quinta-feira, agosto 23, 2007
propriedade privada
Um dos textos mais interessantes que li sobre o direito à propriedade privada foi escrito por Rousseau, no "Emílio". (E se alguma alma bondosa passasse por aqui e gentilmente me arranjasse uma transcrição? Parece-me que transcrever autores cuja influência dura séculos pode ser um exercício edificante...) Ele baseia esse direito no trabalho agrícola, embora se possa pensar que, antes do Neolítico, as pedras lascadas e pontas de lança (e frutos e raízes armazenados nas cavernas) já tenham tido donos. (continua)
terça-feira, agosto 21, 2007
leituras vermelhas de verão
Maria do Bote, que não pregara olho desde que o marido se levantara, receosa de chegar tarde aos teares fechou a porta aos filhos tamaninhos e saiu com Deolinda. «Se tivesse o despertador...» Voltou à ideia grata, a mesma de sempre, quando o marido saía com estrelas, ou o corpo moído lhe pedia repouso. «Mas desta vez não ficaria na rua, a rondar a montra do Costa Ourives...»
Engolido na taberna o trago de aguardente, os descarregadores vieram-se chegando para o cais. Traziam ainda os olhos saudosos da cama; das bocas, silenciosas, saíam-lhes baforadas de álcool; e as sacas do trabalho pendiam-lhes das mãos. Pareciam cansados. Mas, quando a sereia fez a última chamada, distenderam logo os músculos, agigantaram-se. Ai de quem não tivesse passo ligeiro sob a saca de cem quilos! Que o vaivém não parava - não podia parar - do celeiro para os barcos, dos barcos para o celeiro.
O Boa Sorte foi dos primeiros que meteu carga. Os homens de terra e mar iam fazendo prodígios de equilíbrio sobre a prancha e aliviavam as costas na amurada.
- Olá, Gineto...
Saudavam o filho do Manuel do Bote, que no fundo do barco se esfalfava na arrumação do trigo.
- Já não há uvas?...
Os homens de terra e mar chalaceavam e riam; ainda tinham risos e chalaças. Só o novo camarada do Boa Sorte perdera tudo, até as forças. Ele, que era um homem valente como os cow-boys, não mexia uma saca tombada. Arquejante e suado, mordia os beiços, mas não chorava.
- Aí, seu teso! - comentava o pai do Malesso.
- Custa mais qu'assubir às árvores, não?...
As falas dos homens é que o retinham ali, mais do que as vistas do pai. Duas vezes esboçara a fuga - e desistira. Fincava-se no orgulho de homem perante homens. E mordia os beiços. E a caverna do bote não tinha fundo...
- É com'a pança do patrão - comentou alguém.
Agora, as chalaças rareavam, e as forças também. Dos peitos oprimidos, já os bafos não tresandavam a álcool, porque o suor escorria do cais.
- Vamos co'isso! É andar...
Mas os homens de terra e mar eram homens como os mais.
- Leva tempo, o malvado...
E, como aquele, muitos outros esperavam, hiantes, a carga preciosa.
Soeiro Pereira Gomes, "Esteiros"
*
Não será a grande Literatura, este neo-realismo português; não temos um Steinbeck, mas, ainda assim, nas tiradas a puxar ao sentimento, não se pode dizer que é só ficção. Quase todos os analfabetos portugueses são gente a quem foi roubada a infância.
Engolido na taberna o trago de aguardente, os descarregadores vieram-se chegando para o cais. Traziam ainda os olhos saudosos da cama; das bocas, silenciosas, saíam-lhes baforadas de álcool; e as sacas do trabalho pendiam-lhes das mãos. Pareciam cansados. Mas, quando a sereia fez a última chamada, distenderam logo os músculos, agigantaram-se. Ai de quem não tivesse passo ligeiro sob a saca de cem quilos! Que o vaivém não parava - não podia parar - do celeiro para os barcos, dos barcos para o celeiro.
O Boa Sorte foi dos primeiros que meteu carga. Os homens de terra e mar iam fazendo prodígios de equilíbrio sobre a prancha e aliviavam as costas na amurada.
- Olá, Gineto...
Saudavam o filho do Manuel do Bote, que no fundo do barco se esfalfava na arrumação do trigo.
- Já não há uvas?...
Os homens de terra e mar chalaceavam e riam; ainda tinham risos e chalaças. Só o novo camarada do Boa Sorte perdera tudo, até as forças. Ele, que era um homem valente como os cow-boys, não mexia uma saca tombada. Arquejante e suado, mordia os beiços, mas não chorava.
- Aí, seu teso! - comentava o pai do Malesso.
- Custa mais qu'assubir às árvores, não?...
As falas dos homens é que o retinham ali, mais do que as vistas do pai. Duas vezes esboçara a fuga - e desistira. Fincava-se no orgulho de homem perante homens. E mordia os beiços. E a caverna do bote não tinha fundo...
