segunda-feira, junho 13, 2005

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Quase epitáfio

O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

(Eugénio de Andrade, "Epitáfios")

*

XXXV

Em cada fruto a morte amadurece,
Deixando inteira, por legado,
uma semente virgem
que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.

(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")

*

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos")

*

Frente a frente

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")

*

Matinal

Que seja fogo e suba ao cume
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.

(Eugénio de Andrade, "Até amanhã")

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