segunda-feira, julho 31, 2006

Registo

Boas notícias: em S. Tomé e Príncipe, o candidato derrotado aceitou os resultados das eleições e felicitou o vencedor.

Más notícias: em Timor-Leste, segundo a Lusa, o Conselho de Estado "autorizou" (!) o Presidente da República a prorrogar o estado de emergência.

(Ralph Peackok, The sisters)

Xadrez

Qual é mesmo a razão para haver xadrez feminino?

sábado, julho 29, 2006


Maasai and the fire
(African Heritage)

Sal

The cure for anything is salt water — sweat, tears, or the sea.

(Karen Blixen)

Aleph

Num dos dias da vaga de calor que há algumas semanas ocorreu em Portugal (a "maior" desde há várias décadas, segundo os meteorologistas), sentei-me, no autocarro com ar condicionado, no último lugar vago. Ao meu lado, uma senhora de aspecto cuidado, com um rosto rendilhado com rugas. Daquelas que fazem lembrar um solo após longa seca ou uma ribanceira desprotegida depois de uma chuva forte. Talvez uma nonagenária, pensei. Sobre a cabeça, uma coroa branca de cãs. Virou-se para mim e começou a falar com a pronúncia açucarada do português do Brasil. Que nunca tinha sentido um calor assim. Nem mesmo durante os vinte e cinco anos em África. Olhei para ela. Estava ali condensada a memória de três continentes e de muitas décadas do século XX. Digam-me: não vos apeteceria também convidá-la para um lanche numa casa de chá (ou de gelados, dadas as circunstâncias!) e dizer-lhe "agora, conte-me tudo"?

sexta-feira, julho 28, 2006

Os jornalistas sabem do que falam?

Pérolas de hoje:

1. "Si-Dom", ouvido como nome da antiga cidade fenícia (a lembrar a "Dilí" timorense);

2. "relógio de Sol", designando um disco sem gnómon;

3. a notícia da existência de um (1) centro de saúde num prédio de habitação, a que os doentes têm de aceder subindo vários lanços de escadas.

Maasai Life
(African Heritage)

Away with war itself!

Song of the exposition

7

Away with themes of war! away with war itself!
Hence from my shuddering sight to never more return that show of
blacken'd, mutilated corpses!
That hell unpent and raid of blood, fit for wild tigers or for
lop-tongued wolves, not reasoning men,
And in its stead speed industry's campaigns,
With thy undaunted armies, engineering,
Thy pennants labor, loosen'd to the breeze,
Thy bugles sounding loud and clear.

Away with old romance!
Away with novels, plots and plays of foreign courts,
Away with love-verses sugar'd in rhyme, the intrigues, amours of
idlers,
Fitted for only banquets of the night where dancers to late music
slide,
The unhealthy pleasures, extravagant dissipations of the few,
With perfumes, heat and wine, beneath the dazzling chandeliers.

To you ye reverent sane sisters,
I raise a voice for far superber themes for poets and for art,
To exalt the present and the real,
To teach the average man the glory of his daily walk and trade,
To sing in songs how exercise and chemical life are never to be
baffled,
To manual work for each and all, to plough, hoe, dig,
To plant and tend the tree, the berry, vegetables, flowers,
For every man to see to it that he really do something, for every
woman too;
To use the hammer and the saw, (rip, or cross-cut,)
To cultivate a turn for carpentering, plastering, painting,
To work as tailor, tailoress, nurse, hostler, porter,
To invent a little, something ingenious, to aid the washing,
cooking, cleaning,
And hold it no disgrace to take a hand at them themselves.

I say I bring thee Muse to-day and here,
All occupations, duties broad and close,
Toil, healthy toil and sweat, endless, without cessation,
The old, old practical burdens, interests, joys,
The family, parentage, childhood, husband and wife,
The house-comforts, the house itself and all its belongings,
Food and its preservation, chemistry applied to it,
Whatever forms the average, strong, complete, sweet-blooded man or
woman, the perfect longeve personality,
And helps its present life to health and happiness, and shapes its
soul,
For the eternal real life to come.

With latest connections, works, the inter-transportation of the
world,
Steam-power, the great express lines, gas, petroleum,
These triumphs of our time, the Atlantic's delicate cable,
The Pacific railroad, the Suez canal, the Mont Cenis and Gothard and
Hoosac tunnels, the Brooklyn bridge,
This earth all spann'd with iron rails, with lines of steamships
threading in every sea,
Our own rondure, the current globe I bring.


(Walt Whitman)

segunda-feira, julho 24, 2006


(Jean-Baptiste Camille Corot, La clairière)

Em tempos de guerra

Miracles

Why! who makes much of a miracle?
As to me, I know of nothing else but miracles,
Whether I walk the streets of Manhattan,
Or dart my sight over the roofs of houses toward the sky,
Or wade with naked feet along the beach, just in the edge of the water,
Or stand under trees in the woods,
Or talk by day with any one I love—or sleep in the bed at night with any one I love,
Or sit at table at dinner with my mother,
Or look at strangers opposite me riding in the car,
Or watch honey-bees busy around the hive, of a summer forenoon,
Or animals feeding in the fields,
Or birds—or the wonderfulness of insects in the air,
Or the wonderfulness of the sun-down—or of stars shining so quiet and bright,
Or the exquisite, delicate, thin curve of the new moon in spring;
Or whether I go among those I like best, and that like me best—mechanics, boatmen, farmers,
Or among the savans—or to the soiree—or to the opera,
Or stand a long while looking at the movements of machinery,
Or behold children at their sports,
Or the admirable sight of the perfect old man, or the perfect old woman,
Or the sick in hospitals, or the dead carried to burial,
Or my own eyes and figure in the glass;
These, with the rest, one and all, are to me miracles,
The whole referring—yet each distinct, and in its place.

To me, every hour of the light and dark is a miracle,
Every cubic inch of space is a miracle,
Every square yard of the surface of the earth is spread with the same,
Every foot of the interior swarms with the same;
Every spear of grass—the frames, limbs, organs, of men and women, and all that concerns them,
All these to me are unspeakably perfect miracles.

To me the sea is a continual miracle;
The fishes that swim—the rocks—the motion of the waves—the ships, with men in them,
What stranger miracles are there?


