sexta-feira, dezembro 30, 2005

Happy ending

Depois de deixar a filha no liceu Gúrov dirigiu-se para o Slaviánski Bazer. Deixou a peliça em baixo, subiu as escadas e bateu com cautela à porta. Anna Serguéevna, no vestido cinzento preferido dele, que estava ainda cansada da viagem e de ter esperado tanto desde o dia anterior; estava pálida, olhava para ele e não sorria mas, mal ele entrou, apertou-se-lhe contra o peito. O beijo foi longo, infinito, como se já não se beijassem há dois anos.

— Então, como vai a tua vida? — perguntou Gúrov. — Novidades?

— Espera, já te conto... Não, não posso.

Não podia falar porque chorava. Virou-lhe as costas e apertou o lenço contra os olhos.

«Que chore, que desabafe, temos tempo» — pensou e sentou-se na poltrona.

Tocou à campainha e pediu chá; já bebia o chá e ainda ela chorava, de pé, voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência amarga da vida deles ter aquela triste sina; por se verem à socapa, se esconderem das pessoas como ladrões! Então não era uma vida arruinada?

— Deixa, por favor! — pediu ele.

Era claro para ele que este amor não acabaria tão cedo, sabia-se lá quando acabaria. Anna Serguéevna afeiçoava-se-lhe cada vez mais, adorava-o, seria insuportável dizer-lhe que tudo tinha de acabar um dia; também, ela não ia acreditar.

Aproximou-se dela e pousou-lhe as mãos nos ombros, queria acarinhá-la, dizer-lhe um gracejo, e nesse instante viu-se no espelho.

Já tinha cabelos brancos. Parecia-lhe estranho que tivesse envelhecido tanto nos últimos anos, que estivesse a perder tão depressa o seu ar de homem bem-parecido. Os ombros onde deixara esquecidas as mãos estavam tépidos, tremiam. Sentiu compaixão por aquele ser, aquela criatura viva ainda tão quente e bonita que decerto não tardaria, como ele, a perder o viço, a murchar. Por que gosta tanto dele? Ele sempre pareceu às mulheres uma coisa diferente do que era na realidade, elas nunca gostaram do que nele havia de si próprio, mas de um homem criado na imaginação delas, do homem que toda a vida procuraram ansiosamente; e depois, quando caíam em si e descobriam o engano, continuavam mesmo assim a amá-lo. Nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, conhecia novas, namorava-as, despedia-se, mas nenhuma vez ele amou; nele, pode ter havido tudo menos amor.

E só agora, com o cabelo a encanecer, descobria o verdadeiro amor, um amor a sério — pela primeira vez na vida.

Anna Serguéevna e ele amavam-se como pessoas muito chegadas, íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia que o destino os fizera um para o outro e era impossível que ambos estivessem casados com pessoas alheias a eles; como se fossem aves migratórias, macho e fêmea, apanhadas e obrigadas a viverem em gaiolas diferentes. Agora, perdoavam um ao outro aquilo que do passado lhes era vergonhoso, agora perdoavam-se tudo e sentiam que o amor os transformara a ambos.

Antes, nos momentos de tristeza, Gúrov acalmava-se com todo o género de raciocínios que lhe passavam pela cabeça, mas agora não estava para raciocinar, sentia, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, meigo...

— Deixa, queridinha — dizia. — Já choraste, já chega... Agora vamos falar, havemos de encontrar alguma coisa.

Depois conversaram longamente, pensavam na maneira de se livrarem daquela necessidade de se esconder, de mentirem, de viverem em cidades diferentes sem se poder ver durante tanto tempo. Como ficarem livres daquela peia insuportável?

— Como? Como? — perguntava ele, levando as mãos à cabeça. — Como?

Parecia-lhes que não tardariam a encontrar a solução e que, então, chegaria a hora de uma vida nova, maravilhosa; e era claro para ambos que o fim estava ainda muito longe e que o mais complicado e difícil mal começara.


(Anton Tchékhov, "A Senhora do Cãozinho" in "Contos", Vol. II, traduzidos por Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D'Água)

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Mulher a ler


(Édouard Manet, "Na praia")

Personagens blogosféricas

1. O umbigo.

2. As ideias.

12. Uma escrita no limite - ou para lá dele, depende da sensibilidade - do bom gosto. Deu livro embrulhado em celofane, para vender mais.

15. Uma adolescente desavinda com o namorado que resolve publicar cartas magoadas de despedida. Dilacerante, se verdadeiro.

21. Um acusador de figuras públicas e de responsáveis pela investigação de um processo de pedofilia.

41. Um blogger famoso que confessa que escreve nos blogs a vida fragmentada, baralhada de novo, e voltada a dar.

79. Um pseudónimo servindo de veste. Talvez seja alguém com medo de perder o emprego ou de ser mal visto pelo chefe, não se sabe. Quem é que é completamente livre?

86. Uma blogger emergente que põe no blog uma declaração pungente de amor ao marido. Parece que a intimidade já não vale nada...

315. Um nome verosímil, uma escrita boa demais para não dar dividendos. Só acredito que é de carne e osso se encontro o mesmo nome associado a uma instituição ou a uma obra. Às vezes, para meu desapontamento, a criatura existe mesmo.

1024. Um anónimo que, às vezes, parece ser o contrário do que quer aparentar...

6402. Um anónimo que, às vezes, parece ser o contrário do que quer aparentar...

Relembrando benefícios do frio...

Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos e já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gelar lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro... E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

(Eça de Queirós, "Os Maias")

Herança de três gerações de mulheres de fibra

«Mesmo que se tenha as tripas a cair da barriga, pode-se agarrar nelas com uma mão e trabalhar com a outra.» (sic)

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Outra

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


(António Botto)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A jovem pastora


(Jean-Jacques Henner)

Rescaldo dos debates das presidenciais

Será isto o sinal de maioridade de uma democracia? Perceber que todos os reizinhos vão nus?

(Sim, esta é a mesma Laurindinha que já aqui se manifestou ferozmente contra a abstenção.)

Dúvida

Como pode alguém que concorda e pratica a pena capital para delitos comuns afirmar convictamente que é contra a tortura e não a pratica?

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O garfo do herege


Exercício conceptual

Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

  • Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
  • Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
  • Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
  • Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
  • Torturaria você mesmo o indivíduo?
  • Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
  • Publicitaria o facto de ser um torturador?

    *

    A escada da tortura


    1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

    2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

    3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturar o amigo/parente para descobri os planos do bombista.

    4. Um indivíduo relata que alguém partilha as mesmas opiniões políticas que o bombista. Temos de torturar esse aliado político para descobrir outros que o apoiem.

    5. Um indivíduo recusou-se a dizer à polícia onde está um suspeito. Esta pessoa tem de ser torturada para garantir que outros não se atrevem a fazer a mesma coisa.

    *

  • Onde colocaria o limite? Quando, se alguma vez, é que a tortura se justifica?
  • Pode justificar-se violar os direitos humanos de um indivíduo em algumas situações?
  • Como quer que a polícia ou os militares do seu país respondam a este tipo de situação?


    (fonte)

    Ver também:
    Instruments of Torture/Historical Torture Museum.
  • Agradecimentos



    Ao magnífico Abrupto, pelo destaque dado à entrada Heresias: muito obrigada!

    E, neste momento em que a pastora é alvo de uma enchurrada de "clicks", é justo agradecer também ao primeiro blog que para aqui fez uma ligação, o Meia Livraria; ao leitor que impediu que algumas entradas fossem apagadas, o autor do Local & Blogal; ao talentoso prosador do Retórica e Persuasão, pelas maiúsculas; aos seleccionadores da "primeira divisão" de blogs Frescos; ao Posto de Escuta; aos destaques pontuais - como o do Bomba Inteligente - e, especialmente, aos visitantes habituais. Obrigada pelo apoio! E desculpem se me esqueci de alguém.

    domingo, dezembro 18, 2005

    Mulher a ler


    (Ambrosius Benson, Jovem lendo um Livro de Horas)

    Heresias

    Laurindinha não é uma doutora da Igreja nem almeja sê-lo. Prefere conhecer pedras e riachos a dogmas. Por isso, surgem-lhe, às vezes, algumas dúvidas sobre a doutrina católica.

    Por exemplo, nunca percebeu muito bem até quando se tem direito ao limbo. Será até ao primeiro choro interesseiro?

    E agora? Se a hierarquia católica decreta o fim do limbo, para onde vai Alberto Caeiro?

