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A mostrar mensagens de 2005

Happy ending

Depois de deixar a filha no liceu Gúrov dirigiu-se para o Slaviánski Bazer. Deixou a peliça em baixo, subiu as escadas e bateu com cautela à porta. Anna Serguéevna, no vestido cinzento preferido dele, que estava ainda cansada da viagem e de ter esperado tanto desde o dia anterior; estava pálida, olhava para ele e não sorria mas, mal ele entrou, apertou-se-lhe contra o peito. O beijo foi longo, infinito, como se já não se beijassem há dois anos.

— Então, como vai a tua vida? — perguntou Gúrov. — Novidades?

— Espera, já te conto... Não, não posso.

Não podia falar porque chorava. Virou-lhe as costas e apertou o lenço contra os olhos.

«Que chore, que desabafe, temos tempo» — pensou e sentou-se na poltrona.

Tocou à campainha e pediu chá; já bebia o chá e ainda ela chorava, de pé, voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência amarga da vida deles ter aquela triste sina; por se verem à socapa, se esconderem das pessoas como ladrões! Então não era uma vida arruinada?

— Deixa, por fav…

Mulher a ler

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(Édouard Manet, "Na praia")

Personagens blogosféricas

1. O umbigo.

2. As ideias.

12. Uma escrita no limite - ou para lá dele, depende da sensibilidade - do bom gosto. Deu livro embrulhado em celofane, para vender mais.

15. Uma adolescente desavinda com o namorado que resolve publicar cartas magoadas de despedida. Dilacerante, se verdadeiro.

21. Um acusador de figuras públicas e de responsáveis pela investigação de um processo de pedofilia.

41. Um blogger famoso que confessa que escreve nos blogs a vida fragmentada, baralhada de novo, e voltada a dar.

79. Um pseudónimo servindo de veste. Talvez seja alguém com medo de perder o emprego ou de ser mal visto pelo chefe, não se sabe. Quem é que é completamente livre?

86. Uma blogger emergente que põe no blog uma declaração pungente de amor ao marido. Parece que a intimidade já não vale nada...

315. Um nome verosímil, uma escrita boa demais para não dar dividendos. Só acredito que é de carne e osso se encontro o mesmo nome associado a uma instituição ou a uma obra. Às vezes, para meu desapontamento, a …

Relembrando benefícios do frio...

Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos e já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gelar lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro... E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

(Eça de Queirós, "Os Maias")

Herança de três gerações de mulheres de fibra

«Mesmo que se tenha as tripas a cair da barriga, pode-se agarrar nelas com uma mão e trabalhar com a outra.» (sic)

Mulheres a ler

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(Ambrosius Benson)

Boas Festas!

Outra

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


(António Botto)

A jovem pastora

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(Jean-Jacques Henner)

Rescaldo dos debates das presidenciais

Será isto o sinal de maioridade de uma democracia? Perceber que todos os reizinhos vão nus?

(Sim, esta é a mesma Laurindinha que já aqui se manifestou ferozmente contra a abstenção.)

Dúvida

Como pode alguém que concorda e pratica a pena capital para delitos comuns afirmar convictamente que é contra a tortura e não a pratica?

O garfo do herege

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Exercício conceptual

Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
Torturaria você mesmo o indivíduo?
Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
Publicitaria o facto de ser um torturador?

*

A escada da tortura

1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Te…

Agradecimentos

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Ao magnífico Abrupto, pelo destaque dado à entrada Heresias: muito obrigada!

E, neste momento em que a pastora é alvo de uma enchurrada de "clicks", é justo agradecer também ao primeiro blog que para aqui fez uma ligação, o Meia Livraria; ao leitor que impediu que algumas entradas fossem apagadas, o autor do Local & Blogal; ao talentoso prosador do Retórica e Persuasão, pelas maiúsculas; aos seleccionadores da "primeira divisão" de blogs Frescos; ao Posto de Escuta; aos destaques pontuais - como o do Bomba Inteligente - e, especialmente, aos visitantes habituais. Obrigada pelo apoio! E desculpem se me esqueci de alguém.

Mulher a ler

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(Ambrosius Benson, Jovem lendo um Livro de Horas)

Heresias

Laurindinha não é uma doutora da Igreja nem almeja sê-lo. Prefere conhecer pedras e riachos a dogmas. Por isso, surgem-lhe, às vezes, algumas dúvidas sobre a doutrina católica.