(Walt Whitman)

quinta-feira, julho 20, 2006


(Gerard Terboch, Lady reading a letter)

Time

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.

(Pink Floyd)

quarta-feira, julho 19, 2006

De Israel

Eu supliquei e a inteligência me foi dada,
invoquei e o Espírito de Sabedoria veio a mim.
Eu a preferi a ceptros e tronos,
comparando-a considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro a seu lado, é areia apenas
e a prata vale tanto como o barro.
Amei-a mais que à saúde e à beleza
e quis tê-la como luz,
pois seu brilho não conhece ocaso.
Com ela me vieram por acréscimo todos os bens,
em suas mãos havia riquezas incalculáveis.
De todas gozei, pois é a Sabedoria quem as traz,
eu ainda não sabia, mas ela é a mãe de tudo.
Sem maldade aprendi, distribuo sem inveja
sua riqueza não escondo:
é um tesouro inesgotável para os homens,
quem a adquire atrai a amizade de Deus,
pois o Dom da instrução os recomenda.


(Livro da Sabedoria, tradução de José Tolentino Mendonça)

De vida e de morte

A viagem providencial do tenente Bligh entre as ilhas Tonga e Timor, após a revolta na Bounty, aqui deixada na versão de Sir John Barrow, termina aqui. (Admito que foi uma transcrição egoísta, a que nem tirei as serifas porque não contava que alguém lesse - embora eu não me importe de ler Camus ou Steinbeck no ecrã...)

Dos dezanove homens iniciais, dezoito chegaram a Timor. Desses, alguns sucumbiram entretanto à doença e não chegaram a Inglaterra. O tenente Bligh conseguiu fazer chegar esses homens a Timor, depois de muito navegar, calcular rações mínimas e mentalizar os desgraçados dos perigos que corriam, com mantimentos para cinco dias em circunstâncias normais.

Mais tarde, Bligh testemunharia a sua convicção de que nunca teriam recorrido ao canibalismo, preferindo morrer de fome como se de uma doença se tratasse. Há anos, tivemos notícia de um caso desesperado, mas o consumo da carne humana continua tabu (talvez por instintivamente sabermos dos seus perigos?). No entanto, continuam a exploração e o assassínio de semelhantes, mesmo agora, no século XXI, em que se enviam sondas para Plutão e em que a razão permitiu a compreensão de fenómenos imensamente complexos. E, paradoxalmente, os povos cuja cultura assenta em livros sagrados são justamente os que mais se matam irracionalmente.

Quando haverá respeito pela vida humana?

Homem a ler


Paul Newman

Post
com bónus para apreciadoras/es: as alegrias da rede, o azul, e assim... (Deve ser engraçado ser-se adolescente nos dias de hoje.)

terça-feira, julho 18, 2006

Uma viagem providencial (XXI)

Será o começo do fim?

A 8 de Junho registou-se ligeira melhoria do tempo. Os homens apanharam um pequeno golfinho, que dividiram em bocados de cento e vinte gramas. Mas, na noite seguinte, o vento soprou com fúria, a chalupa meteu muita água e o frio e a humidade tornaram-se atrozes, intoleráveis. O médico e Lebogue continuaram muito doentes, animados apenas pelas colherinhas de vinho e pela esperança de que, dada a velocidade a que seguiam, dentro de muito poucos dias Timor estivesse à vista.

«Na manhã do dia 10, após uma noite particularmente medonha - diz Bligh -, notei sensível alteração para pior no estado da maioria dos meus homens, o que me causou viva apreensão. Essa alteração exteriorizava-se por invencível fraqueza, grande inchaço das pernas, rosto emaciado e cadavérico, desejo irresistível de dormir e debilidade crescente do entendimento. Seriam os sintomas sinistros do começo do fim? Os mais antigos eram Lebogue e o médico, que pareciam autênticos moribundos. De vez em quando dava-lhes algumas colheres de vinho, que os reanimavam um pouco. Vivíamos apenas da esperança de chegar ao fim daquela pavorosa viagem. Com uma candura inocente, o contramestre confessou-me que, na sua opinião, era eu quem lhe parecia mais abatido. Ri-me da simplicidade das suas palavras e respondi-lhe com um comprimento menos macabro.»

No dia 11, o tenente Bligh comunicou aos companheiros a sua convicção de haverem ultrapassado o meridiano da ponta este de Timor, notícia que reanimou um pouco os infelizes. O comandante tinha razão: cerca das três horas da manhã do dia seguinte, as costas de Timor surgiram a menos de duas léguas da chalupa.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

segunda-feira, julho 17, 2006

Do Líbano

Altercação


Foi Satanás dar co'um Anjo           dentro do meu coração
E, enquanto esfrega um olho,           lá vai grande altercação.
Um diz: «A morada é minha!»;           o outro c'o mesmo refrão;
Eu, seguindo toda a cena           sem mexer. A Deus então

Perguntei: «Senhor, foi outro           Teu igual na Criação
Contigo a amoldar de início           minh'alma, de mão na mão?»

                                        *

Até hoje dou comigo           em dúvida e confusão
Não sei quem tenho: Demónio           ou Anjo no coração?



Miha 'ul Nu 'aymah
(tradução de Doina Zugravescu)

O mapa da viagem



Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Uma viagem providencial (XX)

De novo no mar alto

A 3 de Junho, depois de passar por vários baixios e outras ilhas, a chalupa dobrou o cabo Iorque, que é o ponto mais a nordeste da Nova Holanda. Às oito horas da noite dirigiu-se outra vez para o mar alto.

«Deus sabe como a nossa situação era desesperada! - escreve Bligh. Mas verifiquei com espanto, no meu foro íntimo, que a tripulação parecia menos preocupada do que eu próprio. Os homens davam-me a impressão de acabarem de embarcar com destino a Timor num navio onde tudo estivesse previsto para o seu conforto e segurança. Pelo meu lado, embalava-os na esperança de que dentro de oito ou dez dias desembarcaríamos em lugar seguro. Após ter pedido a Deus que continuasse a beneficiar-nos com a Sua misericordiosa protecção, distribuí a cada um uma ração de água para o jantar e mandei aproar a oés-sudoeste.

