"In a real sense, people who have read good literature have lived more than people who cannot or will not read. It is not true that we have only one life to live; if we can read, we can live as many more lives and as many kinds of lives as we wish."
(Sam I. Hayakawa)
sábado, setembro 27, 2008
segunda-feira, setembro 01, 2008
quarta-feira, agosto 06, 2008
Quem sabe... um blog?
FEUILLET SANS DATE
Le mieux serait d'écrire les événements au jour le jour. Tenir un journal pour y voir clair. Ne pas laisser échapper les nuances, les petits faits, même s'ils n'ont l'air de rien, et surtout les classer. Il faut dire comment je vois cette table, la rue, les gens, mon paquet de tabac, puisque c'est celá qui a changé. Il faut déterminer exactement l'étendue et la nature de ce changement.
(Jean-Paul Sartre, La nausée)
sexta-feira, agosto 01, 2008
Espécie de @#$%&^%$#@!
Posso propor que os deputados que aprovarem isto sejam pagos em fardos de palha?
segunda-feira, julho 28, 2008
Acordo
*
(Chico Buarque, Budapeste)
«Depois de casado, eu chegava em casa alterado tarde da noite e a Vanda não se conformava, esquentava minha sopa amaldiçoando o Álvaro. Eu deixava por isso mesmo, não tinha como lhe explicar que, encerrado o expediente, me demorava sozinho na agência por conta própria, em leitura obsessiva. Naquelas horas, ver minhas obras assinadas por estranhos me dava um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque para mim, não era o sujeito quem se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele. Anoitecia, e eu tornava a ler os fraseados que sabia de cor, depois repetia em voz alta o nome do tal sujeito, e balançava as pernas e ria à beça no sofá, eu me sentia tendo um caso com mulher alheia. E se me envaideciam os fraseados, bem maior era a vaidade de ser um criador discreto. Não se tratava de orgulho ou soberba, sentimentos naturalmente silenciosos, mas de vaidade mesmo, com desejo de jactância e exibicionismo, o que muito valorizava minha discrição. E novos artigos me eram solicitados, e publicados nos jornais com chamada de capa, e elogiados por leitores no dia seguinte, e eu agüentava firme. Com isso a vaidade em mim se acumulava, me tornava forte e bonito, e me levava a brigar com a telefonista e a chamar o office boy de burro, e me arruinava o casamento, porque eu chegava em casa e já gritava com a Vanda, e ela me olhava arregalada, não conhecia os motivos de eu estar assim tão vaidoso. Eu tinha de fato um mau temperamento quando veio dar na agência o convite para o encontro anual de autores anônimos, a se realizar em Melbourne. Era uma correspondência postada em Cleveland, sem outro indício de remetente, tendo como destinatário Cohna & Casta Agency, num envelope preto que o Álvaro abriu e me passou achando graça. Joguei a carta na gaveta das coisas desimportantes, mesmo porque não trazia maiores informações além do nome de um hotel e uma data que sem querer registei, era o dia de anos da Vanda. Meses mais tarde, chegando em casa às duas da manhã, encontrei minha mulher sentada na cama com cara de sono, pois acordava cedo desde que virara apresentadora de telejornal. Quando me perguntou se eu ainda ia querer a sopa, num impulso lhe respondi que na televisão ela parecia uma papagaia, porque lia as notícias sem saber do que falava. Ela calçou os chinelos, vestiu um casaco de crochê por cima do pijama, foi devagar para a cozinha, ligou o microondas, e sem elevar a voz disse que pior era eu, que escrevia um catatau de coisas para ninguém ler. Dispensei a sopa, abandonei o lar com a roupa do corpo e me ajeitei na agência, onde ficava namorando meus artigos até adormecer no sofá. Depois de noites dormindo ali, com umas sobras da raiva e dor nas costas, pensei em voltar para a Vanda em consideração ao seu aniversário, e foi quando me lembrei do convite na gaveta. O Álvaro não se opôs à minha viagem para a Austrália, até fez alguns comentários sobre globalização e coisa e tal. Eu tinha dinheiro suficiente, com mais de trinta anos nunca havia deixado o país, julguei que na pior das hipóteses esfriaria a cabeça dando a volta ao mundo de avião. Passei em casa para fazer a mala, a Vanda não estava, deixei-lhe um bilhete informando que partiria para o congresso mundial de escritores.»
