segunda-feira, agosto 22, 2005

Milho vermelho


Imagem: USDA

Mais bonita em noites de luar, a tarefa de descamisar o milho era um trabalho comunitário entre familiares e vizinhos. Nas eiras, que então pareciam espelhos a reflectir a luz da lua, sentavam-se os convivas em pequenos bancos de madeira, em redor do grande monte de espigas apanhadas uns dias antes, à torreira do sol. Era trabalho para um, dois, ou mesmo três serões, dependendo da extensão das terras do dono e da generosidade do ano agrícola.

Pegava-se numa espiga, que se punha ao alto no colo, com o caule seguro entre as pernas, para permitir o trabalho seguinte. Começando então do lado da barba, tiravam-se as "folhas" exteriores, mais secas e ásperas. Depois, as camadas interiores, já mais suaves e, por vezes, húmidas, que pareciam uma roupa interior da cor de algodão natural.

A seguir, o passo mais difícil para os garotos, que era separar a espiga das suas roupagens exteriores e do caule da planta, com um movimento firme da mão e do pulso na planta, apoiada num joelho. Finalmente, tirava-se a barba à espiga descamisada, que se atirava para o cesto de vime onde já estavam outras como ela. Por detrás dos descamisadores iam-se formando montinhos de "camisas" em que as crianças brincavam.

Quando, em vez de uma espiga amarela, aparecia uma espiga vermelha, havia palmas e votos de boa sorte, e a recordação de uma atlântida perdida em que se cantava e dançavam bailaricos no fim dos serões da descamisada.

O trabalho, em si, era cansativo e monótono e, por isso, tentava-se despachá-lo o mais depressa possível, competindo com os companheiros para ver quem fazia atrás de si um monte maior, prova do trabalho realizado.

Na minha memória, estes serões eram sempre tépidos. E essa alegria simples que já não há é também recordação de uma espécie de atlântida perdida. Como se elas, essas atlântidas, se fossem sucedendo ao longo do tempo, para gerações sucessivas. Será a juventude, que nos foge por entre os dedos? As mortes que se sucedem, e que nos recordam a nossa própria condição de mortais? Não sei. Talvez seja só a matriz portuguesa a impor-me a saudade. A saudade do milho vermelho.

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