«Passáramos apenas seis dias na costa da Nova Holanda, onde encontrámos ostras, palurdas, aves e água. Mas, além desse reabastecimento suplementar, acháramos outra coisa igualmente importante: refiro-me ao alívio que sentimos por não sermos obrigados a permanecer sentados na chalupa e à bênção do verdadeiro repouso nocturno. Essa melhoria da nossa situação salvou-nos certamente a vida, pois, por muito pequena que fosse, a modificação que operou foi excepcional. Sem ela, a natureza acabaria por ceder aos ataques conjugados da extrema fadiga e da fome prolongada. Embora continuássemos num estado físico apavorante, o nosso moral fortalecera-se com a esperança de que chegaríamos ao fim dos nossos infortúnios.

«Pelo meu lado, por incrível que pareça, nunca senti as torturas da fome nem da sede. A minha ração bastava-me, pois sabia que não podia ter mais...»

No manuscrito do diário de Bligh lê-se o seguinte comentário:

«... Talvez por esta razão não me sinta autorizado a julgar objectivamente a história de seres tão infelizes como nós e que a necessidade levou a destruírem-se mutuamente, para comerem. Mas ser-me-á permitido duvidar da veracidade dos acontecimentos? Francamente, não creio que tal coisa pudesse acontecer entre nós; acho que a morte pela fome teria sido aceite apenas como qualquer doença mortal.»

A 5 de Junho apanharam à mão uma ave marinha e distribuíram o sangue pelos três homens manifestamente mais enfraquecidos, mas a carne guardaram-na para o almoço do dia seguinte. A 6, Bligh cumpre a sua promessa e restabelece a ração do jantar, que suprimira.

A 7, após uma noite atrozmente fria e encharcados pela água do mar, os homens recebem apenas a ração habitual para o pequeno-almoço; em contrapartida, ao almoço é-lhes distribuído um suplemento de sessenta gramas de palurdas secas, esgotando-se assim toda a reserva deste alimento.

As altas vagas abateram-se durante todo o dia sobre a chalupa. O estado de Mr. Ledward, que desempenhava as funções de médico, e de Lawrence Lebogue, um velho marinheiro endurecido, pareciam piorar de hora a hora. O único socorro que era possível prestar-lhes resumia-se a uma ou duas colherinhas de vinho especialmente reservado pelo comandante para este género de circunstâncias, infelizmente de fácil previsão.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

domingo, julho 16, 2006

Mulher que ensina a ler


(Jan Van Eyck, Madonna with the Child reading)

Uma viagem providencial (XIX)

Últimos dias ao abrigo da Grande Barreira

A 1 de Junho, a chalupa deteve-se no meio de várias ilhas arenosas à flor da água, conhecidas pelo nome de baixios, onde os homens fizeram nova provisão de palurdas e feijões.

Nelson foi então atingido por um mal violentíssimo, que se manifestou por calor e insuportáveis ardores nos intestinos, perda quase completa da vista, sede intensa e absoluta incapacidade de andar. Bligh reservara, providencialmente, um pouco de vinho, e deu-lho, com sopas de pão. Tomado em pequenas doses, este remédio permitiu-lhe restabelecer-se. O contramestre e o carpinteiro queixavam-se também de grandes dores de cabeça e de estômago, e outros sofriam atrozmente de hemorróidas. Em suma, poucos eram os que não tinham motivo sério para gemer.

À tarde, Bligh confiou a um grupo a missão de ir apanhar aves. Voltaram apenas com doze andorinhas-do-mar, mas, se não fosse a estupidez e obstinação de um dos «caçadores», que se perdeu e assustou a «caça», muitas mais teriam trazido. O culpado chamava-se Robert Lamb e, quando chegaram a Java, confessou que devorara nove pássaros crus, depois de se ter isolado dos companheiros. Além das andorinhas-do-mar e das palurdas, estes baixios não proporcionaram mais alimentos aos homens da chalupa.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

sábado, julho 15, 2006

Desintoxicação



SFF, uma desintoxicaçãozinha do tema "futebol", pode ser? Se não, pelo menos alguma variação sobre o tema. Por exemplo: o futebol é usado pelos investigadores de robótica como exemplo máximo de desporto social. Prevê-se ser cerca de quarenta anos (estas estimativas!) o tempo necessário para desenvolver robots capazes de defrontar humanos num jogo de futebol. Será que, nessa altura, os treinadores das equipas-robots poderão ser dispensados? Será permitida a "telepatia" entre jogadores-robots? Os guarda-redes-robots poderão usar sensores para os circuitos neuronais dos pontas-de-lança nos penalties? Os árbitros-robots terão que declarar preferências clubísticas?

Uma viagem providencial (XVIII)

A ilha do Domingo

A 31 de Maio desembarcaram numa dessas ilhas, a que deram o nome de «ilha do Domingo». Escreve Bligh: «Decidi mandar dois grupos em reconhecimento, um para o norte e outro para o sul, com a missão de procurarem víveres; os restantes homens ficariam na praia, perto da chalupa. Desta vez, o esgotamento e a fraqueza sobrepuseram-se ao sentimento do dever, e alguns, pelo menos, proclamaram o seu descontentamento, afirmando que tinham trabalhado mais do que os outros, e disseram-me que preferiam passar sem almoço a ter de procurá-lo. Um, em especial, chegou a gritar-me, em tom de revolta, que era tanto como eu e que não arredaria passo dali. O momento era crítico: quem podia prever o que sucederia se a crise não fosse sufocada a tempo? Resolvido a acabar de uma vez para sempre com semelhantes querelas, decidi solucionar aquela, recorrendo aos meios extremos. Das duas uma: ou mantinha intacta a minha autoridade, ou morreria tentando preservá-la. Apanhei dois alfanges, atirei um ao rebelde e ordenei-lhe que se defendesse. Tanto bastou para que soltasse grande gritos e bradasse que o queria assassinar. Acabou no entanto por pedir-me desculpa. Como o meu maior desejo é o bom entendimento da tripulação, não insisti e a calma voltou a reinar.»

