segunda-feira, julho 24, 2006


(Jean-Baptiste Camille Corot, La clairière)

Em tempos de guerra

Miracles

Why! who makes much of a miracle?
As to me, I know of nothing else but miracles,
Whether I walk the streets of Manhattan,
Or dart my sight over the roofs of houses toward the sky,
Or wade with naked feet along the beach, just in the edge of the water,
Or stand under trees in the woods,
Or talk by day with any one I love—or sleep in the bed at night with any one I love,
Or sit at table at dinner with my mother,
Or look at strangers opposite me riding in the car,
Or watch honey-bees busy around the hive, of a summer forenoon,
Or animals feeding in the fields,
Or birds—or the wonderfulness of insects in the air,
Or the wonderfulness of the sun-down—or of stars shining so quiet and bright,
Or the exquisite, delicate, thin curve of the new moon in spring;
Or whether I go among those I like best, and that like me best—mechanics, boatmen, farmers,
Or among the savans—or to the soiree—or to the opera,
Or stand a long while looking at the movements of machinery,
Or behold children at their sports,
Or the admirable sight of the perfect old man, or the perfect old woman,
Or the sick in hospitals, or the dead carried to burial,
Or my own eyes and figure in the glass;
These, with the rest, one and all, are to me miracles,
The whole referring—yet each distinct, and in its place.

To me, every hour of the light and dark is a miracle,
Every cubic inch of space is a miracle,
Every square yard of the surface of the earth is spread with the same,
Every foot of the interior swarms with the same;
Every spear of grass—the frames, limbs, organs, of men and women, and all that concerns them,
All these to me are unspeakably perfect miracles.

To me the sea is a continual miracle;
The fishes that swim—the rocks—the motion of the waves—the ships, with men in them,
What stranger miracles are there?


(Walt Whitman)

quinta-feira, julho 20, 2006


(Gerard Terboch, Lady reading a letter)

Time

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.

(Pink Floyd)

quarta-feira, julho 19, 2006

De Israel

Eu supliquei e a inteligência me foi dada,
invoquei e o Espírito de Sabedoria veio a mim.
Eu a preferi a ceptros e tronos,
comparando-a considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro a seu lado, é areia apenas
e a prata vale tanto como o barro.
Amei-a mais que à saúde e à beleza
e quis tê-la como luz,
pois seu brilho não conhece ocaso.
Com ela me vieram por acréscimo todos os bens,
em suas mãos havia riquezas incalculáveis.
De todas gozei, pois é a Sabedoria quem as traz,
eu ainda não sabia, mas ela é a mãe de tudo.
Sem maldade aprendi, distribuo sem inveja
sua riqueza não escondo:
é um tesouro inesgotável para os homens,
quem a adquire atrai a amizade de Deus,
pois o Dom da instrução os recomenda.


(Livro da Sabedoria, tradução de José Tolentino Mendonça)

De vida e de morte

A viagem providencial do tenente Bligh entre as ilhas Tonga e Timor, após a revolta na Bounty, aqui deixada na versão de Sir John Barrow, termina aqui. (Admito que foi uma transcrição egoísta, a que nem tirei as serifas porque não contava que alguém lesse - embora eu não me importe de ler Camus ou Steinbeck no ecrã...)

Dos dezanove homens iniciais, dezoito chegaram a Timor. Desses, alguns sucumbiram entretanto à doença e não chegaram a Inglaterra. O tenente Bligh conseguiu fazer chegar esses homens a Timor, depois de muito navegar, calcular rações mínimas e mentalizar os desgraçados dos perigos que corriam, com mantimentos para cinco dias em circunstâncias normais.

Mais tarde, Bligh testemunharia a sua convicção de que nunca teriam recorrido ao canibalismo, preferindo morrer de fome como se de uma doença se tratasse. Há anos, tivemos notícia de um caso desesperado, mas o consumo da carne humana continua tabu (talvez por instintivamente sabermos dos seus perigos?). No entanto, continuam a exploração e o assassínio de semelhantes, mesmo agora, no século XXI, em que se enviam sondas para Plutão e em que a razão permitiu a compreensão de fenómenos imensamente complexos. E, paradoxalmente, os povos cuja cultura assenta em livros sagrados são justamente os que mais se matam irracionalmente.