    Limbos

    Casar num país onde o divórcio não é possível e onde, para se vincular a certos direitos e deveres civis, é obrigatório jurar amor e fidelidade eterna. Depois, não crendo na eternidade, constatar também que o amor não é eterno.

    Como fica o juramento?

    sábado, dezembro 17, 2005

    Mulher a ler


    (Jean-Jacques Henner)

    Um parágrafo de "Húmus"

    Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Há momentos em que o caixão que passa às costas de um galego, me chama à realidade, ao espanto. Desvio logo o olhar, reentro à pressa na vida comezinha. Finjo que sorrio e esqueço. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! E debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas. Não há anos, há séculos que dura esta bisca-de-três - e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam sobre a mesma mesa de jogo. O jogo banal é a bisca - o jogo é o da morte... O candeeiro ilumina e a sombra rói as fisionomias, a majestosa Teodora, a Adélia, a Eleutéria das Eleutérias, o padre. Retraem-se no escuro outras figuras indecisas e atentas sobre o jogo paciente. Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece à luz do inferno. Mas nenhuma arrisca um passo definitivo. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-se como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero aumenta não se traduz em palavras. A vila cria o mesmo bolor... Pouco e pouco também a Teles esqueceu o solho e esfrega, sem os ver, os móveis reluzentes. A D. Procópia odeia a D. Biblioteca, mas nem ela sabe o que está por detrás daquele ódio, contido pelo inferno. Toda a gente se habitua à vida. Matar matava-a eu, mas várias palavras me detêm. Detém-me também um nada... As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo chegaram a temer um desenlace. Debruçadas sobre a mesa, as figuras não bolem. Não bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não são as palavras do padre - Jogo - nem o que a Adélia diz baixinho à Eleutéria, para que a velha temerosa ouça: - A nossa Teodora está cada vez mais moça!... - o que me interessa são as figuras invisíveis: é a dor dessas figuras imóveis, e sobre elas outra figura maior, curva e atenta, que há séculos espera o desenlace.

    (Raul Brandão)

    quinta-feira, dezembro 15, 2005

    Húmus



    Também ali há espaço para louras burras, posts idiotas, gente mesquinha...

    Lembra-te que és pó.

    Conselho

    Ouça um bom conselho
    Que eu lhe dou de graça
    Inútil dormir que a dor não passa
    Espere sentado
    Ou você se cansa
    Está provado, quem espera nunca alcança

    Venha, meu amigo
    Deixe esse regaço
    Brinque com meu fogo
    Venha se queimar
    Faça como eu digo
    Faça como eu faço
    Aja duas vezes antes de pensar

    Corro atrás do tempo
    Vim de não sei onde
    Devagar é que não se vai longe
    Eu semeio o vento
    Na minha cidade
    Vou pra rua e bebo a tempestade


    (Chico Buarque)

    segunda-feira, dezembro 12, 2005

    Mulher a ler

    Sophia Kramskaya Reading
    (Ivan Kramskoy)

    Pastoral

    Mote

    Vai o rio de monte a monte,
    Como passarei sem ponte?



    Voltas

    É o vau mui arriscado,
    Só nele é certo o perigo;
    O tempo como inimigo
    Tem-me o caminho tomado.
    Num monte está meu cuidado,
    E eu, posto aqui noutro monte,
    Como passarei sem ponte?

    Tudo quanto a vista alcança
    Coberto de males vejo:
    D'aquém fica meu desejo
    E d'além minha esperança.
    Esta, contínua, me cansa
    Porque está sempre defronte:
    Como passarei sem ponte?


    (Francisco Rodrigues Lobo)

    Oportunidade

    Ouvir uma criança dizer que este Natal vai ser difícil, porque... (é preciso dizer?) Custa.

    E, no entanto, não será também esta uma oportunidade para escapar à voragem consumista e para reencontrar o que é mais importante?

    Como que fingindo que falta a electricidade, conseguir comunicar melhor com quem se partilha o quotidiano, tantas vezes com pressa, sem nos olharmos e ouvirmos já devidamente?

    domingo, dezembro 11, 2005

    Mulher a ler


    Helen Keller

    Memória de Bashô

    o que o pequeno grilo me ensina
    esqueço-o depressa
    o que a branca lua me estende
    deixo logo cair

    solitário pernoito

    com quem hei-de falar do grilo
    e distribuir o branco da lua?

    (Abrupto)

    [daqui]

    sábado, dezembro 10, 2005

    Os caçadores na neve


    (Pieter Bruegel, o Velho)

    Detrás de uma pedra da parede do abrigo, outro papel esquecido

    As Capelas Imperfeitas


    O Panteão nunca chegou a ser acabado, daí provindo a designação de Capelas Imperfeitas ou Incompletas.
    (de uma brochura sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha)


    I. Os alicerces

    Num belo país, cheio de montanhas, rios e prados, viveu, há já muitos anos, um pastor. Era jovem e alegre, e gostava de correr pelas planícies, a juntar o gado, e de sentir o vento na cara e no cabelo e o calor de um sol de Primavera a dourar-lhe as faces.

    Tinha uma flauta que lhe tinha sido dada pelo avô, que também era pastor e sabia fazer flautas. Quando este morreu, numa amena noite de Verão, enquanto pastoreava na planície, tinha reunido uma vasta colecção delas, de todos os tamanhos e feitios. Nessa noite, o seu neto sonhou que todas aquelas flautas se erguiam no ar e tocavam uma melodia muito suave, como se estivessem nas mãos de anjos. E foi assim que o menino decidiu ser pastor.

    Aprendera a gostar da natureza: desde as rochas à chuva, às formigas e às árvores. E até aprendeu a gostar do silêncio e da solidão. Na realidade, não era verdadeira solidão. Como pode sentir-se só quem está rodeado de uma enorme diversidade de seres vivos, cada um deles com a sua beleza especial, inundado de sons e imagens de magia, e perservado das mais maliciosas criaturas que existem na Terra, os homens?

    Estimava muito a sua flauta, e nela inventou muitas melodias. Tudo à sua volta parecia alegrar-se com a sua música.

    Um dia houve uma grande tempestade. No dia seguinte, quando o pastor pôde sair da gruta onde se abrigara com o gado, tinha-se levantado um bonito sol, e não tardou a que tudo começasse a enxugar. O cheiro da terra molhada e aquele sol risonho deram ao menino vontade de tocar na flauta. À medida que tocava, e sem que desse por isso, foi-se aproximando dele um pequeno pássaro azul. Voava errante e parecia que a única coisa que o guiava era o som que saía da flauta. O menino só se apercebeu dele quando, rendido, caiu repentinamente aos seus pés. Pegou nele com muito cuidado e reparou que tinha uma asa partida e os olhos cobertos de lama.

    Cuidou dele. Com toda a minúcia que encontrou, ligou-lhe a asa e era com uma alegria louca e inocente que procurava as minhocas e ervinhas que depois lhe metia no bico. Deu-lhe um nome: chamou-lhe Silvestre.



    II. A cúpula

    Há um príncipe na cidade. Anda disfarçado de gente vulgar e, por isso, ninguém o reconhece no meio da multidão. Mas é ele, sim, é ele que ali vai. Sei o seu segredo porque ele próprio mo revelou.

    Contou-me que era descendente de uma dinastia antiga, que perdera o seu reino por uma traição, mas que insistia em sobreviver para preservar a sua nobreza. Contou-me também que ele, tal como os seus antepassados, tinha sido educado numa ilha distante, por uma confraria secreta que vivia à espera de uma Utopia. Aí, ensinaram-lhe a coragem para vencer batalhas, a sensibilidade para estimar a arte, a sabedoria para distinguir as causas justas, a compaixão para amparar os miseráveis, o respeito pela diferença. Tudo isso ele aprendeu e guardou no seu coração.

    Detrás de uma pedra da parede do abrigo, um papel esquecido

    A Mó

    O prior prega
    A ave voa
    O rico ri
    A mó, que moa.

    O prior prega
    o seu sermão
    às velhas surdas
    mas concentradas
    que querem dele
    a eternidade.

    A ave voa
    em liberdade
    asas ao vento
    vida sem tempo
    nem ao Domingo
    é Espírito Santo.

    O rico ri
    engalanado
    pois conseguiu
    um grande feito
    é criminoso
    sem ser condenado.

    A mó, que moa.