- É com'a pança do patrão - comentou alguém.
Agora, as chalaças rareavam, e as forças também. Dos peitos oprimidos, já os bafos não tresandavam a álcool, porque o suor escorria do cais.
- Vamos co'isso! É andar...
Mas os homens de terra e mar eram homens como os mais.
- Leva tempo, o malvado...
E, como aquele, muitos outros esperavam, hiantes, a carga preciosa.
Soeiro Pereira Gomes, "Esteiros"
*
Não será a grande Literatura, este neo-realismo português; não temos um Steinbeck, mas, ainda assim, nas tiradas a puxar ao sentimento, não se pode dizer que é só ficção. Quase todos os analfabetos portugueses são gente a quem foi roubada a infância.
sábado, agosto 04, 2007
Song of the Open Road
14
The Soul travels;
The body does not travel as much as the soul;
The body has just as great a work as the soul, and parts away at last for the journeys of the soul.
All parts away for the progress of souls;
All religion, all solid things, arts, governments,—all that was or is apparent upon this globe or any globe, falls into niches and corners before the procession of Souls along the grand roads of the universe.
Of the progress of the souls of men and women along the grand roads of the universe, all other progress is the needed emblem and sustenance.
Forever alive, forever forward,
Stately, solemn, sad, withdrawn, baffled, mad, turbulent, feeble, dissatisfied,
Desperate, proud, fond, sick, accepted by men, rejected by men,
They go! they go! I know that they go, but I know not where they go;
But I know that they go toward the best—toward something great.
(Walt Whitman)
The Soul travels;
The body does not travel as much as the soul;
The body has just as great a work as the soul, and parts away at last for the journeys of the soul.
All parts away for the progress of souls;
All religion, all solid things, arts, governments,—all that was or is apparent upon this globe or any globe, falls into niches and corners before the procession of Souls along the grand roads of the universe.
Of the progress of the souls of men and women along the grand roads of the universe, all other progress is the needed emblem and sustenance.
Forever alive, forever forward,
Stately, solemn, sad, withdrawn, baffled, mad, turbulent, feeble, dissatisfied,
Desperate, proud, fond, sick, accepted by men, rejected by men,
They go! they go! I know that they go, but I know not where they go;
But I know that they go toward the best—toward something great.
(Walt Whitman)
sábado, julho 07, 2007
Song of the Open Road
13
Allons! to that which is endless, as it was beginningless,
To undergo much, tramps of days, rests of nights,
To merge all in the travel they tend to, and the days and nights they tend to,
Again to merge them in the start of superior journeys;
To see nothing anywhere but what you may reach it and pass it,
To conceive no time, however distant, but what you may reach it and pass it,
To look up or down no road but it stretches and waits for you—however long, but it stretches and waits for you;
To see no being, not God’s or any, but you also go thither,
To see no possession but you may possess it—enjoying all without labor or purchase—abstracting the feast, yet not abstracting one particle of it;
To take the best of the farmer’s farm and the rich man’s elegant villa, and the chaste blessings of the well-married couple, and the fruits of orchards and flowers of gardens,
To take to your use out of the compact cities as you pass through,
To carry buildings and streets with you afterward wherever you go,
To gather the minds of men out of their brains as you encounter them—to gather the love out of their hearts,
To take your lovers on the road with you, for all that you leave them behind you,
To know the universe itself as a road—as many roads—as roads for traveling souls.
(Walt Whitman)
Allons! to that which is endless, as it was beginningless,
To undergo much, tramps of days, rests of nights,
To merge all in the travel they tend to, and the days and nights they tend to,
Again to merge them in the start of superior journeys;
To see nothing anywhere but what you may reach it and pass it,
To conceive no time, however distant, but what you may reach it and pass it,
To look up or down no road but it stretches and waits for you—however long, but it stretches and waits for you;
To see no being, not God’s or any, but you also go thither,
To see no possession but you may possess it—enjoying all without labor or purchase—abstracting the feast, yet not abstracting one particle of it;
To take the best of the farmer’s farm and the rich man’s elegant villa, and the chaste blessings of the well-married couple, and the fruits of orchards and flowers of gardens,
To take to your use out of the compact cities as you pass through,
To carry buildings and streets with you afterward wherever you go,
To gather the minds of men out of their brains as you encounter them—to gather the love out of their hearts,
To take your lovers on the road with you, for all that you leave them behind you,
To know the universe itself as a road—as many roads—as roads for traveling souls.
(Walt Whitman)
domingo, julho 01, 2007
Song of the Open Road
12
Allons! after the GREAT COMPANIONS! and to belong to them!
They too are on the road! they are the swift and majestic men; they are the greatest women.