(Chico Buarque, Budapeste)
segunda-feira, julho 21, 2008
Intocável
terça-feira, julho 15, 2008
sábado, julho 05, 2008
Registo
"Surpresa: os alunos já são bons a Matemática", por Carlos Fiolhais: "O ilusionismo está pois instalado ao mais alto nível do Estado, à semelhança do que acontece nos estados totalitários. A verdade sobre a educação está a ser oculta num estado democrático."
terça-feira, julho 01, 2008
sexta-feira, junho 13, 2008
Dúvidas
1. Haverá algum dia um referendo em que o resultado seja igual nos 27 países da União Europeia?
2. Por que razão não há consultas eleitorais com um conjunto finito de alternativas concretas em que votar? Por que há-de haver um desfecho desconhecido de um dos resultados?
3. Estariam os cidadãos da União Europeia preparados para eleger directamente um Presidente?
2. Por que razão não há consultas eleitorais com um conjunto finito de alternativas concretas em que votar? Por que há-de haver um desfecho desconhecido de um dos resultados?
3. Estariam os cidadãos da União Europeia preparados para eleger directamente um Presidente?
terça-feira, maio 13, 2008
Em memória de Irena Sendler
*
[...] Chris abateu a cabeça sobre a mesa e rompeu a chorar; as lágrimas e a saliva sufocavam-no. Pousou uma das mãos no relatório. Ergueu a cabeça. Recobrou o domínio de si próprio e debruçou-se sobre a primeira página.
RELATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES JUDAICAS ASSOCIADAS SOBRE OS CENTROS DE EXTERMÍNIO EM ACTIVIDADE NA ÁREA DO GOVERNO-GERAL DA POLÓNIA, EM JULHO DE 1942.
Podemos declarar com firmeza que existem na área do Governo-Geral quatro centros criados com o único propósito de proceder a exterminações colectivas. Além destes, existem mais dois campos que servem simultaneamente para concentração e extermínio. Foram criados quinhentos campos de trabalho escravo na Polónia, dos quais cento e quarenta são destinados aos Judeus. Todos eles contêm diversos meios de assassínio.
A única conclusão a tirar é que o plano geral alemão em curso visa a destruição absoluta do povo judaico. No princípio, inanição colectiva, epidemias e execuções dizimaram dezenas de milhares de pessoas nos diferentes ghettos. Após a invasão da Rússia, Kommandos pertencentes a quatro grupos de acção especial chacinaram várias centenas de milhares de judeus. O ponto culminante do plano é agora o assassínio em massa. Deve concluir-se que tal plano não pode provir senão de Hitler, com a colaboração de Himmler e de Heydrich. A sua execução é efectuada pelo chamado Departamento 4-B da Gestapo (assuntos judaicos), sob a direcção do tenente-coronel Adolfo Eichmann.
Os centros de extermínio estão situados em terminais dos caminhos de ferro e geralmente em áreas isoladas. Os seus guardas pertencem às Waffen SS e com eles cooperam auxiliares ucranianos e baltas. Para realizar esta operação é utilizada uma quantidade enorme de planos, materiais e mão-de-obra, numa altura em que a Alemanha está a conduzir uma guerra em várias frentes. Por exemplo: os vagões de caminho de ferro devem ser usados de preferência no transporte de material de guerra para a frente russa; contudo, a deportação de judeus dos países ocupados para a Polónia parece ter prioridade sobre as necessidades do exército. Além disso, milhares de engenheiros, de cientistas, de técnicos, estão ligados a esta operação, bem como mão-de-obra, de que existe uma necessidade desesperada. Podemos calcular com precisão que o concurso de duas a três centenas de milhares de homens está directa ou indirectamente envolvido neste plano. Todo este esforço testemunha a vontade demencial dos nazis, assim como a gravidade da nossa situação.
Todos estes campos funcionam segundo um padrão básico. É observado o embuste e mantido o segredo. Isto certamente indica que os nazis têm consciência do mal que praticam. Em cada campo, os deportados são encaminhados, logo que chegam, para os centros de selecção. Uns poucos são enviados para trabalho escravo. Os restantes, incluindo mulheres e crianças de tenra idade, são conduzidos para um «centro sanitário», com a ilusão de que aí vão tomar um duche de desinfecção. Rapam-lhes o cabelo. Os guardas representam até ao fim o seu papel nesta tragicomédia; entregam um pedaço de sabão (que depois se averigua ser uma pedra) a cada vítima, indo ao extremo de lhes dizerem que tomem bem conta do número do cabide em que têm o vestuário dependurado. Muitas mulheres tentam esconder as crianças nas roupas ou mesmo lançá-las dos comboios, para os camponeses, mas são quase sempre descobertas.