    Mulher a ler um romance


    (Vincent van Gogh)

    Se eu tivesse voz

    Se eu tivesse voz, pediria aos editores para publicarem mais livros de bolso. É que não dá jeito nenhum carregar tijolos de um quilo para ler o pão nosso de cada dia espiritual, enquanto se espera pelos transportes públicos. Mesmo quem leva uma pasta, leva-a, provavelmente, já suficientemente recheada.

    Que seria dos pobres e cansados sem os livros de bolso da Europa-América ou da Penguin, da Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, das colecções do Público e da Visão e até, um pouco mais distante, da RTP?

    Se eu tivesse voz, pediria apenas mais e melhor.

    Elitismo?



    Seria pedir muito querer séries de divulgação de grande fôlego em horário nobre na televisão pública? E, enquanto isso não acontece, querer uma selecção mais restritiva dos concorrentes aos concursos desse horário nobre, com melhores prémios - uma espécie de superliga dos concursos?

    Repararam?

    Depois de assistir às prestações dos cinco candidatos presidenciais principais em debates televisivos, notei que há um aspecto em que o candidato Mário Soares bate os adversários aos pontos: a voz. E mesmo quando começou a tossir, tinha na manga um qualquer rebuçado-maravilha que logo aliviou a maleita...

    quinta-feira, dezembro 08, 2005

    Haikais de Boticas

    O anel do monte
    feito de nuvens.
    Chove.

    A moto-serra ruge,
    longe. Perto, cai
    uma folha.

    Delicada estrada
    para pequenos pés de pássaro.
    Fios.

    Solitária e cristalina
    água. Leva-me
    para a terra que me pertence.

    (Abrupto)

    [daqui]

    Art, truth and politics

    Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura de 2005, por Harold Pinter. A ler!

    sábado, dezembro 03, 2005

    DUDH - Art. 3º

    Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

    Sinais

    Há dias, o coliseu de Roma esteve iluminado à noite por causa da pena de morte. Há dias também, a execução de um condenado à pena capital, nos Estados Unidos, foi evitada, in extremis. Por cá, apesar do consenso entre forças políticas sobre o assunto, ignoram-se estas execuções estatais bárbaras que ocorrem num país pretensamente civilizado.

    Todas as cartas de amor são ridículas

    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.
    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)


    (Álvaro de Campos)

    Duas camponesas cavando num campo com neve


    (Vincent van Gogh)

    Para que serve este blog anónimo?

    1. Não serve para a denúncia nem para a maledicência. Isso seria cobardia.

    2. Não serve como diário. Também aqui se acredita que o que se come ao pequeno almoço não interessa nada ao público. Também não é um "diário sem factos". Os estados de alma são demasiado pessoais.

    3. Não serve como depositário de poesia lamechas. Ou, pelo menos, tenta-se que não sirva.

    4. Não serve para ter audiências e para tentar mudar o mundo. Por aqui não há ilusões dessas. Quem pode nos blogs (sem fotografias "sugestivas") é quem pode fora dos blogs.

    5. Serve para uso pessoal. Para coleccionar pequeninos tesouros. Se alguém quiser vê-los e gostar, tanto melhor.

    6. Serve para registar acontecimentos importantes (como a saída do último soldado da Faixa de Gaza ou o início do questionamento do estalinismo pelo líder do PCP). Serve também para ignorar o que não interessa na vidinha pública deste país pequenino.

    7. Serve para o que a imaginação e o bom senso permitirem.

    quinta-feira, dezembro 01, 2005

    251. Fragmentos de uma autobiografia

    «O desgosto de não encontrar nada encontrei comigo pouco a pouco. Não achei razão nem lógica senão a um cepticismo que nem sequer buscava uma lógica para se defender. Em curar-me disto não pensei - por que me havia eu de curar disso? E o que era ser são? Que certeza tinha eu que esse estado de alma deva pertencer à doença? Quem nos afirma que, a ser doença, a doença não era mais desejável, ou mais lógica, ou mais [], do que a saúde? A ser a saúde preferível, por que era eu doente se não por naturalmente o ser, e se naturalmente o era, por que ir contra a Natureza, que para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente?

    Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social - talhei dessa matéria de [] a estátua pesada da minha existência.

    Deixei leituras, abandonei casuais caprichos de este ou aquele modo estético da vida. Do pouco que lia aprendi a extrair só elementos para o sonho. Do pouco que presenciava, apliquei-me a tirar apenas o que se podia, em reflexo distante e errado, prolongar mais dentro de mim. Esforcei-me por que todos os meus pensamentos, todos os capítulos quotidianos da minha experiência me fornecessem apenas sensações. Criei à minha vida uma orientação estética. E orientei essa estética para puramente individual. Fi-la minha apenas.

    Apliquei-me depois, no decurso procurado do meu hedonismo interior, a furtar-me às sensibilidades sociais. Lentamente me couracei contra o sentimento do ridículo. Ensinei-me a ser insensível quer para os apelos dos instintos quer para as solicitações [].

    Reduzi ao mínimo o meu contacto com os outros. Fiz o que pude para perder toda a afeição à vida, []. Do próprio desejo da glória lentamente me despi, como quem cheio de cansaço se despe para repousar.»

    (Bernardo Soares)

    sábado, novembro 26, 2005

    O rouxinol e a cotovia

    JULIET
    Wilt thou be gone? it is not yet near day:
    It was the nightingale, and not the lark,
    That pierced the fearful hollow of thine ear;
    Nightly she sings on yon pomegranate-tree:
    Believe me, love, it was the nightingale.

    ROMEO
    It was the lark, the herald of the morn,
    No nightingale: look, love, what envious streaks
    Do lace the severing clouds in yonder east:
    Night's candles are burnt out, and jocund day
    Stands tiptoe on the misty mountain tops.
    I must be gone and live, or stay and die.

    JULIET
    Yon light is not day-light, I know it, I:
    It is some meteor that the sun exhales,
    To be to thee this night a torch-bearer,
    And light thee on thy way to Mantua:
    Therefore stay yet; thou need'st not to be gone.

    ROMEO
    Let me be ta'en, let me be put to death;
    I am content, so thou wilt have it so.
    I'll say yon grey is not the morning's eye,
    'Tis but the pale reflex of Cynthia's brow;
    Nor that is not the lark, whose notes do beat
    The vaulty heaven so high above our heads:
    I have more care to stay than will to go:
    Come, death, and welcome! Juliet wills it so.
    How is't, my soul? let's talk; it is not day.

    JULIET
    It is, it is: hie hence, be gone, away!
    It is the lark that sings so out of tune,
    Straining harsh discords and unpleasing sharps.
    Some say the lark makes sweet division;
    This doth not so, for she divideth us:
    Some say the lark and loathed toad change eyes,
    O, now I would they had changed voices too!
    Since arm from arm that voice doth us affray,
    Hunting thee hence with hunt's-up to the day,
    O, now be gone; more light and light it grows.

    ROMEO
    More light and light; more dark and dark our woes!


    (William Shakespeare, "Romeo and Juliet")

    O repentino canto da cotovia


    (Mike Danzenbaker's Nature Photography)


    (Bird Forum)


    Obrigada ao Divas e Contrabaixos pela referência à pérola que a pastora pediu emprestada!

    Canção

    Venham ver a maravilha
    Do seu corpo juvenil!

    O sol encharca-o de luz,
    E o mar, de rojo, tem rasgos
    De luxúria provocante.

    Avanço. Procuro olhá-lo
    Mais de perto... A luz é tanta
    Que tudo em volta cintila
    Num clarão largo e difuso...

    Anda nu - saltando e indo,
    E sobre a areia da praia
    Parece um astro fulgindo.

    Procuro olhá-lo; - e os seus olhos
    Amedrontados, recusam
    Fixar os meus... - Entristeço...

    Mas nesse olhar fugidio -
    Pude ver a eternidade
    Do beijo que eu não mereço...


    (António Botto)

    quarta-feira, novembro 23, 2005

    Luas pastoras



    As luas de Saturno Pandora e Prometeu são chamadas luas pastoras do anel F de Saturno. E que bem desempenham o seu papel! Digam lá se os borreguinhos não fazem uma fila indiana bem comportada!

    Lindo!



    Eugénio de Andrade (ele mesmo),
    via Almocreve das Petas


    O lugar da casa

    Uma casa que fosse um areal
    deserto; que nem casa fosse;
    só um lugar
    onde o lume foi aceso, e à sua roda
    se sentou a alegria; e aqueceu
    as mãos; e partiu porque tinha
    um destino; coisa simples
    e pouca, mas destino:
    crescer como árvore, resistir
    ao vento, ao rigor da invernia,
    e certa manhã sentir os passos
    de abril
    ou, quem sabe?, a floração
    dos ramos, que pareciam
    secos, e de novo estremecem
    com o repentino canto da cotovia.

