terça-feira, julho 18, 2006

Uma viagem providencial (XXI)

Será o começo do fim?

A 8 de Junho registou-se ligeira melhoria do tempo. Os homens apanharam um pequeno golfinho, que dividiram em bocados de cento e vinte gramas. Mas, na noite seguinte, o vento soprou com fúria, a chalupa meteu muita água e o frio e a humidade tornaram-se atrozes, intoleráveis. O médico e Lebogue continuaram muito doentes, animados apenas pelas colherinhas de vinho e pela esperança de que, dada a velocidade a que seguiam, dentro de muito poucos dias Timor estivesse à vista.

«Na manhã do dia 10, após uma noite particularmente medonha - diz Bligh -, notei sensível alteração para pior no estado da maioria dos meus homens, o que me causou viva apreensão. Essa alteração exteriorizava-se por invencível fraqueza, grande inchaço das pernas, rosto emaciado e cadavérico, desejo irresistível de dormir e debilidade crescente do entendimento. Seriam os sintomas sinistros do começo do fim? Os mais antigos eram Lebogue e o médico, que pareciam autênticos moribundos. De vez em quando dava-lhes algumas colheres de vinho, que os reanimavam um pouco. Vivíamos apenas da esperança de chegar ao fim daquela pavorosa viagem. Com uma candura inocente, o contramestre confessou-me que, na sua opinião, era eu quem lhe parecia mais abatido. Ri-me da simplicidade das suas palavras e respondi-lhe com um comprimento menos macabro.»

No dia 11, o tenente Bligh comunicou aos companheiros a sua convicção de haverem ultrapassado o meridiano da ponta este de Timor, notícia que reanimou um pouco os infelizes. O comandante tinha razão: cerca das três horas da manhã do dia seguinte, as costas de Timor surgiram a menos de duas léguas da chalupa.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Sem comentários:

Malditas praxes

Mais um ano letivo, mais uma temporada de praxes. Com trinta graus, andam com capas de lã e de collants aos berros durante horas e horas, a ...