Por exemplo, nunca percebeu muito bem até quando se tem direito ao limbo. Será até ao primeiro choro interesseiro?

E agora? Se a hierarquia católica decreta o fim do limbo, para onde vai Alberto Caeiro?

Limbos

Casar num país onde o divórcio não é possível e onde, para se vincular a certos direitos e deveres civis, é obrigatório jurar amor e fidelidade eterna. Depois, não crendo na eternidade, constatar também que o amor não é eterno.

Como fica o juramento?

Mulher a ler

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(Jean-Jacques Henner)

Um parágrafo de "Húmus"

Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Há momentos em que o caixão que passa às costas de um galego, me chama à realidade, ao espanto. Desvio logo o olhar, reentro à pressa na vida comezinha. Finjo que sorrio e esqueço. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte!…

Húmus

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Também ali há espaço para louras burras, posts idiotas, gente mesquinha...

Lembra-te que és pó.

Conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade


(Chico Buarque)

Mulher a ler

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(Ivan Kramskoy)

Pastoral

Mote

Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?



Voltas

É o vau mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
E d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?


(Francisco Rodrigues Lobo)

Oportunidade

Ouvir uma criança dizer que este Natal vai ser difícil, porque... (é preciso dizer?) Custa.

E, no entanto, não será também esta uma oportunidade para escapar à voragem consumista e para reencontrar o que é mais importante?

Como que fingindo que falta a electricidade, conseguir comunicar melhor com quem se partilha o quotidiano, tantas vezes com pressa, sem nos olharmos e ouvirmos já devidamente?

Mulher a ler

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Helen Keller

Memória de Bashô

o que o pequeno grilo me ensina
esqueço-o depressa
o que a branca lua me estende
deixo logo cair

solitário pernoito

com quem hei-de falar do grilo
e distribuir o branco da lua?

(Abrupto)

[daqui]

Os caçadores na neve

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(Pieter Bruegel, o Velho)

Detrás de uma pedra da parede do abrigo, outro papel esquecido

As Capelas Imperfeitas


O Panteão nunca chegou a ser acabado, daí provindo a designação de Capelas Imperfeitas ou Incompletas.
(de uma brochura sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha)


I. Os alicerces

Num belo país, cheio de montanhas, rios e prados, viveu, há já muitos anos, um pastor. Era jovem e alegre, e gostava de correr pelas planícies, a juntar o gado, e de sentir o vento na cara e no cabelo e o calor de um sol de Primavera a dourar-lhe as faces.

Tinha uma flauta que lhe tinha sido dada pelo avô, que também era pastor e sabia fazer flautas. Quando este morreu, numa amena noite de Verão, enquanto pastoreava na planície, tinha reunido uma vasta colecção delas, de todos os tamanhos e feitios. Nessa noite, o seu neto sonhou que todas aquelas flautas se erguiam no ar e tocavam uma melodia muito suave, como se estivessem nas mãos de anjos. E foi assim que o menino decidiu ser pastor.

Aprendera a gostar da natureza: desde as rochas à chuva, às formigas e às árvores. E até apren…

Detrás de uma pedra da parede do abrigo, um papel esquecido

A Mó

O prior prega
A ave voa
O rico ri
A mó, que moa.

O prior prega
o seu sermão
às velhas surdas
mas concentradas
que querem dele
a eternidade.

A ave voa
em liberdade
asas ao vento
vida sem tempo
nem ao Domingo
é Espírito Santo.

O rico ri
engalanado
pois conseguiu
um grande feito
é criminoso
sem ser condenado.

A mó, que moa.

Mulher a ler um romance

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(Vincent van Gogh)

Se eu tivesse voz

Se eu tivesse voz, pediria aos editores para publicarem mais livros de bolso. É que não dá jeito nenhum carregar tijolos de um quilo para ler o pão nosso de cada dia espiritual, enquanto se espera pelos transportes públicos. Mesmo quem leva uma pasta, leva-a, provavelmente, já suficientemente recheada.

Que seria dos pobres e cansados sem os livros de bolso da Europa-América ou da Penguin, da Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, das colecções do Público e da Visão e até, um pouco mais distante, da RTP?

Se eu tivesse voz, pediria apenas mais e melhor.

Elitismo?

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Seria pedir muito querer séries de divulgação de grande fôlego em horário nobre na televisão pública? E, enquanto isso não acontece, querer uma selecção mais restritiva dos concorrentes aos concursos desse horário nobre, com melhores prémios - uma espécie de superliga dos concursos?

