sábado, novembro 06, 2004

Pó de Simpatia (VI)

- E isso explica também os desejos das crianças: a mãe deseja fortemente uma coisa e...

- Sobre isso eu teria mais cautela. Às vezes fenómenos análogos têm causas diferentes e o homem de ciência não deve dar fé a qualquer superstição. Mas voltemos ao meu pó. O que aconteceu quando submeti por uns dias à acção do Pó o pano sujo do sangue do nosso amigo? Em primeiro lugar, o Sol e a Lua atraíram de grande distância os espíritos do sangue que se encontravam no pano, graças ao calor do ambiente, e os espíritos do vitríolo que estavam no sangue não puderam escapar a fazer o mesmo percurso. Por outro lado a ferida continuava a expulsar uma grande abundância de espíritos quentes e ígneos, atraindo assim o ar circundante. Este ar atraía outro ar e este outro ar ainda e os espíritos do sangue e do vitríolo, dispersos a grande distância, enfim, reuniam-se àquele ar, que trazia consigo outros átomos do mesmo sangue. Ora, como os átomos do sangue, os provenientes do pano e os provenientes da chaga, se encontravam, expelindo o ar como um inútil companheiro de viagem, e eram por sua vez atraídos à sua sede maior, unidos a eles os espíritos do vitríolo penetravam na carne.

- Mas não poderíeis pôr directamente o vitríolo na chaga?

- Poderia, tendo o ferido à minha frente. Mas se o ferido estivesse longe? Acrescente-se que se houvesse posto directamente o vitríolo na chaga a sua força corrosiva a irritaria ainda mais, enquanto levado pelo ar só dá a sua parte doce e balsâmica, capaz de estancar o sangue, e que é usada também nos colírios para os olhos - e Roberto pôs os ouvidos à escuta, fazendo depois no futuro tesouro daqueles conselhos, o que certamente explicava o agravar-se do seu mal. - Por outro lado - acrescentou Igby -, é claro que não se deve usar o vitríolo normal, como se usava outrora, fazendo mais mal que bem. Eu arranjo vitríolo de Chipre, e antes calcino-o ao sol: a calcinação tira-lhe a humidade supérflua, e é como se dele se fizesse um caldo consistente; e depois a calcinação torna os espíritos desta substância capazes de ser transportados pelo ar. Finalmente, acrescento-lhe goma adraganta, que delimita mais rapidamente a ferida.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

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