sexta-feira, dezembro 30, 2005

Happy ending

Depois de deixar a filha no liceu Gúrov dirigiu-se para o Slaviánski Bazer. Deixou a peliça em baixo, subiu as escadas e bateu com cautela à porta. Anna Serguéevna, no vestido cinzento preferido dele, que estava ainda cansada da viagem e de ter esperado tanto desde o dia anterior; estava pálida, olhava para ele e não sorria mas, mal ele entrou, apertou-se-lhe contra o peito. O beijo foi longo, infinito, como se já não se beijassem há dois anos.

— Então, como vai a tua vida? — perguntou Gúrov. — Novidades?

— Espera, já te conto... Não, não posso.

Não podia falar porque chorava. Virou-lhe as costas e apertou o lenço contra os olhos.

«Que chore, que desabafe, temos tempo» — pensou e sentou-se na poltrona.

Tocou à campainha e pediu chá; já bebia o chá e ainda ela chorava, de pé, voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência amarga da vida deles ter aquela triste sina; por se verem à socapa, se esconderem das pessoas como ladrões! Então não era uma vida arruinada?

— Deixa, por favor! — pediu ele.

Era claro para ele que este amor não acabaria tão cedo, sabia-se lá quando acabaria. Anna Serguéevna afeiçoava-se-lhe cada vez mais, adorava-o, seria insuportável dizer-lhe que tudo tinha de acabar um dia; também, ela não ia acreditar.

Aproximou-se dela e pousou-lhe as mãos nos ombros, queria acarinhá-la, dizer-lhe um gracejo, e nesse instante viu-se no espelho.

Já tinha cabelos brancos. Parecia-lhe estranho que tivesse envelhecido tanto nos últimos anos, que estivesse a perder tão depressa o seu ar de homem bem-parecido. Os ombros onde deixara esquecidas as mãos estavam tépidos, tremiam. Sentiu compaixão por aquele ser, aquela criatura viva ainda tão quente e bonita que decerto não tardaria, como ele, a perder o viço, a murchar. Por que gosta tanto dele? Ele sempre pareceu às mulheres uma coisa diferente do que era na realidade, elas nunca gostaram do que nele havia de si próprio, mas de um homem criado na imaginação delas, do homem que toda a vida procuraram ansiosamente; e depois, quando caíam em si e descobriam o engano, continuavam mesmo assim a amá-lo. Nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, conhecia novas, namorava-as, despedia-se, mas nenhuma vez ele amou; nele, pode ter havido tudo menos amor.

E só agora, com o cabelo a encanecer, descobria o verdadeiro amor, um amor a sério — pela primeira vez na vida.

Anna Serguéevna e ele amavam-se como pessoas muito chegadas, íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia que o destino os fizera um para o outro e era impossível que ambos estivessem casados com pessoas alheias a eles; como se fossem aves migratórias, macho e fêmea, apanhadas e obrigadas a viverem em gaiolas diferentes. Agora, perdoavam um ao outro aquilo que do passado lhes era vergonhoso, agora perdoavam-se tudo e sentiam que o amor os transformara a ambos.

Antes, nos momentos de tristeza, Gúrov acalmava-se com todo o género de raciocínios que lhe passavam pela cabeça, mas agora não estava para raciocinar, sentia, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, meigo...

— Deixa, queridinha — dizia. — Já choraste, já chega... Agora vamos falar, havemos de encontrar alguma coisa.

Depois conversaram longamente, pensavam na maneira de se livrarem daquela necessidade de se esconder, de mentirem, de viverem em cidades diferentes sem se poder ver durante tanto tempo. Como ficarem livres daquela peia insuportável?

— Como? Como? — perguntava ele, levando as mãos à cabeça. — Como?

Parecia-lhes que não tardariam a encontrar a solução e que, então, chegaria a hora de uma vida nova, maravilhosa; e era claro para ambos que o fim estava ainda muito longe e que o mais complicado e difícil mal começara.


(Anton Tchékhov, "A Senhora do Cãozinho" in "Contos", Vol. II, traduzidos por Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D'Água)

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Mulher a ler


(Édouard Manet, "Na praia")

Personagens blogosféricas

1. O umbigo.

2. As ideias.

12. Uma escrita no limite - ou para lá dele, depende da sensibilidade - do bom gosto. Deu livro embrulhado em celofane, para vender mais.

15. Uma adolescente desavinda com o namorado que resolve publicar cartas magoadas de despedida. Dilacerante, se verdadeiro.

