quarta-feira, abril 18, 2007

Song of the Open Road

2

You road I enter upon and look around! I believe you are not all that is here;
I believe that much unseen is also here.

Here the profound lesson of reception, neither preference or denial;
The black with his woolly head, the felon, the diseas’d, the illiterate person, are not denied;
The birth, the hasting after the physician, the beggar’s tramp, the drunkard’s stagger, the laughing party of mechanics,
The escaped youth, the rich person’s carriage, the fop, the eloping couple,
The early market-man, the hearse, the moving of furniture into the town, the return back from the town,
They pass—I also pass—anything passes—none can be interdicted;
None but are accepted—none but are dear to me.


(Walt Whitman)

domingo, abril 15, 2007

a verdade(zinha)

*

Sócrates - [...] [N]ão te parece que se torna necessário que o orador se encontre bem instruído e informado acerca do tema sobre que vai discorrer?

Fedro - A esse respeito, presta atenção ao que ouvi dizer: ouvi dizer que para quem deseja tornar-se um orador consumado, não se torna necessário um conhecimento perfeito do que é realmente justo, mas sim do que parece justo aos olhos da maioria, que é quem decide, em última instância. Tão-pouco precisa de saber realmente o que é bom ou belo, bastando-lhe saber o que parece sê-lo, pois a persuasão se consegue, não com a verdade, mas com o que aparenta ser verdade.

Sócrates - Eis uma opinião difícil de rejeitar... impossível mesmo de rejeitar, Fedro, quando tal opinião é a das pessoas importantes; mas a nós compete analisar o seu significado, e muito particularmente o que acabas de dizer-me merece toda a atenção!

Fedro - Perfeitamente.

Sócrates - Vejamos então como examinar esse tema...

Fedro - Como o examinaremos?

Sócrates - Supõe por momentos que tento persuadir-te a comprar um cavalo para ires combater os teus inimigos mas que, tanto tu como eu, ignoramos o que seja um cavalo e que, entretanto, eu chegava à conclusão de que, no entender de Fedro, o cavalo é o animal doméstico com as orelhas mais compridas....

Fedro - Mas isso seria rídiculo, Sócrates!

Sócrates - Um momento, por enquanto! Ou que eu tentava seriamente persuadir-te a que escrevesses um panegírico do burro, chamando-o de cavalo e declarando que é muito prático adquirir essa besta, tanto para fins domésticos como para a guerra, que é tão útil na refrega das batalhas como no transporte de carga, como em qualquer outra coisa...

Fedro - Isso seria ainda mais ridículo!

Sócrates - Mas diz-me, não é verdade que o ridículo de um amigo é preferível à irredutível prepotência de um inimigo?

Fedro - Sem dúvida!

Sócrates - Por isso, quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, se dirige aos seus concidadãos, que sofrem da mesma ignorância, para os tentar persuadir a tomarem a sombra de um burro por um cavalo, ou o mal pelo bem; quando, depois de ter ouvido as opiniões da maioria, a impele para o mau caminho, em casos como este, quais são, a teu ver, os frutos que a arte oratória pode colher daquilo que semeou?

Fedro - Um fruto que não pode ser nada bom.

(Platão, Fedro, trad. Pinharanda Gomes, Guimarães, 2000)

domingo, abril 08, 2007

Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro

I

Conheci o meu mestre Caeiro em circunstâncias excepcionais - como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão-de vir a ser tudo nos resultados.

Deixei em quase três-quartos o meu curso escocês de engenharia naval; parti numa viagem ao Oriente; no regresso, desembarcando em Marselha, e sentindo um grande tédio de seguir, vim por terra até Lisboa. Um primo meu levou-me um dia de passeio ao Ribatejo; conhecia um primo de Caeiro, e tinha com ele negócios; encontrei-me com o que havia de ser meu mestre em casa desse seu primo. Não há mais que contar, porque isto é pequeno, como toda a fecundação.

Vejo ainda, com a claridade da alma, que as lágrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa... Vejo-o diante de mim, e vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não tem medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo - nem alta nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava - como se falar fosse, para este homem, menos que existir - era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam - flores, campos largos, águas com sol -, um sorriso de existir, e não de nos falar.

Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra que sou em mim, na memória que conservo do que sou de morto...

Foi durante a nossa primeira conversa... Como foi, não sei, e ele disse: "Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si". E depois acrescentou, "tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe".

Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.


(Álvaro de Campos, in "Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro", Estampa, 1997)

sábado, abril 07, 2007

M de Memória

Estranhas cenas se nos apresentam às vezes, quando menos esperamos. Vejamos um exemplo. Várias mulheres, de diferentes gerações, que se encontram juntas por motivos profissionais, gozam um momento de descanço. São bonitas e inteligentes e, se não são bem pagas, pelo menos têm um trabalho interessante. Sem cunhas, são mulheres de sucesso, self made. Por uma cumplicidade anterior que me escapa, retomam um tema que já terão abordado. As que falam recordam as suas infâncias de pobreza, na mesa e nas brincadeiras, e também cenas de violência doméstica. ("Sem abrigo", "violência doméstica" - etiquetas tão cómodas para realidades cuja compreensão se escapa entre os dedos, quando as tentamos abarcar.)

