terça-feira, maio 13, 2008

Em memória de Irena Sendler

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[...] Chris abateu a cabeça sobre a mesa e rompeu a chorar; as lágrimas e a saliva sufocavam-no. Pousou uma das mãos no relatório. Ergueu a cabeça. Recobrou o domínio de si próprio e debruçou-se sobre a primeira página.


RELATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES JUDAICAS ASSOCIADAS SOBRE OS CENTROS DE EXTERMÍNIO EM ACTIVIDADE NA ÁREA DO GOVERNO-GERAL DA POLÓNIA, EM JULHO DE 1942.

Podemos declarar com firmeza que existem na área do Governo-Geral quatro centros criados com o único propósito de proceder a exterminações colectivas. Além destes, existem mais dois campos que servem simultaneamente para concentração e extermínio. Foram criados quinhentos campos de trabalho escravo na Polónia, dos quais cento e quarenta são destinados aos Judeus. Todos eles contêm diversos meios de assassínio.

A única conclusão a tirar é que o plano geral alemão em curso visa a destruição absoluta do povo judaico. No princípio, inanição colectiva, epidemias e execuções dizimaram dezenas de milhares de pessoas nos diferentes ghettos. Após a invasão da Rússia, Kommandos pertencentes a quatro grupos de acção especial chacinaram várias centenas de milhares de judeus. O ponto culminante do plano é agora o assassínio em massa. Deve concluir-se que tal plano não pode provir senão de Hitler, com a colaboração de Himmler e de Heydrich. A sua execução é efectuada pelo chamado Departamento 4-B da Gestapo (assuntos judaicos), sob a direcção do tenente-coronel Adolfo Eichmann.

Os centros de extermínio estão situados em terminais dos caminhos de ferro e geralmente em áreas isoladas. Os seus guardas pertencem às Waffen SS e com eles cooperam auxiliares ucranianos e baltas. Para realizar esta operação é utilizada uma quantidade enorme de planos, materiais e mão-de-obra, numa altura em que a Alemanha está a conduzir uma guerra em várias frentes. Por exemplo: os vagões de caminho de ferro devem ser usados de preferência no transporte de material de guerra para a frente russa; contudo, a deportação de judeus dos países ocupados para a Polónia parece ter prioridade sobre as necessidades do exército. Além disso, milhares de engenheiros, de cientistas, de técnicos, estão ligados a esta operação, bem como mão-de-obra, de que existe uma necessidade desesperada. Podemos calcular com precisão que o concurso de duas a três centenas de milhares de homens está directa ou indirectamente envolvido neste plano. Todo este esforço testemunha a vontade demencial dos nazis, assim como a gravidade da nossa situação.

Todos estes campos funcionam segundo um padrão básico. É observado o embuste e mantido o segredo. Isto certamente indica que os nazis têm consciência do mal que praticam. Em cada campo, os deportados são encaminhados, logo que chegam, para os centros de selecção. Uns poucos são enviados para trabalho escravo. Os restantes, incluindo mulheres e crianças de tenra idade, são conduzidos para um «centro sanitário», com a ilusão de que aí vão tomar um duche de desinfecção. Rapam-lhes o cabelo. Os guardas representam até ao fim o seu papel nesta tragicomédia; entregam um pedaço de sabão (que depois se averigua ser uma pedra) a cada vítima, indo ao extremo de lhes dizerem que tomem bem conta do número do cabide em que têm o vestuário dependurado. Muitas mulheres tentam esconder as crianças nas roupas ou mesmo lançá-las dos comboios, para os camponeses, mas são quase sempre descobertas.

Quando os ocupantes se encontram já no interior do «centro sanitário», é fechada uma porta de ferro e um guarda abre as torneiras do gás. Os primeiros gaseamentos eram feitos com monóxido de carbono que se escapava dos motores. Porém, este método revelou-se lento e dispendioso, devido à gasolina utilizada. Assim, a Companhia de Insecticidas de Hamburgo preparou uma mistura de ácido prússico denominada Cyclon B. A morte não demora mais do que alguns minutos.

Os trabalhadores escravos judeus limpam as câmaras e removem os cadáveres para os crematórios, onde são queimados. A princípio a cremação efectuava-se em valas ao ar livre, mas o fedor era insuportável. Os trabalhadores judaicos perdem, geralmente, a razão volvidas poucas semanas.

Existem muitas variantes, mas este é o padrão geral. Os dentes de ouro são arrancados dos cadáveres antes de os queimarem. Qualquer objecto de valor que porventura se encontre é destinado ao esforço de guerra alemão. Tudo o mais - vestuário, óculos, sapatos, membros artificiais, mesmo bonecas - é depositado em armazéns e depois examinado, a fim de verificar se há objectos escondidos. Os cabelos são empacotados e expedidos para a Alemanha, a fim de serem utilizados na confecção de colchões e na manufactura de periscópios de submarinos. Num campo os cadáveres são feitos ferver para se lhes extrair a gordura, que é empregada no fabrico de sabão.