21. Um acusador de figuras públicas e de responsáveis pela investigação de um processo de pedofilia.

41. Um blogger famoso que confessa que escreve nos blogs a vida fragmentada, baralhada de novo, e voltada a dar.

79. Um pseudónimo servindo de veste. Talvez seja alguém com medo de perder o emprego ou de ser mal visto pelo chefe, não se sabe. Quem é que é completamente livre?

86. Uma blogger emergente que põe no blog uma declaração pungente de amor ao marido. Parece que a intimidade já não vale nada...

315. Um nome verosímil, uma escrita boa demais para não dar dividendos. Só acredito que é de carne e osso se encontro o mesmo nome associado a uma instituição ou a uma obra. Às vezes, para meu desapontamento, a criatura existe mesmo.

1024. Um anónimo que, às vezes, parece ser o contrário do que quer aparentar...

6402. Um anónimo que, às vezes, parece ser o contrário do que quer aparentar...

Relembrando benefícios do frio...

Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos e já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gelar lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro... E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

(Eça de Queirós, "Os Maias")

Herança de três gerações de mulheres de fibra

«Mesmo que se tenha as tripas a cair da barriga, pode-se agarrar nelas com uma mão e trabalhar com a outra.» (sic)

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Outra

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


(António Botto)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A jovem pastora


(Jean-Jacques Henner)

Rescaldo dos debates das presidenciais

Será isto o sinal de maioridade de uma democracia? Perceber que todos os reizinhos vão nus?

(Sim, esta é a mesma Laurindinha que já aqui se manifestou ferozmente contra a abstenção.)

Dúvida

Como pode alguém que concorda e pratica a pena capital para delitos comuns afirmar convictamente que é contra a tortura e não a pratica?

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O garfo do herege


Exercício conceptual

Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

  • Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
  • Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
  • Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
  • Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
  • Torturaria você mesmo o indivíduo?
  • Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
  • Publicitaria o facto de ser um torturador?

    *

    A escada da tortura


    1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

    2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

    3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturar o amigo/parente para descobri os planos do bombista.

    4. Um indivíduo relata que alguém partilha as mesmas opiniões políticas que o bombista. Temos de torturar esse aliado político para descobrir outros que o apoiem.

    5. Um indivíduo recusou-se a dizer à polícia onde está um suspeito. Esta pessoa tem de ser torturada para garantir que outros não se atrevem a fazer a mesma coisa.

    *

  • Onde colocaria o limite? Quando, se alguma vez, é que a tortura se justifica?
  • Pode justificar-se violar os direitos humanos de um indivíduo em algumas situações?
  • Como quer que a polícia ou os militares do seu país respondam a este tipo de situação?


    (fonte)

    Ver também:
    Instruments of Torture/Historical Torture Museum.
  • Agradecimentos



    Ao magnífico Abrupto, pelo destaque dado à entrada Heresias: muito obrigada!

    E, neste momento em que a pastora é alvo de uma enchurrada de "clicks", é justo agradecer também ao primeiro blog que para aqui fez uma ligação, o Meia Livraria; ao leitor que impediu que algumas entradas fossem apagadas, o autor do Local & Blogal; ao talentoso prosador do Retórica e Persuasão, pelas maiúsculas; aos seleccionadores da "primeira divisão" de blogs Frescos; ao Posto de Escuta; aos destaques pontuais - como o do Bomba Inteligente - e, especialmente, aos visitantes habituais. Obrigada pelo apoio! E desculpem se me esqueci de alguém.

    domingo, dezembro 18, 2005

    Mulher a ler


    (Ambrosius Benson, Jovem lendo um Livro de Horas)

    Heresias

    Laurindinha não é uma doutora da Igreja nem almeja sê-lo. Prefere conhecer pedras e riachos a dogmas. Por isso, surgem-lhe, às vezes, algumas dúvidas sobre a doutrina católica.

    Por exemplo, nunca percebeu muito bem até quando se tem direito ao limbo. Será até ao primeiro choro interesseiro?

    E agora? Se a hierarquia católica decreta o fim do limbo, para onde vai Alberto Caeiro?

    Limbos

    Casar num país onde o divórcio não é possível e onde, para se vincular a certos direitos e deveres civis, é obrigatório jurar amor e fidelidade eterna. Depois, não crendo na eternidade, constatar também que o amor não é eterno.