Quando os ocupantes se encontram já no interior do «centro sanitário», é fechada uma porta de ferro e um guarda abre as torneiras do gás. Os primeiros gaseamentos eram feitos com monóxido de carbono que se escapava dos motores. Porém, este método revelou-se lento e dispendioso, devido à gasolina utilizada. Assim, a Companhia de Insecticidas de Hamburgo preparou uma mistura de ácido prússico denominada Cyclon B. A morte não demora mais do que alguns minutos.
Os trabalhadores escravos judeus limpam as câmaras e removem os cadáveres para os crematórios, onde são queimados. A princípio a cremação efectuava-se em valas ao ar livre, mas o fedor era insuportável. Os trabalhadores judaicos perdem, geralmente, a razão volvidas poucas semanas.
Existem muitas variantes, mas este é o padrão geral. Os dentes de ouro são arrancados dos cadáveres antes de os queimarem. Qualquer objecto de valor que porventura se encontre é destinado ao esforço de guerra alemão. Tudo o mais - vestuário, óculos, sapatos, membros artificiais, mesmo bonecas - é depositado em armazéns e depois examinado, a fim de verificar se há objectos escondidos. Os cabelos são empacotados e expedidos para a Alemanha, a fim de serem utilizados na confecção de colchões e na manufactura de periscópios de submarinos. Num campo os cadáveres são feitos ferver para se lhes extrair a gordura, que é empregada no fabrico de sabão.
Afora os campos polacos, temos razões para acreditar que vários campos na Alemanha dispõem de meios de extermínio. Dachau, entre outros, é usado como «centro médico experimental». Seres humanos são forçados a submeter-se a várias experiências, tais como enxertos dos ossos, transplantação de órgãos, testes sobre a resistência para além de todos os limites humanos em matéria de congelação, choques eléctricos, etc. Em todos os campos, quer sejam de trabalho, quer de extermínio, as indignidades, violências de toda a ordem, tortura e violação são moeda corrente, conforme se verificará nas folhas anexas.
Servindo-se dos seus meios habituais de extermínio, os Alemães são capazes de assassinar um mínimo de cem mil pessoas num só dia na Polónia. Não possuímos os números referentes às que são mortas no interior da Alemanha. Os campos polacos operam, correntemente, até ao limite da sua capacidade de extermínio. Estão a ser construídas novas câmaras de gás e crematórios a fim de a média geral ser aumentada.
Eis os campos polacos:
DISTRITO DE LUBLIM.
Belzec - Situado na via férrea Lublim-Tomaszow, perto de Rawa Ruska. É alimentado por judeus da área Lwow-Lemberg. Capacidade: dez mil por dia.
Sobibor - Perto de Wlodawa, entre Wlodawa e Chelm. Crê-se que a capacidade é de seis mil por dia.
Majdanek - Um dos primeiros campos de concentração nos subúrbios de Lublim, em Majdan-Tartarski, sob a direcção pessoal de Odilo Globocnik, GruppenFührer das SS na Polónia. A capacidade excede dez mil por dia.
POLÓNIA OCIDENTAL.
Chelmno - O centro de extermínio mais antigo (em actividade nos fins de 1941), a 15 quilómetros de Kolo, na via férrea entre Lodz e Poznan, destinado ao extermínio de judeus da Polónia Ocidental.
POLÓNIA CENTRAL.
Treblinka - O mais recentemente descoberto pela organização clandestina, situado na província Sokolow Podlaski, perto de Varsóvia. Liquidação de judeus do ghetto de Varsóvia, bem como de Radom, Bialystok, Grodno, do Báltico, de Czenstochowa, de Kielce.
POLÓNIA MERIDIONAL.
Auschwitz - Situado nas cercanias da aldeia silesiana de Oswiencim. O campo de concentração possui uns cinquenta campos de trabalho satélites. Os meios de extermínio encontram-se num complexo denominado Birkenau. A sua capacidade excede quarenta mil por dia. Ciganos, prisioneiros de guerra russos, presos políticos, de delito comum e outros são liquidados aqui, assim como judeus.
