sexta-feira, setembro 08, 2006

Ainda há esperança

Uma boa descoberta: um bookcrossing spot em Lisboa! Ou, como lhe chamam, "Crossing Zone".

Mote: «E caíram nos braços um do outro»

Diz uma lenda que, em dois montes da Ponta Leste, viviam dois clãs há muito desavindos. Calhou que o filho do chefe de um dos clãs se apaixonasse pela filha do chefe do outro clã, e que fosse correspondido. (Tema universalmente glosado...) Os dois jovens queriam casar-se, e sabiam que não seria a falta de búfalos para o barlaque que os impediria. O que temiam, e se verificou, foi a oposição intransigente das duas famílias. Sem outra solução, os dois foram até ao extremo de um penhasco, enrolaram-se num tais-mane, e saltaram. E caíram, nos braços um do outro.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A escada da tortura

(reedição)

«Foi colocada uma bomba armadilhada algures na sua comunidade. Foram feitas exigências de dinheiro e de libertação de prisioneiros. Você capturou o bombista, que confessou mas que recusa dizer onde a bomba está escondida.

O que faria? Usaria a tortura?

  • Seria relevante saber se estariam em perigo vidas ou bens?
  • Seria relevante saber quantas pessoas poderiam morrer?
  • Seria relevante saber quanto tempo teria para fazer o interrogatório? Ou seja, usaria a tortura como último recurso?
  • Seria relevante saber que tipo de bomba tinha sido usada?
  • Torturaria você mesmo o indivíduo?
  • Torturaria familiares ou amigos do indivíduo?
  • Publicitaria o facto de ser um torturador?

    *

    A escada da tortura


    1. Um indivíduo colocou algures uma bomba armadilhada e admite-o. Temos de torturá-lo para salvar vidas.

    2. Um indivíduo é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturá-lo para descobrir a verdade.

    3. Um indivíduo é próximo de outro que é suspeito de ter colocado algures uma bomba armadilhada. Temos de torturar o amigo/parente para descobri os planos do bombista.

    4. Um indivíduo relata que alguém partilha as mesmas opiniões políticas que o bombista. Temos de torturar esse aliado político para descobrir outros que o apoiem.

    5. Um indivíduo recusou-se a dizer à polícia onde está um suspeito. Esta pessoa tem de ser torturada para garantir que outros não se atrevem a fazer a mesma coisa.

    *

  • Onde colocaria o limite? Quando, se alguma vez, é que a tortura se justifica?
  • Pode justificar-se violar os direitos humanos de um indivíduo em algumas situações?
  • Como quer que a polícia ou os militares do seu país respondam a este tipo de situação?»


    (fonte)

    Ver também:
    Instruments of Torture/Historical Torture Museum.
  • sexta-feira, setembro 01, 2006

    O Líbano antes das guerras (II)

    «[...] O aliciante daqueles trapos não bastava para que a minha mãe se sentisse à vontade no Líbano, vivia com a sensação de estar prisioneira da sua própria pele. As mulheres não deviam andar sozinhas, no meio de uma confusão qualquer uma mão viril desrespeitosa podia surgir para as ofender, e se tentavam defender-se eram apupadas por um coro de gracejos agressivos. A dez minutos da nossa casa havia uma praia interminável de areia branca e mar tépido, que convidava a refrescar-nos na canícula das tardes de Agosto. Devíamos tomar banho em família, num grupo fechado, para nos protegermos das manápulas dos outros banhistas; era impossível deitarmo-nos na areia, equivalia a chamar a desgraça, mal tirávamos a cabeça fora da água corríamos para nos refugiar numa barraca que alugávamos para esse fim.»

    (Isabel Allende)



    Maomé, montando Buraq e na companhia do anjo Gabriel, visita o Inferno. Vêem um demónio a castigar "mulheres desavergonhadas" que expuseram o seu cabelo à vista de estranhos. Por este crime de incitação à luxúria nos homens, as mulheres são penduradas pelo cabelo e queimadas por toda a eternidade. Imagem de origem persa, do séc. XV, de um manuscrito intitulado "Miraj Nama", que se encontra na Bibliotèque Nacional, em Paris. Obtido em "The Miraculous Journey of Mahomet", de Marie-Rose Seguy. Via Mohammed Image Archive (excelente!).

    O Líbano antes das guerras

    «O Líbano dos anos 50 era um país florescente, uma ponte entre a Europa e os riquíssimos emirados árabes, cruzamento natural de várias culturas, torre de Babel onde se falava uma dúzia de línguas. O comércio e as transacções bancárias de toda a região pagavam o seu tributo a Beirute, aonde chegavam por terra caravanas a abarrotar de mercadorias, pelo ar os aviões da Europa com as últimas novidades e por mar os barcos que tinham de esperar vez para atracar no porto. Mulheres cobertas de véus negros, carregadas com volumes, arrastando os filhos, andavam apressadas pelas ruas sempre com a vista baixa, enquanto os homens ociosos conversavam nos cafés. Burros, camelos, autocarros apinhados de gente, motocicletas e automóveis paravam simultaneamente nos semáforos, pastores com as mesmas vestes dos seus antepassados bíblicos cruzavam as avenidas conduzindo manadas de ovelhas a caminho do matadouro. Várias vezes por dia, a voz aguda do muezim chamava à oração desde os minaretes das mesquitas, fazendo coro com os sinos das igrejas cristãs. Nas lojas da capital oferecia-se o melhor do mundo, mas o mais atraente para nós era percorrer os zuks, labirintos de vielas estreitas marginadas por um sem fim de vendas onde era possível comprar desde ovos frescos até relíquias faraónicas. Ah! o cheiro dos zuks! Todos os aromas do planeta fluíam por aquelas ruazinhas, tufos de exóticos manjares, fritos em gordura de borrego, pastéis de massa folhada, nozes e mel, sargetas abertas onde flutuavam lixo e excrementos, suor de animais, tinturas de peles e cabedais, asfixiantes perfumes de incenso e patchouli, café acabado de ferver com sementes de cardamoma, especiarias do Oriente: canela, cominhos, pimenta, açafrão...»

    (Isabel Allende)

    segunda-feira, agosto 28, 2006

    Brincando aos detectives (II)


    Dados sobre impostos e PIB, de 2003, tirados do OECD Factbook 2006.
    Dados sobre o índice de Gini, do Development Programme Report das Nações Unidas (PDF, undp.org) elaborado em 2005. "Um valor 0 representa máxima igualdade e um valor 100 representa máxima desigualdade".


    Ajuste linear:
    y = -0,5222x + 51,145
    R2 = 0,3539

    É certo que a Economia não é uma ciência exacta, mas parace-me que deveria reservar-se a expressão "correlação forte" para outras situações...

    Incrível

    Um senhor que não pagou uma quantia significativa que devia ao fisco está na televisão a querer dar-nos lições.

    sábado, agosto 26, 2006

    Frase do dia

    All theory, dear friend, is gray, but the golden tree of life springs ever green.

    (Johann Wolfgang von Goethe)

    Brincando aos detectives

    Ou como não vale invocar as estatísticas para tudo.


    Dados sobre impostos e PIB, de 2003, tirados do OECD Factbook 2006.
    Dados sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 2003, do Development Programme Report das Nações Unidas elaborado em 2005, com dados relativos a 2003, via Wikipedia.


    Então, caro Watson? "Correlação inequivocamente alta"? Acha mesmo que devo fazer o ajuste linear e tirar o R?

    Agradecimento

    À Helena Monteiro, do blog Linha de Cabotagem, pelas palavras simpáticas: muito obrigada!