quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Gabriel, ou uma história singela

Foi a voz. A barba e o cabelo compridos e muito pretos e todo o figurino de vagabundo não chamaram a atenção dela. Estava encostado a uma caixa de electricidade, dessas que há pelas ruas, pouco menores do que um homem. Perto, havia uma paragem de autocarros, e várias senhoras idosas faziam fila à espera do seu autocarro. Uma meteu-se com ele. Que não devia pedir ali, que se precisava devia ir à igreja ali mesmo ao pé. Ele murmurou qualquer coisa sobre não pertencer àquela paróquia. Ela replicou, mais agressiva. E foi então que a voz se lhe abriu, para dizer: "Vocês não compreendem nada!". Era uma voz clara e doce, muito doce. E ela só ouviu esta voz, que pressentiu poder ser a do seu salvador, porque o autocarro passou naquele momento e porque estava sentada perto da porta, quando esta se abriu.

Dias depois, ela dirigiu-se-lhe, oferecendo-se para lhe pagar um corte de barba e cabelo no barbeiro da rua e um fato novo. Foram os dois até casa dela, onde ele tomou um banho e vestiu o fato, envergonhado. Foi sempre ela que falou, e falou-lhe, a sorrir, na "vidinha de pequena-burguesa" que levava. Ele manteve-se calado. Tomou o pequeno-almoço. Ela quis ir com ele à Segurança Social ou ao Centro de Emprego. Então, ele disse, em voz baixa, que já estava inscrito. Olharam-se nos olhos. Ela ganhou coragem e perguntou-lhe como tinha acabado assim. E ele contou que tinha ficado viúvo e que perdera o interesse pelo trabalho, pelas refeições, pela higiene e, finalmente, pela vida. Perdera o emprego e, pouco a pouco, tudo o resto. Afogou as mágoas em todas as formas de álcool.

Quis morrer. Mas não é fácil, a morte. Podia facilmente comprar uma corda, mas onde é que se encontra onde enlaçá-la? E como chegar lá? Um dia, foi a uma loja de produtos para a agricultura pedir 605 Forte, mas a senhora que o atendeu olhou para ele e, clarividente, mandou-o embora.

Ela propôs-lhe que procurassem um trabalho para ele. Iriam responder a anúncios, percorrer ruas e lojas, inscrever-se em empresas intermediárias, até encontrar alguma coisa. E encontraram. Um trabalho pouco qualificado, mas que lhe permitiu pagar um quarto numa pensão. Seis meses depois, encontrou um emprego melhor.

Nunca mais se viram. Aliás, nem chegaram a saber o nome um do outro.

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