    Como fica o juramento?

    sábado, dezembro 17, 2005

    Mulher a ler


    (Jean-Jacques Henner)

    Um parágrafo de "Húmus"

    Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Há momentos em que o caixão que passa às costas de um galego, me chama à realidade, ao espanto. Desvio logo o olhar, reentro à pressa na vida comezinha. Finjo que sorrio e esqueço. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! E debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas. Não há anos, há séculos que dura esta bisca-de-três - e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam sobre a mesma mesa de jogo. O jogo banal é a bisca - o jogo é o da morte... O candeeiro ilumina e a sombra rói as fisionomias, a majestosa Teodora, a Adélia, a Eleutéria das Eleutérias, o padre. Retraem-se no escuro outras figuras indecisas e atentas sobre o jogo paciente. Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece à luz do inferno. Mas nenhuma arrisca um passo definitivo. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-se como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero aumenta não se traduz em palavras. A vila cria o mesmo bolor... Pouco e pouco também a Teles esqueceu o solho e esfrega, sem os ver, os móveis reluzentes. A D. Procópia odeia a D. Biblioteca, mas nem ela sabe o que está por detrás daquele ódio, contido pelo inferno. Toda a gente se habitua à vida. Matar matava-a eu, mas várias palavras me detêm. Detém-me também um nada... As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo chegaram a temer um desenlace. Debruçadas sobre a mesa, as figuras não bolem. Não bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não são as palavras do padre - Jogo - nem o que a Adélia diz baixinho à Eleutéria, para que a velha temerosa ouça: - A nossa Teodora está cada vez mais moça!... - o que me interessa são as figuras invisíveis: é a dor dessas figuras imóveis, e sobre elas outra figura maior, curva e atenta, que há séculos espera o desenlace.

    (Raul Brandão)

    quinta-feira, dezembro 15, 2005

    Húmus



    Também ali há espaço para louras burras, posts idiotas, gente mesquinha...

    Lembra-te que és pó.

    Conselho

    Ouça um bom conselho
    Que eu lhe dou de graça
    Inútil dormir que a dor não passa
    Espere sentado
    Ou você se cansa
    Está provado, quem espera nunca alcança

    Venha, meu amigo
    Deixe esse regaço
    Brinque com meu fogo
    Venha se queimar
    Faça como eu digo
    Faça como eu faço
    Aja duas vezes antes de pensar

    Corro atrás do tempo
    Vim de não sei onde
    Devagar é que não se vai longe
    Eu semeio o vento
    Na minha cidade
    Vou pra rua e bebo a tempestade


    (Chico Buarque)

    segunda-feira, dezembro 12, 2005

    Mulher a ler

    Sophia Kramskaya Reading
    (Ivan Kramskoy)

    Pastoral

    Mote

    Vai o rio de monte a monte,
    Como passarei sem ponte?



    Voltas

    É o vau mui arriscado,
    Só nele é certo o perigo;
    O tempo como inimigo
    Tem-me o caminho tomado.
    Num monte está meu cuidado,
    E eu, posto aqui noutro monte,
    Como passarei sem ponte?

    Tudo quanto a vista alcança
    Coberto de males vejo:
    D'aquém fica meu desejo
    E d'além minha esperança.
    Esta, contínua, me cansa
    Porque está sempre defronte:
    Como passarei sem ponte?


    (Francisco Rodrigues Lobo)

    Oportunidade

    Ouvir uma criança dizer que este Natal vai ser difícil, porque... (é preciso dizer?) Custa.

    E, no entanto, não será também esta uma oportunidade para escapar à voragem consumista e para reencontrar o que é mais importante?

    Como que fingindo que falta a electricidade, conseguir comunicar melhor com quem se partilha o quotidiano, tantas vezes com pressa, sem nos olharmos e ouvirmos já devidamente?

    domingo, dezembro 11, 2005

    Mulher a ler


    Helen Keller

    Memória de Bashô

    o que o pequeno grilo me ensina
    esqueço-o depressa
    o que a branca lua me estende
    deixo logo cair

    solitário pernoito

    com quem hei-de falar do grilo
    e distribuir o branco da lua?

    (Abrupto)

    [daqui]

    sábado, dezembro 10, 2005

    Os caçadores na neve


    (Pieter Bruegel, o Velho)

    Detrás de uma pedra da parede do abrigo, outro papel esquecido

    As Capelas Imperfeitas


    O Panteão nunca chegou a ser acabado, daí provindo a designação de Capelas Imperfeitas ou Incompletas.
    (de uma brochura sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha)


    I. Os alicerces

    Num belo país, cheio de montanhas, rios e prados, viveu, há já muitos anos, um pastor. Era jovem e alegre, e gostava de correr pelas planícies, a juntar o gado, e de sentir o vento na cara e no cabelo e o calor de um sol de Primavera a dourar-lhe as faces.

