quinta-feira, novembro 04, 2004

Pó de Simpatia (IV)

- Mas como é possível que tantos corpúsculos se dispersem no ar, e o corpo que os emana não sofra nenhuma diminuição?

- Talvez haja diminuição, e dareis por isso quando fizerdes evaporar a água, mas para os corpos sólidos não o notamos, tal como não o notamos com o musgo ou com outras substâncias fragrantes. Qualquer corpo, por menor que seja, pode sempre dividir-se em novas partes, sem nunca chegar ao fim da sua divisão. Considerai a fineza dos corpúsculos que se libertam de um corpo vivo, graças aos quais os nossos cães ingleses, guiados pelo olfacto, são capazes de seguir a pista de um animal. Será que a raposa, no fim da sua corrida, nos parece mais pequena? Ora, é justamente em virtude de tais corpúsculos que se verificam os fenómenos de atracção que alguns celebram como Acção à Distância, que a distância não é, e assim não é magia, mas se dá pelo contínuo comércio de átomos. E assim se verifica com a atracção por sucção, como a da água ou do vinho por meio de um sifão, com a atracção do íman sobre o ferro, ou a atracção por filtração, como quando pondes uma tira de algodão num recipiente cheio de água, deixando pender para fora do recipiente boa parte da tira, e vedes a água subir para além do bordo e pingar no chão. E a última atracção é a que tem lugar por meio do fogo, que atrai o ar circundante com todos os corpúsculos que nele vorticam: o fogo, actuando de acordo com a sua própria natureza, traz consigo o ar que está em seu redor como a água de um rio arrasta a terra do seu leito. E como o ar é húmido e o fogo seco, eis que se agarram um ao outro. Portanto, para ocupar o lugar do que foi levado pelo fogo, é necessário que venha outro ar das vizinhanças, senão criar-se-ia o vácuo.

- Então negais o vácuo?

- De modo nenhum. Digo que, assim que o encontra, a natureza procura enchê-lo de átomos, numa luta para conquistar todas as suas regiões. E se assim não fosse, o meu Pó de Simpatia não poderia agir, como afinal vos mostrou a experiência. O fogo provoca com a sua acção um constante afluxo de ar e o divino Hipócrates purificou da peste uma província inteira mandando acender por toda a parte grandes fogueiras. Sempre em tempo de peste matam-se gatos e pombos e outros animais quentes que exsudam espíritos de contínuo, para que a alma tome o lugar dos espíritos libertados no decorrer dessa evaporação, fazendo que os átomos impestados se agarrem às penas e ao pêlo desses animais, como o pão tirado do forno atrai a si a espuma dos tonéis e altera o vinho se o meterem sobre a tampa do tonel. Como acontece de resto se expuserdes ao ar uma libra de sal de tártaro calcinado e ateado como deve ser, que dará dez libras de bom óleo de tártaro. O médico do Papa Urbano VIII contou-me a história de uma freira romana a quem pelos demasiados jejuns e orações, se aqueceu tanto o corpo que os ossos ficaram todos exsicados. Esse calor interno, com efeito, atraía o ar que se corporizava nos ossos como faz no sal de tártaro, e saía no ponto onde reside a descarga da serosidade, e portanto pela bexiga, de modo que a pobre santa dava mais de duzentas libras de urina em vinte e quatro horas, milagre que todos assumiam como prova da sua santidade.


(in "A Ilha do Dia Antes", Umberto Eco, Círculo de Leitores)

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