quarta-feira, abril 05, 2006
Tortura
Pergunta retórica: o que aconteceria se em Portugal alguém confessasse em público um crime contra a humanidade, desses que nunca prescrevem?
segunda-feira, abril 03, 2006
O mistério do auto-plágio
É engraçado como situações com algumas semelhanças evoluem de forma tão diferente. Há algum tempo, um caso de plágio deu origem a uma dispensa de colaboração, opróbrio público e explicação esfarrapada. Agora, um caso de auto-plágio merece mil reacções mas, que eu tivesse reparado, nenhuma tentativa de explicação razoável. Quero dizer, acham mesmo que alguém vai a um livro que já publicou copiar uns parágrafos? Eu, não! Parecer-me-ia mais verosímil que a autora tivesse uma colecção de fragmentos preparados que ia utilizando conforme a necessidade. Só que, sendo esse o caso, sem registar que já os tinha usado. A prazo, com o avolumar da "obra", accidents (did) happen. E pronto, já dei mais uma contribuiçãozinha para o peditório de marketing.
Divisão primária
Por que é que o governo francês quer separar os maiores e os menores de vinte e seis anos? Por quê um ou dois anos com menos direitos? Por que não se terão lembrado de escalões etários, progressivamente com mais direitos? Não se usam escalões para os impostos e, agora, cada vez mais, para todos os serviços públicos, segundo o princípio do utilizador-pagador? Por que não se faz ao contrário e não se põe nos recém-nascidos a marca dos escravos e se dá aos cadáveres a carta de alforria?
Dúvida
Como é que se vai multar quem faz downloads de obras protegidas pelo direito de autor? Não há aqui um conflito entre propriedade intelectual e direito à privacidade?
[Adenda]
Também não percebi muito bem porque é que a música é mais importante do que a imagem ou a palavra escrita (que não em livro). (Ou será que percebi?) E esses malfeitores que andam por aí em blogs a usar quadros, fotografias, músicas e poemas protegidas pelas quais não pagaram e dos quais nem indicam a fonte, o que será deles? E as intertextualidades (que palavrão feio!) não devidamente assinaladas?
[Adenda]
Também não percebi muito bem porque é que a música é mais importante do que a imagem ou a palavra escrita (que não em livro). (Ou será que percebi?) E esses malfeitores que andam por aí em blogs a usar quadros, fotografias, músicas e poemas protegidas pelas quais não pagaram e dos quais nem indicam a fonte, o que será deles? E as intertextualidades (que palavrão feio!) não devidamente assinaladas?
Apesar das ruínas e da morte
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)
domingo, abril 02, 2006
The Having to Love Something Else
There was a man who would marry his mother, and asked his
father for his mother's hand in marriage, and was told he could
not marry his mother's hand because it was attached to all
the rest of mother, which was all married to his father; that
he'd have to love something else....
And so he went into the world to love something else, and
fell in love with a dining room.
He asked someone standing there, may I have this dining
room's hand in marriage?
You may not, its hand is attached to all the rest of it,
which has all been promised to me in connubial alliance, said
someone standing there.
Just because the dining room lives in your house doesn't
necessarily give you claim to its affections....
Yes it does, for a dining room is always to be married to
the heir apparent in the line of succession; after father it's
my turn; and only if all mankind were destroyed could you
succeed any other to the hand of this dining room. You'll have
to love something else....
And so the man who would marry his mother was again in the
world looking for something to love that was not already
loved...
(Russell Edson)
father for his mother's hand in marriage, and was told he could
not marry his mother's hand because it was attached to all
the rest of mother, which was all married to his father; that
he'd have to love something else....
And so he went into the world to love something else, and
fell in love with a dining room.
He asked someone standing there, may I have this dining
room's hand in marriage?
You may not, its hand is attached to all the rest of it,
which has all been promised to me in connubial alliance, said
someone standing there.