Nesta ilha encontraram ostras, palurdas, uns peixes chamados cães-do-mar e uns feijões pequenos que o botânico, Mr. Nelson, classificou de dólicos.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Dom Quixote a ler


(Honoré Daumier)

Este quadro, tão expressivo, remete-me para as ideias do vício de certos tipos de leitura e para - digamos assim - a perdição através dos livros, encarnada em Dom Quixote. E esta última lembra-me o Index que, tanto quanto sei, ainda é observado pelos membros do Opus Dei. Estas criaturas, infinitamente arrogantes na sua santidade em construção, não são capazes de se sujeitar, como Cristo, às tentações do demónio. Preferem dispensar a sua inteligência do exercício da crítica. Imagino-os a persignar-se quando deparam com uma lombada proibida numa estante, a queimar livros "malditos" longe dos olhares públicos, a doutrinar as suas criancinhas sobre os perigos das ideias e da arte e a proibi-las de. É certo que Quixote se perdeu na loucura, em busca de aventura e glória, uma busca instigada pelos livros de cavalaria. Mas a sua humanidade delirante é bem mais interessante e bem mais real do que a pretensa santidade dos outros.

Cursos superiores

1. Um quiz curioso:

What is your Perfect Major?
created with QuizFarm.com

2. A diferença de estrutura entre os cursos dos diferentes países e, em particular, entre a das nossas moribundas licenciaturas e estes "majors" pode provocar calafrios a quem pretende obter a equivalência entre as primeiras e os segundos com base nos seus currículos. Felizmente, há alguns casos em que tudo bate certo.

3. Repetir exames nacionais porque as notas foram baixas? Deviam ter vergonha!

sexta-feira, julho 14, 2006

Uma viagem providencial (XVII)

A ilha da Restauração

«Como esse dia, o de 29 de Maio, era o aniversário da restauração do rei Carlos II - relata Bligh - e esse substantivo tinha certa afinidade com a nossa situação (visto sentirmo-nos física e moralmente restaurados), dei à ilha o nome de «ilha da Restauração». Pensei que o capitão Cook podia não a ter assinalado.»

Os homens saciaram-se com excelentes refeições de ostras e frutos de palmeira, cozidos juntos, e não tocaram nas rações de pão.

Na manhã do dia seguinte, 30 de Maio, Mr. Bligh notou, com grande alegria, visível melhoria no estado de saúde dos seus companheiros. Mandou-os apanhar ampla provisão de ostras, decidido a fazer-se ao largo naquela mesma tarde. Os homens enchera, também os barris de água disponíveis, e o comandante calculou que lhes restava pão para trinta e oito dias, continuando com as rações até aí distribuídas.

Quando todos estavam prontos para partir, Bligh recitou na margem uma acção de graças. Mas, precisamente no momento de embarcarem, surgiram a correr cerca de vinte selvagens nus que os intimaram, por sinais, a esperar. Como estavam todos armados de lanças, Bligh julgou mais prudente não estabelecer relações com eles... Afastaram-se, pois, da ilha da Restauração e aproaram a norte: à sua esquerda deixavam o continente e, à direita, certo número de ilhas e de recifes.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

T-L

1. Dois búzios timorenses, gigantes, perguntam-me:

- Baihira, bainhira mak' ita sei ukun rasik an?

2. Por que razão a luta pela independência timorense não foi como a indiana com Gandhi - perguntei, uma vez, ingenuamente. Porque os ocupantes não eram os mesmos. "As mulheres foram todas violadas" - foi a frase mais tremenda que ouvi em português nos últimos anos, e não foram búzios quem mo disse. Por isso, quando agora perguntam por que motivo os timorenses não são como os americanos, os ingleses ou os indianos, após um atentado, e se refugiam nas montanhas depois de uma troca de tiros, lembro-me daquela frase. Talvez seja porque o trauma não é exactamente igual.

Mulher que ensina a ler


(George de La Tour, L'education de la Vierge)

Vêem a chama da vela, tão direita? Este ambiente é calmo, propício à concentração. Tão diferente do das bibliotecas escolares da actualidade, invadidas por uma parafernália de estímulos inimigos da leitura: filmes em DVD a correr em contínuo, jogos de computador, o acotovelar por meia hora de internet, vozes altas de funcionárias que se acham no jardim de infância... Também não estou certa de que algumas prateleiras fechadas que esta pastora-consumidora-de-bibliotecas-escolares encontrou no seu percurso não tinham o seu lado positivo: obrigavam a querer ler antes de fazer o pedido. Já qualquer sistema de códigos de barras ou cartões magnéticos para fazer requisições - tão raros - é uma bênção.

quinta-feira, julho 13, 2006

Uma viagem providencial (XVI)

Ostras! Água potável!

A costa desenhava-se agora com nitidez. No dia 28, à tardinha, desembarcaram no promontório saibroso de uma ilha e, como a maré estava baixa, não tardaram a descobrir nos rochedos numerosas ostras. Um grupo enviado em missão de reconhecimento regressou eufórico: encontrara muitas ostras e água potável!

Acenderam uma fogueira, com o auxílio de uma pequena lente. Entre os objectos lançados no último momento para a chalupa, figuravam um isqueiro de pederneira e um pedaço de enxofre em bruto, os quais lhes permitiriam acender lume quando precisassem. Um dos homens fora também suficientemente previdente para levar uma pequena marmita de cobre, e assim, com uma mistura de ostras, pão e carne de porco, cozinharam um ensopado, do qual coube um bom meio litro a cada um. Depois de inúmeros esforços para arrancarem as ostras das rochas, chegaram à conclusão de que perderiam menos tempo se as abrissem no próprio local.

Mas como se lamentavam! Sofriam sobretudo de tonturas e vertigens, de grande fraqueza nas articulações e de espasmos dolorosos, embora nenhum apresentasse sintomas alarmantes. Caso singular: tinham sofrido os rigores do frio e da fome, mas a todos restava ainda certa reserva de vigor.