Repararam?

Depois de assistir às prestações dos cinco candidatos presidenciais principais em debates televisivos, notei que há um aspecto em que o candidato Mário Soares bate os adversários aos pontos: a voz. E mesmo quando começou a tossir, tinha na manga um qualquer rebuçado-maravilha que logo aliviou a maleita...

Haikais de Boticas

O anel do monte
feito de nuvens.
Chove.

A moto-serra ruge,
longe. Perto, cai
uma folha.

Delicada estrada
para pequenos pés de pássaro.
Fios.

Solitária e cristalina
água. Leva-me
para a terra que me pertence.

(Abrupto)

[daqui]

Art, truth and politics

Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura de 2005, por Harold Pinter. A ler!

Paisagem com neve

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(Vincent van Gogh)

DUDH - Art. 3º

Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Sinais

Há dias, o coliseu de Roma esteve iluminado à noite por causa da pena de morte. Há dias também, a execução de um condenado à pena capital, nos Estados Unidos, foi evitada, in extremis. Por cá, apesar do consenso entre forças políticas sobre o assunto, ignoram-se estas execuções estatais bárbaras que ocorrem num país pretensamente civilizado.

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


(Álvaro de Campos)

Duas camponesas cavando num campo com neve

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(Vincent van Gogh)

Para que serve este blog anónimo?

1. Não serve para a denúncia nem para a maledicência. Isso seria cobardia.

2. Não serve como diário. Também aqui se acredita que o que se come ao pequeno almoço não interessa nada ao público. Também não é um "diário sem factos". Os estados de alma são demasiado pessoais.

3. Não serve como depositário de poesia lamechas. Ou, pelo menos, tenta-se que não sirva.

4. Não serve para ter audiências e para tentar mudar o mundo. Por aqui não há ilusões dessas. Quem pode nos blogs (sem fotografias "sugestivas") é quem pode fora dos blogs.

5. Serve para uso pessoal. Para coleccionar pequeninos tesouros. Se alguém quiser vê-los e gostar, tanto melhor.

6. Serve para registar acontecimentos importantes (como a saída do último soldado da Faixa de Gaza ou o início do questionamento do estalinismo pelo líder do PCP). Serve também para ignorar o que não interessa na vidinha pública deste país pequenino.

7. Serve para o que a imaginação e o bom senso permitirem.

251. Fragmentos de uma autobiografia

«O desgosto de não encontrar nada encontrei comigo pouco a pouco. Não achei razão nem lógica senão a um cepticismo que nem sequer buscava uma lógica para se defender. Em curar-me disto não pensei - por que me havia eu de curar disso? E o que era ser são? Que certeza tinha eu que esse estado de alma deva pertencer à doença? Quem nos afirma que, a ser doença, a doença não era mais desejável, ou mais lógica, ou mais [], do que a saúde? A ser a saúde preferível, por que era eu doente se não por naturalmente o ser, e se naturalmente o era, por que ir contra a Natureza, que para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente?

Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social - talhei dessa matéria de [] a estátua pesada da minha existência.

Deixei leituras, abandonei casuais caprichos …

Pensamento (Camille Claudel)

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(Auguste Rodin)

O rouxinol e a cotovia

JULIET
Wilt thou be gone? it is not yet near day:
It was the nightingale, and not the lark,
That pierced the fearful hollow of thine ear;
Nightly she sings on yon pomegranate-tree:
Believe me, love, it was the nightingale.

ROMEO
It was the lark, the herald of the morn,
No nightingale: look, love, what envious streaks
Do lace the severing clouds in yonder east:
Night's candles are burnt out, and jocund day
Stands tiptoe on the misty mountain tops.
I must be gone and live, or stay and die.

JULIET
Yon light is not day-light, I know it, I:
It is some meteor that the sun exhales,
To be to thee this night a torch-bearer,
And light thee on thy way to Mantua:
Therefore stay yet; thou need'st not to be gone.

ROMEO
Let me be ta'en, let me be put to death;
I am content, so thou wilt have it so.
I'll say yon grey is not the morning's eye,
'Tis but the pale reflex of Cynthia's brow;
Nor that is not th…

O repentino canto da cotovia

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(Mike Danzenbaker's Nature Photography)


(Bird Forum)


Obrigada ao Divas e Contrabaixos pela referência à pérola que a pastora pediu emprestada!