Afora os campos polacos, temos razões para acreditar que vários campos na Alemanha dispõem de meios de extermínio. Dachau, entre outros, é usado como «centro médico experimental». Seres humanos são forçados a submeter-se a várias experiências, tais como enxertos dos ossos, transplantação de órgãos, testes sobre a resistência para além de todos os limites humanos em matéria de congelação, choques eléctricos, etc. Em todos os campos, quer sejam de trabalho, quer de extermínio, as indignidades, violências de toda a ordem, tortura e violação são moeda corrente, conforme se verificará nas folhas anexas.

Servindo-se dos seus meios habituais de extermínio, os Alemães são capazes de assassinar um mínimo de cem mil pessoas num só dia na Polónia. Não possuímos os números referentes às que são mortas no interior da Alemanha. Os campos polacos operam, correntemente, até ao limite da sua capacidade de extermínio. Estão a ser construídas novas câmaras de gás e crematórios a fim de a média geral ser aumentada.

Eis os campos polacos:

DISTRITO DE LUBLIM.

Belzec - Situado na via férrea Lublim-Tomaszow, perto de Rawa Ruska. É alimentado por judeus da área Lwow-Lemberg. Capacidade: dez mil por dia.

Sobibor - Perto de Wlodawa, entre Wlodawa e Chelm. Crê-se que a capacidade é de seis mil por dia.

Majdanek - Um dos primeiros campos de concentração nos subúrbios de Lublim, em Majdan-Tartarski, sob a direcção pessoal de Odilo Globocnik, GruppenFührer das SS na Polónia. A capacidade excede dez mil por dia.

POLÓNIA OCIDENTAL.

Chelmno - O centro de extermínio mais antigo (em actividade nos fins de 1941), a 15 quilómetros de Kolo, na via férrea entre Lodz e Poznan, destinado ao extermínio de judeus da Polónia Ocidental.

POLÓNIA CENTRAL.

Treblinka - O mais recentemente descoberto pela organização clandestina, situado na província Sokolow Podlaski, perto de Varsóvia. Liquidação de judeus do ghetto de Varsóvia, bem como de Radom, Bialystok, Grodno, do Báltico, de Czenstochowa, de Kielce.

POLÓNIA MERIDIONAL.

Auschwitz - Situado nas cercanias da aldeia silesiana de Oswiencim. O campo de concentração possui uns cinquenta campos de trabalho satélites. Os meios de extermínio encontram-se num complexo denominado Birkenau. A sua capacidade excede quarenta mil por dia. Ciganos, prisioneiros de guerra russos, presos políticos, de delito comum e outros são liquidados aqui, assim como judeus.


RELATÓRIO SUPLEMENTAR N.º 1

Por Jan, no campo de extermínio de Majdanek, em Lublim

Consegui entrar em Majdanek sob o disfarce de operário polaco, um entre as centenas de homens que se ocupam em trabalhos de construção nos recintos exteriores, contíguos ao campo.

Às 7 horas da manhã deixei Lublim com um grupo denominado «Leopold». A galera que nos transportava fez alto no terminal ferroviário, que fica afastado cerca de 1 quilómetro da entrada principal do campo. O terminal encontra-se ao lado da estrada principal. Sentámo-nos, à espera, enquanto alguns milhares de judeus romenos eram conduzidos pela estrada rumo ao portão do campo.

Uma fila de furgões da Cruz Vermelha aguardavam ao longo do edifício da gare. Guardas alemães enchiam esses furgões com pessoas idosas, inválidos, crianças de tenra idade e outros incapazes de percorrer 1 quilómetro a pé. Leopold disse-me que estes furgões da Cruz Vermelha eram, na realidade, selados e seria impossível a alguém evadir-se deles. Uma vez em movimento, o monóxido de carbono proveniente do escape era reencaminhado para os furgões, de modo que, mal chegavam a Majdanek, os seus ocupantes se encontravam já mortos.

(Nota. - Este método fora utilizado tanto em Chelmno como em Treblinka, mas puseram-no de parte em virtude de ser lento e dispendioso.)

Entrei no recinto exterior às 8 horas, por um portão no qual estava afixado o seguinte dístico: O TRABALHO LIBERTA. A minha brigada trabalhava num abarracamento no campo exterior, a 50 metros do campo interior, e que era usado por um contingete de guardas. Consegui instalar-me no telhado de uma construção de dois andares, num recanto resguardado, donde observava as proximidades graças a um binóculo de campanha que trouxera na caixa que continha o meu almoço.

