Depois, o suplício do calor!
O tempo melhorou, o que, por estranho que pareça, teve os seus inconvenientes, pois os tripulantes da chalupa viram-se a braços com um novo suplício, inteiramente diferente dos anteriores. O Sol difundia um calor tórrido, tão intolerável, que vários homens foram vítimas de uma espécie de quebreira, de fraqueza, que os tornava indiferentes a tudo, até à existência.
De tarde tiveram a sorte de apanhar mais duas andorinhas-do-mar, e esse facto, aparentemente insignificante, levantou-lhes o moral. O estômago das aves continha vários peixinhos voadores e pequenos moluscos que foram cuidadosamente postos de parte para o almoço do dia seguinte. As andorinhas-do-mar foram divididas em dezoito porções, e, como o suplemento era de importância, Bligh distribuiu-o segundo a regra do «Quem o receberá?» A este respeito faz o seguinte comentário: «Hoje, apesar da ração habitual de pão ao pequeno-almoço e ao almoço, verifiquei com prazer que os homens julgavam ter participado num festim.»
Começaram a aparecer nuvens no céu e Bligh anunciou que se encontravam, certamente, perto da costa. Passaram todos uma tarde agradável, tentando imaginar o que encontrariam em terra.
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
terça-feira, julho 11, 2006
segunda-feira, julho 10, 2006
A: Ofereceram-me cento e cinquenta livros num CD.
B: Eram bons?
A: Um era. Mas também estava no Projecto Gutenberg. Acabei por comprar a versão em papel.
B: E qual era?
B: Eram bons?
A: Um era. Mas também estava no Projecto Gutenberg. Acabei por comprar a versão em papel.
B: E qual era?
Uma viagem providencial (XIII)
«Quem o receberá?»
A 25 de Maio, perto do meio-dia, algumas andorinhas-do-mar vieram esvoaçar tão próximo da chalupa que uma delas foi apanhada à mão. Esta ave tem mais ou menos o tamanho de um pombo pequeno.
«Dividi-a - conta Bligh -, com entranhas e tudo, em dezoito porções, e depois reparti-a, como suplemento da ração de pão e água do almoço, segundo o tão conhecido método do mar, o «Quem o receberá?»1 O pássaro foi engolido, com ossos e tudo, e regado com água do mar, à guisa de molho. À tarde voltámos a ter a sorte de apanhar outra ave marinha, desta vez uma espécie do tamanho de um pato, o que veio confirmar que nos aproximávamos de terra. Ordenei que a matassem para o jantar e que o sangue fosse dividido pelos três homens mais enfraquecidos por falta de alimentos. O corpo da ave, com entranhas, bico e patas, foi partido em dezoito bocados e, com uma ração de pão extraordinária que resolvi distribuir, tivemos um jantar excelente, comparado com os habituais.
«Na manhã de 26 apanhámos outra andorinha-do-mar. Seria a Providência que acorria às nossas necessidades de modo tão pouco comum? Fosse como fosse, a verdade é que os homens ficaram encantados com o novo suplemento do seu almoço. O pássaro foi servido como na tarde da véspera, quer dizer, mandei dar o sangue aos mais fracos. A maior parte dos meus companheiros tinha o costume de molhar o pão na água do mar, para o tornar mais saboroso, mas eu preferia cortá-lo em bocadinhos e mergulhá-lo na água doce que me serviam numa casca de coco. Comia-o depois às colheres, tendo o cuidado de não apanhar bocados muito grandes de cada vez e de levar o mais tempo possível a mastigá-lo, como se se tratasse de um reparto copioso.»
1 Um homem volta as costas ao objecto que deve ser repartido e outro designa separadamente as porções e, a cada uma, pergunta em voz alta: «Quem o receberá?» A pessoa que está de costas voltadas indica então o beneficiário. Este método imparcial de distribuição proporciona a todos igual possibilidade de apanharem o melhor bocado. Bligh contou muitas vezes que os seus pobres companheiros riram muito quando lhes coube o bico e a palmura das patas.
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
A 25 de Maio, perto do meio-dia, algumas andorinhas-do-mar vieram esvoaçar tão próximo da chalupa que uma delas foi apanhada à mão. Esta ave tem mais ou menos o tamanho de um pombo pequeno.