RELATÓRIO SUPLEMENTAR N.º 1
Por Jan, no campo de extermínio de Majdanek, em Lublim
Consegui entrar em Majdanek sob o disfarce de operário polaco, um entre as centenas de homens que se ocupam em trabalhos de construção nos recintos exteriores, contíguos ao campo.
Às 7 horas da manhã deixei Lublim com um grupo denominado «Leopold». A galera que nos transportava fez alto no terminal ferroviário, que fica afastado cerca de 1 quilómetro da entrada principal do campo. O terminal encontra-se ao lado da estrada principal. Sentámo-nos, à espera, enquanto alguns milhares de judeus romenos eram conduzidos pela estrada rumo ao portão do campo.
Uma fila de furgões da Cruz Vermelha aguardavam ao longo do edifício da gare. Guardas alemães enchiam esses furgões com pessoas idosas, inválidos, crianças de tenra idade e outros incapazes de percorrer 1 quilómetro a pé. Leopold disse-me que estes furgões da Cruz Vermelha eram, na realidade, selados e seria impossível a alguém evadir-se deles. Uma vez em movimento, o monóxido de carbono proveniente do escape era reencaminhado para os furgões, de modo que, mal chegavam a Majdanek, os seus ocupantes se encontravam já mortos.
(Nota. - Este método fora utilizado tanto em Chelmno como em Treblinka, mas puseram-no de parte em virtude de ser lento e dispendioso.)
Entrei no recinto exterior às 8 horas, por um portão no qual estava afixado o seguinte dístico: O TRABALHO LIBERTA. A minha brigada trabalhava num abarracamento no campo exterior, a 50 metros do campo interior, e que era usado por um contingete de guardas. Consegui instalar-me no telhado de uma construção de dois andares, num recanto resguardado, donde observava as proximidades graças a um binóculo de campanha que trouxera na caixa que continha o meu almoço.
Devo declarar que, segundo os meus cálculos, a superfície total do campo era de 600 ou 700 acres. A contar da sua extremidade mais próxima, distava somente cerca de quilómetro e meio de Lublim. O campo exterior continha os abarracamentos dos guardas, a casa do comandante, um depósito geral, uma garagem e outras edificações de serviço de carácter permanente.
O recinto interior compunha-se de quarenta e seis barracas de madeira do tipo usado pelos alemães para os seus estábulos militares. O ar e a luz penetravam por uma fieira estreita de clarabóias. Disseram-me que cada barraca continha cerca de quatrocentos prisioneiros. O que significa, evidentemente, que se encontram apertadíssimos, com espaço apenas para as tarimbas e dispondo de um estreito corredor de acesso à porta.
O recinto interior está cercado por um muro duplo de arame farpado com 5 metros de altura. Entre os dois muros os ucranianos fazem, com lobos-da-alsácia, patrulhas constantes. Disseram-me que, à noite, o muro da parte de dentro é electrificado.
Altas torres de vigia, providas de holofotes e metralhadoras, erguem-se de 25 em 25 metros ao longo do muro exterior.
Leopold chamou-me a atenção para a série de barracas que se encontravam mais próximas de nós. Disse-me que eram os depósitos. Os judeus romenos que eu vira antes no terminal ferroviário achavam-se já na primeira barraca, onde funcionava um centro de selecção. Somente alguns haviam sido conduzidos para o campo. Os restantes atravessaram um terreno plano e aberto em direcção a uma edificação em cuja fachada pude distinguir claramente a inscrição: CENTRO SANITÁRIO.
O «centro sanitário» é bem vistoso; à sua volta vêem-se relvados, árvores e flores.
Depois de terem sido reunidas quatrocentas pessoas, o desfile da multidão formada em bichas junto do depósito foi interrompido, e o grupo dos quatrocentos foi introduzido no «centro sanitário». Cerca de dez minutos depois ouvi uma série de gritos de horror que não duraram mais de dez ou quinze segundos. O «centro» foi depois invadido por prisioneiros judaicos (Sonnderkommandos), que, disseram-me, limpam a câmara e removem os pertences pessoais das vítimas para o segundo depósito, onde são examinados.
