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Os Imortais (II)

"Ser imortal é insignificante; com excepção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se mortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos crêem na imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam a todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo. Mais razoável me parece a roda de certas religiões do Indostão; nessa roda, que não tem princípio nem fim, cada vida é efeito da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada num exercício de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito todas as coisas ocorrem a todos os homens. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo o homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição, pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar os números pares e os números ímpares tendem ao equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e é possível que o rústico poema do Cid seja o contrapeso exigido por um só epíteto das Éclogas ou por uma sentença de Heraclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desejo invisível e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos séculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos já passados... Encarados assim, todos os nossos actos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. Homero escreveu a Odisseia; dado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias ou mudanças, o impossível seria não escrever, sequer uma vez, a Odisseia. Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou.

"O conceito do mundo como sistema de precisas compensações influi enormemente nos Imortais. Em primeiro lugar, tornou-os invulneráveis à piedade. Mencionei já as velhas pedreiras que sulcavam os campos da outra margem; um homem despenhou-se na mais funda; não podia lastimar-se nem morrer, mas a sede abrasava-o; antes que lhe atirassem uma corda, passaram setenta anos. Nem sequer interessava o próprio destino. O corpo era um submisso animal doméstico e bastava-lhe, cada mês, a esmola de umas horas de sono, de um pouco de água e de uma migalha de carne. Que ninguém nos queira rebaixar a ascetas. Não há prazer mais complexo que o pensamento e a ele nos entregávamos. Às vezes, um estímulo extraordinário restituía-nos ao mundo físico. Por exemplo, naquela manhã, o velho gozo elementar da chuva. Esses momentos eram raríssimos; todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que nunca vi de pé: um pássaro fizera ninho no seu peito."

(do conto "O Imortal", parte IV, in "O Aleph", Jorge Luis Borges, Editorial Estampa)

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