    (Eugénio de Andrade, "O Sal da Língua")



    Saúde, fraternidade e um beijinho agradecido, caro blogger bibliófilo!

    terça-feira, novembro 22, 2005

    Nota existencial

    A vida são dois dias.

    Terrivelmente romântico

    Há cerca de uma semana, cruzei-me com uma senhora na rua, que teria entre 65 e 70 anos, com um olho completamente vermelho, que não parecia nada ter resultado de uma queda. Do outro lado da rua, o que parecia ser um marido pacato arrumava o conteúdo do porta-bagagem de um automóvel.

    Eu ainda sou do tempo...

    Em que tudo era política, em que o Estado éramos todos nós, em que dizer que alguém "se vende bem" era um insulto.

    Foi há muito tempo, não há dúvida...

    Desabafo

    É difícil dar dois passos neste país sem que surja um motivo para novamente perguntar como se chegou a isto, como foi permitido. Dizem-me que agora é tarde para fazer alguma coisa. Esta fealdade custou dinheiro a construir... No entanto, espanta-me que mesmo quando se trata de escombros de edifícios arrasados, se tenha tanto esmero em deixar as coisas no pior estado possível...

    segunda-feira, novembro 21, 2005


    (Paul Signac)

    Leitor

    «(...) Se não sou a única pessoa no mundo que, neste momento, neste talvez derradeiro momento da humanidade, lê o que os outros escrevem, onde estão os meus camaradas de armas? Será possível reunirmo-nos e criar um bastião de resistência, uma organização underground que lute contra a epidemia e, através do estudo, da leitura, da experimentação teórico-prática, encontre uma solução para devolver a saúde aos homens e pôr de novo o mundo a funcionar? Não sei. Confesso que não tenho muita esperança.

    Eu sou um leitor. Sei o que sou: leio o que os outros escrevem. Faço-o até compulsivamente. De manhã, ao pequeno-almoço, mesmo que não tenha um jornal pela frente, as páginas com a tinta ainda fresca aflorando a chávena de café, os meus olhor percorrem instintivamente a mesa, à procura de palavras, letras, frases para ler: "Corn Flakes", "rico em vitaminas e minerais", "Loja 18 - Rua Camilo Castelo Branco, 15-A", "Planta - margarina vegetal, 250 gramas"... Depois, à medida que o dia avança, vou lendo tudo: todos os jornais, todos os anúncios, todos os números de todas as portas, todos os nomes de todos os médicos na placa da policlínica que fica na rua pela qual perpasso todos os dias. Leio todos os romances que me passam pela frente, leio todos os ensaios que consigo ler, todos os poemas que me passam para a mão quando, à hora do almoço, vou comer um mini-prato ao balcão da pastelaria do bairro onde fica o meu emprego, no qual tenho por função ler todos os documentos que colocam em cima da minha secretária para esse mesmo devido efeito, que é eu lê-los.

    É verdade, não sei por que milagre fiquei imune ao vírus. E o engraçado é que nem sempre fui assim. Em jovem, eu próprio tentei escrever. Pode-se lá viver sem ter tentado escrever! Embora nessa altura, devo dizê-lo, houvesse muito menos gente a escrever. Eram outros tempos, havia muito analfabetismo, era uma vida de trabalho. Depois, descobri que preferia ler. Mas antes, confesso, eu próprio tinha a mania de escrever. Nada especial, acho: uns poemetos, um ou outro conto, dois ou três esboços de diálogos para teatro. Mas não vale a pena escondê-lo, eu tinha a mania de que sabia escrever.

    Talvez por isso eu tenha ficado imune, se calhar o meu pecadilho da juventude - queria ser escritor! - funcionou como vacina. Isso protegeu-me, até à data, admito, mas não sei até que ponto isto é uma benção ou uma maldição. Sou um leitor num mundo de escritores, e isso faz-me sentir muito sozinho. Porque todos escrevem - mas ninguém lê o que os outros escrevem. Ninguém senão eu. Não têm tempo. Estão tão absortos a contar a sua história, a conceber o seu monumento de imaginação e arte, que não têm tempo para ler. Não é uma questão de ter tempo, é que, simplesmente, já não conseguem. Não conseguem ler. E, qualquer dia, já não sabem ler. As línguas assim vão acabar, ainda antes mesmo do mundo, porque cada um vai cada vez mais e mais escrever na sua própria língua, no seu código muito pessoal, esquecendo-se de que a comunicação tem dois sentidos e que, para se ser compreendido, é preciso partilhar os elementos para essa compreensão. Não lêem. Só escrevem. Morrem. Tal é a potência, a perversão demente do vírus.

    E você? Não sei se existe, caro/a colega de sobrevivência neste mundo em colapso. Se ler isto, é porque ainda existe, e então fica a saber que, algures no planeta, talvez mesmo na sua cidade, há alguém que partilha os seus medos, angústias, mas também as suas esperanças. E talvez possamos encontrar-nos, era mesmo bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, para unir esforços, e procurar outros como nós: leitores imunes ao bicho da escrita. Bem sei que a sua primeira reacção talvez seja pensar: "Este tipo está a tentar enrolar-me. Ele próprio é um escritor, não um leitor de verdade. Ele próprio foi contaminado e está a tentar fazer-me crer que não, provavelmente com algum fim pouco honesto."

    Está no seu inteiro direito de pensar isso, eu também o pensaria se me aparecesse pela frente uma história assim. Nós não somos desconfiados por natureza, mas por cultura - e nunca ninguém perdeu em desconfiar do vizinho. Peço-lhe apenas o benefício da dúvida. Peço-lhe? Imploro-lhe. Aqui onde me vê, estou de joelhos, implorando-lhe que acredite em mim. Isto não é uma história, isto não é ficção. Estou apenas, genuinamente, a tentar estabelecer contacto com alguém que exista do outro lado da página.

    Estou a estender-lhe a mão. Por favor, considere a possibilidade de me estender a sua.

    Só mais uma palavra. Não escreva a responder. Bem sei que se calhar está imune, mas nunca se sabe. Apareça, apenas. Eu saberei reconhecê-lo/a, e você também me reconhecerá com facilidade. Seremos os únicos - na praça, no jardim, na rua, no café, onde quer que nos encontremos - sentados pacatamente, com um sorriso nos lábios e um livro, aberto, na mão.»

    (Rui Zink, "O Bicho da Escrita")

    domingo, novembro 20, 2005

    Coisas do Outono


    (daqui)

    Receitas:

    Há-de flutuar uma cidade

    há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
    pensava eu... como seriam felizes as mulheres
    à beira mar debruçadas para a luz caiada
    remendando o pano das velas espiando o mar
    e a longitude do amor embarcado

    por vezes
    uma gaivota pousava nas águas
    outras era o sol que cegava
    e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
    os dias lentíssimos... sem ninguém

    e nunca me disseram o nome daquele oceano
    esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
    punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
    assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
    se espantasse com a minha solidão

    (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

    um dia houve
    que nunca mais avistei cidades crepusculares
    e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
    inclino-me de novo para o pano deste século
    recomeço a bordar ou a dormir
    tanto faz
    sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

    (Al Berto)

    quinta-feira, novembro 17, 2005



    O vento

    O amor sacode
    meu coração, tal
    o vento caindo
    sobre os robles
    da montanha.


    (Safo, traduzida por Pedro Alvim)

    Um blog e quê...?



    Muito obrigada, estimados leitores, pelas vossas visitas, comentários e mimo imerecido!

    A imagem é de um catálogo norte-americano, da pêra Pillsbury, que, em 1894, era produzida em New Hampshire. (Bem parecida com a nossa pêra rocha, não?)

    quarta-feira, novembro 16, 2005

    Na senda das pequenas histórias

    Uma rapariga pergunta a um rapaz:
    - Queres casar comigo?
    O rapaz vira-se para o lado e pergunta:
    - Jarbas, pode trazer o meu coração?
    - Está num cofre de abertura retardada, Senhor.
    E morreram enquanto esperavam.

    Galo

    Pode sentir-se saudades de um galo a cantar pela manhã? Depois de muito tempo na cidade, e se ainda há alguma ligação com a natureza... sente-se mesmo.

    domingo, novembro 13, 2005

    Mulher a ler


    Marilyn Monroe

    Adenda/pin-up service: para os apreciadores de Marilyn, uma sugestão de fundo para o ambiente de trabalho. (Aposto que conseguem esquecer o pequeno-almoço indegesto...)