Canção

Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojo, tem rasgos
De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso...

Anda nu - saltando e indo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... - Entristeço...

Mas nesse olhar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...


(António Botto)

Luas pastoras

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As luas de Saturno Pandora e Prometeu são chamadas luaspastoras do anel F de Saturno. E que bem desempenham o seu papel! Digam lá se os borreguinhos não fazem uma fila indiana bem comportada!

Lindo!

Eugénio de Andrade (ele mesmo),
via Almocreve das Petas


O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

(Eugénio de Andrade, "O Sal da Língua")



Saúde, fraternidade e um beijinho agradecido, caro blogger bibliófilo!

Nota existencial

A vida são dois dias.

Terrivelmente romântico

Há cerca de uma semana, cruzei-me com uma senhora na rua, que teria entre 65 e 70 anos, com um olho completamente vermelho, que não parecia nada ter resultado de uma queda. Do outro lado da rua, o que parecia ser um marido pacato arrumava o conteúdo do porta-bagagem de um automóvel.

Eu ainda sou do tempo...

Em que tudo era política, em que o Estado éramos todos nós, em que dizer que alguém "se vende bem" era um insulto.

Foi há muito tempo, não há dúvida...

Desabafo

É difícil dar dois passos neste país sem que surja um motivo para novamente perguntar como se chegou a isto, como foi permitido. Dizem-me que agora é tarde para fazer alguma coisa. Esta fealdade custou dinheiro a construir... No entanto, espanta-me que mesmo quando se trata de escombros de edifícios arrasados, se tenha tanto esmero em deixar as coisas no pior estado possível...
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(Paul Signac)

Leitor

«(...) Se não sou a única pessoa no mundo que, neste momento, neste talvez derradeiro momento da humanidade, lê o que os outros escrevem, onde estão os meus camaradas de armas? Será possível reunirmo-nos e criar um bastião de resistência, uma organização underground que lute contra a epidemia e, através do estudo, da leitura, da experimentação teórico-prática, encontre uma solução para devolver a saúde aos homens e pôr de novo o mundo a funcionar? Não sei. Confesso que não tenho muita esperança.

Eu sou um leitor. Sei o que sou: leio o que os outros escrevem. Faço-o até compulsivamente. De manhã, ao pequeno-almoço, mesmo que não tenha um jornal pela frente, as páginas com a tinta ainda fresca aflorando a chávena de café, os meus olhor percorrem instintivamente a mesa, à procura de palavras, letras, frases para ler: "Corn Flakes", "rico em vitaminas e minerais", "Loja 18 - Rua Camilo Castelo Branco, 15-A", "Planta - margarina vegetal, 250 gramas"..…

Coisas do Outono

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(daqui)

Receitas:marmelada
geleia de marmelo: I, II, III
doce de quartos de marmelo

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

(Al Berto)
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O vento

O amor sacode
meu coração, tal
o vento caindo
sobre os robles
da montanha.


(Safo, traduzida por Pedro Alvim)

Um blog e quê...?

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Muito obrigada, estimados leitores, pelas vossas visitas, comentários e mimo imerecido!

A imagem é de um catálogo norte-americano, da pêra Pillsbury, que, em 1894, era produzida em New Hampshire. (Bem parecida com a nossa pêra rocha, não?)

Na senda das pequenas histórias

Uma rapariga pergunta a um rapaz:
- Queres casar comigo?
O rapaz vira-se para o lado e pergunta:
- Jarbas, pode trazer o meu coração?
- Está num cofre de abertura retardada, Senhor.
E morreram enquanto esperavam.

Galo

Pode sentir-se saudades de um galo a cantar pela manhã? Depois de muito tempo na cidade, e se ainda há alguma ligação com a natureza... sente-se mesmo.

Mulher a ler

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Marilyn Monroe

Adenda/pin-up service: para os apreciadores de Marilyn, uma sugestão de fundo para o ambiente de trabalho. (Aposto que conseguem esquecer o pequeno-almoço indegesto...)

Crucificada

Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei-de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei-de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém,

E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!