Dez minutos após a primeira gaseagem, os prisioneiros judeus trouxeram os cadáveres para fora. Pude vê-los distintamente. Tratava-se dos quatrocentos que tinham entrado vinte minutos antes. Em veículos parecidos com trenós, os cadáveres eram empilhados à razão de seis a oito por «trenó» e os veículos puxados pelos prisioneiros judeus. Os Sonnderkommandos saíam do campo interior por um portão que dava para uma estrada lateral de cerca de 1 quilómetro que subia uma pequena elevação. No cimo havia um vasto edifício com uma alta chaminé. Consegui ver tudo isto também graças ao meu binóculo de campanha.
Este processo de extermínio pelo gás demorava trinta minutos para quatrocentas pessoas. No primeiro dia da minha observação efectuaram-se doze gaseagens, em que foram liquidadas aproximadamente quatro mil e oitocentas pessoas. No segundo dia contei vinte, ou seja, oito mil pessoas, e no terceiro dezassete, em que pereceram seis mil e oitocentos seres humanos. Disseram-me que num período de vinte e quatro horas chegavam a registar para mais de quarenta gaseagens, e nunca menos de dez.
Leopold e outros trabalhadores tinham efectuado reparações na câmara de gás e no crematório. Ele contou-me que a câmara é um compartimento de tecto baixo de 4 metros por 12. Assemelha-se, em todos os pormenores, a um balneário, sendo porém, falsas as cabeças dos chuveiros. Um só SS pode controlar o volume de gás através de uma janela de observação provida de barras. Leopold e uma brigada de trabalhadores têm de entrar na câmara de tantas em tantas semanas a fim de refazerem a superfície de cimento, que é freneticamente rasgada pelas unhas das vítimas ao tentarem escapar.
Leopold colaborou também na construção do crematório, logo que foi abandonado o processo de incineração dos cadáveres nas valas ao ar livre, devido ao cheiro nauseabundo. Após a chegada dos trenós ao crematório, os cadáveres são colocados em cima de uma mesa, onde os guardas os examinam a fim de procederem à extracção dos dentes de ouro; em seguida abrem os corpos, que sangram para um tubo de drenagem, não tivessem as vítimas engolido ouro ou outros objectos de valor. Depois os cadáveres são transportados para um compartimento contíguo e colocados numa das cinco fornalhas aí existentes, cada uma das quais pode conter de cinco a sete corpos de cada vez. Aos braços e às pernas, quando são compridos de mais, cortam-nos. A cremação dura minutos. Os ossos são retirados das grelhas, pelo lado oposto. Com o meu binóculo pude distinguir montes de ossos da altura de uma casa de dois pisos. Leopold disse-me que, recentemente, ao proceder à reparação das fornalhas, verificou que fora instalada uma máquina trituradora de ossos. O pó resultante dos ossos era ensacado e expedido para a Alemanha, onde o utilizavam como fertilizante.
(Leon Uris, "Miła 18")
*
[...] Chris abateu a cabeça sobre a mesa e rompeu a chorar; as lágrimas e a saliva sufocavam-no. Pousou uma das mãos no relatório. Ergueu a cabeça. Recobrou o domínio de si próprio e debruçou-se sobre a primeira página.
RELATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES JUDAICAS ASSOCIADAS SOBRE OS CENTROS DE EXTERMÍNIO EM ACTIVIDADE NA ÁREA DO GOVERNO-GERAL DA POLÓNIA, EM JULHO DE 1942.
Podemos declarar com firmeza que existem na área do Governo-Geral quatro centros criados com o único propósito de proceder a exterminações colectivas. Além destes, existem mais dois campos que servem simultaneamente para concentração e extermínio. Foram criados quinhentos campos de trabalho escravo na Polónia, dos quais cento e quarenta são destinados aos Judeus. Todos eles contêm diversos meios de assassínio.
A única conclusão a tirar é que o plano geral alemão em curso visa a destruição absoluta do povo judaico. No princípio, inanição colectiva, epidemias e execuções dizimaram dezenas de milhares de pessoas nos diferentes ghettos. Após a invasão da Rússia, Kommandos pertencentes a quatro grupos de acção especial chacinaram várias centenas de milhares de judeus. O ponto culminante do plano é agora o assassínio em massa. Deve concluir-se que tal plano não pode provir senão de Hitler, com a colaboração de Himmler e de Heydrich. A sua execução é efectuada pelo chamado Departamento 4-B da Gestapo (assuntos judaicos), sob a direcção do tenente-coronel Adolfo Eichmann.