    Crucificada

    Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
    Por ti, todos os céus terão estrelas,
    Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las
    Ao beijar a esmola que me deres.

    Podes amar até outras mulheres!
    - Hei-de compor, sonhar palavras belas,
    Lindos versos de dor só para elas,
    Para em lânguidas noites lhes dizeres!

    Crucificada em mim, sobre os meus braços,
    Hei-de poisar a boca nos teus passos
    Pra não serem pisados por ninguém,

    E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
    Nascerás outra vez de outras entranhas,
    Nascerás outra vez de uma outra Mãe!


    (Florbela Espanca)

    A Divina Pastora

    Em lugar da Imaculada Conceição, venera-se, no Estado de Lara, na Venezuela, uma "Divina Pastora":

    «El comienzo de la veneración por la Divina Pastora se remonta al año de 1736, fecha en que el párroco de Santa Rosa encargó a un famoso escultor que le hiciera una estatua de la Inmaculada Concepción. No obstante, por una extraña equivocación, en lugar de la Inmaculada, llegó al pueblo la imagen de la Divina Pastora. De inmediato el párroco quiso devolverla, pero por mucho que lo intentaron, no pudieron levantar el cajón donde habían colocado la imagen. A partir de este momento la población interpretó este raro acontecimiento como señal de que la Divina Pastora quería quedarse entre ellos. Posteriormente, durante los sucesos del terremoto de 1812, el templo donde se veneraba la Divina Pastora fue destruido, pero su imagen quedó milagrosamente intacta, hecho que reforzó la creencia de los fieles de Santa Rosa de que la Virgen quería quedarse siempre entre ellos para protegerlos.» (Mais aqui.)

    Adenda: a figura da Divina Pastora, propriamente dita, foi sonhada, com pormenores da indumentária, por um padre capuchinho de nome Frei Isidoro de Sevilha, em 1705. (Ler mais.)

    sábado, novembro 12, 2005

    Leve arrepio

    Na televisão, em directo, uma procissão de velas com uma Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. A mesma religião e a mesma cidade dos autos-de-fé.

    Edelweiss


    (daqui)

    Médicos

    "Quanto às esperas por consultas. Como quer que não as haja? O que seria da medicina privada se não houvesse espera? Já tinha pensado nisso? Acha que este problema alguma vez vai ter solução? É o mesmo das operações. Como sobreviveriam as clínicas?"

    (Cecília Costa, numa caixa de comentários do Abrigo de Pastora)

    A minha solução é esta: dez vezes mais médicos. Ou o necessário para existirem em excesso no mercado. A dúvida é: estarão o Estado ou as universidades privadas dispostos a fazer esse investimento, contra o poderoso lóbi dos médicos?

    Para um primeiro-ministro, a educação já foi uma paixão; para este agora, a formação é um desígnio... mas talvez sejam mesmo as universidades espanholas a alterarem o nosso estado de coisas.

    sexta-feira, novembro 11, 2005

    A flor da solidão

    Vivemos convivemos resistimos
    cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
    fizemos porventura algum ruído
    traçámos pelo ar tímidos gestos
    e no entanto por que palavras dizer
    que nosso era um coração solitário
    silencioso profundamente silencioso
    e afinal o nosso olhar olhava
    como os olhos que olham nas florestas
    No centro da cidade tumultuosa
    no ângulo visível das múltiplas arestas
    a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
    Nós tínhamos um nome para isto
    mas o tempo dos homens impiedoso
    matou-nos quem morria até aqui
    E neste coração ambicioso
    sozinho como um homem morre cristo
    Que nome dar agora ao vazio
    que mana irresistível como um rio?
    Ele nasce engrossa e vai desaguar
    e entre tantos gestos é um mar
    Vivemos convivemos resistimos
    sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos


    (Ruy Belo)

    quinta-feira, novembro 10, 2005

    Reminiscência (III)

    «Cada um de nós é, por isso, como um símbolo, pois foi cortado em dois, como o linguado e, de um só, ficaram duas metades. Assim, cada uma procura a metade que lhe corresponde. (...)

    Quando qualquer homem encontra a sua metade é possuído por transportes de ternura, de simpatia e de amor. Não quer separar-se mais, nem que seja por um instante! Eis as pessoas que passam uma vida inteira juntas, sem poderem dizer o que esperam uma da outra, pois não me parece que seja o prazer dos sentidos que os faz encontrar tanto prazer na companhia um do outro! (...)

    A razão deste facto consiste em que a nossa antiga natureza era tal, que constituíamos um todo uno. O amor é a ânsia desta plenitude! (...)

    Também nós devemos recear, no caso de faltarmos aos nossos deveres para com os deuses, sermos divididos mais uma vez e tornarmo-nos como as figuras de perfil, talhadas em baixo-relevo nas colunas, com o nariz cortado em dois, ou semelhantes a tésseras. É necessário que nos exortemos uns aos outros a honrar os deuses, a fim de escaparmos a este castigo e obtermos os bens provenientes de Eros, nosso guia e nosso chefe.

    Que ninguém declare inimizade por Eros; declará-la significa expor-se à fúria dos deuses. Se conseguirmos a amizade e o favor do deus, descobriremos e reencontraremos aqueles a quem amamos, as nossas próprias metades, o que representa uma felicidade hoje reservada somente a poucos entre os vivos!»

    Platão, "O Banquete (O Simpósio ou Do Amor)", Guimarães Editores, tradução de Pinharanda Gomes

    Reminiscência (II)

    «Ora, depois de assim ter dividido o corpo, cada uma das partes, lamentando a outra metade, foi à procura dela e, abraçando-se e enlaçando-se umas às outras, no desejo de se fundirem numa só, iam morrendo de fome, por inacção, pois nada queriam fazer, umas sem as outras. Quando morria uma metade e a outra sobrevivia, esta procurava logo outra e enlaçava-se nela, quer fosse metade-mulher (o que hoje se chama uma mulher), quer fosse metade-homem e, deste modo, a raça ia extinguindo-se.

    Zeus, tocado de misericórdia, imaginou um outro expediente: transpôs os órgãos da geração para o lado da frente, pois, antes disso, estavam implantados atrás e os homens geravam, não uns nos outros, mas sobre a terra, como as cigarras. Colocou estes órgãos à frente, e fez com que os homens procriassem uns nos outros, isto é, o macho com a fêmea. Esta disposição tinha dois fins:

    Se o amplexo tivesse lugar entre um homem e uma mulher, estes conceberiam para perpetuar a raça e, se tivesse lugar entre dois homens, sobrevinha a saciedade e, depois disso, entregar-se-iam ao trabalho e proveriam às necessidades da existência. A partir deste momento aparece o amor inato que os seres têm uns pelos outros. O amor tende a reencontrar a antiga natureza, esforça-se por se fundir numa só, e por sarar a natureza humana.»

    Platão, "O Banquete (O Simpósio ou Do Amor)", Guimarães Editores, tradução de Pinharanda Gomes

    Reminiscência (I)

    «Apenas nos resta a designação, pois a espécie desapareceu. Era a espécie andrógina, que tinha a forma e o nome das outras duas, masculina e feminina, das quais era formada: hoje já não existe e não passa de uma designação pejorativa. Cada homem, no seu todo, era de forma arredondada, tinha dorso e flancos arredondados, quatro mãos, outras tantas pernas, duas faces exactamente iguais sobre um pescoço redondo e, nestas duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais, e tudo o resto na mesma proporção. Caminhava erecto, tal como o homem actual, na direcção que lhe convinha. Quando corria, fazia como os acrobatas, que dão voltas no ar. Lançando as pernas para cima e apoiando-se nos membros, em número de oito, rodava rapidamente sobre ele mesmo. Estas três espécies eram assim conformadas, porque o masculino tinha origem no Sol, o feminino na Terra, e a espécie mista provinha da Lua que, como se sabe, participa de ambos. Eram esféricos, e a sua locomoção também, porque se assemelhavam aos progenitores; possuíam igualmente uma força e um vigor extraordinários e, como eram corajosos, decidiram escalar o céu e guerrear os deuses, à semelhança de Efialto e de Oto, o que Homero conta.

