quinta-feira, setembro 21, 2006

Planura

A morte parecia ser o único fim razoável para semelhante carreira; mas a morte é apenas um salto para a região do estranho desconhecido; não passa da entrada do imenso remoto, do fantástico, do aquático, do sem alicerces. Assim, para esses homens que suspiram pela morte, mas a não desejam e não podem suicidar-se, o oceano, o participante inúmero e o acolhedor eterno, exibe com sedução os sedutores e inconcebíveis terrores da sua planura; do coração dos Pacíficos infinitos, milhares de sereias lhe cantam:

«Vem para cá, coração despedaçado; aqui vivemos uma morte intermédia; aqui podemos ter, sem morrer, maravilhas sobrenaturais. Vem para cá! aniquila-te numa vida odiada pelo seu mundo terreno e que dela penso o mesmo; ofereço ainda mais esquecimento que a morte. Vem para cá! Levanta a tua própria lápide no cemitério, e vem para cá casar-te comigo!»

Ouvindo estas vozes vindas do leste e do oeste, da alvorada ao crepúsculo, o espírito do ferreiro respondeu: «Pois bem; aqui me tens!» E foi assim que Perth foi pescar a baleia.


(Herman Melville)

terça-feira, setembro 19, 2006

Liberdade de expressão?


Maomé, montando Buraq e na companhia do anjo Gabriel, visita o Inferno. Vêem mulheres penduradas pela língua por um demónio verde, por se terem rido dos seus maridos e terem saído de casa sem permissão. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive.

America

Centre of equal daughters, equal sons,
All, all alike endear'd, grown, ungrown, young or old,
Strong, ample, fair, enduring, capable, rich,
Perennial with the Earth, with Freedom, Law and Love,
A grand, sane, towering, seated Mother,
Chair'd in the adamant of Time.


(Walt Whitman)




Gravação de 36 segundos, em cilindro de cera, do que se pensa ser a voz de Walt Whitman lendo quatro linhas do poema "America". (The Walt Whitman Arquive)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Leaves of Grass



Capa da edição americana de 1855.

Desculpas?


Maomé, montando Buraq, voando sobre o Paraíso, observa as conhecidas houris ("virgens" prometidas aos heróis e aos mártires) colhendo flores e entretendo-se. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive.

Sim, desculpas sobre o tratamento das mulheres também seriam bem-vindas.

sábado, setembro 16, 2006

Sabor amargo


"Torture is not always impermissible. However rare the cases, there are circumstances in which, by any rational moral calculus, torture not only would be permissible but would be required (to acquire life-saving information). And once you've established the principle, to paraphrase George Bernard Shaw, all that's left to haggle about is the price. In the case of torture, that means that the argument is not whether torture is ever permissible, but when--i.e., under what obviously stringent circumstances: how big, how imminent, how preventable the ticking time bomb." (Charles Krauthammer, 12/05/2005, The Weekly Standard)

*

É um miúdo. Está sentado à minha frente a beber café. É um miúdo, mas uma parte teve de crescer à força.

Foi torturado. Mostra-me as marcas. (Os patifes estavam à vontade.) Diz-me que não falou. Penso que poderia ter sido pior, bem pior, mas que sei eu?

A forma como foi recrutado é típica: uma vítima na família. Vê o mundo de uma forma muito mais simples do que eu, mas não conseguiria convencer-me de que é menos válida. A organização a que pertenceu é responsável por mortes. Foi, sem dúvida, uma guerra, pelo menos no sentido comum do termo. Só com "combatentes irregulares", sem convenções de Genebra, com carta branca para a barbárie. (Não compreendo a necessidade de redundância de textos jurídicos. O artigo 5 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e a sua implementação a todos os níveis não seriam suficientes?)

Mergulho nos meandros da história do direito, da filosofia do direito, procurando uma forma de justificar o fim da tortura. Ainda não encontrei o que procurava. O debate em torno da emenda do senador McCain é demasiado circunstancial. Continuam a ser salvaguardadas as "circunstâncias excepcionais" e os "valores maiores". Vamos prevenindo os eventuais milhares, ou centenas, ou dezenas de vítimas de atentados em planeamento, mas a que preço? À custa do estado de direito, das liberdades e garantias, dos direitos do Homem, de pilares da nossa civilização.

domingo, setembro 10, 2006

Agradecimento

Pelos comentários aqui deixados que me obrigaram (mesmo - "imperativo categórico") a aprender mais: muito obrigada!

sexta-feira, setembro 08, 2006

Mulher a ler


Pintura flamenga, c. 1550

Ainda há esperança

Uma boa descoberta: um bookcrossing spot em Lisboa! Ou, como lhe chamam, "Crossing Zone".

Mote: «E caíram nos braços um do outro»

Diz uma lenda que, em dois montes da Ponta Leste, viviam dois clãs há muito desavindos. Calhou que o filho do chefe de um dos clãs se apaixonasse pela filha do chefe do outro clã, e que fosse correspondido. (Tema universalmente glosado...) Os dois jovens queriam casar-se, e sabiam que não seria a falta de búfalos para o barlaque que os impediria. O que temiam, e se verificou, foi a oposição intransigente das duas famílias. Sem outra solução, os dois foram até ao extremo de um penhasco, enrolaram-se num tais-mane, e saltaram. E caíram, nos braços um do outro.