sábado, maio 19, 2007

Relógios de dentes de leão...


(daylysofts.com)

Clipping

Rachel

"A woman can´t suffer twice." Daphne du Maurier

A certa altura no My Cousin Rachel surge este aforismo de fino recorte. Philip é reduzido à sua insignificância pela voz de Rachel: "A woman can´t suffer twice." A questão não é que ela não o ame -- que não ama -- a questão é que ela, uma mulher mais velha, já passou por lá -- e lá não volta.

Se é verdade que à partida uma mulher está mais vulnerável a ser violentada pelo desamor (um mito cultural que não interessa aqui desconstruir) também é verdade que, fazendo das fraquezas defesas, não mais torna às profundezas -- uma mulher sofre logo tudo, diz-nos Rachel. No caso dela, já sofreu. Temos pois que Philip já não podia aspirar a fazer sofrer Rachel, uma mulher irremediavelmente endurecida. Ora, sadismo à parte, não há tampa mais requintada do que essa: "desculpa, mas acho que não me ias conseguir fazer sofrer o suficiente."

(Bruno Sena Martins, avatares de um desejo)

Agradecimento

Ao blog Cantares de Amigo pela referência simpática: obrigada!

domingo, maio 13, 2007

Flores para Walt Whitman

Whitman

Um blog pôs junto à ligação a este Abrigo uma imagem de Walt Whitman: gosto disso! Será esta uma boa altura para falar de Whitman, depois de um poema tão extraordinário que não precisa de quaisquer comentários?

As "Folhas de Erva" são, seguramente, um dos melhores livros que já encontrei.

Fixo a imagem do homem publicada numa das primeiras páginas da sua obra-prima. Nunca tinha visto tal coisa, mas se calhar sou eu que não conheço as modas dos livros antigos.

Na gravura e nas fotografias, reconhece-se em Whitman um homem bonito (serão claros ou cegos, os olhos de uma fotografia?). Mas é como se fosse uma montanha imponente, que guarda no seu interior os seus maiores tesouros, galerias incrustadas de cristais de todas as cores.

Tinha da obra dele a ideia dada por Pessoa dos poemas marítimos, dos sons dos barcos e dos marinheiros, escritos em registo épico, um pouco como Melville. Aliás, viveram os dois praticamente os mesmos anos. Mas Whitman é muito mais do que imaginava. Conseguiu captar a alma da "América", nas suas paisagens grandiosas, no seu projecto democrático, na sua humanidade fraternal. De facto, se a república já tinha sido experimentada na Grécia e na Roma antigas ou nas repúblicas italianas ou helvéticas, foi na América que a utopia democrática foi recriada e posta em prática. Whitman vai na carruagem do entusiasmo.

Mas o que mais me comove nos seus poemas é a constante declaração de amor, não tanto por um povo abstracto, mas por pessoas que conheceu, que tanto poderiam ser a mãe ou o pai, irmãos, amigos ou amantes. Como se ele tivesse sido o escolhido, com o seu imenso talento, para cristalizar uma época, e tivesse querido que aqueles que amou estivessem também no retrato. Justamente, como um cristal que adquire a sua cor devido às impurezas na sua estrutura cristalina.

sábado, maio 12, 2007

Song of the Open Road

5

From this hour, freedom!
From this hour I ordain myself loos’d of limits and imaginary lines,
Going where I list, my own master, total and absolute,
Listening to others, and considering well what they say,
Pausing, searching, receiving, contemplating,
Gently, but with undeniable will, divesting myself of the holds that would hold me.

I inhale great draughts of space;
The east and the west are mine, and the north and the south are mine.

I am larger, better than I thought;
I did not know I held so much goodness.

All seems beautiful to me;
I can repeat over to men and women, You have done such good to me, I would do the same to you.

I will recruit for myself and you as I go;
I will scatter myself among men and women as I go;
I will toss the new gladness and roughness among them;
Whoever denies me, it shall not trouble me;
Whoever accepts me, he or she shall be blessed, and shall bless me.


(Walt Whitman)

Cabelo castanho, ondulado, escadeado

Será um preconceito? Parece-me que os lenços das mulheres muçulmanas me interpelam.

Querendo fazer-me acreditar que poderiam andar de calças de ganga, mini-saia ou top com barriga à mostra sem nenhum problema, e que o lenço é o resultado de uma escolha livre, símbolo da identificação a uma tradição, desacredito. Que tradição é essa, afinal? Estética, ou apenas moral? Não estarão a dizer que todas as outras mulheres que não usam lenço são umas perdidas (to say the least)?

Haverá alguma dessas mulheres com verdadeira liberdade para escolher tirar o lenço? Se sim, por que não tirá-lo? Como é possível preferir ostentar a submissão em espaço público?

domingo, maio 06, 2007

Dancemos no mundo

Isto é como tudo
não há-de ser nada
a minha namorada
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas
separam-nos credos e
creio que medos e
creio que leis nos colam
à pele papéis

Tratados,
acordos são pântanos, lodos
Pisemos a pista é bom
que se insista dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado (que seja maldito)
amor favorito não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo o sol-posto
de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço
Pisemos a pista é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatas
pai-nossos e datas
e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua luz na minha rua
Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo


(Sérgio Godinho)

sábado, maio 05, 2007

Madame ou mademoiselle?

Eis a questão, para as feministas francesas. E eu até as compreendo (está tudo no artigo). Felizmente, em português, a "Menina" tornou-se arcaica e a "Senhorita" só se ouve a empregados brasileiros como sinal de deferência associado à idade - ou seja, tem graça e soa sempre bem. Mas, ainda assim, prefiro uma ouvida "Senhora", universal, dita em tom respeitoso com pronúncia eslava.