    Em face desta invasão, Zeus e os restantes deuses deliberaram sobre a posição a assumir. O caso apresentava-se de solução difícil: não se podiam decidir a exterminar os homens e a destruir a raça humana a golpes de raio, como tinham feito aos Titãs, porque isso significava o fim das homenagens e do culto que os homens prestavam aos deuses; mas não podiam suportar este acto de insolência. Por fim, Zeus, tendo encontrado, não sem alguma dificuldade, uma solução, tomou a palavra e disse: «- Creio ter encontrado a maneira de conservar os homens e de cercear a sua liberdade: torná-los-ei mais fracos. Dividi-los-ei em duas partes. Obteremos, assim, a dupla vantagem de os tornar mais fracos e de continuar a tirar deles algum proveito, pois passarão a ser mais numerosos. Caminharão erectos sobre duas pernas. Se continuarem a mostrar-se insolentes e não sossegarem, voltarei a dividi-los, e caminharão sobre uma só perna!»

    Tendo pronunciado esta lei, Zeus cortou todos os homens em dois, tal como se cortam os frutos, ou um ovo com um cabelo. De cada vez que cortava um, ordenava a Apolo para lhe voltar a face e o pescoço para o lado do golpe, a fim de que, vendo-o, o homem se tornasse mais humilde; mandava-lhe, além disso, curar as feridas. Apolo assim fazia e, ligando toda a pele na parte que se chama ventre, deixava apenas uma cavidade, que se chama umbigo. Depois, alisava as costuras e arranjava o peito com um instrumento semelhante ao que utilizam os correeiros para polir, na fôrma, as rugas do cabedal, mas deixava ficar algumas rugas, como as do ventre e as do umbigo, como recordação deste castigo.»

    Platão, "O Banquete (O Simpósio ou Do Amor)", Guimarães Editores, tradução de Pinharanda Gomes

    quarta-feira, novembro 09, 2005

    Fogo

    Uma pastora chega ao seu abrigo, depois de um longo dia de trabalho e de cansaços. Está frio. Encontra uma fogueira acesa. Aproxima-se, deixa o calor atingir-lhe e ruborizar-lhe a face, e o crepitar embalar-lhe o repouso. Sorri. (Haverá um certo tipo de liberdade que surge do despojamento?)

    segunda-feira, novembro 07, 2005

    Broa


    Encontrada na Polónia.

    As regalias e os salários

    A retribuição por um determinado trabalho pode fazer-se por via dos salários, mas também por via das regalias complementares. As regalias têm um valor monetário preciso, em cada momento. Salários e regalias são, aliás, negociados lado a lado.

    Por que será, então, que, nunca se pondo a hipótese (por enquanto...) de diminuir os salários - num "momento de crise" que, por acaso, não se nota na compra de bens de luxo - se proponha e aceite tão facilmente a redução, ou mesmo a eliminação, das regalias anteriormente negociadas?

    Sociedade de castas?

    Por que é que os funcionários públicos têm ADSE? Por que é que, como descobrimos agora, há imensos subgrupos de funcionários públicos que têm regimes especiais?

    Será que os funcionários públicos devem ganhar bem e ter regalias (para lá do emprego vitalício), para termos alguma garantia de que não são corruptíveis?

    Não ganhariam os serviços públicos, nomeadamente os serviços de saúde, se pessoas de todas as condições os tivessem de utilizar? Não haveria então menos incompetência gritante, como ainda se vê nos balcões de atendimento dos centros de saúde? Menos meses de espera por uma consulta de um médico especialista?

    quarta-feira, novembro 02, 2005

    Apelo

    1. Uma área em que Portugal é rico: poesia.

    2. Há quem divulgue a poesia portuguesa, traduzida na língua franca internacional: aqui.

    3. Há coisas que se perdem nas traduções... E há coisas quase impossíveis de reencontrar, quer em lojas, quer via p2p. Como Eugénio de Andrade a dizer a sua própria poesia ou Carlos do Carmo a cantar o genérico da série "Retalhos da Vida de um Médico" - algumas das melhores coisas que se podem ouvir em português.

    E se houvesse um leitor do Abrigo de Pastora que tivesse os ficheiros audio e os que quisesse partilhar?...

    Lisbon revisited (1926)

    Nada me prende a nada.
    Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
    Anseio com uma angústia de fome de carne
    O que não sei que seja -
    Definidamente pelo indefinido...
    Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
    De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

    Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
    Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
    Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

    Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
    Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
    Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
    Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

    Compreendo a intervalos desconexos;
    Escrevo por lapsos de cansaço;
    E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
    Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
    Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
    ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

    Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
    E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
    Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
    (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
    Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
    Onde supus o meu ser,
    Fogem desmantelados, últimos restos
    Da ilusão final,
    Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
    As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

    Outra vez te revejo,
    Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
    Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

    Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
    E aqui tornei a voltar, e a voltar.
    E aqui de novo tornei a voltar?
    Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
    Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
    Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

    Outra vez te revejo,
    Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

    Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
    Transeunte inútil de ti e de mim,
    Estrangeiro aqui como em toda a parte,
    Casual na vida como na alma,
    Fantasma a errar em salas de recordações,
    Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
    No castelo maldito de ter que viver...

    Outra vez te revejo,
    Sombra que passa através das sombras, e brilha
    Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
    E entra na noite como um rastro de barco se perde
    Na água que deixa de se ouvir...

    Outra vez te revejo,
    Mas, ai, a mim não me revejo!
    Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
    E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
    Um bocado de ti e de mim!...

    (Álvaro de Campos)

    terça-feira, novembro 01, 2005

    Feed-back

    Feed-back de realimentação positiva
    Dos ácidos, aminoácidos, proteínas
    Fechados em células, ou à deriva
    A regularem para que não cresça a mais
    A regularem para que não cresça a menos
    A regularem para que seja assim.

    E eu, assisto impotente a este frenesim...

    He lá açúcares, compostos de carbono, adrenalina
    Guiados por algoritmo incorpóreo, cego, oculto
    Deixem de regular a minha sorte
    Em tropel, falsa desordem, tumulto...
    E de gerir minhas dores, meus amores, meus ais

    Se isto é a vida, eu quero a morte!

    Ao menos, os ácidos neutralizam as bases; dão sais... ha ha ha ...


    (Manolo, leitor do Abrigo de Pastora, numa janela de comentários)

    domingo, outubro 30, 2005


    © Abrigo de Pastora 2005

    A Cavafy, nos dias distantes de 1903

    Nenhum tão solitário mesmo quando
    acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
    como este grego que nos versos se atrevia
    a falar do que tanto se calava
    ou só obliquamente referia -
    nenhum tão solitário e tão atento
    ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

    1964

    (Eugénio de Andrade)

    sábado, outubro 29, 2005

    quarta-feira, outubro 26, 2005

    N.

    Nastassja Kinski

    Espantoso

    Tornou-se ritual. Os grevistas dizem que a adesão à greve foi de 90%. As entidades patronais, que foi de 10%. Depois, vem o comentador e diz que a verdade deve ser a média. E todos acham normal.

    Elementos

    Marte cada vez mais próximo. Os plátanos, obedientes, vestiram troncos e folhas de camuflados bicolores.

    domingo, outubro 23, 2005

    Igualdade de oportunidades, onde está?

    A escola com melhor posição no último ranking publicado é um colégio que cobra 400 euros por mês e tem turmas de 8 alunas.

    (Carlos do Carmo, música daqui)


    Gaivota

    Se uma gaivota viesse
    trazer-me o céu de Lisboa
    no desenho que fizesse,
    nesse céu onde o olhar
    é uma asa que não voa,
    esmorece e cai no mar.

    Que perfeito coração
    no meu peito bateria,
    meu amor na tua mão,
    nessa mão onde cabia
    perfeito o meu coração.

    Se um português marinheiro,
    dos sete mares andarilho,
    fosse quem sabe o primeiro
    a contar-me o que inventasse,
    se um olhar de novo brilho
    no meu olhar se enlaçasse.

    Que perfeito coração
    no meu peito bateria,
    meu amor na tua mão,
    nessa mão onde cabia
    perfeito o meu coração.

    Se ao dizer adeus à vida
    as aves todas do céu,
    me dessem na despedida
    o teu olhar derradeiro,
    esse olhar que era só teu,
    amor que foste o primeiro.

    Que perfeito coração
    no meu peito morreria,
    meu amor na tua mão,
    nessa mão onde perfeito
    bateu o meu coração.

