domingo, abril 17, 2011


(Giovanni Segantini, Mezzogiorno sulle Alpi, 1891)

Uma trip de Umberto Eco

É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exactamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?

Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contados sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?


(Umberto Eco, O Cemitério de Praga)

Esta droga é boa, e não se vende nas farmácias...

Como pôr o guizo no gato?

Jorge Miranda não se oporia a que votos em branco fossem representados por cadeiras vazias no Parlamento, como foi sugerido em tempos neste blog.

Questionado sobre se se revê nos partidos do actual espectro partidário, admitiu que não, mas explicou que como não é abstencionista tem votado muitas vezes em branco – pelo que concorda com a proposta do antigo ministro de José Sócrates e economista Campos e Cunha de deixar no Parlamento lugares vagos provenientes dos votos em branco. “Daria um sentido positivo ao voto em branco. Seria uma forma positiva de manifestação de desagrado em relação aos partidos existentes”, insistiu, definindo o actual sistema de partidos como vivendo um “estado comatoso, sem qualquer capacidade de renovação”.

Numa fábula muito popular de Esopo, os ratos em consílio achavam uma excelente ideia pôr um guizo no gato que os atormentava, para os avisar de quando ele estava a aproximar-se. Só não conseguiam entender-se sobre qual deles ia pôr o guizo no gato...

Aqui a questão é que partidos alguma vez defenderiam tal ideia e votariam a favor de uma tal lei no Parlamento...

Nas eleições legislativas de 2009, houve 99.161 votos em branco e 78.023 votos nulos. São mais do que os necessários para uma iniciativa popular, mas quem os organiza? Seria talvez mais fácil se os partidos que não elegeram deputados numas eleições tivessem financiamento na campanha eleitoral seguinte, proporcional aos votos que tivessem conseguido. Ou então, quem sabe, esses "movimentos apartidários" que há por aí pudessem fazer alguma coisa...

domingo, abril 10, 2011

De olhos postos na Islândia...

Para quando o referendo português sobre a renegociação da dívida? (Renegociar a dívida não é o que se aconselha a um particular quando ele se vê numa escalada de empréstimos?)

With great power comes great responsibility

É difícil imaginar um lugar em que as ideias para lá da espuma dos dias contam. Mas parece que existe... em França.

Confesso que já passei mais de cinco minutos da minha vida a ler textos de Bernard-Henri Lévy, e li Les Fleurs du Mal na penumbra da sua biografia de Baudelaire.

Ora, já Platão sonhou com reis-filósofos. E, tantas vezes, vemos resultados democráticos que fazem duvidar da bondade dos pressupostos da democracia...

Por tudo isto, e havendo posições de BHL das quais discordo totalmente, não posso deixar de sentir simpatia por se ter prontificado a ir quase à frente de batalha, deixar a cómoda neutralidade, e ter usado o poder da sua notoriedade para tentar influenciar a defesa de vidas civis e uma mudança de regime na Líbia.

Teorias de conspiração? Honni soit qui mal y pense.

Grande decepção:

Fernando Nobre.

sexta-feira, abril 01, 2011

quarta-feira, março 23, 2011

Elizabeth Taylor (1932-2011)





Morreu uma das mulheres mais bonitas do mundo. Eram intensos o olhar, as representações, as amizades (e, bom, o impulso para se casar e recasar).

quinta-feira, março 10, 2011

O Público já perguntou...

a Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas se e por quê participam - ou não - na manifestação de 12 de Março?

Reminder: 24 de Novembro de 1993.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Por que há-de ser vinculativa

uma eleição para um cargo unipessoal em que a taxa de abstenção é superior à votação do candidato com mais votos?

quinta-feira, outubro 28, 2010

Pour faire le portrait d'un oiseau



Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


Jacques Prévert

domingo, maio 16, 2010

Aos homens corajosos do meu país

Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



(Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo)