quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Palme

De sa grâce redoutable
Voilant à peine l'éclat,
Un ange met sur ma table
Le pain tendre, le lait plat;
Il me fait de la paupière
Le signe d'une prière
Qui parle à ma vision:
— Calme, calme, reste calme!
Connais le poids d'une palme
Portant sa profusion!

Pour autant qu'elle se plie
À l'abondance des biens,
Sa figure est accomplie,
Ses fruits lourds sont ses liens.
Admire comme elle vibre,
Et comme une lente fibre
Qui divise le moment,
Départage sans mystère
L'attirance de la terre
Et le poids du firmament!

Ce bel arbitre mobile
Entre l'ombre et le soleil,
Simule d'une sibylle
La sagesse et le sommeil.
Autour d'une même place
L'ample palme ne se lasse
Des appels ni des adieux...
Qu'elle est noble, qu'elle est tendre!
Qu'elle est digne de s'attendre
À la seule main des dieux!

L'or léger qu'elle murmure
Sonne au simple doigt de l'air,
Et d'une soyeuse armure
Charge l'âme du désert.
Une voix impérissable
Qu'elle rend au vent de sable
Qui l'arrose de ses grains,
À soi-même sert d'oracle,
Et se flatte du miracle
Que se chantent les chagrins.

Cependant qu'elle s'ignore
Entre le sable et le ciel,
Chaque jour qui luit encore
Lui compose un peu de miel.
Sa douceur est mesurée
Par la divine durée
Qui ne compte pas les jours,
Mais bien qui les dissimule
Dans un suc où s'accumule
Tout l'arôme des amours.

Parfois si l'on désespère,
Si l'adorable rigueur
Malgré tes larmes n'opère
Que sous ombre de langueur,
N'accuse pas d'être avare
Une Sage qui prépare
Tant d'or et d'autorité:
Par la sève solennelle
Une espérance éternelle
Monte à la maturité!

Ces jours qui te semblent vides
Et perdus pour l'univers
Ont des racines avides
Qui travaillent les déserts.
La substance chevelue
Par les ténèbres élue
Ne peut s'arrêter jamais,
Jusqu'aux entrailles du monde,
De poursuivre l'eau profonde
Que demandent les sommets.

Patience, patience,
Patience dans l'azur!
Chaque atome de silence
Est la chance d'un fruit mûr!
Viendra l'heureuse surprise:
Une colombe, la brise,
L'ébranlement le plus doux,
Une femme qui s'appuie,
Feront tomber cette pluie
Où l'on se jette à genoux!

Qu'un peuple à présent s'écroule,
Palme!... irrésistiblement!
Dans la poudre qu'il se roule
Sur les fruits du firmament!
Tu n'as pas perdu ces heures
Si légère tu demeures
Après ces beaux abandons;
Pareille à celui qui pense
Et dont l'âme se dépense
À s'accroître de ses dons!


(Paul Valéry, Charmes)

domingo, fevereiro 15, 2009

Inglês técnico


A lagartixa, o lagarto e o crocodilo

A um canto, a lagartixa, o lagarto e o crocodilo palestravam em família. Cousa digna da atenção do filósofo é que a lagartixa via no crocodilo uma formidável lagartixa, e o crocodilo achava a lagartixa um crocodilo mimoso; ambos estavam de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem gênio (versão lagartixa) e um presumido sem graça (versão crocodilo).

— Quando lhe perguntaram pelos avós, observou o crocodilo, costuma responder que eles foram os mais belos crocodilos do mundo, o que pode provar com papiros antiquíssimos e autênticos...

Tendo nascido, concluiu a lagartixa, tendo nascido na mais humilde fenda de parede, como eu... Crocodilo de bobagem!

— Notai que ele fala muito do loto e do nenúfar, refere casos do hipopótamo, para enganar os outros, confunde Cleópatra com o Khediva, e as antigas dinastias com o governo inglês...

Tudo isso era dito sem que o lagarto fizesse caso. Ao contrário, parecia rir, e costeava a parede da arca, a ver se achava algum calor de sol.


(Machado de Assis, A semana)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

200 anos de razão



O mais revolucionário de todos os seres humanos: um coleccionador de detalhes de bichinhos e pequenas plantas e um argumentador infatigável. Grande vénia para o grande Charles Darwin!

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Um frango para dois comensais

Será o aumento do valor médio do rendimento per capita suficiente para caracterizar o progresso socioeconómico de uma sociedade? Poderia ser, se o dinheiro servisse só para comprar gravatas e conforto supérfluo. Mas serve também para aceder a cuidados de saúde: aos melhores ou aos mais básicos. O dinheiro não compra só mordomias num hospital privado. Compra também exames de diagnóstico caros ou tempos reduzidos em listas de espera.

Não é justo garantir ao banqueiro incompetente melhores cuidados de saúde do que ao diligente operário fabril. No entanto, esta injustiça é inevitável com a destruição do modelo social europeu.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Sondagens: montante e jusante

Como caracterizar quem tem paciência para responder a sondagens e inquéritos? Carola? Desocupado? Devoto?

Um especialista nacional em sondagens nunca tinha pensado na distorção provocada nos resultados das sondagens pela escolha de amostras de indivíduos com telefone fixo. Fascinante. Aposto que quem paga a realização e a publicação de resultados de sondagens também nunca pensou no efeito de "self-fulfilling prophecy"... Aliás, o fenómeno familiar do favorecimento do contratante só pode ser pura coincidência.

domingo, fevereiro 01, 2009

Procuradoras

Na televisão, uma grande reportagem sobre quatro procuradoras do Ministério Público. Mulheres poderosas do meu país. Mulheres inteligentes. Queria tanto ter orgulho delas... Queria, mas não posso. Tirando um "ter acabado com o terrorismo" das FP25, só referência a processos prescritos, mal conduzidos, adiados. No Reino Unido, demitem pessoas que demoram três anos a reponder a uma carta. Por cá, sem surpresa, não há ninguém responsável se se espera três anos pela resposta a uma carta. Que interesse tem que a papelada dos processos ocupe um andar ou quatro? Simplesmente não acredito que haja tanta sofisticação no crime nacional que não seja possível atacá-lo.

Malditas praxes

Mais um ano letivo, mais uma temporada de praxes. Com trinta graus, andam com capas de lã e de collants aos berros durante horas e horas, a ...