Just because the dining room lives in your house doesn't
necessarily give you claim to its affections....
Yes it does, for a dining room is always to be married to
the heir apparent in the line of succession; after father it's
my turn; and only if all mankind were destroyed could you
succeed any other to the hand of this dining room. You'll have
to love something else....
And so the man who would marry his mother was again in the
world looking for something to love that was not already
loved...
(Russell Edson)
sábado, abril 01, 2006
Com os joelhos submersos
Embora completamente submersa, a baleeira estava quase intacta. Nadando em volta, recuperámos os remos e, transpondo a borda, retomámos os nossos lugares. Ficámos ali sentados, com os joelhos submersos, pois a água cobria toda a embarcação, de tal modo que esta parecia, aos nossos olhos arregalados, um banco de coral que subia do fundo do oceano para nos recolher.
O vento agora uivava e as vagas começavam a entrechocar-se; a borrasca rugia, saltava e estalava à nossa volta como um incêndio na pradaria, um incêndio em que ardíamos sem nos consumirmos, imortais nas próprias fauces da morte! Em vão gritávamos para as outras embarcações. Mas de nada servia gritar no meio daquele temporal. Entretanto, as nuvens à desfilada, a espuma e o nevoeiro tornavam-se ainda mais negros com a noite que caía; não se avistava o menor sinal do navio. O mar frustrava todas as tentativas que fazíamos para baldear a nossa baleeira. Os remos inúteis eram agora meros meios de salvação. Starbuck, cortando o fio do saco impermeável onde se encontravam os fósforos, conseguiu acender a lâmpada da lanterna; depois, colocando-a na ponta do mastro partido, estendeu-o a Queequeg que se tornou o porta-bandeira da nossa derradeira esperança erguendo aquele farol insensato no cerne do nosso desespero. E ali ficou ele, como o símbolo de um homem sem fé, erguendo uma esperança desesperada no seio do desespero.
(Herman Melville)
O vento agora uivava e as vagas começavam a entrechocar-se; a borrasca rugia, saltava e estalava à nossa volta como um incêndio na pradaria, um incêndio em que ardíamos sem nos consumirmos, imortais nas próprias fauces da morte! Em vão gritávamos para as outras embarcações. Mas de nada servia gritar no meio daquele temporal. Entretanto, as nuvens à desfilada, a espuma e o nevoeiro tornavam-se ainda mais negros com a noite que caía; não se avistava o menor sinal do navio. O mar frustrava todas as tentativas que fazíamos para baldear a nossa baleeira. Os remos inúteis eram agora meros meios de salvação. Starbuck, cortando o fio do saco impermeável onde se encontravam os fósforos, conseguiu acender a lâmpada da lanterna; depois, colocando-a na ponta do mastro partido, estendeu-o a Queequeg que se tornou o porta-bandeira da nossa derradeira esperança erguendo aquele farol insensato no cerne do nosso desespero. E ali ficou ele, como o símbolo de um homem sem fé, erguendo uma esperança desesperada no seio do desespero.
(Herman Melville)
Actualidade
Este blog não é um diário nem pretende ter um tom intimista, apesar de assim ser por vezes rotulado. Mas também não tenciona ceder à tirania da "actualidade", a ter de comentar os assuntos que os media nos servem em cada dia. Ainda assim, talvez possa dizer que sinto orgulho por tantas mulheres terem chegado onde chegaram sem pertencerem a nenhuma quota. Que, no caminho de volta para a escravatura, em algum lado tem de se parar. E que os plágios em best sellers não devem estar isentos de ser desmascarados.
Virtude
A virtude não se pode ensinar; nem mesmo Péricles conseguiu fazer dos seus filhos homens de estirpe.
(Platão, Protágoras)
(Platão, Protágoras)
E se...?
E se o tempo dedicado pelas televisões ao futebol fosse substituído por programas educativos, por mais notícias internacionais, por espaços de reflexão não histriónicos?
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