Mr. Bligh recomendou-lhes com insistência que não tocassem nas bagas nem nos frutos que porventura encontrassem. Parece porém que, mal se afastaram do seu campo visual, se lançaram como crianças sobre toda a espécie de frutos que abundavam na ilha e se empanzinaram. Alguns sentiram dores tão violentas que, apavorados, imaginaram ter ingerido frutos venenosos. Entreolhavam-se, com visível apreensão, perguntando a si mesmos se não iriam ser vítimas da sua imprudência. Felizmente, os frutos eram todos comestíveis.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

quarta-feira, julho 12, 2006

Tinta simpática romana

Xz xigm cuncarcq xircpg osmb dcacpgq.

Grande Barreira de Coral

Uma viagem providencial (XV)

A grande barreira de recifes

Bligh não se enganara: na manhã de 28 de Maio, o homem do leme ouviu o fragor da rebentação nos escolhos. Era a Grande Barreira de Recifes, ou Barreira de Coral, que se estende ao longo da costa oriental da Nova Holanda. Surgiu então o problema (e quão angustiante!) de encontrar uma passagem. Bligh declarou que era preciso tentar fazê-lo sem perda de um minuto.

A perspectiva de alcançar, finalmente, uma zona de águas calmas e de encontrar de comer e beber renovou a coragem dos homens da chalupa. À sua frente, por todos os lados, as vagas rebentavam com furor sobre os recifes; mas para lá deles, a água surgia tão calma, tão lisa, que saboreavam já, em imaginação, as recompensas que imaginavam esperá-los quando transpusessem a Grande Barreira.

Após longa exposição, descobriram finalmente uma passagem com um quarto de milha de largura. A chalupa entrou nela, com a forte corrente que a empurrava para oeste, e não tardou a encontrar-se numa zona de águas calmas: acto contínuo, todas as duras provações passadas foram esquecidas.

Não se esqueceram porém de elevar a Deus uma acção de graças, reconhecidos por lhes ter concedido a Sua generosa protecção. Em seguida devoraram, com prazer, a sua mísera ração de dezoito gramas de pão e quinze centilitros de água.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Terror é...

Ligar o rádio e saber que Bagão Félix se prepara para fazer o seu comentário desportivo. Felizmente, consegui desligar antes da primeira sílaba.

terça-feira, julho 11, 2006

Shine on You crazy Diamond

Remember when you were young, you shone like the sun.
Shine on you crazy diamond.
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky.
Shine on you crazy diamond.
You were caught on the crossfire of childhood and stardom,
blown on the steel breeze.
Come on you target for faraway laughter,
come on you stranger, you legend, you martyr, and shine!
You reached for the secret too soon, you cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.
Threatened by shadows at night, and exposed in the light.
Shine on you crazy diamond.
Well you wore out your welcome with random precision,
rode on the steel breeze.
Come on you raver, you seer of visions,
come on you painter, you piper, you prisoner, and shine!


(Pink Floyd)

(Albert Moore)

Dúvida

Um tema em hibernação: a constituição europeia. Uma vez que foi feita e que alguns países aprovaram o seu texto e outros o rejeitaram, seria de considerar referendar a constituição em partes, isolando os pontos polémicos? Assim, os países que votaram sim já aprovaram tudo, e o que fosse rejeitado poderia, então, ser renegociado.

Uma viagem providencial (XIV)

Depois, o suplício do calor!

O tempo melhorou, o que, por estranho que pareça, teve os seus inconvenientes, pois os tripulantes da chalupa viram-se a braços com um novo suplício, inteiramente diferente dos anteriores. O Sol difundia um calor tórrido, tão intolerável, que vários homens foram vítimas de uma espécie de quebreira, de fraqueza, que os tornava indiferentes a tudo, até à existência.

De tarde tiveram a sorte de apanhar mais duas andorinhas-do-mar, e esse facto, aparentemente insignificante, levantou-lhes o moral. O estômago das aves continha vários peixinhos voadores e pequenos moluscos que foram cuidadosamente postos de parte para o almoço do dia seguinte. As andorinhas-do-mar foram divididas em dezoito porções, e, como o suplemento era de importância, Bligh distribuiu-o segundo a regra do «Quem o receberá?» A este respeito faz o seguinte comentário: «Hoje, apesar da ração habitual de pão ao pequeno-almoço e ao almoço, verifiquei com prazer que os homens julgavam ter participado num festim.»

Começaram a aparecer nuvens no céu e Bligh anunciou que se encontravam, certamente, perto da costa. Passaram todos uma tarde agradável, tentando imaginar o que encontrariam em terra.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

segunda-feira, julho 10, 2006


(Jean-François Millet)
A: Ofereceram-me cento e cinquenta livros num CD.
B: Eram bons?
A: Um era. Mas também estava no Projecto Gutenberg. Acabei por comprar a versão em papel.
B: E qual era?

Uma viagem providencial (XIII)

«Quem o receberá?»

A 25 de Maio, perto do meio-dia, algumas andorinhas-do-mar vieram esvoaçar tão próximo da chalupa que uma delas foi apanhada à mão. Esta ave tem mais ou menos o tamanho de um pombo pequeno.

«Dividi-a - conta Bligh -, com entranhas e tudo, em dezoito porções, e depois reparti-a, como suplemento da ração de pão e água do almoço, segundo o tão conhecido método do mar, o «Quem o receberá?»1 O pássaro foi engolido, com ossos e tudo, e regado com água do mar, à guisa de molho. À tarde voltámos a ter a sorte de apanhar outra ave marinha, desta vez uma espécie do tamanho de um pato, o que veio confirmar que nos aproximávamos de terra. Ordenei que a matassem para o jantar e que o sangue fosse dividido pelos três homens mais enfraquecidos por falta de alimentos. O corpo da ave, com entranhas, bico e patas, foi partido em dezoito bocados e, com uma ração de pão extraordinária que resolvi distribuir, tivemos um jantar excelente, comparado com os habituais.

«Na manhã de 26 apanhámos outra andorinha-do-mar. Seria a Providência que acorria às nossas necessidades de modo tão pouco comum? Fosse como fosse, a verdade é que os homens ficaram encantados com o novo suplemento do seu almoço. O pássaro foi servido como na tarde da véspera, quer dizer, mandei dar o sangue aos mais fracos. A maior parte dos meus companheiros tinha o costume de molhar o pão na água do mar, para o tornar mais saboroso, mas eu preferia cortá-lo em bocadinhos e mergulhá-lo na água doce que me serviam numa casca de coco. Comia-o depois às colheres, tendo o cuidado de não apanhar bocados muito grandes de cada vez e de levar o mais tempo possível a mastigá-lo, como se se tratasse de um reparto copioso.»