(Florbela Espanca)

A Divina Pastora

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Em lugar da Imaculada Conceição, venera-se, no Estado de Lara, na Venezuela, uma "Divina Pastora":

«El comienzo de la veneración por la Divina Pastora se remonta al año de 1736, fecha en que el párroco de Santa Rosa encargó a un famoso escultor que le hiciera una estatua de la Inmaculada Concepción. No obstante, por una extraña equivocación, en lugar de la Inmaculada, llegó al pueblo la imagen de la Divina Pastora. De inmediato el párroco quiso devolverla, pero por mucho que lo intentaron, no pudieron levantar el cajón donde habían colocado la imagen. A partir de este momento la población interpretó este raro acontecimiento como señal de que la Divina Pastora quería quedarse entre ellos. Posteriormente, durante los sucesos del terremoto de 1812, el templo donde se veneraba la Divina Pastora fue destruido, pero su imagen quedó milagrosamente intacta, hecho que reforzó la creencia de los fieles de Santa Rosa de que la Virgen quería quedarse siempre entre ellos para protegerlos…

Leve arrepio

Na televisão, em directo, uma procissão de velas com uma Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. A mesma religião e a mesma cidade dos autos-de-fé.

Edelweiss

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(daqui)

Médicos

"Quanto às esperas por consultas. Como quer que não as haja? O que seria da medicina privada se não houvesse espera? Já tinha pensado nisso? Acha que este problema alguma vez vai ter solução? É o mesmo das operações. Como sobreviveriam as clínicas?"

(Cecília Costa, numa caixa de comentários do Abrigo de Pastora)

A minha solução é esta: dez vezes mais médicos. Ou o necessário para existirem em excesso no mercado. A dúvida é: estarão o Estado ou as universidades privadas dispostos a fazer esse investimento, contra o poderoso lóbi dos médicos?

Para um primeiro-ministro, a educação já foi uma paixão; para este agora, a formação é um desígnio... mas talvez sejam mesmo as universidades espanholas a alterarem o nosso estado de coisas.

A flor da solidão

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos


(Ruy Belo)
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Reminiscência (III)

«Cada um de nós é, por isso, como um símbolo, pois foi cortado em dois, como o linguado e, de um só, ficaram duas metades. Assim, cada uma procura a metade que lhe corresponde. (...)

Quando qualquer homem encontra a sua metade é possuído por transportes de ternura, de simpatia e de amor. Não quer separar-se mais, nem que seja por um instante! Eis as pessoas que passam uma vida inteira juntas, sem poderem dizer o que esperam uma da outra, pois não me parece que seja o prazer dos sentidos que os faz encontrar tanto prazer na companhia um do outro! (...)

A razão deste facto consiste em que a nossa antiga natureza era tal, que constituíamos um todo uno. O amor é a ânsia desta plenitude! (...)

Também nós devemos recear, no caso de faltarmos aos nossos deveres para com os deuses, sermos divididos mais uma vez e tornarmo-nos como as figuras de perfil, talhadas em baixo-relevo nas colunas, com o nariz cortado em dois, ou semelhantes a tésseras. É necessário que nos exortemos uns aos outros a hon…

Reminiscência (II)

«Ora, depois de assim ter dividido o corpo, cada uma das partes, lamentando a outra metade, foi à procura dela e, abraçando-se e enlaçando-se umas às outras, no desejo de se fundirem numa só, iam morrendo de fome, por inacção, pois nada queriam fazer, umas sem as outras. Quando morria uma metade e a outra sobrevivia, esta procurava logo outra e enlaçava-se nela, quer fosse metade-mulher (o que hoje se chama uma mulher), quer fosse metade-homem e, deste modo, a raça ia extinguindo-se.

Zeus, tocado de misericórdia, imaginou um outro expediente: transpôs os órgãos da geração para o lado da frente, pois, antes disso, estavam implantados atrás e os homens geravam, não uns nos outros, mas sobre a terra, como as cigarras. Colocou estes órgãos à frente, e fez com que os homens procriassem uns nos outros, isto é, o macho com a fêmea. Esta disposição tinha dois fins:

Se o amplexo tivesse lugar entre um homem e uma mulher, estes conceberiam para perpetuar a raça e, se tivesse lugar entre dois hom…

Reminiscência (I)