Quando haverá respeito pela vida humana?

Homem a ler


Paul Newman

Post
com bónus para apreciadoras/es: as alegrias da rede, o azul, e assim... (Deve ser engraçado ser-se adolescente nos dias de hoje.)

terça-feira, julho 18, 2006

Uma viagem providencial (XXI)

Será o começo do fim?

A 8 de Junho registou-se ligeira melhoria do tempo. Os homens apanharam um pequeno golfinho, que dividiram em bocados de cento e vinte gramas. Mas, na noite seguinte, o vento soprou com fúria, a chalupa meteu muita água e o frio e a humidade tornaram-se atrozes, intoleráveis. O médico e Lebogue continuaram muito doentes, animados apenas pelas colherinhas de vinho e pela esperança de que, dada a velocidade a que seguiam, dentro de muito poucos dias Timor estivesse à vista.

«Na manhã do dia 10, após uma noite particularmente medonha - diz Bligh -, notei sensível alteração para pior no estado da maioria dos meus homens, o que me causou viva apreensão. Essa alteração exteriorizava-se por invencível fraqueza, grande inchaço das pernas, rosto emaciado e cadavérico, desejo irresistível de dormir e debilidade crescente do entendimento. Seriam os sintomas sinistros do começo do fim? Os mais antigos eram Lebogue e o médico, que pareciam autênticos moribundos. De vez em quando dava-lhes algumas colheres de vinho, que os reanimavam um pouco. Vivíamos apenas da esperança de chegar ao fim daquela pavorosa viagem. Com uma candura inocente, o contramestre confessou-me que, na sua opinião, era eu quem lhe parecia mais abatido. Ri-me da simplicidade das suas palavras e respondi-lhe com um comprimento menos macabro.»

No dia 11, o tenente Bligh comunicou aos companheiros a sua convicção de haverem ultrapassado o meridiano da ponta este de Timor, notícia que reanimou um pouco os infelizes. O comandante tinha razão: cerca das três horas da manhã do dia seguinte, as costas de Timor surgiram a menos de duas léguas da chalupa.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

segunda-feira, julho 17, 2006

Do Líbano

Altercação


Foi Satanás dar co'um Anjo           dentro do meu coração
E, enquanto esfrega um olho,           lá vai grande altercação.
Um diz: «A morada é minha!»;           o outro c'o mesmo refrão;
Eu, seguindo toda a cena           sem mexer. A Deus então

Perguntei: «Senhor, foi outro           Teu igual na Criação
Contigo a amoldar de início           minh'alma, de mão na mão?»

                                        *

Até hoje dou comigo           em dúvida e confusão
Não sei quem tenho: Demónio           ou Anjo no coração?



Miha 'ul Nu 'aymah
(tradução de Doina Zugravescu)

O mapa da viagem



Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

Uma viagem providencial (XX)

De novo no mar alto

A 3 de Junho, depois de passar por vários baixios e outras ilhas, a chalupa dobrou o cabo Iorque, que é o ponto mais a nordeste da Nova Holanda. Às oito horas da noite dirigiu-se outra vez para o mar alto.

«Deus sabe como a nossa situação era desesperada! - escreve Bligh. Mas verifiquei com espanto, no meu foro íntimo, que a tripulação parecia menos preocupada do que eu próprio. Os homens davam-me a impressão de acabarem de embarcar com destino a Timor num navio onde tudo estivesse previsto para o seu conforto e segurança. Pelo meu lado, embalava-os na esperança de que dentro de oito ou dez dias desembarcaríamos em lugar seguro. Após ter pedido a Deus que continuasse a beneficiar-nos com a Sua misericordiosa protecção, distribuí a cada um uma ração de água para o jantar e mandei aproar a oés-sudoeste.