1 Um homem volta as costas ao objecto que deve ser repartido e outro designa separadamente as porções e, a cada uma, pergunta em voz alta: «Quem o receberá?» A pessoa que está de costas voltadas indica então o beneficiário. Este método imparcial de distribuição proporciona a todos igual possibilidade de apanharem o melhor bocado. Bligh contou muitas vezes que os seus pobres companheiros riram muito quando lhes coube o bico e a palmura das patas.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

domingo, julho 09, 2006


(Paul Gauguin, Ta matete / We shall not go to market today)

Estes gestos egípcios em raparigas da Polinésia são mesmo estranhos... E a pose da do vestido cor-de-laranja, que parece a de uma tia de Cascais?...

Informações na rede sobre a revolta na Bounty

Descobrem-se coisas interessantes:

- que há alunos alemães que estudam a revolta e fazem visitas de estudo à Polinésia....

- que os computadores permitem fazer projecções estranhíssimas da superfície do planeta, para representar a viagem de regresso de Bligh a Inglaterra (muito, muito longa, a viagem desde o largo das ilhas Tonga até Timor);

- que as duas formas distintas de liderança de Bligh são tema de estudo. O mais incrível é terem coexistido na mesma pessoa. Se não tivesse acontecido, era uma história inverosímil.

Se o Google não existisse

Seria assim.

E ainda:

* Seria difícil saber a que objectos algumas palavras inglesas ou francesas correspondem sem consultar dois ou três dicionários, em vez de usar a pesquisa de imagens.

* Seria mais difícil detectar plagiadores ingénuos.

* Seria difícil descobrir, de entre várias formas de uma palavra ou expressão, qual a mais usada.

* Seria difícil excluir palavras de um dicionário de sinónimos, por não serem muito procuradas no Google.

Uma viagem providencial (XII)

Bligh volta a reduzir as rações

O mar acalmou-se, por sua vez, e a chalupa começou a meter menos água. O capitão Bligh aproveitou a acalmia para examinar o estado do pão e avaliar o que restava. Baseando-se nas rações dos dias anteriores, calculou ter ainda o suficiente para mais vinte e nove dias. Claro que possuía boas razões para crer que, nesse espaço de tempo, alcançariam Timor, mas não podia ter a certeza de nada, nem devia rejeitar, a priori, a hipótese de um desvio até Java. Decidiu, por isso, reduzir ainda mais as rações, para que a provisão de pão durasse seis semanas.

«Receei - explica - que esta decisão fosse mal acolhida e que me visse obrigado a apelar para toda a minha energia, a fim de a impor; na realidade, por muito pequena que fosse a quantidade que tencionasse subtrair a todos para nossa segurança futura, o meu gesto poderia ser interpretado como uma espécie de levantamento contra as suas vidas. Não ignorava que a paciência de alguns atingira o limite, e esperava que aceitassem muito mal a decisão.

«No entanto, quando lhes expliquei a necessidade de nos prevenirmos contra os atrasos que podiam ocasionar-nos os ventos contrários ou qualquer outro motivo, e lhes prometi aumentar as rações à medida que nos aproximássemos da meta, declararam-se unânimes e espontaneamente de acordo com a minha decisão.»

Ficou assente, portanto, que cada passageiro da chalupa continuaria a receber dezoito gramas de pão ao pequeno-almoço e ao almoço, mas que a ração do jantar seria suprimida. Esta nova redução permitiu alargar a duração daquele alimento a quarenta e três dias.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Retratos do trabalho no Paquistão


(Danny Yee)


(Danny Yee)

Clicar para vem em tamanho maior.

sexta-feira, julho 07, 2006

Uma viagem providencial (XI)

Enfim, uma acalmia!

"Na noite de 24, com satisfação geral, o vento enfraqueceu e o céu clareou. Comemos a nossa magra ração com maior prazer. A noite foi bela, também, mas, como continuávamos ensopados de água do mar, o frio não deixou de atormentar-nos. Apesar disso, tive a felicidade de verificar que a manhã ensoalhada fazia renascer nalguns o entusiasmo e o bom humor. Pela primeira vez em quinze dias apreciámos as delícias do calor do sol. Despimo-nos e pendurámos a roupa interior e os fatos a secar, umas e outros tão puídos, tão usados, que não ofereciam qualquer protecção contra o frio e a humidade. De tarde, grande número de pássaros que, como as andorinhas-do-mar, jamais se aventuram longe de terra, veio esvoaçar à volta da chalupa."


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

quinta-feira, julho 06, 2006

A ler

A antropologia e o rei, no blog Dædalus.

Mulher a ler


(Frank Millet, A Cosey Corner)

Este quadro, ao contrário do da anterior mulher que não lê, de Gauguin, tem ponto de fuga, mas, na minha opinião, tem também um pequeno "erro de casting". Paciência. Reparem nas três maçãs.

O quadro, muito realista, de 1884, foi oferecido ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque. Gosto da riqueza dos detalhes. A cozinha parece pobre, porque pequena e sem chaminé, e a roupa clara da rapariga sugere que tem vestido um fato domingueiro. O sapato vai no mesmo sentido. (Onde andará o outro pé?) O que trás na cabeça não parece um chapéu, mas um lenço de cor dissonante para proteger o cabelo durante trabalhos de limpeza... Gostos. O livro é de tamanho reduzido mas com um número não muito pequeno de páginas, de leitura desconfortável. Poderia ser um missal. Ou não. O que poderia uma rapariga norte-americana ler em 1884? Muitas coisas interessantes, parece-me.

A mão da rapariga que não está a segurar o livro puxa a cortina para trás para deixar entrar mais luz, a partir de um exterior com árvores. O banco, construído na parede, deve ser frio. Fica, aliás a dúvida sobre se será realmente um banco, por ser muito estreito e alto, a exigir uma caixa para apoiar os pés.

Em cima, no apoio sobre a divisória, há uma espingarda, um machado, vários candelabros e outros utensílios. Não há objectos para embelezar a casa, tudo tem um fim prático.

