terça-feira, novembro 30, 2004

Noites

1. Voo

Ela desce, atabalhoadamente, de um salto de um décimo andar. A roupa não ondula, nem há nenhuma “echarpe” flutuante, como nos filmes e nos sonhos, mas não há tempo para reparar nisso. Estes breves instantes condensam a satisfação de ter tido a coragem de tomar o seu destino completamente nas suas mãos – o acto de mais completo uso da sua liberdade – e do alívio que sentirá daqui a poucos segundos, porque todo o insuportável sofrimento que monopolizou a sua vida terá, em breve, um fim.

O sangue parece subir-lhe à cabeça, e os nervos estão incrivelmente tensos. No último instante, lembra-se de alguém e invoca o seu nome, como prometera a si própria fazer, há muitos anos. Alguém que não podia deixar de estar presente neste momento decisivo.

Toda a vida passa, então, num segundo, pela sua mente. Não se pode dizer que não viveu, que não viajou – pelo mundo, pelas emoções, pelas sensações, pelas ideias. Não procurou o limite dessas coisas, mas saboreou tudo o que teve, saboreou muito. Foi um patinho feio que nunca se transformou em cisne. Catrapum!


2. Mergulho

Ela desce no azul líquido e baço, o corpo e os cabelos ondulam, e as últimas bolhas de ar abandonam o seu corpo. Viveu encarcerada na sua solidão. Há uma corda atada a uma pedra que ela atou a um tornozelo. Não vai ser um truque de Houdini. A aflição é enorme; ela debate-se e, depois, chora porque sabe que é assim que tem de ser, que somos todos apenas formigas efémeras no formigueiro, que não vale a pena lutar por mais. As formigas não têm o direito de olhar para as estrelas, caro Oscar Wilde... Só de transformar-se em húmus.

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