«Apenas nos resta a designação, pois a espécie desapareceu. Era a espécie andrógina, que tinha a forma e o nome das outras duas, masculina e feminina, das quais era formada: hoje já não existe e não passa de uma designação pejorativa. Cada homem, no seu todo, era de forma arredondada, tinha dorso e flancos arredondados, quatro mãos, outras tantas pernas, duas faces exactamente iguais sobre um pescoço redondo e, nestas duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais, e tudo o resto na mesma proporção. Caminhava erecto, tal como o homem actual, na direcção que lhe convinha. Quando corria, fazia como os acrobatas, que dão voltas no ar. Lançando as pernas para cima e apoiando-se nos membros, em número de oito, rodava rapidamente sobre ele mesmo. Estas três espécies eram assim conformadas, porque o masculino tinha origem no Sol, o feminino na Terra, e a espécie mista provinha da Lua que, como se sabe, participa de ambos. Eram esféricos, e a sua locomoção também, porq…

Fogo

Uma pastora chega ao seu abrigo, depois de um longo dia de trabalho e de cansaços. Está frio. Encontra uma fogueira acesa. Aproxima-se, deixa o calor atingir-lhe e ruborizar-lhe a face, e o crepitar embalar-lhe o repouso. Sorri. (Haverá um certo tipo de liberdade que surge do despojamento?)

Broa

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Encontrada na Polónia.

As regalias e os salários

A retribuição por um determinado trabalho pode fazer-se por via dos salários, mas também por via das regalias complementares. As regalias têm um valor monetário preciso, em cada momento. Salários e regalias são, aliás, negociados lado a lado.

Por que será, então, que, nunca se pondo a hipótese (por enquanto...) de diminuir os salários - num "momento de crise" que, por acaso, não se nota na compra de bens de luxo - se proponha e aceite tão facilmente a redução, ou mesmo a eliminação, das regalias anteriormente negociadas?

Sociedade de castas?

Por que é que os funcionários públicos têm ADSE? Por que é que, como descobrimos agora, há imensos subgrupos de funcionários públicos que têm regimes especiais?

Será que os funcionários públicos devem ganhar bem e ter regalias (para lá do emprego vitalício), para termos alguma garantia de que não são corruptíveis?

Não ganhariam os serviços públicos, nomeadamente os serviços de saúde, se pessoas de todas as condições os tivessem de utilizar? Não haveria então menos incompetência gritante, como ainda se vê nos balcões de atendimento dos centros de saúde? Menos meses de espera por uma consulta de um médico especialista?
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(Josefa de Óbidos)

Apelo

1. Uma área em que Portugal é rico: poesia.

2. Há quem divulgue a poesia portuguesa, traduzida na língua franca internacional: aqui.

3. Há coisas que se perdem nas traduções... E há coisas quase impossíveis de reencontrar, quer em lojas, quer via p2p. Como Eugénio de Andrade a dizer a sua própria poesia ou Carlos do Carmo a cantar o genérico da série "Retalhos da Vida de um Médico" - algumas das melhores coisas que se podem ouvir em português.

E se houvesse um leitor do Abrigo de Pastora que tivesse os ficheiros audio e os que quisesse partilhar?...

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no …

Feed-back

Feed-back de realimentação positiva
Dos ácidos, aminoácidos, proteínas
Fechados em células, ou à deriva
A regularem para que não cresça a mais
A regularem para que não cresça a menos
A regularem para que seja assim.

E eu, assisto impotente a este frenesim...

He lá açúcares, compostos de carbono, adrenalina
Guiados por algoritmo incorpóreo, cego, oculto
Deixem de regular a minha sorte
Em tropel, falsa desordem, tumulto...
E de gerir minhas dores, meus amores, meus ais

Se isto é a vida, eu quero a morte!

Ao menos, os ácidos neutralizam as bases; dão sais... ha ha ha ...


(Manolo, leitor do Abrigo de Pastora, numa janela de comentários)
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© Abrigo de Pastora 2005

A Cavafy, nos dias distantes de 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando
acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
como este grego que nos versos se atrevia
a falar do que tanto se calava
ou só obliquamente referia -
nenhum tão solitário e tão atento
ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

1964

(Eugénio de Andrade)

Dúvida

Quem dorme descansado? Os justos ou os indiferentes à injustiça?

O que diz um rosto?

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Nós temos cinco sentidos

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

(David Mourão-Ferreira)

N.

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Espantoso

Tornou-se ritual. Os grevistas dizem que a adesão à greve foi de 90%. As entidades patronais, que foi de 10%. Depois, vem o comentador e diz que a verdade deve ser a média. E todos acham normal.

Elementos

Marte cada vez mais próximo. Os plátanos, obedientes, vestiram troncos e folhas de camuflados bicolores.

Igualdade de oportunidades, onde está?

