quarta-feira, janeiro 03, 2007


(Vilhelm Hammershøi)

Tempos difíceis para a fidelidade?

Dois comentários aqui deixados recentemente chamaram a atenção. O primeiro, o testemunho sofrido de uma traição por parte de um namorado. O segundo, a afirmação de que a fidelidade é um fenómeno cultural. Deixaram-me a pensar.

É verdade que os padrões de comportamento e as representações sociais associadas a este assunto variam muito de cultura para cultura. No entanto, basta comparar os comportamentos de diferentes espécies para perceber que a infidelidade tem uma base biológica. As diferenças entre sexos, em todas as culturas, reforçam essa ideia. A associação aos diferentes papéis dos gâmetas justifica-a: uns pequenos, móveis e numerosos, outros grandes, pouco móveis e mais escassos. E a gravidez. A assimetria é tão grande que, há tempos, uma notícia dava conta de um estudo segundo o qual um qualquer tipo de macaco tinha vantagem genética em ser o mais promíscuo possível, porque as vantagens da maior descendência se sobrepunham aos riscos. Ao melhor da pessoaestilo pipiano do fucking around...

As coisas agora são diferentes, dirão alguns. Os memes contam mais do que os genes. Mas a natureza continua a ser muito forte, e sê-lo-á durante muito tempo. E se assim não for, é a extinção da espécie.

Vivemos em tempos em que já não se discute se os compromissos precisam ou não de papéis. A resposta é, em definitivo, não: esses "papéis" são exorbitantemente caros, pelo que, hoje, o casamento funciona mais como manifestação exterior de riqueza. Num blog vizinho, falava-se há dias da tendência um pouco redutora de os casais e, em particular, as mulheres, quererem coabitar na mesma casa. Ora, havendo condições económicas para optar, seguramente que a evolução será num outro sentido.

Entretanto, mais liberta, também há mais gente de cabeça desempoeirada. Uma figura pública com idade para ser uma respeitável avó testemunhou na televisão que tem uma relação aberta com o companheiro, e este é um modelo cada vez mais aceite entre os mais jovens. Alguns casais, querendo trocar as voltas à natureza, apostam no swinging. Mas mesmo na maior liberalidade, o conceito de infidelidade permanece.

As convenções sociais, quaisquer que elas sejam, desempenham um papel importante na estabilização de uma sociedade, para as circunstâncias particulares em que vive. Por exemplo, mesmo os haréns hão-de ter uma razão de ser. Mas nas sociedades ditas ocidentais a emancipação da mulher não permite que a poligamia seja aceite.

Conhecem aquele ditado "filho de minha filha, meu neto é; filho de meu filho, será ou não"? Com os testes de ADN, os homens ficam com menos uma razão para investir numa relação monogâmica, porque passam a ter um meio tecnológico de verificação da paternidade.

O "lar doce lar", com pai e mãe, para a educação de uma criança também já não é modelo único e obrigatório. Casamentos disfuncionais são cada vez menos tolerados e sê-lo-ã tanto menos quanto mais favorável for a condição financeira.

A infidelidade magoa, quer seja pela traição, quer pelo relativizar de uma relação, quer por se ser preterido. Mas parece que a fidelidade ("conjugal", no sentido mais lato) é um valor em crise.

O apogeu do romantismo já nem sequer é do século passado.

O que resta, então?

Caracolinhos de lã

Grão a grão - semente a semente - 2876 comentários. Todos lidos. Muito obrigada a todos pelo vosso interesse por este rebanho!

Registo / perplexidades

1. Quem parece não pestanejar com uma execução por enforcamento no século XXI... indigna-se com insultos e com a divulgação na internet da execução.

2. Directores de hospital, médicos, demitem-se por o controlo da assiduidade passar a ser feito por identificação da impressão digital.

3. Jogadores de futebol não querem pagar impostos sobre a totalidade dos seus rendimentos.

Que vergonha!

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Concerto de Ano Novo

(ou razões para gostar de Portugal na Primavera - e também nas outras estações do ano - entre tantas outras boas razões)


(Luís Cerqueira)

Bom ano de 2007!

domingo, dezembro 31, 2006


(Vilhelm Hammershøi)

A pena de morte de Saddam Hussein

Que a populaça maioritária defenda a pena de morte parece um dado inquestionável. Será? A informação e a reflexão não poderiam fazer alguma diferença?

O caso de Saddam é apenas o caso extremo. Um caso em que não poderia questionar-se a desproporcionadade da pena depois de aceitar o princípio do olho por olho e dente por dente - e ele é muito aceite pela populaça.

Irrecuperável, dizem alguns. Assim seria Saddam. Mas por que não também o marido traído que mata a mulher? Por que não também o miúdo que rouba laranjas numa horta alheia? Onde está a misericórdia que devia estar presente na nossa matriz cristã? Onde está a esperança? A esperança na salvação ou, então, a esperança no Homem?

Matou "por prazer"? Mas isso não significa que se trata de um caso psiquiátrico? Matam-se os loucos, por serem loucos? Se não era louco, então haveria que condenar todos os seus cúmplices, os partidários do Baas. E talvez alguns mais.