Em toda a divisão impera a ordem e o asseio: na janela, sobre a divisória, no chão em pedra e no fogão. Só a parede junto ao fogão vai enegrecendo com o fumo. As ervas que secam junto ao fumeiro, sem cor específica, sugerem vagamente um agrado ao olfacto ou ao paladar. Ao lado do fogo, sobre uma coluna, está esquecida uma chávena de chá, indicação de uma leitura atenta.

O fogo, em cores muito realistas, continua a aquecer o bule suspenso pela asa. A emoldurar as três maçãs que cozem sobre a plataforma do fogão, duas curiosas figuras de ferro. Estarão presas ao fogão? Estranho. A chita e o peitinho em renda do vestido, as cores diversas nas pedras do chão, o verde no exterior da janela, as figuras inúteis de ferro, e, claro, as três maçãs, são, afinal, os adornos simples da cena.

Uma viagem providencial (X)

Meio mortos

Ao dealbar do dia 20, declara o comandante, alguns homens pareciam meio mortos. O espectáculo oferecido por aqueles seres lívidos, descarnados e andrajosos era qualquer coisa de horrível. "Onde quer que o meu olhar pousasse - relata -, apenas deparava com sofrimento, angústia, tortura moral, esgotamento físico. Os terrores da fome torturavam-nos a todos, mas ignorávamos quase totalmente os da sede. Quase não sentíamos necessidade de beber, e creio que até esse desejo fora saciado através da nossa pele. Dormíamos por assim dizer dentro de água e acordávamos com cãibras e dores insuportáveis nos ossos. Ao meio-dia, o Sol espreitou, reanimando-nos a todos.

"Durante toda a tarde do dia 21 de Maio, a chuva e as vagas inundaram-nos de tal maneira que mal nos divisávamos uns aos outros. O frio tornou-se agreste, fazendo-nos temer a aproximação da noite, e o sono, em que concentrávamos todos os nossos desejos, não nos dava qualquer alívio. Pelo meu lado, vivi praticamente sem dormir todos esses terríveis dias.

"A 22 achámo-nos à beira da catástrofe final. Éramos obrigados a seguir a direcção das ondas e tínhamos de evitar a todo o preço colocarmo-nos de través: o mínimo erro na manobra da cana do leme significaria a destruição imediata. Durante todo o dia, o vento soprou com fúria e a água do céu e do mar caiu, sem parar, sobre nós.

"O suplício dessa noite ultrapassou em horror o da anterior. Os vagões que se abatiam sobre a chalupa, e que nos submergiam com brutalidade inaudita, condenavam-nos a esgotar a água continuamente, com ansiedade que raiava o pavor. Ao nascer do dia estávamos todos extenuados. A miséria física de alguns era tão grande que comecei a recear que nova noite tão torturante como aquela lhes fosse fatal: pareciam incapazes de suportar os seus sofrimentos. Distribuí uma ração de duas colheres de rum. Depois de a bebermos, de torcermos as nossas roupas encharcadas e de comermos o nosso pequeno-almoço de pão e água, sentimo-nos um pouco melhor."


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

quarta-feira, julho 05, 2006

Notas

Muitos anos depois de ser libertado, o Koweit viu há dias, pela primeira vez, as mulheres a votar. Uma dizia que era como um casamento(!). Venceu a oposição.

Ontem houve uma condenação em Aveiro por um caso de aborto. Um médico foi condenado. A Ordem dos Médicos "considera que a punição e a legislação não resolvem a questão do aborto, pelo que defende o empenho da sociedade portuguesa na definição do início da vida humana".

O futebol movimenta muito dinheiro, os clubes e as federações têm uma autonomia estranha, e alguns descontentes com os jogadores seleccionados põem em causa a representatividade das selecções nacionais. O seleccionador de Portugal, a pedra de toque da equipa, é brasileiro. A selecção portuguesa joga hoje nas meias-finais do campeonato do mundo e, se ganhar, isso será um acontecimento inédito. Um aparente caso de grande produtividade. E a imagem de Portugal no mundo, sairá realmente beneficiada? Ser-se conhecido, em primeiro lugar, pelo futebol, é assim tão bom? Atrai investimento estrangeiro? Sequer turistas?

As quatro equipas nas meias-finais são europeias. A Europa, superpotência do futebol... Mas não só, felizmente.

O período dos jogos tem deixado Lisboa deserta, em oportunidades ideais para assaltar bancos... (Será que existe um cantinho do inferno para os assaltantes de bancos e que os verdadeiros Butch Cassidy, The Sundance Kid e Clyde - do par Bonnie & Clyde - eram parecidos com Paul Newman, Robert Redford e Warren Beatty?)

terça-feira, julho 04, 2006

Mulher que não lê


(Paul Gauguin, Retrato de Madeleine Bernard, 1888)

Porque também é preciso descansar os olhos. Aliás, a maior parte dos "leitores" deste blog não são leitores. São criaturas googladoras espalhadas pelo mundo, em frente a ecrãs de computadores, à procura da imagem de um pastor. Sai-lhes a pastora de Millet com o seu rebanho, o que não me parece mau de todo.

Explicação

A viagem providencial já vai longa, mas agora não posso deixar os desgraçados no meio do oceano, pois não?

Uma "colher de chá" de rum, "trinta gramas de carne, ao almoço"... talvez esta odisseia pudesse servir como plano de dieta...

Uma viagem providencial (IX)

Multiplicam-se os tormentos

Na manhã de 17, logo às primeiras claridades da alvorada, "deparei - relata o capitão - com todos a gemer e a queixar-se. Alguns suplicaram-me que distribuísse uma ração suplementar, mas recusei. A nossa situação era pavorosa: sempre encharcados, gelados pelo frio da noite, não dispúnhamos, naquela embarcação sem ponte, do mínimo abrigo que nos protegesse das intempéries. A pequena quantidade de rum que possuíamos prestava-nos imensos serviços: quando as noites eram demasiado intoleráveis, distribuía uma colher de chá, e às vezes duas, a cada homem, e todos se animavam quando o fazia.