«Dividi-a - conta Bligh -, com entranhas e tudo, em dezoito porções, e depois reparti-a, como suplemento da ração de pão e água do almoço, segundo o tão conhecido método do mar, o «Quem o receberá?»1 O pássaro foi engolido, com ossos e tudo, e regado com água do mar, à guisa de molho. À tarde voltámos a ter a sorte de apanhar outra ave marinha, desta vez uma espécie do tamanho de um pato, o que veio confirmar que nos aproximávamos de terra. Ordenei que a matassem para o jantar e que o sangue fosse dividido pelos três homens mais enfraquecidos por falta de alimentos. O corpo da ave, com entranhas, bico e patas, foi partido em dezoito bocados e, com uma ração de pão extraordinária que resolvi distribuir, tivemos um jantar excelente, comparado com os habituais.
«Na manhã de 26 apanhámos outra andorinha-do-mar. Seria a Providência que acorria às nossas necessidades de modo tão pouco comum? Fosse como fosse, a verdade é que os homens ficaram encantados com o novo suplemento do seu almoço. O pássaro foi servido como na tarde da véspera, quer dizer, mandei dar o sangue aos mais fracos. A maior parte dos meus companheiros tinha o costume de molhar o pão na água do mar, para o tornar mais saboroso, mas eu preferia cortá-lo em bocadinhos e mergulhá-lo na água doce que me serviam numa casca de coco. Comia-o depois às colheres, tendo o cuidado de não apanhar bocados muito grandes de cada vez e de levar o mais tempo possível a mastigá-lo, como se se tratasse de um reparto copioso.»
1 Um homem volta as costas ao objecto que deve ser repartido e outro designa separadamente as porções e, a cada uma, pergunta em voz alta: «Quem o receberá?» A pessoa que está de costas voltadas indica então o beneficiário. Este método imparcial de distribuição proporciona a todos igual possibilidade de apanharem o melhor bocado. Bligh contou muitas vezes que os seus pobres companheiros riram muito quando lhes coube o bico e a palmura das patas.
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
domingo, julho 09, 2006
Informações na rede sobre a revolta na Bounty
Descobrem-se coisas interessantes:
- que há alunos alemães que estudam a revolta e fazem visitas de estudo à Polinésia....
- que os computadores permitem fazer projecções estranhíssimas da superfície do planeta, para representar a viagem de regresso de Bligh a Inglaterra (muito, muito longa, a viagem desde o largo das ilhas Tonga até Timor);
- que as duas formas distintas de liderança de Bligh são tema de estudo. O mais incrível é terem coexistido na mesma pessoa. Se não tivesse acontecido, era uma história inverosímil.
- que há alunos alemães que estudam a revolta e fazem visitas de estudo à Polinésia....
- que os computadores permitem fazer projecções estranhíssimas da superfície do planeta, para representar a viagem de regresso de Bligh a Inglaterra (muito, muito longa, a viagem desde o largo das ilhas Tonga até Timor);
- que as duas formas distintas de liderança de Bligh são tema de estudo. O mais incrível é terem coexistido na mesma pessoa. Se não tivesse acontecido, era uma história inverosímil.
Se o Google não existisse
Seria assim.
E ainda:
* Seria difícil saber a que objectos algumas palavras inglesas ou francesas correspondem sem consultar dois ou três dicionários, em vez de usar a pesquisa de imagens.
* Seria mais difícil detectar plagiadores ingénuos.
* Seria difícil descobrir, de entre várias formas de uma palavra ou expressão, qual a mais usada.
* Seria difícil excluir palavras de um dicionário de sinónimos, por não serem muito procuradas no Google.
E ainda:
* Seria difícil saber a que objectos algumas palavras inglesas ou francesas correspondem sem consultar dois ou três dicionários, em vez de usar a pesquisa de imagens.
* Seria mais difícil detectar plagiadores ingénuos.
* Seria difícil descobrir, de entre várias formas de uma palavra ou expressão, qual a mais usada.
* Seria difícil excluir palavras de um dicionário de sinónimos, por não serem muito procuradas no Google.
