks! Todos os aromas do planeta fluíam por aquelas ruazinhas, tufos de exóticos manjares, fritos em gordura de borrego, pastéis de massa folhada, nozes e mel, sargetas abertas onde flutuavam lixo e excrementos, suor de animais, tinturas de peles e cabedais, asfixiantes perfumes de incenso e patchouli, café acabado de ferver com sementes de cardamoma, especiarias do Oriente: canela, cominhos, pimenta, açafrão...»

    (Isabel Allende)