    Tinha uma flauta que lhe tinha sido dada pelo avô, que também era pastor e sabia fazer flautas. Quando este morreu, numa amena noite de Verão, enquanto pastoreava na planície, tinha reunido uma vasta colecção delas, de todos os tamanhos e feitios. Nessa noite, o seu neto sonhou que todas aquelas flautas se erguiam no ar e tocavam uma melodia muito suave, como se estivessem nas mãos de anjos. E foi assim que o menino decidiu ser pastor.

    Aprendera a gostar da natureza: desde as rochas à chuva, às formigas e às árvores. E até aprendeu a gostar do silêncio e da solidão. Na realidade, não era verdadeira solidão. Como pode sentir-se só quem está rodeado de uma enorme diversidade de seres vivos, cada um deles com a sua beleza especial, inundado de sons e imagens de magia, e perservado das mais maliciosas criaturas que existem na Terra, os homens?

    Estimava muito a sua flauta, e nela inventou muitas melodias. Tudo à sua volta parecia alegrar-se com a sua música.

    Um dia houve uma grande tempestade. No dia seguinte, quando o pastor pôde sair da gruta onde se abrigara com o gado, tinha-se levantado um bonito sol, e não tardou a que tudo começasse a enxugar. O cheiro da terra molhada e aquele sol risonho deram ao menino vontade de tocar na flauta. À medida que tocava, e sem que desse por isso, foi-se aproximando dele um pequeno pássaro azul. Voava errante e parecia que a única coisa que o guiava era o som que saía da flauta. O menino só se apercebeu dele quando, rendido, caiu repentinamente aos seus pés. Pegou nele com muito cuidado e reparou que tinha uma asa partida e os olhos cobertos de lama.

    Cuidou dele. Com toda a minúcia que encontrou, ligou-lhe a asa e era com uma alegria louca e inocente que procurava as minhocas e ervinhas que depois lhe metia no bico. Deu-lhe um nome: chamou-lhe Silvestre.



    II. A cúpula

    Há um príncipe na cidade. Anda disfarçado de gente vulgar e, por isso, ninguém o reconhece no meio da multidão. Mas é ele, sim, é ele que ali vai. Sei o seu segredo porque ele próprio mo revelou.

    Contou-me que era descendente de uma dinastia antiga, que perdera o seu reino por uma traição, mas que insistia em sobreviver para preservar a sua nobreza. Contou-me também que ele, tal como os seus antepassados, tinha sido educado numa ilha distante, por uma confraria secreta que vivia à espera de uma Utopia. Aí, ensinaram-lhe a coragem para vencer batalhas, a sensibilidade para estimar a arte, a sabedoria para distinguir as causas justas, a compaixão para amparar os miseráveis, o respeito pela diferença. Tudo isso ele aprendeu e guardou no seu coração.

    Detrás de uma pedra da parede do abrigo, um papel esquecido

    A Mó

    O prior prega
    A ave voa
    O rico ri
    A mó, que moa.

    O prior prega
    o seu sermão
    às velhas surdas
    mas concentradas
    que querem dele
    a eternidade.

    A ave voa
    em liberdade
    asas ao vento
    vida sem tempo
    nem ao Domingo
    é Espírito Santo.

    O rico ri
    engalanado
    pois conseguiu
    um grande feito
    é criminoso
    sem ser condenado.

    A mó, que moa.

    Mulher a ler um romance


    (Vincent van Gogh)

    Se eu tivesse voz

    Se eu tivesse voz, pediria aos editores para publicarem mais livros de bolso. É que não dá jeito nenhum carregar tijolos de um quilo para ler o pão nosso de cada dia espiritual, enquanto se espera pelos transportes públicos. Mesmo quem leva uma pasta, leva-a, provavelmente, já suficientemente recheada.

    Que seria dos pobres e cansados sem os livros de bolso da Europa-América ou da Penguin, da Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, das colecções do Público e da Visão e até, um pouco mais distante, da RTP?

    Se eu tivesse voz, pediria apenas mais e melhor.

    Elitismo?



