terça-feira, janeiro 25, 2005

Paolo e Francesca


(Dante Gabriel Rossetti)


E ela a mim: «Nenhuma maior dor
         do que a de recordar tempo feliz
         já na miséria; e o sabe o teu doutor.
Mas tu, se em conhecer qual a raiz
         primeira deste amor, pões tal afeito,
         di-lo-ei como quem chora em quanto diz.
Um dia a ler com ele me deleito,
         de Lançarote, o amor como o prendeu:
         Éramos sós e nada a nós suspeito.
Várias vezes o olhar nos suspendeu
         essa leitura e deu pálido aviso;
         mas foi um ponto só que nos venceu.
Quando lemos do desejado riso
         a ser beijado por tão grande amante,
         e este, que de mim seja indiviso,
a boca me beijou todo anelante.
         Galeoto foi o livro e quem o disse:
         nesse dia não lemos adiante.»
Como um espírito isto referisse,
         chorava o outro, e em mim tal pena vi
         que foi qual se a morrer eu me sentisse;
e como um corpo morto assim caí.


(in "A Divina Comédia", Dante, tradução de Vasco Graça Moura, Círculo de Leitores)

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