terça-feira, outubro 26, 2004

Inferno (IV)

"Considerai, finalmente, que o tormento dessa prisão infernal é acrescido pela companhia dos próprios condenados. Na terra, uma má companhia é tão nociva que as plantas, como que por instinto, se apartam de qualquer coisa que lhes seja mortal ou funesta. No Inferno, todas as leis estão dissolvidas, não há questões de família ou pátria, de alianças ou de parentesco. Os danados urram ou vociferam uns contra os outros, porque a sua tortura e a sua raiva aumentam em presença de seres torturados e enfurecidos como eles. Todo o sentimento de humanidade é esquecido. Os gritos de dor enchem os mais recuados cantos do vasto abismo. As bocas dos danados estão plenas de blasfémias contra Deus, de ódio contra os seus companheiros de sofrimento, de maldições contra aqueles que foram seus cúmplices no pecado. Outrora, para punir o parricídio, o homem que levantara a mão assassina contra seu pai era precipitado nas profundezas do mar dentro de um saco onde se encontravam um galo, um macaco e uma serpente. A intenção dos legisladores, que parece cruel na nossa época, era punir o criminoso com a companhia destes animais hostis e furiosos. Mas o que é a fúria destas bestas mudas, comparada com a fúria odiosa que rompe dos lábios ressequidos, das gargantas inflamadas dos danados do Inferno, contemplando entre os seus companheiros de miséria aqueles mesmos que os ajudaram e incitaram no pecado, aqueles cujas palavras semearam no seu coração as primeiras sementes de maus pensamentos e más acções, aqueles cujas sugestões insensatas os conduziram ao pecado, aqueles cujos olhares os tentaram e desviaram do caminho da virtude? Voltam-se contra tais cúmplices com censuras e maldições. Mas não lhes resta nem socorro nem esperança: é demasiado tarde para o arrependimento.

"Finalmente, considerai a espantosa tortura que representa para estas almas danadas, as que corromperam e as que foram corrompidas, a companhia dos demónios. Estes demónios atormentam os danados de duas maneiras: com a sua presença e com as suas censuras. Santa Catarina de Siena viu uma vez um demónio e escreveu que preferia caminhar até ao fim da sua vida por um caminho de carvões em brasa do que voltar a ver um único instante tão horroroso monstro. Estes diabos, que foram outrora formosos anjos, tornaram-se tão repelentes e feios quanto antes tinham sido belos. Escarnecem e riem das almas perdidas que arrastaram para a ruína. São eles, estes diabos abjectos, que representam no Inferno a voz da consciência. Porque pecaste? Porque deste ouvidos aos propósitos tentadores dos amigos? Porque abandonaste as tuas práticas piedosas e as tuas boas acções? Porque não evitaste as ocasiões de pecado? Porque não deixaste aquele mau companheiro? Porque não renunciaste a tal hábito impudico, a tal hábito impuro? Porque não ouviste os conselhos do teu confessor? Porque, mesmo depois de teres pecado a primeira, a segunda, a terceira, a quarta ou a centésima vez, não te arrependeste da tua má conduta e não regressaste a Deus, que esperava apenas o teu arrependimento para te absolver? Agora o tempo do arrependimento já passou. O tempo é, o tempo foi, mas o tempo não existirá mais! Houve um tempo para pecar às escondidas, para te comprazeres na preguiça e no orgulho, para ambicionar o ilícito, para ceder às investigações da tua baixa natureza, para viver como as bestas dos campos, ou ainda pior do que as bestas, porque elas, ao menos, não passam de brutos que não possuem uma razão que os guie. O tempo foi, mas o tempo não existirá mais. Deus falou-te por intermédio de tantas vozes diversas, mas não quiseste ouvir. Não quiseste esmagar esse orgulho e esse rancor no teu coração, mas não quiseste restituir esse bem mal adquirido, não quiseste obedecer aos preceitos da tua Santa Igreja nem observar os teus deveres religiosos, não quiseste abandonar aqueles maus companheiros, não quiseste evitar aquelas perigosas tentações. Tal é a linguagem desses demoníacos carrascos, linguagem plena de sarcasmo e de reprovação. Sim, de reprovação! Porque mesmo eles, os próprios demónios, quando pecaram, cometeram o único pecado compatível com a sua angélica natureza: a rebelião do espírito; e mesmo eles, mesmo os diabos abjectos, têm de se afastar, revoltados e enojados com os espectáculos daqueles pecados inomináveis com os quais o homem caído ultraja e macula o templo do Espírito Santo, ultrajando-se e aviltando-se a si próprio."

(in "Retrato do Artista quando Jovem", James Joyce, Difel)

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