domingo, abril 15, 2007

a verdade(zinha)

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Sócrates - [...] [N]ão te parece que se torna necessário que o orador se encontre bem instruído e informado acerca do tema sobre que vai discorrer?

Fedro - A esse respeito, presta atenção ao que ouvi dizer: ouvi dizer que para quem deseja tornar-se um orador consumado, não se torna necessário um conhecimento perfeito do que é realmente justo, mas sim do que parece justo aos olhos da maioria, que é quem decide, em última instância. Tão-pouco precisa de saber realmente o que é bom ou belo, bastando-lhe saber o que parece sê-lo, pois a persuasão se consegue, não com a verdade, mas com o que aparenta ser verdade.

Sócrates - Eis uma opinião difícil de rejeitar... impossível mesmo de rejeitar, Fedro, quando tal opinião é a das pessoas importantes; mas a nós compete analisar o seu significado, e muito particularmente o que acabas de dizer-me merece toda a atenção!

Fedro - Perfeitamente.

Sócrates - Vejamos então como examinar esse tema...

Fedro - Como o examinaremos?

Sócrates - Supõe por momentos que tento persuadir-te a comprar um cavalo para ires combater os teus inimigos mas que, tanto tu como eu, ignoramos o que seja um cavalo e que, entretanto, eu chegava à conclusão de que, no entender de Fedro, o cavalo é o animal doméstico com as orelhas mais compridas....

Fedro - Mas isso seria rídiculo, Sócrates!

Sócrates - Um momento, por enquanto! Ou que eu tentava seriamente persuadir-te a que escrevesses um panegírico do burro, chamando-o de cavalo e declarando que é muito prático adquirir essa besta, tanto para fins domésticos como para a guerra, que é tão útil na refrega das batalhas como no transporte de carga, como em qualquer outra coisa...

Fedro - Isso seria ainda mais ridículo!

Sócrates - Mas diz-me, não é verdade que o ridículo de um amigo é preferível à irredutível prepotência de um inimigo?

Fedro - Sem dúvida!

Sócrates - Por isso, quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, se dirige aos seus concidadãos, que sofrem da mesma ignorância, para os tentar persuadir a tomarem a sombra de um burro por um cavalo, ou o mal pelo bem; quando, depois de ter ouvido as opiniões da maioria, a impele para o mau caminho, em casos como este, quais são, a teu ver, os frutos que a arte oratória pode colher daquilo que semeou?

Fedro - Um fruto que não pode ser nada bom.

(Platão, Fedro, trad. Pinharanda Gomes, Guimarães, 2000)

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