    (Alexandre O'Neill)

    sábado, outubro 22, 2005




    Sonnet 130

    My mistress' eyes are nothing like the sun;
    Coral is far more red than her lips' red;
    If snow be white, why then her breasts are dun;
    If hairs be wires, black wires grow on her head.
    I have seen roses damask'd, red and white,
    But no such roses see I in her cheeks;
    And in some perfumes is there more delight
    Than in the breath that from my mistress reeks.
    I love to hear her speak, yet well I know
    That music hath a far more pleasing sound;
    I grant I never saw a goddess go;
    My mistress, when she walks, treads on the ground:
    And yet, by heaven, I think my love as rare
    As any she belied with false compare.


    (William Shakespeare)


    A canção anterior (que bem merece ser ouvida!) tem uma história que pode ler-se na Wikipedia, aqui. O título do álbum, "Nothing like the Sun", por sua vez, foi inspirado neste belo soneto de Shakespeare.

    Frágil

    E amanhã a chuva levará
    O sangue que a luta deixou derramar
    Na pele a dor do aço tão cruel
    Jamais a nossa voz vai calar

    Um ato assim pode acabar
    Com uma vida e nada mais
    Porque nem mesmo a violência
    Destrói ideais
    Tem gente que não sente que o mundo assim
    Ficará frágil demais

    Choro eu e você
    E o mundo também, e o mundo também
    Choro eu e você
    Que fragilidade, que fragilidade

    (Sting)

    *


    Fragile

    If blood will flow when flesh and steel are one
    Drying in the colour of the evening sun
    Tomorrow's rain will wash the stains away
    But something in our minds will always stay

    Perhaps this final act was meant
    To clinch a lifetime's argument
    That nothing comes from violence and nothing ever could
    For all those born beneath an angry star
    Lest we forget how fragile we are

    On and on the rain will fall
    Like tears from a star, like tears from a star
    On and on the rain will say
    How fragile we are, how fragile we are

    On and on the rain will fall
    Like tears from a star, like tears from a star
    On and on the rain will say
    How fragile we are, how fragile we are
    How fragile we are, how fragile we are


    (Sting)

    segunda-feira, outubro 17, 2005

    Chapéus-de-chuva


    (Auguste Renoir)

    A palavra impossível

    Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
    A vida que não se troca por palavras.
    Deram-mo para eu guardar dentro de mim
    As vozes que só em mim são verdadeiras.
    Deram-mo para eu guardar dentro de mim
    A impossível palavra da verdade.

    Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
    Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
    Para eu guardar dentro de mim,
    Para eu ignorar dentro de mim
    A única palavra sem disfarce -
    A Palavra que nunca se profere.

    (Adolfo Casais Monteiro)

    sábado, outubro 15, 2005

    Feminino?


    Simone de Beauvoir

    A escrita, a liberdade e a vida

    "Vivir para contarla" (de Gabriel García Márquez) é um título que muito aprecio. Para lá da óbvia causalidade que uma biografia implica, ele remete para o amadurecimento em que a boa escrita se apoia. A História dá-nos exemplos abundantes de seres humanos que compraram a sua liberdade (alguns, a imortalidade) através da escrita. Um homem senta-se, está consigo na sua solidão e, escrevendo, muda o mundo, porque agita as mentes. Mas para escrever e deixar marca não basta querer. Não bastam copiosos exercícios académicos. É preciso viver. Uma vida feita da sujeição aos agentes da natureza que provocam as rugas e as cãs, de sofrimentos vários, da paciência da observação dos acasos e do exercitar do livre-arbítrio possível, a cada dia que passa. Só depois o escritor pode transmitir o que tem de único, o seu testemunho insubstituível, a sua herança para o futuro. E, então, felizes os que o lêem.

    sexta-feira, outubro 14, 2005

    Será que, será que, será?

    Podres poderes

    enquanto os homens exercem seus podres poderes
    motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
    e perdem os verdes somos uns boçais
    queria querer gritar setecentas mil vezes
    como são lindos, como são lindos os burgueses
    e os japoneses mas tudo é muito mais
    será que nunca faremos senão confirmar
    a incompetência da américa católica
    que sempre precisará de ridículos tiranos?
    será, será que , que será , que será, que será
    será que essa minha estúpida retórica
    terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
    enquanto os homens exercem seus podres poderes
    índios, padres e bichas, negros e mulheres
    e adolescentes fazem o carnaval
    queria querer cantar afinado com eles
    silenciar em respeito ao seu transe , num êxtase
    ser indecente mais tudo é muito mau
    ou então cada paisano e cada capataz
    com sua burrice fará jorrar sangue demais
    nos pantanais, nas cidades , caatingas e nos gerais
    será que apenas os hermetismos pascoais
    e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
    nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
    enquanto os homens exercem seus podres poderes
    morrer e matar de fome, de raiva e de sede
    são tantas vezes gestos naturais
    eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
    daqueles que velam pela alegria do mundo
    indo e mais fundo tins e bens e tais
    será que nunca faremos senão confirmar
    a incompetência da américa católica
    que sempre precisará de ridículos tiranos?
    será, será que, que será, que será, que será,
    será que essa minha estúpida retórica
    terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
    ou então cada paisano e cada capataz
    com sua burrice fará jorrar sangue demais
    nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
    será que apenas os hermetismos pascoais
    e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
    nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
    enquanto os homens exercem seus podres poderes
    morrer e matar de fome de raiva e de sede
    são tantas vezes gestos naturais
    eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
    daqueles que velam pela alegria do mundo
    indo mais fundo
    tins e bens e tais
    tudo mais fundo
    tins e bens e tais
    tudo mais fundo
    tins e bens e tais


    (Caetano Veloso)

    Saudades do futuro


    (Zhu Shi Jie, Cerejeiras em Flor)

    Coisas estranhas que se ouvem sem querer

    Na rua, uma mulher ao telemóvel:
    - Ó, pá, passei a tarde no cabeleireiro.

    Num transporte público, um brasileiro ao telemóvel:
    - Esse que eu lhe ia arranjar também é sem contrato. Mas se você está bem nesse, é melhor ficar.

    sábado, outubro 08, 2005

    De uma wish list para uma cidade melhor


    (UW)

    Árvores. Muitas árvores. Dez vezes mais árvores. Não só acantonadas em jardins, mas em todos os passeios, com sombras que se vejam!

    quinta-feira, outubro 06, 2005

    Se perguntarem: das artes do mundo?

    Se perguntarem: das artes do mundo?
    Das artes do mundo escolho a de ver cometas
    despenharem-se
    nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
    charcos entre elas.
    Quero na escuridão revolvida pelas luzes
    ganhar baptismo, ofício.
    Queimado nas orlas de fogo das poças.
    O meu nome é esse.
    E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
    caem dentro dos dias - e eu estudo
    astros desmoronados, mananciais, o segredo.


    (Herberto Helder)

    sexta-feira, setembro 30, 2005



    (Pablo Picasso)

    Rimas

    Por viver numa castigada Babel, quantas belas rimas, quanta música escrita em palavras, nunca chegarei a conhecer...

    The tiger

    Tiger, tiger, burning bright
    In the forests of the night,
    What immortal hand or eye
    Could frame thy fearful symmetry?

    In what distant deeps or skies
    Burnt the fire of thine eyes?
    On what wings dare he aspire?
    What the hand dare seize the fire?

    And what shoulder and what art
    Could twist the sinews of thy heart?
    And when thy heart began to beat,
    What dread hand and what dread feet?

    What the hammer? what the chain?
    In what furnace was thy brain?
    What the anvil? What dread grasp
    Dare its deadly terrors clasp?

    When the stars threw down their spears,
    And water'd heaven with their tears,
    Did He smile His work to see?
    Did He who made the lamb make thee?

    Tiger, tiger, burning bright
    In the forests of the night,
    What immortal hand or eye
    Dare frame thy fearful symmetry?


    (William Blake)

    terça-feira, setembro 27, 2005


    (Joan Miró)

    Filhos de um deus menor

    Há as pessoas extremamente belas. Há as extremamente inteligentes. As extremamente talentosas. Há as que têm uma sorte extraordinária. Há, depois, todas as outras. As que não têm nada disso. E têm de se contentar. Ou, não se contentando, têm de viver frustradas.

    A variedade é boa. Mas, se tivesse havido um criador disto tudo, não poderia deixar de ser considerado excessivamente injusto...

    sábado, setembro 24, 2005

    Urgentemente

    É urgente o amor.
    É urgente um barco no mar.

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos,
    muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.


    (Eugénio de Andrade)

    terça-feira, setembro 20, 2005


    (Salvador Dali)

    Comece o dia com energia... com "Joy to the World"

    Joy to the World

    Jeremiah was a bullfrog
    Was a good friend of mine
    I never understood a single word he said
    But I helped him a-drink his wine
    And he always had some mighty fine wine
    Singin'...