Devo declarar que, segundo os meus cálculos, a superfície total do campo era de 600 ou 700 acres. A contar da sua extremidade mais próxima, distava somente cerca de quilómetro e meio de Lublim. O campo exterior continha os abarracamentos dos guardas, a casa do comandante, um depósito geral, uma garagem e outras edificações de serviço de carácter permanente.

O recinto interior compunha-se de quarenta e seis barracas de madeira do tipo usado pelos alemães para os seus estábulos militares. O ar e a luz penetravam por uma fieira estreita de clarabóias. Disseram-me que cada barraca continha cerca de quatrocentos prisioneiros. O que significa, evidentemente, que se encontram apertadíssimos, com espaço apenas para as tarimbas e dispondo de um estreito corredor de acesso à porta.

O recinto interior está cercado por um muro duplo de arame farpado com 5 metros de altura. Entre os dois muros os ucranianos fazem, com lobos-da-alsácia, patrulhas constantes. Disseram-me que, à noite, o muro da parte de dentro é electrificado.

Altas torres de vigia, providas de holofotes e metralhadoras, erguem-se de 25 em 25 metros ao longo do muro exterior.

Leopold chamou-me a atenção para a série de barracas que se encontravam mais próximas de nós. Disse-me que eram os depósitos. Os judeus romenos que eu vira antes no terminal ferroviário achavam-se já na primeira barraca, onde funcionava um centro de selecção. Somente alguns haviam sido conduzidos para o campo. Os restantes atravessaram um terreno plano e aberto em direcção a uma edificação em cuja fachada pude distinguir claramente a inscrição: CENTRO SANITÁRIO.

O «centro sanitário» é bem vistoso; à sua volta vêem-se relvados, árvores e flores.

Depois de terem sido reunidas quatrocentas pessoas, o desfile da multidão formada em bichas junto do depósito foi interrompido, e o grupo dos quatrocentos foi introduzido no «centro sanitário». Cerca de dez minutos depois ouvi uma série de gritos de horror que não duraram mais de dez ou quinze segundos. O «centro» foi depois invadido por prisioneiros judaicos (Sonnderkommandos), que, disseram-me, limpam a câmara e removem os pertences pessoais das vítimas para o segundo depósito, onde são examinados.

Dez minutos após a primeira gaseagem, os prisioneiros judeus trouxeram os cadáveres para fora. Pude vê-los distintamente. Tratava-se dos quatrocentos que tinham entrado vinte minutos antes. Em veículos parecidos com trenós, os cadáveres eram empilhados à razão de seis a oito por «trenó» e os veículos puxados pelos prisioneiros judeus. Os Sonnderkommandos saíam do campo interior por um portão que dava para uma estrada lateral de cerca de 1 quilómetro que subia uma pequena elevação. No cimo havia um vasto edifício com uma alta chaminé. Consegui ver tudo isto também graças ao meu binóculo de campanha.

Este processo de extermínio pelo gás demorava trinta minutos para quatrocentas pessoas. No primeiro dia da minha observação efectuaram-se doze gaseagens, em que foram liquidadas aproximadamente quatro mil e oitocentas pessoas. No segundo dia contei vinte, ou seja, oito mil pessoas, e no terceiro dezassete, em que pereceram seis mil e oitocentos seres humanos. Disseram-me que num período de vinte e quatro horas chegavam a registar para mais de quarenta gaseagens, e nunca menos de dez.

Leopold e outros trabalhadores tinham efectuado reparações na câmara de gás e no crematório. Ele contou-me que a câmara é um compartimento de tecto baixo de 4 metros por 12. Assemelha-se, em todos os pormenores, a um balneário, sendo porém, falsas as cabeças dos chuveiros. Um só SS pode controlar o volume de gás através de uma janela de observação provida de barras. Leopold e uma brigada de trabalhadores têm de entrar na câmara de tantas em tantas semanas a fim de refazerem a superfície de cimento, que é freneticamente rasgada pelas unhas das vítimas ao tentarem escapar.

Leopold colaborou também na construção do crematório, logo que foi abandonado o processo de incineração dos cadáveres nas valas ao ar livre, devido ao cheiro nauseabundo. Após a chegada dos trenós ao crematório, os cadáveres são colocados em cima de uma mesa, onde os guardas os examinam a fim de procederem à extracção dos dentes de ouro; em seguida abrem os corpos, que sangram para um tubo de drenagem, não tivessem as vítimas engolido ouro ou outros objectos de valor. Depois os cadáveres são transportados para um compartimento contíguo e colocados numa das cinco fornalhas aí existentes, cada uma das quais pode conter de cinco a sete corpos de cada vez. Aos braços e às pernas, quando são compridos de mais, cortam-nos. A cremação dura minutos. Os ossos são retirados das grelhas, pelo lado oposto. Com o meu binóculo pude distinguir montes de ossos da altura de uma casa de dois pisos. Leopold disse-me que, recentemente, ao proceder à reparação das fornalhas, verificou que fora instalada uma máquina trituradora de ossos. O pó resultante dos ossos era ensacado e expedido para a Alemanha, onde o utilizavam como fertilizante.