Os centros de extermínio estão situados em terminais dos caminhos de ferro e geralmente em áreas isoladas. Os seus guardas pertencem às Waffen SS e com eles cooperam auxiliares ucranianos e baltas. Para realizar esta operação é utilizada uma quantidade enorme de planos, materiais e mão-de-obra, numa altura em que a Alemanha está a conduzir uma guerra em várias frentes. Por exemplo: os vagões de caminho de ferro devem ser usados de preferência no transporte de material de guerra para a frente russa; contudo, a deportação de judeus dos países ocupados para a Polónia parece ter prioridade sobre as necessidades do exército. Além disso, milhares de engenheiros, de cientistas, de técnicos, estão ligados a esta operação, bem como mão-de-obra, de que existe uma necessidade desesperada. Podemos calcular com precisão que o concurso de duas a três centenas de milhares de homens está directa ou indirectamente envolvido neste plano. Todo este esforço testemunha a vontade demencial dos nazis, assim como a gravidade da nossa situação.
Todos estes campos funcionam segundo um padrão básico. É observado o embuste e mantido o segredo. Isto certamente indica que os nazis têm consciência do mal que praticam. Em cada campo, os deportados são encaminhados, logo que chegam, para os centros de selecção. Uns poucos são enviados para trabalho escravo. Os restantes, incluindo mulheres e crianças de tenra idade, são conduzidos para um «centro sanitário», com a ilusão de que aí vão tomar um duche de desinfecção. Rapam-lhes o cabelo. Os guardas representam até ao fim o seu papel nesta tragicomédia; entregam um pedaço de sabão (que depois se averigua ser uma pedra) a cada vítima, indo ao extremo de lhes dizerem que tomem bem conta do número do cabide em que têm o vestuário dependurado. Muitas mulheres tentam esconder as crianças nas roupas ou mesmo lançá-las dos comboios, para os camponeses, mas são quase sempre descobertas.
Quando os ocupantes se encontram já no interior do «centro sanitário», é fechada uma porta de ferro e um guarda abre as torneiras do gás. Os primeiros gaseamentos eram feitos com monóxido de carbono que se escapava dos motores. Porém, este método revelou-se lento e dispendioso, devido à gasolina utilizada. Assim, a Companhia de Insecticidas de Hamburgo preparou uma mistura de ácido prússico denominada Cyclon B. A morte não demora mais do que alguns minutos.
Os trabalhadores escravos judeus limpam as câmaras e removem os cadáveres para os crematórios, onde são queimados. A princípio a cremação efectuava-se em valas ao ar livre, mas o fedor era insuportável. Os trabalhadores judaicos perdem, geralmente, a razão volvidas poucas semanas.
Existem muitas variantes, mas este é o padrão geral. Os dentes de ouro são arrancados dos cadáveres antes de os queimarem. Qualquer objecto de valor que porventura se encontre é destinado ao esforço de guerra alemão. Tudo o mais - vestuário, óculos, sapatos, membros artificiais, mesmo bonecas - é depositado em armazéns e depois examinado, a fim de verificar se há objectos escondidos. Os cabelos são empacotados e expedidos para a Alemanha, a fim de serem utilizados na confecção de colchões e na manufactura de periscópios de submarinos. Num campo os cadáveres são feitos ferver para se lhes extrair a gordura, que é empregada no fabrico de sabão.
Afora os campos polacos, temos razões para acreditar que vários campos na Alemanha dispõem de meios de extermínio. Dachau, entre outros, é usado como «centro médico experimental». Seres humanos são forçados a submeter-se a várias experiências, tais como enxertos dos ossos, transplantação de órgãos, testes sobre a resistência para além de todos os limites humanos em matéria de congelação, choques eléctricos, etc. Em todos os campos, quer sejam de trabalho, quer de extermínio, as indignidades, violências de toda a ordem, tortura e violação são moeda corrente, conforme se verificará nas folhas anexas.
Servindo-se dos seus meios habituais de extermínio, os Alemães são capazes de assassinar um mínimo de cem mil pessoas num só dia na Polónia. Não possuímos os números referentes às que são mortas no interior da Alemanha. Os campos polacos operam, correntemente, até ao limite da sua capacidade de extermínio. Estão a ser construídas novas câmaras de gás e crematórios a fim de a média geral ser aumentada.
Eis os campos polacos:
DISTRITO DE LUBLIM.
