terça-feira, outubro 28, 2008

Não desapontar é...

"We are all atheists about most of the gods that societies have ever believed in. Some of us just go one god further."

Richard Dawkins

segunda-feira, outubro 27, 2008

Por que será lembrado o século em que nascemos? Por dois regimes totalitários, duas guerras mundiais e pela chegada do Homem à Lua. Preciosidades como esta ou esta serão, na melhor das hipóteses, curiosidades arqueológicas...

domingo, setembro 28, 2008

Será que não devíamos pedir uma indemnização às tabaqueiras pelo Paul Newman?

(Este é um post quadrado, cor-de-rosa, de costureirinha. Voilá.)

Do que mais gostava no Paul Newman, mais do que da beleza canónica, do talento irrepreensível, do bom carácter com que doava os lucros do molho de tomate para bolsas de estudo (acho que é qualquer coisa assim), da humanidade do ressonar (confessado pela mulher), do que mais gostava no Paul Newman era mesmo daquele casamento de décadas e décadas, uma coisa própria de príncipe encantado que se preze, ou não terminassem as histórias de encantar com o inevitável "e viveram felizes para sempre" ou, em casos mais humanos como este, "até que a morte os separe".

Se me comovo com qualquer um desses casais de muitas décadas, professando ainda publicamente o seu estado de encantamento, comovo-me mais com o Paul Newman, estrela grande de Hollywood, indústria que se alimenta de vidas humanas para produzir sonhos empacotados para milhões de outras vidas. À nossa frente, filtrada pelos media, vemos a coragem de tantas dessas estrelas tentando ter uma vida pessoal com elementos que são denominadores comuns a todos os mortais. O Marlon Brando, falado por estes dias, por exemplo, viveu uma vida trágica, mas inegavelmente corajosa, procurando afinal coisas tão simples como qualquer ser humano.

Com o passar dos tempos, parece que há cada vez menos homens assim. Por isso, pergunto-me se não deveríamos pedir uma indemnização zilionária às tabaqueiras pela morte do Paul Newman.

sábado, setembro 27, 2008

"In a real sense, people who have read good literature have lived more than people who cannot or will not read. It is not true that we have only one life to live; if we can read, we can live as many more lives and as many kinds of lives as we wish."

(Sam I. Hayakawa)




quarta-feira, agosto 06, 2008

Quem sabe... um blog?

FEUILLET SANS DATE

Le mieux serait d'écrire les événements au jour le jour. Tenir un journal pour y voir clair. Ne pas laisser échapper les nuances, les petits faits, même s'ils n'ont l'air de rien, et surtout les classer. Il faut dire comment je vois cette table, la rue, les gens, mon paquet de tabac, puisque c'est celá qui a changé. Il faut déterminer exactement l'étendue et la nature de ce changement.

(Jean-Paul Sartre, La nausée)

segunda-feira, julho 28, 2008

Quando se aponta o dedo à melanina, lembro-me muitas vezes do divino baiano (preto?).

Acordo

*

«Depois de casado, eu chegava em casa alterado tarde da noite e a Vanda não se conformava, esquentava minha sopa amaldiçoando o Álvaro. Eu deixava por isso mesmo, não tinha como lhe explicar que, encerrado o expediente, me demorava sozinho na agência por conta própria, em leitura obsessiva. Naquelas horas, ver minhas obras assinadas por estranhos me dava um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque para mim, não era o sujeito quem se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele. Anoitecia, e eu tornava a ler os fraseados que sabia de cor, depois repetia em voz alta o nome do tal sujeito, e balançava as pernas e ria à beça no sofá, eu me sentia tendo um caso com mulher alheia. E se me envaideciam os fraseados, bem maior era a vaidade de ser um criador discreto. Não se tratava de orgulho ou soberba, sentimentos naturalmente silenciosos, mas de vaidade mesmo, com desejo de jactância e exibicionismo, o que muito valorizava minha discrição. E novos artigos me eram solicitados, e publicados nos jornais com chamada de capa, e elogiados por leitores no dia seguinte, e eu agüentava firme. Com isso a vaidade em mim se acumulava, me tornava forte e bonito, e me levava a brigar com a telefonista e a chamar o office boy de burro, e me arruinava o casamento, porque eu chegava em casa e já gritava com a Vanda, e ela me olhava arregalada, não conhecia os motivos de eu estar assim tão vaidoso. Eu tinha de fato um mau temperamento quando veio dar na agência o convite para o encontro anual de autores anônimos, a se realizar em Melbourne. Era uma correspondência postada em Cleveland, sem outro indício de remetente, tendo como destinatário Cohna & Casta Agency, num envelope preto que o Álvaro abriu e me passou achando graça. Joguei a carta na gaveta das coisas desimportantes, mesmo porque não trazia maiores informações além do nome de um hotel e uma data que sem querer registei, era o dia de anos da Vanda. Meses mais tarde, chegando em casa às duas da manhã, encontrei minha mulher sentada na cama com cara de sono, pois acordava cedo desde que virara apresentadora de telejornal. Quando me perguntou se eu ainda ia querer a sopa, num impulso lhe respondi que na televisão ela parecia uma papagaia, porque lia as notícias sem saber do que falava. Ela calçou os chinelos, vestiu um casaco de crochê por cima do pijama, foi devagar para a cozinha, ligou o microondas, e sem elevar a voz disse que pior era eu, que escrevia um catatau de coisas para ninguém ler. Dispensei a sopa, abandonei o lar com a roupa do corpo e me ajeitei na agência, onde ficava namorando meus artigos até adormecer no sofá. Depois de noites dormindo ali, com umas sobras da raiva e dor nas costas, pensei em voltar para a Vanda em consideração ao seu aniversário, e foi quando me lembrei do convite na gaveta. O Álvaro não se opôs à minha viagem para a Austrália, até fez alguns comentários sobre globalização e coisa e tal. Eu tinha dinheiro suficiente, com mais de trinta anos nunca havia deixado o país, julguei que na pior das hipóteses esfriaria a cabeça dando a volta ao mundo de avião. Passei em casa para fazer a mala, a Vanda não estava, deixei-lhe um bilhete informando que partiria para o congresso mundial de escritores.»

(Chico Buarque, Budapeste)

segunda-feira, julho 21, 2008

Intocável



O que te salvará da pobreza, menina dalit? A democracia? A economia de mercado? A energia nuclear? Uma pretensa igualdade de oportunidades na escola?