quinta-feira, julho 06, 2006

Uma viagem providencial (X)

Meio mortos

Ao dealbar do dia 20, declara o comandante, alguns homens pareciam meio mortos. O espectáculo oferecido por aqueles seres lívidos, descarnados e andrajosos era qualquer coisa de horrível. "Onde quer que o meu olhar pousasse - relata -, apenas deparava com sofrimento, angústia, tortura moral, esgotamento físico. Os terrores da fome torturavam-nos a todos, mas ignorávamos quase totalmente os da sede. Quase não sentíamos necessidade de beber, e creio que até esse desejo fora saciado através da nossa pele. Dormíamos por assim dizer dentro de água e acordávamos com cãibras e dores insuportáveis nos ossos. Ao meio-dia, o Sol espreitou, reanimando-nos a todos.

"Durante toda a tarde do dia 21 de Maio, a chuva e as vagas inundaram-nos de tal maneira que mal nos divisávamos uns aos outros. O frio tornou-se agreste, fazendo-nos temer a aproximação da noite, e o sono, em que concentrávamos todos os nossos desejos, não nos dava qualquer alívio. Pelo meu lado, vivi praticamente sem dormir todos esses terríveis dias.

"A 22 achámo-nos à beira da catástrofe final. Éramos obrigados a seguir a direcção das ondas e tínhamos de evitar a todo o preço colocarmo-nos de través: o mínimo erro na manobra da cana do leme significaria a destruição imediata. Durante todo o dia, o vento soprou com fúria e a água do céu e do mar caiu, sem parar, sobre nós.

"O suplício dessa noite ultrapassou em horror o da anterior. Os vagões que se abatiam sobre a chalupa, e que nos submergiam com brutalidade inaudita, condenavam-nos a esgotar a água continuamente, com ansiedade que raiava o pavor. Ao nascer do dia estávamos todos extenuados. A miséria física de alguns era tão grande que comecei a recear que nova noite tão torturante como aquela lhes fosse fatal: pareciam incapazes de suportar os seus sofrimentos. Distribuí uma ração de duas colheres de rum. Depois de a bebermos, de torcermos as nossas roupas encharcadas e de comermos o nosso pequeno-almoço de pão e água, sentimo-nos um pouco melhor."


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

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