sábado, março 25, 2006

Mulher a ler


(Seikichi Izawa)

América

Percorri as ruas de muitos países do mundo, mas em lado algum me senti tão degradado e humilhado como na América. Penso em todas as ruas da América reunidas e formando uma imensa cloaca, uma cloaca do espírito para a qual tudo é aspirado e levado na enxurrada para a merda eterna. Sobre essa cloaca o espírito do trabalho agita uma vara mágica; irrompem lado a lado palácios e fábricas, fábricas de munições e de produtos químicos, siderurgias e sanatórios, prisões e manicómios. Todo o continente é um pesadelo que causa a maior miséria ao maior número. Fui um deles, uma entidade isolada no meio da maior congregação de riqueza e de felicidade (riqueza estatística e felicidade estatística), mas nunca conheci nenhum homem que fosse verdadeiramente rico ou verdadeiramente feliz. Eu, pelo menos, sabia que era infeliz e pobre, que estava fora do ritmo e da linha. Era essa a minha única consolação, a minha única alegria.

(Henry Miller)

domingo, março 19, 2006

Oxigénio

Jovem amigo

Jovem amigo, se tens a vontade frouxa, o ânimo facilmente impulsionável, se és um incoerente ou um desequilibrado, estás a tempo de evitar um destino inglório. Toma conta: se não cultivares a tua personalidade e se te deixares ir na onda de admiração com que se aplaudem as tuas piores extravagâncias, poderás vir a arrastar a vida pelas esquinas ou botequins, vazando na maledicência e na calúnia a tristeza secreta da tua inferioridade. Previno-te tanto mais, quanto alguns dos corifeus da última grande camada literária deram extremos foros de elegância ao desequilíbrio no estilo e no homem.

Resiste a todas essas influências, venham donde vierem. Uma das melhores maneiras de afirmar o carácter moral está precisamente em defrontar com coragem todos os preconceitos perigosos. Se quiseres vencer na vida, deves cultivar o teu carácter. Sê desabrido na defesa de ti próprio. E não te esqueças de que o desenvolvimento da inteligência e da cultura condicionam muitas vezes a riqueza e a elevação dos sentimentos. Quanto mais rica for a tua personalidade em equilibradas tendências intelectuais e afectivas, mais forte e perfeito poderá ser o teu carácter. E o que distingue exactamente essa perfeição é a unidade e a estabilidade das tendências.

Não te direi também que essa obra de educação própria a possas realizar com facilidade ou rapidez. Não. Só o hábito pela perseverança - já to disse - determinará a tua evolução psicológica. Por ele tu darás continuidade aos primeiros hesitantes momentos da tua perfeição individual. Alargando pouco a pouco no presente as conquistas do passado, podes preparar um futuro pleno de força e de saúde moral.


Jaime Cortesão - Cartas à Mocidade, Seara Nova, Lisboa, 1940

Registo

Um dos partidos de poder em Portugal ficou mais ingovernável.

sexta-feira, março 17, 2006

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

(António Gedeão)

Agradecimentos

Aos blogs Klepsydra pelo destaque à entrada feminista, Posto de Escuta pelo destaque à entrada pessoana, e especialmente ao amável Abrupto pelo destaque à entrada metacognitiva: muito obrigada!

domingo, março 12, 2006


(Jean Valette-Penot)

Fábula

Era uma vez uma formiga que levava uma vida de formiga. E um coleccionador de formigas, que a observava com uma lupa, curioso. A formiga bem reparou na atenção que lhe era prestada. No início, até sentiu um certo orgulho nisso. Mas depois, sem poder deixar o seu carreiro, achou que podia tentar comunicar com o coleccionador. Ela sabia que ele era mais inteligente do que ela e que tinha meios para rapidamente aprender a linguagem das formigas. Mas foi em vão que esperou a sua oportunidade. Nunca os homens tentaram comunicar com as formigas, talvez por acharem que elas apenas se regem por imperativos químicos, e que as podem compreender bastando, para isso, acompanhar os seus movimentos. Mas, assim, nunca o coleccionador pôde saber dos seus sonhos comuns.

Os outros lados

Até que ponto não se lê apenas o que se quer ler? Que espaço se dá à surpresa na leitura? Que hipóteses à corrosão de estereótipos? Será uma questão de tempo ou dinheiro o que provoca a compartimentação das ideias a que hoje se assiste? A rejeição da empatia pelos pontos de vista que são os do outro? E será esta uma vantagem competitiva?

Mulher a ler

Ao som de um riacho e de um piano.



(Walter Crane, Such sights as youthful poets dream on summer eves by haunted stream)

*

Tower'd cities please us then
And the busy hum of men,
Where throngs of knights and barons bold,
In weeds of peace, high triumphs hold,
With store of ladies, whose bright eyes
Rain influence, and judge the prize
Of wit or arms, while both contend
To win her grace, whom all commend.
There let Hymen oft appear 125
In saffron robe, with taper clear,
And pomp, and feast, and revelry,
With mask, and antique pageantry;
Such sights as youthful poets dream
On summer eves by haunted stream.

Then to the well-trod stage anon,
If Jonson's learned sock be on,
Or sweetest Shakespeare, Fancy's child,
Warble his native wood-notes wild.


(John Milton)

sábado, março 11, 2006

Pessoa(s)

Como se materializaria hoje a heteronímia pessoana? Se fosse blogger, escreveria Fernando blogs díspares, com assinaturas de gente que não seria de carne e osso? Faria a ligação entre todos através de profiles comuns, de referências nos blogrolls, ou de uma qualquer outra forma?

Encontra-se, entre os blogs, cérebros do tamanho dos de galinhas, mas também pessoas cultas, witty, com grande verve. Escrever para gavetas abertas ao público, para críticos ao virar de um click, para audiências medidas com rigor... que novas possibilidades trará? Que génios insuspeitos poderão surgir? (E será seguro que não passarão despercebidos?) Que gostos novos poderão desenvolver-se? Que fidelidades de leitores?