quarta-feira, junho 01, 2016

Matar uma cotovia

Mr. B. B. Underwood nunca tinha escrito de forma tão amarga e estava-se nas tintas se lhe cancelassem alguma publicidade e algumas assinaturas. (Só que Maycomb não jogava segundo essas regras: Mr. Underwood podia gritar até suar e escrever o que quisesse que não perdia a publicidade e as assinaturas. Se ele queria fazer figuras tristes no seu próprio jornal, isso era lá com ele.) Mr. Underwood não escreveu sobre os erros judiciários. Escreveu antes de uma maneira que até as crianças podiam perceber. Mr. Underwood disse simplesmente que era pecado matar os aleijados, quer estivessem de pé, sentados ou a fugir. Ele comparava a morte do Tom à matança estúpida das aves perpetrada por caçadores e crianças, e Maycomb pensou que ele estava a tentar escrever um editorial suficientemente poético para voltar a aparecer numa futura impressão do "The Montgomery Advertiser".

Como poderia ser assim?, pensava eu, ao ler o editorial de Mr. Underwood. Matança estúpida... O Tom tinha sido alvo de um processo legal justo até ao dia da sua morte; ele tinha sido julgado e condenado por doze homens bons e honestos; o meu pai tinha lutado por ele até ao fim. Então, de súbito, a alegoria de Mr. Underwood tornou-se clara para mim: o Atticus tinha usado todos os instrumentos ao alcance dos homens livres para salvar o Tom Robinson, mas, naquele secreto tribunal que mora no coração dos homens, o Atticus não tinha a mais pequena hipótese. O Tom era um homem morto a partir do momento em que a Mayella Ewell abriu a boca e desatou aos gritos.


("To Kill a Mockingbird", de Harper Lee)

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