sexta-feira, novembro 03, 2006

Conhecer o inimigo (1)



Fonte: Fauna Ibérica - Lobo ibérico (Canis lupus signatus). (Viva o lobo ibérico!)

Aqui começa uma nova série, sobre muitos lobos de outras tantas histórias.

Blogosphere

Pretendendo participar na blogosfera escrita em língua inglesa, o primeiro problema é a quantidade de blogs, o segundo a falta de "âncoras" (assim como nos centros comerciais) que sirvam de ponto de partida. Antigamente - há alguns anos, pode já dizer-se - havia blogs portugueses que faziam referências a blogs em inglês, mas muitas das vezes apenas porque defendiam hiperbolicamente as mesmas ideias dos correspondentes nacionais. Não fixei nenhum.

Noto agora que há qualquer coisa de claustrofóbico com a blogosfera portuguesa. Ela traduz-se, por exemplo, na ligação a pouco mais do que um blog, e em apenas dois blogs portugueses a terem um número significativo de ligações à blogosfera brasileira.

Os interesses declarados no Blogger e as tags poderiam dar uma ajuda, mas cada sub-universo é ainda grande demais. Surge nesta altura das ruminações a possibilidade de usar aquelas técnicas de spam que vemos em tantas caixas de comentários... A golden rule não deixa dúvidas.

Quem foi mesmo que disse "think globally, act locally"? Humm...

Reunião de "humanistas"

Distintivos do grupo? Não há yuppies. Não está mal...

Depois do trânsito

Se:

- os níveis de sinistralidade nas estradas são excessivamente elevados;
- há automóveis a mais nas cidades;
- os acidentes implicam, muitas vezes, engarrafamentos e o consequente desperdício de tempo...

por que é que não se aumentam as penas de proibição da condução?

(Vincent van Gogh, Still Life with a Statuette)

Últimos dias (1)

Creio que o que me tocou, mesmo antes de discernir o próprio sentido do que ele tinha para me dizer, foi a sua voz. O seu ritmo. Aquele acento repentinamente rouco, tropeçante, cheio de gemidos, de estretores e de silêncios, um pouco como durante as suas crises - só que a crise parecia agora crónica. Em seguida foi o seu timbre, invulgarmente abafado, sufocado, despojado da cor e da música que eram até há pouco o seu encanto. Um tom desiludido. Desesperado. O tom de alguém que durante muito tempo se satisfez com palavras mas que de súbito vê claro e não menos claramente o diz - e que essa lucidez mergulha numa infinita tristeza. Depois, foi sobretudo algo ainda mais estranho, a desordem do seu discurso, uma frase sobrepondo-se a outra, um pensamento expulsando o precedente, tudo isto mais soluçado que enunciado, gemido ou gritado, mais do que falado. Um desregramento de ideias. Uma irrupção de palavras, aliás novamente apaixonantes, onde eu o reconhecia inteiro - mas sem que ele se preocupasse, desta vez, nem em ter nexo, nem em ser convincente, nem em me ajudar a segui-lo e a tomar notas.

Se eu procurar, com certo distanciamento, recompor aquela sequência de ideias, de imprecações, de fulgurâncias, verifico, em primeiro lugar, uma série de reflexões acerca daquilo a que ele chamava o fim da literatura. Os jovens são extravagantes, dizia ele... Vêem uma coisa... À sua frente... Nem por um segundo imaginam que ela nem sempre lá tenha estado, nem que possa lá não estar para sempre... Assim é com a literatura... Acreditam-na eterna... Acreditam que haverá sempre livros e pessoas para os escrever... Que erro!... Que ingenuidade!... Como se os homens não tivessem
vivido sem livros... Como se a ausência de livros não tivesse sido, durante séculos e séculos, o estado normal da humanidade... A literatura, surgida tão tarde... Depois da pintura, da escultura, da música... Depois de todas as artes, sem excepção, a terem precedido e lhe terem dado as suas dimensões... Pois bem, o que foi, será... Essas artes que a precederam vão, muito provavelmente, sobreviver-lhe... E ele estava em condições de me anunciar que aqueles livros pelos quais tínhamos tanto apreço não tardariam a regressar ao nada que foi durante muito tempo o seu destino... Bastava que eu o escutasse... Que olhasse à minha volta... Bastava que observasse o singular descrédito que começava já a abalar o próprio nome do poeta... «Nós somos os últimos, meu amigo... Os últimos... Ou então, o que vem a dar no mesmo: os primeiros na decrepitude da nossa arte.»

"Os últimos dias de Charles Baudelaire", Bernard-Henri Lévy, tradução de António Guerreiro, Círculo de Leitores, 1990

(continua)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Últimos dias (0)

Charles Baudelaire morreu numa pensão belga, vítima da sífilis. Bernard-Henri Lévy retrata-o através dos olhos de um admirador que o acompanha nos seus últimos dias.

Que teria eu feito para merecer tal desagrado? Seria o meu crime assim tão grande? A minha credulidade assim tão censurável? Aquele momento de ingenuidade, afinal tão anódino, que se devia, ele sabia-o muito bem, à confiança cega que eu tinha nele, seria suficiente para aniquilar toda a nossa maravilhosa cumplicidade? Tal ideia parecia-me inacreditável. Pior, ela escandalizava-me. Sim, eu começava a achar inacreditável e escandaloso o capricho - não encontrava outra palavra - de um homem a quem tinha servido durante cinco dias com tanta devoção e que me agradecia tratando-me como um lacaio ou um foliculário. Decepção. Amargura. Cólera, também. Humilhação. Por muito grande que fosse, ninguém tinha o direito de se conduzir daquele modo. Por muito Baudelaire que se acreditasse ser, não tinha o direito de tratar com aquela leviandade o autor do Rêve d'Aristote e das Dix Petites gloses pour servir à l'idée de modernité; podia fazer-me tudo, dizer tudo, eu estava pronto a ouvir as censuras mais veementes, o despedimento mais brutal - mas não aquela indiferença, aquele mutismo, para os quais nada nem ninguém me tinha preparado.

Estava no auge das minhas ruminações. Estava à beira de rebentar, de me insurgir. Tinha aversão àquele velho ingrato, entrevado, que de repente se comportava mal. Dizia a mim próprio que aquela maldade gratuita era talvez, no fundo, o sinal anunciador de uma senilidade próxima. Cúmulo da blasfémia, surpreendi-me mesmo a pensar que era essa a fonte de todos os seus males, de todas as suas infelicidades diversas e variadas que ele me contava desde há cinco dias... ele tinha-a procurado, afinal... não se lhe tinha furtado... Quem sabe se todas aquelas histórias vis que circulavam a seu respeito não tinham aqui o seu fundamento, a sua verdade?... Tais eram, pois, os meus sacrílegos pensamentos. Estava eu prestes a guardar as minhas canetas, a fechar o caderno e a fazer as minhas despedidas quando ele quebrou finalmente o seu silêncio. Era meio-dia. Eu iria compreender que todo aquele azedume, todo aquele ódio, não me eram tão destinados quanto o havia imaginado.


"Os últimos dias de Charles Baudelaire", Bernard-Henri Lévy, tradução de António Guerreiro, Círculo de Leitores, 1990

(continua)

(Jean-François Millet, Folhas de Outono)

domingo, outubro 29, 2006

Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.


Fernando Pessoa, O Jornal, 8-4-1915 (excertos)
in "O Banqueiro Anarquista", Fernando Pessoa, Antígona.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Brumes et pluies

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
- Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.


(Charles Baudelaire)

terça-feira, outubro 24, 2006