A pena de morte previne novos crimes? Muito questionável. Dá resposta à sede de vingança das vítimas? As leis devem ser racionais.

Os estados devem ser soberanos no seu direito a matar? Por que raios?! Porque alguns o são? Porque alguns até matam crianças? Porque alguns, ditos civilizados, estão, de facto, em retrocesso civilizacional, tendo reintroduzido a pena de morte depois de a já terem banido?

Pergunto-me por que é que tropas em representação do meu país, que teria uma tradição abolicionista da pena de morte a defender, estão a colaborar no estabelecimento de um regime onde existe a pena de morte. Os políticos europeus deveriam ser mais consequentes nas suas tomadas de posição.

Amálgama do dia

1. O percurso até à rejeição da pena de morte em todas as circunstâncias é um percurso longo. O que impressiona são os que não têm sequer a disponibilidade mental para percorrê-lo.

2. O abandono a que educação familiar das crianças está sujeito, em cidades em tempos de stress, nota-se em pequenas coisas. Por exemplo, quando uma criança faz uma pergunta sem nenhum sentido, o adulto responde como se fosse uma pergunta normal, ou nem sequer diz nada. Não é que não possa haver espaço para algum non sense, que estimule a imaginação, mas seria muito natural que uma pergunta sem nexo fosse motivo para algum humor ou, então, para uma explicação pedagógica. (Quem não gosta das boas perguntas das crianças?) Mas só reparamos que há algo errado quando as palmadas demasiado toleradas já fizeram a escalada até aos maus tratos fatais.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

terça-feira, dezembro 26, 2006

Porquê?

Depois de uns bonecos feios e sanguinários que passavam na televisão há alguns anos, é um alívio para os pais terem o Noddy: o boneco é o mais inofensivo que se poderia imaginar. Pena é só servir para crianças até aos dois anos...

E depois, o que é que conta? Porque é que gostamos mais de uns bonecos do que de outros, quando ainda não sabemos nada de nada?

De acordo com a Wikipedia, a imagem de marca de Bugs Bunny é a vitória. De facto, ele ganha sempre. Mas havia mais: o traço definido (muito pouco de coelhinho fofinho), a negação da inevitabilidade da caça, a superioridade da inteligência relativamente à arma do caçador. (Será que as crianças também podem ter consciência de "classe"? Os músculos não abundam...)

O riso sarcástico de Muttley, nas Corridas Loucas, era o riso de desprezo pela batota e pela cobiça desmedida. As coisas aqui complicavam-se, já não era só tomar o partido dos vencedores, mas ainda era preciso tomar partido. E Muttley era o sarcástico que não deixava de ser bom tipo.

Espírito natalício (II)

Por sugestão deixada numa caixa de comentários, aqui fica outra canção com uma Laurinda. Comentário no final.


Laurinda

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
És mais linda do qu'o Sol(e)
Deixa-me dormir uma noite
Nas bordas do teu lençol

Sim, sim, cavalheiro, sim
Sim, sim, cavalheiro, sim
Hoje sim, amanhã não
Meu marido, não esta cá
Foi pr'a feira de Marvão

Onze horas, meia-noite
Onze horas, meia-noite
Marido a porta bateu
Bateu uma, bateu duas
Laurinda não respondeu

Ou ela está doentinha
Ou ela está doentinha
Ou encontrou outro amor
Ou então procur'a chave
Lá no meio do corredor

De quem é aquele chapéu?
De quem é aquele chapéu?
Debroado a galão
É para ti meu marido
Que fiz eu por minha mão

De quem é aquele casaco?
De quem é aquele casaco?
Que ali vejo pendurado
É para ti meu marido
Que o trazeis bem ganhado

De quem é aquele cavalo?
De quem é aquele cavalo?
Que na minha esquadra entrou
É para ti meu marido
Foi teu pai quem tu mandou

De quem é aquele suspiro?
De quem é aquele suspiro?
Que ao meu leito se atirou
Laurinda, que aquilo ouviu
Caiu no chão desmaiou

Ó Laurinda, linda, linda
Ó Laurinda, linda, linda
Não vale a pena desmaiar
Todo o amor, que t'eu tinha
Vai-se agora acabar

Vai buscar as tuas irmãs
Vai buscar as tuas irmãs
Trá-las todas num andor
Que a mais linda delas todas
Há-de ser meu novo amor


(rimance popular)

(via)

Esta Laurinda não saiu muito bem na fotografia, pois não? A deslealdade não é bonita. Mas a canção vem de um passado que é difícil recriar: é um mundo onde não existia divórcio, onde o corpo da mulher era coisificado na lei, onde um marido podia achar que tinha um fornecimento contínuo de "amores" entre as filhas de uma casa. Ao folhear as Novas Cartas Portuguesas, de 1971/72, encontram-se memórias de como era a vida de mulheres mal casadas, antes do 25 de Abril. Já para não falar das histórias que vamos conhecendo.

Será que algum dia os tempos do aborto criminalizado vão, também, ser parte do passado?