"A noite de 17 para 18 foi ainda mais sombria e angustiosa: os vagalhões sucediam-se sobre a chalupa, e nós só podíamos governar com o vento e as vagas. Planeava chegar, se possível, à costa da Nova Holanda e percorrê-la para sul do estreito de Endeavour, pois compreendia que precisava de um bom vento do sul. Esperava que, contornando a Grande Barreira de Recifes, descobríssemos uma abertura que nos permitisse passar para águas calmas e, eventualmente, até, repousarmos e reabastecermo-nos de víveres."

A 18, a chuva cessou. Bligh recomendou de novo aos seus homens que se despissem e mergulhassem a roupa na água do mar e, como da primeira vez, isso foi-lhes benéfico. Todos sentiam violentas dores nos ossos.

Quando chegou a noite, recomeçou a chover: uma chuva tropical de que os ocidentais não faziam ideia, acompanhada de relâmpagos e trovões. Na chalupa tornou-se necessário recomeçar a esgotar a água sem descanso.

Semelhante temporal prolongou-se pelos dias 19 e 20, como se se tratasse de um verdadeiro dilúvio. Toda a gente manejava o vertedouro, mas o tenente Bligh achou necessário distribuir apenas trinta gramas de carne, ao almoço.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

segunda-feira, julho 03, 2006

Coexistir



Era bom que fosse mais. Mas, pelo menos, isso.

The more loving one

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

(W. H. Auden)

Uma viagem providencial (VIII)

O céu e o mar em fúria

A 13 e a 14 de Maio, a fúria do mar e do céu não se apaziguou. Avistaram terra, ao longe, e passaram por diversas ilhas, o que, como é natural, lhes aumentou a sensação de miséria e abandono. Pareciam homens prestes a morrer de fome diante de uma paisagem de abundância. Mas qualquer tentativa para conseguirem um suplemento de víveres envolvia perigos tão grandes que lhes pareceu mais sensato renunciar: preferiam prolongar a existência, mesmo em circunstâncias tão pavorosas, enquanto tivessem esperança de conservar forças suficientes para vencer as provações que os esperavam.

Todo o dia 15 e a noite seguinte choveu a cântaros. A noite estava tão cerrada que as estrelas não apareceram e Bligh teve de governar sem visibilidade e de haver-se com as vagas que continuavam a abater-se sobre eles. De manhã, quer dizer, a 16 de Maio, distribuiu a cada homem cinquenta gramas de carne, em suplemento da minúscula ração de dezoito gramas de pão. A noite seguinte seria uma verdadeira visão do inferno, com trovoada, relâmpagos, chuva, e nem uma estrela. Bligh governava a cana do leme como se tivesse cegado.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

domingo, julho 02, 2006


(Ilya Repin, On a turf bench)

Uma viagem providencial (VII)

Novas tempestades

O dia seguinte não trouxe nenhuma melhoria, a não ser a luz de uma nova manhã. As vagas abatiam-se sobre a chalupa com tal violência que Bligh ordenou aos homens que se atassem, dois a dois, e esgotassem a água sem cessar. A ração de víveres, que distribuia agora regularmente três vezes ao dia (de manhã, ao meio-dia e ao pôr do Sol), compunha-se de dezoito gramas de pão e quinze centilitros de água; mas naquele dia acrescentou, ao almoço, quinze gramas de carne de porco, por cabeça. Em tempo normal, essa porção daria para uma dentada, mas na chalupa os homens repartiram-na em três ou quatro.

A 11 de Maio, pela manhã, o estado do mar ainda não melhorara.

«Ao nascer do dia distribuí a cada um uma colher, das de chá, de rum. Tínhamos os membros tão torturados por cãibras que quase não conseguíamos mexer-nos. A nossa situação tornara-se extremamente perigosa, com as vagas a inundarem constantemente a ré e a obrigarem-nos a esgotar a água sem descanço e com todas as nossas forças. Ao meio-dia, o Sol apareceu, dando-nos tanto prazer como se o víssemos em Inglaterra num dia de Inverno.

«Na noite de 12 voltou a chover com violência inaudita, fazendo-nos passar horas atrozes. Finalmente, o dia nasceu, iluminando com a sua luz um grupo de seres miseráveis, torturados por todas as necessidades vitais e desprovidos de tudo quanto seria preciso para as satisfazer. Alguns queixavam-se de grandes dores nos intestinos e todos tínhamos, por assim dizer, perdido o uso dos membros. O pouco que conseguíramos dormir não nos repousara, pois as vagas e a chuva não cessaram de nos ensopar.

«Como o mau tempo persistisse e a ausência de sol nos negasse a esperança de secarmos a nossa roupa, aconselhei os meus companheiros a despirem-se e a mergulharem os fatos na água do mar. Seguiram o meu conselho e beneficiaram de um reaquecimento que a roupa molhada pela chuva não lhes permitiria.»

As vagas continuavam a inundar a chalupa e a tornar necessário esgotar constantemente a água. Embora os homens fossem sacudidos por terríveis arrepios e a chuva e a humidade os fizesse bater os dentes, Bligh viu-se forçado a anunciar-lhes que não poderia dar-lhes mas a colherzinha de rum que até aí os reconfortara.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Vantagens de um livro juvenil de aventuras sobre um filme de acção

1. Tem mais pormenores.

2. Escolhe-se o ritmo.

3. Mantém-se o "suspense" por mais tempo.

4. Pode-se imaginar as personagens, os cenários e a acção.

5. Treina-se a leitura e, logo, a capacidade de concentração, o conhecimento da língua, o contacto com estilos literários diversos.

6. Em edições de divulgação, sai mais barato.

Querem acrescentar mais alguma?

A Inglaterra da "Bounty"

Ao ler "A Revolta na Bounty", de Sir John Barrow, sobressai a extraordinária organização inglesa do séc. XVIII, e, em particular, a do seu sistema judicial. No mesmo período, os efeitos da Inquisição de Goa ainda se faziam sentir: "[t]hough officially repressed in 1774, the last vestiges of the Goa Inquisition were not finally swept away until the British occupied the city in 1812."

Malditas praxes

Mais um ano letivo, mais uma temporada de praxes. Com trinta graus, andam com capas de lã e de collants aos berros durante horas e horas, a ...