Over that which hinder’d them—over that which retarded—passing impediments large or small,
Committers of crimes, committers of many beautiful virtues,
Enjoyers of calms of seas, and storms of seas,
Sailors of many a ship, walkers of many a mile of land,
Habitués of many distant countries, habitués of far-distant dwellings,
Trusters of men and women, observers of cities, solitary toilers,
Pausers and contemplators of tufts, blossoms, shells of the shore,
Dancers at wedding-dances, kissers of brides, tender helpers of children, bearers of children,
Soldiers of revolts, standers by gaping graves, lowerers down of coffins,
Journeyers over consecutive seasons, over the years—the curious years, each emerging from that which preceded it,
Journeyers as with companions, namely, their own diverse phases,
Forth-steppers from the latent unrealized baby-days,
Journeyers gayly with their own youth—Journeyers with their bearded and well-grain’d manhood,
Journeyers with their womanhood, ample, unsurpass’d, content,
Journeyers with their own sublime old age of manhood or womanhood,
Old age, calm, expanded, broad with the haughty breadth of the universe,
Old age, flowing free with the delicious near-by freedom of death.
(Walt Whitman)
Allons! after the GREAT COMPANIONS! and to belong to them!
They too are on the road! they are the swift and majestic men; they are the greatest women.
Over that which hinder’d them—over that which retarded—passing impediments large or small,
Committers of crimes, committers of many beautiful virtues,
Enjoyers of calms of seas, and storms of seas,
Sailors of many a ship, walkers of many a mile of land,
Habitués of many distant countries, habitués of far-distant dwellings,
Trusters of men and women, observers of cities, solitary toilers,
Pausers and contemplators of tufts, blossoms, shells of the shore,
Dancers at wedding-dances, kissers of brides, tender helpers of children, bearers of children,
Soldiers of revolts, standers by gaping graves, lowerers down of coffins,
Journeyers over consecutive seasons, over the years—the curious years, each emerging from that which preceded it,
Journeyers as with companions, namely, their own diverse phases,
Forth-steppers from the latent unrealized baby-days,
Journeyers gayly with their own youth—Journeyers with their bearded and well-grain’d manhood,
Journeyers with their womanhood, ample, unsurpass’d, content,
Journeyers with their own sublime old age of manhood or womanhood,
Old age, calm, expanded, broad with the haughty breadth of the universe,
Old age, flowing free with the delicious near-by freedom of death.
(Walt Whitman)
"Confesso que vivi."
Quando nos apropriamos da frase de Neruda, quer dizer que estamos preparados para partir?
Desencanto
Numa democracia amadurecida, resta como causa nobre a defesa das minorias? A maioria está suficientemente defendida do populismo brando?
Assiste-se permanentemente ao ataque de direitos que foram conquistas de décadas. Agora, até o direito a estar doente e a ter filhos sem ser prejudicado por isso. A partir de um bom múltiplo do salário mínimo, isso deixa de fazer diferença, não é? E quem paga campanhas eleitorais agradece.
Quem tem acesso aos media parece não conhecer nem respeitar quem quer que seja que alguma vez tenha feito greve. Spoilt brats! Parece que Spartakus terá de nascer e morrer mil vezes. Entretanto, o circo continua.
Temos o que merecemos? Em democracia, todos têm o que merecem?
Assiste-se permanentemente ao ataque de direitos que foram conquistas de décadas. Agora, até o direito a estar doente e a ter filhos sem ser prejudicado por isso. A partir de um bom múltiplo do salário mínimo, isso deixa de fazer diferença, não é? E quem paga campanhas eleitorais agradece.
Quem tem acesso aos media parece não conhecer nem respeitar quem quer que seja que alguma vez tenha feito greve. Spoilt brats! Parece que Spartakus terá de nascer e morrer mil vezes. Entretanto, o circo continua.
Temos o que merecemos? Em democracia, todos têm o que merecem?
Anatomia de um post inexistente
Sintonia: pensa-se num tema, que talvez se desenvolva num post, e descobre-se que alguém escreveu sobre esse tema, num outro blog e melhor do que teríamos escrito. Interrogamo-nos sobre se terá sido notado, ou se vai perder-se como se perderia na efemeridade do papel de jornal ou como um livro entre milhares numa biblioteca.
Afinal, que será feito deste suporte chamado Blogger, daque a alguns anos? O que fazer com o excesso de informação? (E o que fazer com a suspeita de que o melhor que leríamos pode estar escrito em línguas não traduzidas?)
Afinal, que será feito deste suporte chamado Blogger, daque a alguns anos? O que fazer com o excesso de informação? (E o que fazer com a suspeita de que o melhor que leríamos pode estar escrito em línguas não traduzidas?)
sábado, junho 30, 2007
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Nm baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
.........................................
.........................................
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
(Mário de Sá Carneiro)
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Nm baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
.........................................
.........................................
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
(Mário de Sá Carneiro)
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