domingo, dezembro 17, 2006

Esse grande escultor (amálgama)

Poucas páginas à frente da síntese iluminada de um dos livros que ando a ler, e que registei aqui, há uma indelével marca do tempo. A concepção da natureza é completamente datada e ultrapassada. O autor, de uma seriedade e honestidade intelectual brutais, comete os mesmos erros de Aristóteles. Mesmo assim, tenho a certeza de que gostaria de saber o que, hoje, qualquer aluno atento aprende no liceu: sobre fósseis e a lei de Hubble, por exemplo.

A seta do tempo na história da ciência existe. Se, daqui a mil anos, alguém comparasse as passagens que agora leio com perplexidade com qualquer texto deste século sobre as mesmas matérias, saberia qual foi escrito antes e qual foi escrito depois. Pelo meio, saberia que estiveram, necessariamente, novos dados empíricos e mais elaboradas formulações teóricas. (A actual difusão do criacionismo e da hipótese do "desenho inteligente" só se compreendem como epifenómenos não científicos, como contaminações das áreas de intervenção da ciência, a que só foi possível dar espaço por se ter levado Kuhn demasiado a sério.)

Pastora ignorante, interrogo-me sobre em que medida a seta do tempo do conhecimento científico, nas ciências da natureza, pode ter algum equivalente nas ciências sociais e na história. A forma como olhamos para nós próprios evolui para níveis de elaboração cada vez maiores, e em sucessão (um pouco como camadas geológicas). Poucas escolas de pensamento poderão dizer ser o seu desenvolvimento alheio às que as precederam. Do mesmo modo, os acontecimentos históricos e a evolução social são determinantes na definição dos seus objectos de estudo e dos seus métodos.

Comparemos, por exemplo, a aceitação da tortura generalizada de prisioneiros na Grécia antiga com a preocupação pela dor na execuções por injecção letal, nos Estados Unidos de hoje. Daqui a dez mil anos, quem as cotejar, saberá qual é o antes e qual é o depois.

Apesar de a evolução biológica humana ser demasiado lenta para que lhe vejamos a marca, de continuarmos igulamente violentos, as sociedades humanas têm evoluído, como resultado do seu desenvolvimento cultural. As guerras tomam outros contornos, fruto das lições tiradas das anteriores. Guerras por pequenas parcelas de terra ou por lutas dinásticas, como as que sucederam na Europa até ao século XIX, dificilmente se repetirão nos mesmos termos - pelo menos, enquanto houver memória da sua insensatez. As duas guerras mundiais e os milhões de mortos que provocaram levaram à criação de fóruns internacionais de diálogo de todos os estados do mundo. Hoje, uma grande fracção da população humana vive protegida pelas leis sucessoras da Déclaration des droits de l'homme et du citoyen e da Bill of Rights e a restante anseia por essa protecção.

Estão a ver onde é que vejo o sentido da seta do tempo, para lá da evolução da ciência (e da tecnologia, como corolário)? É como se a humanidade fosse um menino pequeno, que tem que aprender com os seus erros, mas acaba por aprender. Sempre, perguntarão? E deverá o adulto, ou seja, os que se julgam mais esclarecidos do que a multidão, prevenir quedas em abismos?

Pode discutir-se a previsibilidade do "destino final" do sentido da história e a intencionalidade e causalidade da política a longo prazo. Poderia, como primeira aproximação, fazer-se a analogia dos destinos humanos a um sistema meteorológico - de que não adianta fazer previsões de detalhe para mais de três dias, por ser um sistema caótico. Há, numa segunda aproximação, a evolução do clima, onde pode haver tendências, resultantes da acumulação de memória e de uma cada vez maior interacção entre agentes. Neste caso, o "mercado do carbono" é um imperativo.

Fico por aqui, porque agora não tenho mais tempo.

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