quinta-feira, abril 06, 2006

Aos vinte e três ou vinte e quatro anos

Tinha estado desde as dez e meia no café,
à espera de que o outro viesse.
A meia-noite passou - e ainda esperava.
E passava agora de uma e meia; o café
quase por completo se esvaziara.
Fartara-se já de ler os jornais
maquinalmente. Dos seus três solitários xelins
apenas um restava: tanto tempo à espera,
e os outros gastara em cafés e brândi.
Fumara todos os cigarros.
Tão longa espera acabava-o. Porque,
assim sòzinho horas, começara
a ser tomado por inquietos juízos
da vida dissoluta que levava.

Mas então viu o seu amigo entrar - num instante
cansaço e tédio, e pensamentos sérios foram-se.

O amigo trazia grandes novidades:
ganhara ao jogo sessenta libras.

E os rostos belos deles, a juventude explêndida,
o sensual amor que havia entre ambos,
renovaram-se, reanimaram-se, ganharam novas forças,
com as sessenta libras da casa de jogo.

Radiantes de alegria, transbordando vida,
os dois saíram - não para casa de suas respeitáveis famílias
(onde aliás não eram desejados),
mas para uma casa conhecida, casa
de má nota. Foram e pediram
um quarto, bebidas caras, e beberam.

E quando as bebidas caras se acabaram
lá pelas quatro horas da manhã,
alegremente entregam-se ao desejo.


Hände von Jean Cocteau

[1927]

Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)

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