terça-feira, dezembro 26, 2006

Espírito natalício (II)

Por sugestão deixada numa caixa de comentários, aqui fica outra canção com uma Laurinda. Comentário no final.


Laurinda

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
És mais linda do qu'o Sol(e)
Deixa-me dormir uma noite
Nas bordas do teu lençol

Sim, sim, cavalheiro, sim
Sim, sim, cavalheiro, sim
Hoje sim, amanhã não
Meu marido, não esta cá
Foi pr'a feira de Marvão

Onze horas, meia-noite
Onze horas, meia-noite
Marido a porta bateu
Bateu uma, bateu duas
Laurinda não respondeu

Ou ela está doentinha
Ou ela está doentinha
Ou encontrou outro amor
Ou então procur'a chave
Lá no meio do corredor

De quem é aquele chapéu?
De quem é aquele chapéu?
Debroado a galão
É para ti meu marido
Que fiz eu por minha mão

De quem é aquele casaco?
De quem é aquele casaco?
Que ali vejo pendurado
É para ti meu marido
Que o trazeis bem ganhado

De quem é aquele cavalo?
De quem é aquele cavalo?
Que na minha esquadra entrou
É para ti meu marido
Foi teu pai quem tu mandou

De quem é aquele suspiro?
De quem é aquele suspiro?
Que ao meu leito se atirou
Laurinda, que aquilo ouviu
Caiu no chão desmaiou

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
Não vale a pena desmaiar
Todo o amor, que t'eu tinha
Vai-se agora acabar

Vai buscar as tuas irmãs
Vai buscar as tuas irmãs
Trá-las todas num andor
Que a mais linda delas todas
Há-de ser meu novo amor


(rimance popular)

(via)

Esta Laurinda não saiu muito bem na fotografia, pois não? A deslealdade não é bonita. Mas a canção vem de um passado que é difícil recriar: é um mundo onde não existia divórcio, onde o corpo da mulher era coisificado na lei, onde um marido podia achar que tinha um fornecimento contínuo de "amores" entre as filhas de uma casa. Ao folhear as Novas Cartas Portuguesas, de 1971/72, encontram-se memórias de como era a vida de mulheres mal casadas, antes do 25 de Abril. Já para não falar das histórias que vamos conhecendo.

Será que algum dia os tempos do aborto criminalizado vão, também, ser parte do passado?

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