domingo, outubro 29, 2006

Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.


Fernando Pessoa, O Jornal, 8-4-1915 (excertos)
in "O Banqueiro Anarquista", Fernando Pessoa, Antígona.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Brumes et pluies

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
- Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.


(Charles Baudelaire)

sábado, outubro 21, 2006

Registo

19.10.06 - Suspensão das actividades das ONG estrangeiras na Rússia.

(Sabemos como começa, não sabemos como pode acabar - ou sabemos? E a Rússia ainda é uma superpotência nuclear... Por isso, esta é uma boa oportunidade para a diplomacia das democracias ocidentais dar um ar da sua graça.)

domingo, outubro 15, 2006

terça-feira, outubro 10, 2006

Cuidados


(Vincent van Gogh)

1. Para se levar um livro com paperback para qualquer lado, uma capa improvisada é muito recomendável. Mesmo que os curiosos dos títulos alheios fiquem desiludidos por não terem a curiosidade satisfeita. O Sr. Gulbenkian tinha razão: livros em bom estado são outra coisa.

2. É tudo admirável: a disciplina do calendário, o grupo formado pelo interesse comum, o conceito original do blog de complemento à leitura. E as escolhas dos livros. Este mês a pastora também vai seguir a Leitura Partilhada e tudo o que forem descobrindo sobre o extraordinário livro de Borges.

segunda-feira, outubro 09, 2006


(Eleanor Fortescue-Brickdale)

Not to rage against the dying of the light

Um blog pouco activo pode ser metáfora dos últimos dias de uma vida. As forças a esvaírem-se, no estertor. O jejum como método de purificação. Algumas últimas visitas, sussurantes. A pobre ceifeira que cantava terá campa rasa sem inscrições. Outras vidas, outros blogs poderão continuar, algures, fruto do mesmo ímpeto. Traços curtos, paralelos, contribuem para o padrão de uma caixa de música que toca incessantemente.

Entretanto, lá fora, a cacofonia continua. Miríades de opiniões e de certezas. A ignorância e a intolerância continuam. Contra elas, apetece o proselitismo, mas é um esforço inútil.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos." Por que não são só os direitos? O que está a "dignidade" a fazer naquela frase? Repudiou-se a escravatura, as castas e o sangue azul de direito divino. Mas a desigualdade de oportunidades e a exploração continuam e, por isso, a igualdade na dignidade é uma miragem.

Novos cogumelos nucleares ameaçam o horizonte. Os actuais detentores de bombas cederam nos princípios que herdaram e não temem o juizo da história. A rota é, portanto, para o desastre.

Um pessimista é um optimista informado? A internet é uma fonte inesgotável de informação. A vida real faz o resto.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Full of Life Now

Full of life, now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the States,
To one a century hence, or any number of centuries hence,
To you, yet unborn, these, seeking you.

When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were, if I could be with you, and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)


(Walt Whitman)

quinta-feira, setembro 28, 2006

Mulher a ler


Pierre Auguste Cot, Pause for Thought (Ophelia), 1870

A primeira mulher a ler que por aqui apareceu era, se não me engano, uma miuda sardenta vestida de cor-de-laranja, a ilustrar uma entrada sobre livros que falavam de livros. Depois, a pastora começou a achar graça às mulheres a ler, por serem tão pouco conformes ao ideal do eterno feminino de outros séculos, da mulher a seduzir, a fazer sala e a cuidar dos filhos e da casa. As mulheres de há duzentos ou trezentos anos que liam cartas e livros em arrumadas casas flamengas ou ao ar livre na América eram símbolo de um progresso civilizacional que se quis retratar.

De tempos a tempos, passam na televisão reportagens de todo o mundo de crianças que não vão à escola. É uma situação tão conhecida que o que choca mesmo é a nossa habituação e resignação. Os números da Unicef não deixam margem para dúvidas: as raparigas são sempre as principais vítimas do analfabetismo. Mas pensamos que esse mundo é muito longe. Só que ainda se encontram, em Lisboa, senhoras que nos perguntam o número do autocarro seguinte. E o que fazemos para remediar isto? Pouco. Por exemplo, a 28 de Setembro, depois de o ano lectivo ter começado há muito, o Ministério da Educação não teve ainda a coragem para dizer se, sim ou sopas, vai haver ensino recorrente este ano. Como se não bastasse o pouco caso com que são tratados os trabalhadores-estudantes neste país. Enfim... adeus, progresso, até depois.