Belzec - Situado na via férrea Lublim-Tomaszow, perto de Rawa Ruska. É alimentado por judeus da área Lwow-Lemberg. Capacidade: dez mil por dia.
Sobibor - Perto de Wlodawa, entre Wlodawa e Chelm. Crê-se que a capacidade é de seis mil por dia.
Majdanek - Um dos primeiros campos de concentração nos subúrbios de Lublim, em Majdan-Tartarski, sob a direcção pessoal de Odilo Globocnik, GruppenFührer das SS na Polónia. A capacidade excede dez mil por dia.
POLÓNIA OCIDENTAL.
Chelmno - O centro de extermínio mais antigo (em actividade nos fins de 1941), a 15 quilómetros de Kolo, na via férrea entre Lodz e Poznan, destinado ao extermínio de judeus da Polónia Ocidental.
POLÓNIA CENTRAL.
Treblinka - O mais recentemente descoberto pela organização clandestina, situado na província Sokolow Podlaski, perto de Varsóvia. Liquidação de judeus do ghetto de Varsóvia, bem como de Radom, Bialystok, Grodno, do Báltico, de Czenstochowa, de Kielce.
POLÓNIA MERIDIONAL.
Auschwitz - Situado nas cercanias da aldeia silesiana de Oswiencim. O campo de concentração possui uns cinquenta campos de trabalho satélites. Os meios de extermínio encontram-se num complexo denominado Birkenau. A sua capacidade excede quarenta mil por dia. Ciganos, prisioneiros de guerra russos, presos políticos, de delito comum e outros são liquidados aqui, assim como judeus.
RELATÓRIO SUPLEMENTAR N.º 1
Por Jan, no campo de extermínio de Majdanek, em Lublim
Consegui entrar em Majdanek sob o disfarce de operário polaco, um entre as centenas de homens que se ocupam em trabalhos de construção nos recintos exteriores, contíguos ao campo.
Às 7 horas da manhã deixei Lublim com um grupo denominado «Leopold». A galera que nos transportava fez alto no terminal ferroviário, que fica afastado cerca de 1 quilómetro da entrada principal do campo. O terminal encontra-se ao lado da estrada principal. Sentámo-nos, à espera, enquanto alguns milhares de judeus romenos eram conduzidos pela estrada rumo ao portão do campo.
Uma fila de furgões da Cruz Vermelha aguardavam ao longo do edifício da gare. Guardas alemães enchiam esses furgões com pessoas idosas, inválidos, crianças de tenra idade e outros incapazes de percorrer 1 quilómetro a pé. Leopold disse-me que estes furgões da Cruz Vermelha eram, na realidade, selados e seria impossível a alguém evadir-se deles. Uma vez em movimento, o monóxido de carbono proveniente do escape era reencaminhado para os furgões, de modo que, mal chegavam a Majdanek, os seus ocupantes se encontravam já mortos.
(Nota. - Este método fora utilizado tanto em Chelmno como em Treblinka, mas puseram-no de parte em virtude de ser lento e dispendioso.)
Entrei no recinto exterior às 8 horas, por um portão no qual estava afixado o seguinte dístico: O TRABALHO LIBERTA. A minha brigada trabalhava num abarracamento no campo exterior, a 50 metros do campo interior, e que era usado por um contingete de guardas. Consegui instalar-me no telhado de uma construção de dois andares, num recanto resguardado, donde observava as proximidades graças a um binóculo de campanha que trouxera na caixa que continha o meu almoço.
Devo declarar que, segundo os meus cálculos, a superfície total do campo era de 600 ou 700 acres. A contar da sua extremidade mais próxima, distava somente cerca de quilómetro e meio de Lublim. O campo exterior continha os abarracamentos dos guardas, a casa do comandante, um depósito geral, uma garagem e outras edificações de serviço de carácter permanente.
O recinto interior compunha-se de quarenta e seis barracas de madeira do tipo usado pelos alemães para os seus estábulos militares. O ar e a luz penetravam por uma fieira estreita de clarabóias. Disseram-me que cada barraca continha cerca de quatrocentos prisioneiros. O que significa, evidentemente, que se encontram apertadíssimos, com espaço apenas para as tarimbas e dispondo de um estreito corredor de acesso à porta.
