sexta-feira, junho 30, 2006

Uma viagem providencial (VI)

Pesagem das rações e conferência de informação

A 8 de Maio, a ração individual foi de quarenta e cinco gramas de carne de porco, uma colher, das de chá, de rum, trinta gramas de pão e um quarto de litro de leite de coco. O rum, embora servido com tanta parcimónia, prestava serviços incalculáveis.

Os homens passaram a tarde a fazer uma limpeza geral na chalupa, a secar e a arrumar as suas coisas. «Até aqui - conta Bligh - distribuí as rações a olho, mas hoje construí uma balança com as duas metades de um coco. Tendo descoberto, por acaso, algumas balas no fundo da chalupa, calculei, pelo seu calibre, que seriam precisas vinte e cinco para pesar uma libra inglesa, o que significava que o seu peso por unidade era de dezoito gramas. Decidi adoptar esses dezoito gramas para cada ração de pão que se distribuísse. Em seguida, fiz uma espécie de conferência acerca do que sabia da Nova Guiné e da Nova Holanda e informei-os da sua situação neste oceano tão pouco frequentado pelos navegadores. Dei-lhes essas informações para, no caso de me acontecer alguma infelicidade, os sobreviventes terem ideia da sua rota e serem capazes de demandar Timor. De Timor, alguns nem o nome conheciam. À noite distribuí-lhes dezoito gramas de pão e quinze centilitros de água para jantar.»

A 9 de Maio, o pequeno almoço constou de quinze centilitros de leite de coco e de algumas migalhas de pão estragado. Ao almoço, deu-lhes o miolo de quatro cocos e o resto do pão molhado, que, afirma, só seres humanos esfaimados seriam capazes de comer.

Nova tempestade se levantou, desta vez com trovoada e relâmpagos. Proporcionou-lhes nova provisão de água.

«Na miséria em que nos encontrávamos, devido ao frio e à humidade, distribuí a cada um uma colher, das de chá, com rum, pois de outro modo ninguém suportaria tão pavorosa situação.» O mau tempo aumentou, com fortes rajadas de vento, e passámos a noite em claro, sob grandes bátegas de água.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Sem comentários:

Malditas praxes

Mais um ano letivo, mais uma temporada de praxes. Com trinta graus, andam com capas de lã e de collants aos berros durante horas e horas, a ...