A escola com melhor posição no último ranking publicado é um colégio que cobra 400 euros por mês e tem turmas de 8 alunas.
(Carlos do Carmo, música daqui)


Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

(Alexandre O'Neill)
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Sonnet 130

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.


(William Shakespeare)


A canção anterior (que bem merece ser ouvida!) tem uma história que pode ler-se na Wikipedia, aqui. O título do álbum, "Nothing like the Sun", por sua vez, foi inspirado neste belo soneto de Shakespeare.

Frágil

E amanhã a chuva levará
O sangue que a luta deixou derramar
Na pele a dor do aço tão cruel
Jamais a nossa voz vai calar

Um ato assim pode acabar
Com uma vida e nada mais
Porque nem mesmo a violência
Destrói ideais
Tem gente que não sente que o mundo assim
Ficará frágil demais

Choro eu e você
E o mundo também, e o mundo também
Choro eu e você
Que fragilidade, que fragilidade

(Sting)

*


Fragile

If blood will flow when flesh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow's rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are

On and on the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are

On and on the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain w…

Chapéus-de-chuva

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(Auguste Renoir)

A palavra impossível

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

(Adolfo Casais Monteiro)

Feminino?

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Simone de Beauvoir

A escrita, a liberdade e a vida

"Vivir para contarla" (de Gabriel García Márquez) é um título que muito aprecio. Para lá da óbvia causalidade que uma biografia implica, ele remete para o amadurecimento em que a boa escrita se apoia. A História dá-nos exemplos abundantes de seres humanos que compraram a sua liberdade (alguns, a imortalidade) através da escrita. Um homem senta-se, está consigo na sua solidão e, escrevendo, muda o mundo, porque agita as mentes. Mas para escrever e deixar marca não basta querer. Não bastam copiosos exercícios académicos. É preciso viver. Uma vida feita da sujeição aos agentes da natureza que provocam as rugas e as cãs, de sofrimentos vários, da paciência da observação dos acasos e do exercitar do livre-arbítrio possível, a cada dia que passa. Só depois o escritor pode transmitir o que tem de único, o seu testemunho insubstituível, a sua herança para o futuro. E, então, felizes os que o lêem.

Será que, será que, será?

Podres poderes

enquanto os homens exercem seus podres poderes
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
e perdem os verdes somos uns boçais
queria querer gritar setecentas mil vezes
como são lindos, como são lindos os burgueses
e os japoneses mas tudo é muito mais
será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?
será, será que , que será , que será, que será
será que essa minha estúpida retórica
terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios, padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval
queria querer cantar afinado com eles
silenciar em respeito ao seu transe , num êxtase
ser indecente mais tudo é muito mau
ou então cada paisano e cada capataz
com sua burrice fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades , caatingas e nos gerais
será que apenas os hermetismos pascoais
e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvar…

Saudades do futuro

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(Zhu Shi Jie, Cerejeiras em Flor)

Coisas estranhas que se ouvem sem querer

Na rua, uma mulher ao telemóvel:
- Ó, pá, passei a tarde no cabeleireiro.

Num transporte público, um brasileiro ao telemóvel:
- Esse que eu lhe ia arranjar também é sem contrato. Mas se você está bem nesse, é melhor ficar.

De uma wish list para uma cidade melhor

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(UW)

Árvores. Muitas árvores. Dez vezes mais árvores. Não só acantonadas em jardins, mas em todos os passeios, com sombras que se vejam!

Mulher a ler

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(Pieter Janssens Elinga, detalhe)

Se perguntarem: das artes do mundo?

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.


(Herberto Helder)
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(Pablo Picasso)

Rimas

Por viver numa castigada Babel, quantas belas rimas, quanta música escrita em palavras, nunca chegarei a conhecer...

The tiger

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


(William Blake)
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(Joan Miró)

Filhos de um deus menor

Há as pessoas extremamente belas. Há as extremamente inteligentes. As extremamente talentosas. Há as que têm uma sorte extraordinária. Há, depois, todas as outras. As que não têm nada disso. E têm de se contentar. Ou, não se contentando, têm de viver frustradas.

A variedade é boa. Mas, se tivesse havido um criador disto tudo, não poderia deixar de ser considerado excessivamente injusto...

Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


(Eugénio de Andrade)

A pronúncia do norte

Por que será que "máior" parece maior do que "mâior"?
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(Salvador Dali)

Comece o dia com energia... com "Joy to the World"