Noutro momento, um rosto sorridente que envelheceu em beleza e sabedoria diz: "A menina não faz ideia, vocês agora não fazem ideia, do que era ser-se mulher, antigamente. Uma mulher casada era quase propriedade do marido, não podia divorciar-se, nem sequer ir ao estrangeiro sem o consentimento do marido. Nem sabe as histórias que conheci, (etc.)".
Uma possível lista de Grandes finalistas (não necessariamente a minha):

Jesus Cristo
Maria
Buda
Maomé
Moisés
Abraão
Lao Tsé
Confúcio

Nelson Mandela
Mahatma Gandhi
Karl Marx
Mao Zedong
Lénine

Sócrates
Platão
Aristóteles
Nietzsche

Voltaire

Leonardo da Vinci
Isaac Newton

Homero
Miguel Ângelo
Beethoven
Jorge Luis Borges

Alexandre Magno
Gengis Khan
Cristóvão Colombo
Fernão de Magalhães

Qual seria a claque mais ferrenha?

quarta-feira, abril 04, 2007

Sometimes with one I love

Sometimes with one I love, I fill myself with rage, for fear I effuse unreturn’d love;
But now I think there is no unreturn’d love—the pay is certain, one way or another;
(I loved a certain person ardently, and my love was not return’d;
Yet out of that, I have written these songs.)


(Walt Whitman)

sábado, março 31, 2007

A vida é bela!

(5 segundos)



Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Fonte: abrigodepastora.blogspot.com

Song of the Open Road

1

Afoot and light-hearted, I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me, leading wherever I choose.

Henceforth I ask not good-fortune—I myself am good fortune;
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Strong and content, I travel the open road.

The earth—that is sufficient;
I do not want the constellations any nearer;
I know they are very well where they are;
I know they suffice for those who belong to them.

(Still here I carry my old delicious burdens;
I carry them, men and women—I carry them with me wherever I go;
I swear it is impossible for me to get rid of them;
I am fill’d with them, and I will fill them in return.)


(Walt Whitman)

sábado, março 24, 2007


(Luís Cerqueira)

Viver para trabalhar

- Por que são a um tal ponto desdenhosos? - perguntou Chloé. - Trabalhar não é coisa assim tão boa...
- Disseram-lhes que é bom - respondeu Colin. - Em geral costuma achar-se que é bom. Mas a verdade é que ninguém pensa assim. Trabalha-se por hábito, justamente para não pensarmos nisso.
- De qualquer forma, é idiota fazer um trabalho que pode ser feito pelas máquinas.
- É preciso construir máquinas - disse Colin. - Quem o fará?
- Oh! Claro! - disse Chloé. - Para fazer um ovo é preciso uma galinha, e uma vez que haja galinha podemos ter uma porção de ovos. Portanto, mais vale começar pela galinha.
- Seria preciso saber o que impede a construção das máquinas - disse Colin. - É, com certeza, falta de tempo. As pessoas perdem tempo a viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar.
- Não será antes o contrário? - disse Chloé.
- Não - disse Colin. - Se tivessem tempo para construir máquinas, depois já não seria preciso fazer mais nada. O que eu quero dizer é que trabalham para viver, em vez de trabalharem para construir máquinas que iriam levá-los a viver sem trabalhar.
- É complicado - concluiu Chloé.
- Não - disse Colin. - É muito simples. A coisa deveria dar-se progressivamente, bem entendido. Mas perde-se tanto tempo a fazer coisas que se gastam...
- Não acreditas que gostassem mais de ficar em casa a dar beijos à mulher, de ir à piscina e a divertimentos?
- Não - disse Colin -, porque não pensam nisso.
- Mas será culpa deles, se pensam que trabalhar é bom?
- Não - disse Colin -, a culpa não é deles. Foi porque lhes disseram: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que acima de tudo conta, e só os que trabalham têm direito a tudo». Mas sucede que as coisas estão feitas para serem obrigados a trabalhar durante o tempo todo, e dessa forma não podem aproveitar o facto de terem trabalho.
- Serão afinal estúpidos? - disse Chloé.
- Sim, são estúpidos - disse Colin. - Por isso estão de acordo com quem lhes faz acreditar que o trabalho é o que há de melhor. Isto evita que reflictam e tentem progredir até não trabalhar.
- Falemos de outra coisa - disse Chloé. - São assuntos cansativos. Diz-me se gostas do meu cabelo...
- Já disse...
Sentou-a nos joelhos. Voltava a sentir-se completamente feliz.
- Já disse que gosto muito de ti, a grosso e a retalho.
- Vá lá então a retalho - disse Chloé -, abandonando-se nos braços de Colin, meiga como uma serpente.


(in "A Espuma dos Dias", Boris Vian, Frenesi, tradução de Aníbal Fernandes)