    Joy to the world
    All the boys and girls now
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    If I were the king of the world
    Tell you what I'd do
    I'd throw away the cars and the bars and the war
    Make sweet love to you
    Sing it now...

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    ------ electric piano ------

    You know I love the ladies
    Love to have my fun
    I'm a high life flyer and a rainbow rider
    A straight shootin' son-of-a-gun
    I said a straight shootin' son-of-a-gun

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the world
    Joy to you and me

    Joy to the world
    All the boys and girls now
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    I wanna tell you
    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    Joy to the world
    All the boys and girls
    Joy to the fishes in the deep blue sea
    Joy to you and me

    (fading)
    Joy to the world
    All the boys and girls


    (Three Dog Night)

    segunda-feira, setembro 19, 2005

    Ataraxia

    Do grego ataraxia: «impassibilidade». Introduzido por Demócrito, e utilizado sobretudo pelos epicuristas e estóicos, o termo significa tranquilidade da alma — ausência de perturbação.

    Os estóicos identificam a ataraxia com a apatia, isto é, a serenidade intelectual, o domínio de si, o estado da alma que se tornou estranha às desordens das paixões e insensível à dor, rejeitando a procura da felicidade; já que as "coisas" não podem ser de outro modo, o mais sensato é acomodarmo-nos.

    Os cépticos e os epicuristas procuram o mesmo através da ataraxia, atitude que, sem renunciar à amizade, à compaixão, ao prazer ou à dor, não permite a perda do equilíbrio espiritual. Epicuro entende que se chega à felicidade pelo prazer, mas, porque alguns prazeres se revelam nefastos, é necessário fazer uma "triagem", rejeitando aqueles que não são naturais ou não são necessários à nossa paz: o prazer é, então, ausência de perturbações passionais da alma — a ataraxia. O homem sem paixões é o que é/está em si e para si: "estar fora de si" (o homem colérico, diz-se, é o que está fora de si) é a expressão que traduz o estado contrário à ataraxia.

    ||| A propósito...: 1) "Uma vida sem festas é uma longa estrada sem hospedagens" (Demócrito); 2) "Sábio é aquele que não se aflige com o que lhe falta e se satisfaz com o que possui" (Demócrito); 3) "Quando nos bastamos a nós mesmos, alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade" (Epicuro).

    (in Vocabulário de Filosofia, de A.R. Gomes)

    domingo, setembro 18, 2005


    (Fernando Pessoa)

    Está escrito "I know not what tomorrow will bring." A data é a da véspera da morte de Fernando Pessoa.

    365 dias no Abrigo de Pastora (IV)

    Sete anos de pastor Jacob servia
    Labão, pai de Raquel, serrana bela;
    mas não servia ao pai, servia a ela,
    e a ela só por prémio pretendia.

    Os dias, na esperança de um só dia,
    passava, contentando-se com vê-la;
    porém o pai, usando de cautela,
    em lugar de Raquel lhe dava Lia.

    Vendo o triste pastor que com enganos
    lhe fora assi negada a sua pastora,
    como se a não tivera merecida;

    começa de servir outros sete anos,
    dizendo: —Mais servira, se não fora
    para tão longo amor tão curta a vida.


    (Luís de Camões)

    (Jean-François Millet)

    365 dias no Abrigo de Pastora (III)

    Aniversário

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu era feliz e ninguém estava morto.
    Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
    E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
    De ser inteligente para entre a família,
    E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
    Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
    Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

    Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
    O que fui de coração e parentesco,
    O que fui de serões de meia-província,
    O que fui de amarem-me e eu ser menino,
    O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
    A que distância!...
    (Nem o acho...)
    O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

    O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
    Pondo grelado nas paredes...
    O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
    O que sou hoje é terem vendido a casa,
    É terem morrido todos,
    É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio....

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
    Que meu amor, como uma pessoa, este tempo!
    Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
    Por uma viagem metafísica e carnal,
    Com uma dualidade de eu para mim...
    Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

    Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
    A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
    O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
    As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

    Pára, meu coração!
    Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
    Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
    Hoje já não faço anos.
    Duro.
    Somam-se-me dias.
    Serei velho quando o for.
    Mais nada.
    Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

    O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


    15 de Outubro de 1929

    (Álvaro de Campos)

    (Jean-François Millet)

    365 dias no Abrigo de Pastora (II)

    Pastora da Serra

    Pastora da serra
    da serra da Estrela,
    perco-me por ela.


    VOLTAS

    Nos seus olhos belos
    tanto Amor se atreve,
    que abrasa entre a neve
    quantos ousam vê-los.
    Não solta os cabelos
    Aurora mais bela:
    perco-me por ela.

    Não teve esta serra
    no meio da altura
    mais que a fermosura
    que nela se encerra.
    Bem céu fica a terra
    que tem tal estrela:
    perco-me por ela.

    Sendo entre pastores
    causa de mil males,
    não se ouvem nos vales
    senão seus louvores.
    Eu só por amores
    não sei falar dela:
    sei morrer por ela.

    De alguns que, sentindo,
    seu mal vão mostrando,
    se rim, não cuidando
    que inda paga, rindo.
    Eu, triste, encobrindo
    só meus males dela,
    perco-me por ela.

    Se flores deseja
    por ventura, belas,
    das que colhe, delas,
    mil morrem de enveja.
    Não há quem não veja
    todo o milhor nela:
    perco-me por ela.

    Se na água corrente
    seus olhos inclina,
    faz luz cristalina
    para a corrente.
    Tal se vê, que sente,
    por ver-se, água nela:
    perco-me por ela.


    (Luís de Camões)

    (Egon Schiele)

    365 dias no Abrigo de Pastora (I)

    Os treze anos
    Cantilena


    Já tenho treze anos,
    que os fiz por Janeiro:
    madrinha, casai-me
    com Pedro Gaiteiro.

    Já sou mulherzinha;
    já trago sombreiro,
    já bailo ao Domingo
    com as mais no terreiro.

    Já não sou Anita,
    como era primeiro;
    sou a Senhora Ana,
    que mora no outeiro.

    Nos serões já canto,
    nas feiras já feiro,
    já não me dá beijos
    qualquer passageiro.

    Quando levo as patas,
    e as deito ao ribeiro,
    olho tudo à roda,
    de cima do outeiro.

    E só se não vejo
    ninguém pelo arneiro,
    me banho co’as patas
    Ao pé do salgueiro.

    Miro-me nas águas,
    rostinho trigueiro,
    que mata de amores
    a muito vaqueiro.

    Miro-me, olhos pretos
    e um riso fagueiro,
    que diz a cantiga
    que são cativeiro.

    Em tudo, madrinha,
    já por derradeiro
    me vejo mui outra
    da que era primeiro.

    O meu gibão largo
    de arminho e cordeiro,
    já o dei à neta
    do Brás cabaneiro,

    dizendo-lhe: "Toma
    gibão domingueiro,
    de ilhoses de prata,
    de arminho e cordeiro.

    "A mim já me aperta,
    e a ti te é laceiro;
    tu brincas co’as outras
    e eu danço em terreiro."

    Já sou mulherzinha;
    já trago sombreiro,
    já tenho treze anos,
    que os fiz por Janeiro.

    Já não sou Anita,
    sou a Ana do outeiro;
    madrinha, casai-me
    com Pedro Gaiteiro.

    Não quero o sargento,
    que é muito guerreiro,
    de barbas mui feras
    e olhar sobranceiro.

    O mineiro é velho;
    não quero o mineiro:
    Mais valem treze anos
    que todo o dinheiro.

    Tão-pouco me agrado
    do pobre moleiro,
    que vive na azenha
    como um prisioneiro.

    Marido pretendo
    de humor galhofeiro,
    que viva por festas,
    que brilhe em terreiro;

    Que em ele assomando
    co’o tamborileiro,
    logo se alvorote
    o lugar inteiro.

    Que todos acorram
    por vê-lo primeiro,
    e todas perguntem
    se ainda é solteiro.

    E eu sempre com ele,
    romeira e romeiro,
    vivendo de bodas,
    bailando ao pandeiro.

    Ai, vida de gostos!
    ai, céu verdadeiro!
    ai, Páscoa florida,
    que dura ano inteiro!

    Da parte, madrinha,
    de Deus vos requeiro:
    Casai-me hoje mesmo
    com Pedro Gaiteiro.


    (António Feliciano de Castilho)

    Melancolia


    (Albrecht Dürer)