«Passáramos apenas seis dias na costa da Nova Holanda, onde encontrámos ostras, palurdas, aves e água. Mas, além desse reabastecimento suplementar, acháramos outra coisa igualmente importante: refiro-me ao alívio que sentimos por não sermos obrigados a permanecer sentados na chalupa e à bênção do verdadeiro repouso nocturno. Essa melhoria da nossa situação salvou-nos certamente a vida, pois, por muito pequena que fosse, a modificação que operou foi excepcional. Sem ela, a natureza acabaria por ceder aos ataques conjugados da extrema fadiga e da fome prolongada. Embora continuássemos num estado físico apavorante, o nosso moral fortalecera-se com a esperança de que chegaríamos ao fim dos nossos infortúnios.

«Pelo meu lado, por incrível que pareça, nunca senti as torturas da fome nem da sede. A minha ração bastava-me, pois sabia que não podia ter mais...»

No manuscrito do diário de Bligh lê-se o seguinte comentário:

«... Talvez por esta razão não me sinta autorizado a julgar objectivamente a história de seres tão infelizes como nós e que a necessidade levou a destruírem-se mutuamente, para comerem. Mas ser-me-á permitido duvidar da veracidade dos acontecimentos? Francamente, não creio que tal coisa pudesse acontecer entre nós; acho que a morte pela fome teria sido aceite apenas como qualquer doença mortal.»

A 5 de Junho apanharam à mão uma ave marinha e distribuíram o sangue pelos três homens manifestamente mais enfraquecidos, mas a carne guardaram-na para o almoço do dia seguinte. A 6, Bligh cumpre a sua promessa e restabelece a ração do jantar, que suprimira.

A 7, após uma noite atrozmente fria e encharcados pela água do mar, os homens recebem apenas a ração habitual para o pequeno-almoço; em contrapartida, ao almoço é-lhes distribuído um suplemento de sessenta gramas de palurdas secas, esgotando-se assim toda a reserva deste alimento.

As altas vagas abateram-se durante todo o dia sobre a chalupa. O estado de Mr. Ledward, que desempenhava as funções de médico, e de Lawrence Lebogue, um velho marinheiro endurecido, pareciam piorar de hora a hora. O único socorro que era possível prestar-lhes resumia-se a uma ou duas colherinhas de vinho especialmente reservado pelo comandante para este género de circunstâncias, infelizmente de fácil previsão.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972

domingo, julho 16, 2006

Mulher que ensina a ler


(Jan Van Eyck, Madonna with the Child reading)

Uma viagem providencial (XIX)

Últimos dias ao abrigo da Grande Barreira

A 1 de Junho, a chalupa deteve-se no meio de várias ilhas arenosas à flor da água, conhecidas pelo nome de baixios, onde os homens fizeram nova provisão de palurdas e feijões.

Nelson foi então atingido por um mal violentíssimo, que se manifestou por calor e insuportáveis ardores nos intestinos, perda quase completa da vista, sede intensa e absoluta incapacidade de andar. Bligh reservara, providencialmente, um pouco de vinho, e deu-lho, com sopas de pão. Tomado em pequenas doses, este remédio permitiu-lhe restabelecer-se. O contramestre e o carpinteiro queixavam-se também de grandes dores de cabeça e de estômago, e outros sofriam atrozmente de hemorróidas. Em suma, poucos eram os que não tinham motivo sério para gemer.

À tarde, Bligh confiou a um grupo a missão de ir apanhar aves. Voltaram apenas com doze andorinhas-do-mar, mas, se não fosse a estupidez e obstinação de um dos «caçadores», que se perdeu e assustou a «caça», muitas mais teriam trazido. O culpado chamava-se Robert Lamb e, quando chegaram a Java, confessou que devorara nove pássaros crus, depois de se ter isolado dos companheiros. Além das andorinhas-do-mar e das palurdas, estes baixios não proporcionaram mais alimentos aos homens da chalupa.


Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972