quarta-feira, junho 01, 2016

Matar uma cotovia

Mr. B. B. Underwood nunca tinha escrito de forma tão amarga e estava-se nas tintas se lhe cancelassem alguma publicidade e algumas assinaturas. (Só que Maycomb não jogava segundo essas regras: Mr. Underwood podia gritar até suar e escrever o que quisesse que não perdia a publicidade e as assinaturas. Se ele queria fazer figuras tristes no seu próprio jornal, isso era lá com ele.) Mr. Underwood não escreveu sobre os erros judiciários. Escreveu antes de uma maneira que até as crianças podiam perceber. Mr. Underwood disse simplesmente que era pecado matar os aleijados, quer estivessem de pé, sentados ou a fugir. Ele comparava a morte do Tom à matança estúpida das aves perpetrada por caçadores e crianças, e Maycomb pensou que ele estava a tentar escrever um editorial suficientemente poético para voltar a aparecer numa futura impressão do "The Montgomery Advertiser".

Como poderia ser assim?, pensava eu, ao ler o editorial de Mr. Underwood. Matança estúpida... O Tom tinha sido alvo de um processo legal justo até ao dia da sua morte; ele tinha sido julgado e condenado por doze homens bons e honestos; o meu pai tinha lutado por ele até ao fim. Então, de súbito, a alegoria de Mr. Underwood tornou-se clara para mim: o Atticus tinha usado todos os instrumentos ao alcance dos homens livres para salvar o Tom Robinson, mas, naquele secreto tribunal que mora no coração dos homens, o Atticus não tinha a mais pequena hipótese. O Tom era um homem morto a partir do momento em que a Mayella Ewell abriu a boca e desatou aos gritos.


("To Kill a Mockingbird", de Harper Lee)

segunda-feira, abril 25, 2016

domingo, maio 01, 2011

And death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


(Dylan Thomas)

sábado, abril 30, 2011


(Vincent van Gogh)

Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

(José Régio)

terça-feira, abril 26, 2011



(Google doodle de 26/Abr/2011, celebrando o nascimento de John James Audubon)

Citação

«Nice people with common sense do not make interesting characters. They
only make good former spouses.»

(Isabel Allende, TED talk Tales of passion)

sábado, abril 23, 2011

(V)

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso)

domingo, abril 17, 2011


(Giovanni Segantini, Mezzogiorno sulle Alpi, 1891)

Uma trip de Umberto Eco

É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exactamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?

Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contados sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?


(Umberto Eco, O Cemitério de Praga)

Esta droga é boa, e não se vende nas farmácias...