O recinto interior está cercado por um muro duplo de arame farpado com 5 metros de altura. Entre os dois muros os ucranianos fazem, com lobos-da-alsácia, patrulhas constantes. Disseram-me que, à noite, o muro da parte de dentro é electrificado.
Altas torres de vigia, providas de holofotes e metralhadoras, erguem-se de 25 em 25 metros ao longo do muro exterior.
Leopold chamou-me a atenção para a série de barracas que se encontravam mais próximas de nós. Disse-me que eram os depósitos. Os judeus romenos que eu vira antes no terminal ferroviário achavam-se já na primeira barraca, onde funcionava um centro de selecção. Somente alguns haviam sido conduzidos para o campo. Os restantes atravessaram um terreno plano e aberto em direcção a uma edificação em cuja fachada pude distinguir claramente a inscrição: CENTRO SANITÁRIO.
O «centro sanitário» é bem vistoso; à sua volta vêem-se relvados, árvores e flores.
Depois de terem sido reunidas quatrocentas pessoas, o desfile da multidão formada em bichas junto do depósito foi interrompido, e o grupo dos quatrocentos foi introduzido no «centro sanitário». Cerca de dez minutos depois ouvi uma série de gritos de horror que não duraram mais de dez ou quinze segundos. O «centro» foi depois invadido por prisioneiros judaicos (Sonnderkommandos), que, disseram-me, limpam a câmara e removem os pertences pessoais das vítimas para o segundo depósito, onde são examinados.
Dez minutos após a primeira gaseagem, os prisioneiros judeus trouxeram os cadáveres para fora. Pude vê-los distintamente. Tratava-se dos quatrocentos que tinham entrado vinte minutos antes. Em veículos parecidos com trenós, os cadáveres eram empilhados à razão de seis a oito por «trenó» e os veículos puxados pelos prisioneiros judeus. Os Sonnderkommandos saíam do campo interior por um portão que dava para uma estrada lateral de cerca de 1 quilómetro que subia uma pequena elevação. No cimo havia um vasto edifício com uma alta chaminé. Consegui ver tudo isto também graças ao meu binóculo de campanha.
Este processo de extermínio pelo gás demorava trinta minutos para quatrocentas pessoas. No primeiro dia da minha observação efectuaram-se doze gaseagens, em que foram liquidadas aproximadamente quatro mil e oitocentas pessoas. No segundo dia contei vinte, ou seja, oito mil pessoas, e no terceiro dezassete, em que pereceram seis mil e oitocentos seres humanos. Disseram-me que num período de vinte e quatro horas chegavam a registar para mais de quarenta gaseagens, e nunca menos de dez.
Leopold e outros trabalhadores tinham efectuado reparações na câmara de gás e no crematório. Ele contou-me que a câmara é um compartimento de tecto baixo de 4 metros por 12. Assemelha-se, em todos os pormenores, a um balneário, sendo porém, falsas as cabeças dos chuveiros. Um só SS pode controlar o volume de gás através de uma janela de observação provida de barras. Leopold e uma brigada de trabalhadores têm de entrar na câmara de tantas em tantas semanas a fim de refazerem a superfície de cimento, que é freneticamente rasgada pelas unhas das vítimas ao tentarem escapar.
Leopold colaborou também na construção do crematório, logo que foi abandonado o processo de incineração dos cadáveres nas valas ao ar livre, devido ao cheiro nauseabundo. Após a chegada dos trenós ao crematório, os cadáveres são colocados em cima de uma mesa, onde os guardas os examinam a fim de procederem à extracção dos dentes de ouro; em seguida abrem os corpos, que sangram para um tubo de drenagem, não tivessem as vítimas engolido ouro ou outros objectos de valor. Depois os cadáveres são transportados para um compartimento contíguo e colocados numa das cinco fornalhas aí existentes, cada uma das quais pode conter de cinco a sete corpos de cada vez. Aos braços e às pernas, quando são compridos de mais, cortam-nos. A cremação dura minutos. Os ossos são retirados das grelhas, pelo lado oposto. Com o meu binóculo pude distinguir montes de ossos da altura de uma casa de dois pisos. Leopold disse-me que, recentemente, ao proceder à reparação das fornalhas, verificou que fora instalada uma máquina trituradora de ossos. O pó resultante dos ossos era ensacado e expedido para a Alemanha, onde o utilizavam como fertilizante.
(Leon Uris, "Miła 18")
Subscrever:
Mensagens (Atom)