    Seria pedir muito querer séries de divulgação de grande fôlego em horário nobre na televisão pública? E, enquanto isso não acontece, querer uma selecção mais restritiva dos concorrentes aos concursos desse horário nobre, com melhores prémios - uma espécie de superliga dos concursos?

    Repararam?

    Depois de assistir às prestações dos cinco candidatos presidenciais principais em debates televisivos, notei que há um aspecto em que o candidato Mário Soares bate os adversários aos pontos: a voz. E mesmo quando começou a tossir, tinha na manga um qualquer rebuçado-maravilha que logo aliviou a maleita...

    quinta-feira, dezembro 08, 2005

    Haikais de Boticas

    O anel do monte
    feito de nuvens.
    Chove.

    A moto-serra ruge,
    longe. Perto, cai
    uma folha.

    Delicada estrada
    para pequenos pés de pássaro.
    Fios.

    Solitária e cristalina
    água. Leva-me
    para a terra que me pertence.

    (Abrupto)

    [daqui]

    Art, truth and politics

    Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura de 2005, por Harold Pinter. A ler!

    sábado, dezembro 03, 2005

    DUDH - Art. 3º

    Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

    Sinais

    Há dias, o coliseu de Roma esteve iluminado à noite por causa da pena de morte. Há dias também, a execução de um condenado à pena capital, nos Estados Unidos, foi evitada, in extremis. Por cá, apesar do consenso entre forças políticas sobre o assunto, ignoram-se estas execuções estatais bárbaras que ocorrem num país pretensamente civilizado.

    Todas as cartas de amor são ridículas

    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.
    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)


    (Álvaro de Campos)

    Duas camponesas cavando num campo com neve


    (Vincent van Gogh)

    Para que serve este blog anónimo?

    1. Não serve para a denúncia nem para a maledicência. Isso seria cobardia.

    2. Não serve como diário. Também aqui se acredita que o que se come ao pequeno almoço não interessa nada ao público. Também não é um "diário sem factos". Os estados de alma são demasiado pessoais.

    3. Não serve como depositário de poesia lamechas. Ou, pelo menos, tenta-se que não sirva.

    4. Não serve para ter audiências e para tentar mudar o mundo. Por aqui não há ilusões dessas. Quem pode nos blogs (sem fotografias "sugestivas") é quem pode fora dos blogs.

    5. Serve para uso pessoal. Para coleccionar pequeninos tesouros. Se alguém quiser vê-los e gostar, tanto melhor.

    6. Serve para registar acontecimentos importantes (como a saída do último soldado da Faixa de Gaza ou o início do questionamento do estalinismo pelo líder do PCP). Serve também para ignorar o que não interessa na vidinha pública deste país pequenino.

    7. Serve para o que a imaginação e o bom senso permitirem.

    quinta-feira, dezembro 01, 2005

    251. Fragmentos de uma autobiografia

    «O desgosto de não encontrar nada encontrei comigo pouco a pouco. Não achei razão nem lógica senão a um cepticismo que nem sequer buscava uma lógica para se defender. Em curar-me disto não pensei - por que me havia eu de curar disso? E o que era ser são? Que certeza tinha eu que esse estado de alma deva pertencer à doença? Quem nos afirma que, a ser doença, a doença não era mais desejável, ou mais lógica, ou mais [], do que a saúde? A ser a saúde preferível, por que era eu doente se não por naturalmente o ser, e se naturalmente o era, por que ir contra a Natureza, que para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente?

    Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social - talhei dessa matéria de [] a estátua pesada da minha existência.

    Deixei leituras, abandonei casuais caprichos de este ou aquele modo estético da vida. Do pouco que lia aprendi a extrair só elementos para o sonho. Do pouco que presenciava, apliquei-me a tirar apenas o que se podia, em reflexo distante e errado, prolongar mais dentro de mim. Esforcei-me por que todos os meus pensamentos, todos os capítulos quotidianos da minha experiência me fornecessem apenas sensações. Criei à minha vida uma orientação estética. E orientei essa estética para puramente individual. Fi-la minha apenas.

    Apliquei-me depois, no decurso procurado do meu hedonismo interior, a furtar-me às sensibilidades sociais. Lentamente me couracei contra o sentimento do ridículo. Ensinei-me a ser insensível quer para os apelos dos instintos quer para as solicitações [].

    Reduzi ao mínimo o meu contacto com os outros. Fiz o que pude para perder toda a afeição à vida, []. Do próprio desejo da glória lentamente me despi, como quem cheio de cansaço se despe para repousar.»

    (Bernardo Soares)