(Leon Uris, "Miła 18")

Registo

Quando é em massa, torna-se banal?

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"A minha filha mereceu morrer por se apaixonar"
HELENA TECEDEIRO

Pai esfaqueou rapariga por falar com soldado

Abdel-Qader Ali não tem dúvidas: o mínimo que a filha merecia era morrer. O crime da rapariga de 17 anos? Ter-se apaixonado por um dos 1500 soldados britânicos estacionados na cidade iraquiana de Baçorá. "Se eu soubesse no que ela se ia transformar, tê-la-ia matado logo que a mãe a deu à luz", garantiu este funcionário público xiita, numa entrevista ao semanário britânico The Observer.

Dois meses depois de a morte de Rand Abdel-Qader - sufocada e esfaqueada pelo pai e irmãos a 16 de Março - ter chocado o mundo, Abdel-Qader Ali continua em liberdade. Foi no jardim da sua casa que o homem de 46 anos recordou como teve "o apoio dos meus amigos que também são pais e sabem que o que ela fez é inaceitável". A própria polícia, que chegou a deter Abdel-Qader umas horas, deu-lhe razão. "Todos sabem que os crimes de honra são impossíveis de evitar", disse o iraquiano, segundo o qual "os agentes ficaram ao meu lado o tempo todo a dar-me os parabéns pelo que fizera".

Rand Abdel-Qasser terá conhecido Paul, um militar britânico de 22 anos, numa acção de caridade na cidade do Sul do Iraque, em que ambos participavam como voluntários. Como qualquer adolescente apaixonada, apressou-se a contar tudo à melhor amiga Zeinab. "Ela gostava de falar do seu cabelo louro e olhos cor de mel, da sua pele branca e da sua maneira suave de falar", recordou a rapariga de 19 anos em declarações ao Daily Mail. Para as amigas, o britânico era "muito diferente dos homens de cá, rudes e analfabetos".

Estudante de Inglês na Universidade de Baçorá, Rand tinha a vantagem de poder falar com Paul sem intermediários. E rapidamente começou a usar todos os argumentos possíveis para prolongar o seu trabalho de voluntariado, que lhe dava a oportunidade de estar com ele.

Uma paixão que podia até nem ser retribuída. De facto, Rand e Paul não se terão encontrado mais de meia dúzia de vezes e sempre em locais públicos. "Ela nunca fez nada para além de falar com ele", garantiu Zeinab. Mesmo assim, esta não se cansou de alertar a amiga para os perigos desta amizade: "Disse-lhe vezes sem conta que ela era muçulmana e que a sua família nunca aceitaria que casasse com um soldado britânico cristão." Como confidente de Rand, era Zeinab quem guardava os presentes que este lhe oferecia, como um leão em peluche para o qual diz agora ser "difícil olhar".

E foi o que aconteceu. Quando o pai de Rand soube que a filha se andava a encontrar com o militar, perdeu a cabeça. "Entrou em casa com os olhos raiados de sangue e a tremer", recordou ao The Observer a mãe da rapariga. Quando viu o marido a sufocar a filha com o pé, Leila Hussein chamou os dois filhos, de 21 e 23 anos, para ajudarem a irmã. Mas quando o pai lhes disse o motivo da agressão estes ainda o ajudaram.

Considerada "impura", Rand não teve direito a funeral e os tios cuspiram sobre o seu corpo quando este foi lançado a uma vala. Incapaz de viver sob o mesmo tecto que o homem que matou a sua filha, Leila pediu o divórcio e está, desde então, escondida para evitar a vingança do marido. "Fui espancada e fiquei com o braço partido", disse a mulher, que agora trabalha para uma organização que denuncia os crimes de honra.

Em 2007, 47 mulheres foram mortas por terem violado "a honra" da família só em Baçorá e desde Janeiro deste ano a Comissão de Segurança da cidade garante que o número já vai em 36. Segundo a ONU, pelo menos cinco mil mulheres são anualmente vítimas de crimes de honra em todo o mundo, e, apesar de a maioria decorrer em países islâmicos, estão a acontecer cada vez mais a muçulmanas que vivem no Ocidente.

Apesar da presença britânica, Baçorá é em parte controlada pelas milícias, que definem regras estritas de comportamento. São elas quem impõem os códigos de vestuário, as práticas religiosas e determinam que a prostituição e a homossexualidade são puníveis com a morte.

(Diário de Notícias, 12/05/08)

Malditas praxes

Mais um ano letivo, mais uma temporada de praxes. Com trinta graus, andam com capas de lã e de collants aos berros durante horas e horas, a ...