Uma viagem providencial (XII)
Bligh volta a reduzir as rações
O mar acalmou-se, por sua vez, e a chalupa começou a meter menos água. O capitão Bligh aproveitou a acalmia para examinar o estado do pão e avaliar o que restava. Baseando-se nas rações dos dias anteriores, calculou ter ainda o suficiente para mais vinte e nove dias. Claro que possuía boas razões para crer que, nesse espaço de tempo, alcançariam Timor, mas não podia ter a certeza de nada, nem devia rejeitar, a priori, a hipótese de um desvio até Java. Decidiu, por isso, reduzir ainda mais as rações, para que a provisão de pão durasse seis semanas.
«Receei - explica - que esta decisão fosse mal acolhida e que me visse obrigado a apelar para toda a minha energia, a fim de a impor; na realidade, por muito pequena que fosse a quantidade que tencionasse subtrair a todos para nossa segurança futura, o meu gesto poderia ser interpretado como uma espécie de levantamento contra as suas vidas. Não ignorava que a paciência de alguns atingira o limite, e esperava que aceitassem muito mal a decisão.
«No entanto, quando lhes expliquei a necessidade de nos prevenirmos contra os atrasos que podiam ocasionar-nos os ventos contrários ou qualquer outro motivo, e lhes prometi aumentar as rações à medida que nos aproximássemos da meta, declararam-se unânimes e espontaneamente de acordo com a minha decisão.»
Ficou assente, portanto, que cada passageiro da chalupa continuaria a receber dezoito gramas de pão ao pequeno-almoço e ao almoço, mas que a ração do jantar seria suprimida. Esta nova redução permitiu alargar a duração daquele alimento a quarenta e três dias.
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
O mar acalmou-se, por sua vez, e a chalupa começou a meter menos água. O capitão Bligh aproveitou a acalmia para examinar o estado do pão e avaliar o que restava. Baseando-se nas rações dos dias anteriores, calculou ter ainda o suficiente para mais vinte e nove dias. Claro que possuía boas razões para crer que, nesse espaço de tempo, alcançariam Timor, mas não podia ter a certeza de nada, nem devia rejeitar, a priori, a hipótese de um desvio até Java. Decidiu, por isso, reduzir ainda mais as rações, para que a provisão de pão durasse seis semanas.
«Receei - explica - que esta decisão fosse mal acolhida e que me visse obrigado a apelar para toda a minha energia, a fim de a impor; na realidade, por muito pequena que fosse a quantidade que tencionasse subtrair a todos para nossa segurança futura, o meu gesto poderia ser interpretado como uma espécie de levantamento contra as suas vidas. Não ignorava que a paciência de alguns atingira o limite, e esperava que aceitassem muito mal a decisão.
«No entanto, quando lhes expliquei a necessidade de nos prevenirmos contra os atrasos que podiam ocasionar-nos os ventos contrários ou qualquer outro motivo, e lhes prometi aumentar as rações à medida que nos aproximássemos da meta, declararam-se unânimes e espontaneamente de acordo com a minha decisão.»
Ficou assente, portanto, que cada passageiro da chalupa continuaria a receber dezoito gramas de pão ao pequeno-almoço e ao almoço, mas que a ração do jantar seria suprimida. Esta nova redução permitiu alargar a duração daquele alimento a quarenta e três dias.
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
sexta-feira, julho 07, 2006
Uma viagem providencial (XI)
Enfim, uma acalmia!
"Na noite de 24, com satisfação geral, o vento enfraqueceu e o céu clareou. Comemos a nossa magra ração com maior prazer. A noite foi bela, também, mas, como continuávamos ensopados de água do mar, o frio não deixou de atormentar-nos. Apesar disso, tive a felicidade de verificar que a manhã ensoalhada fazia renascer nalguns o entusiasmo e o bom humor. Pela primeira vez em quinze dias apreciámos as delícias do calor do sol. Despimo-nos e pendurámos a roupa interior e os fatos a secar, umas e outros tão puídos, tão usados, que não ofereciam qualquer protecção contra o frio e a humidade. De tarde, grande número de pássaros que, como as andorinhas-do-mar, jamais se aventuram longe de terra, veio esvoaçar à volta da chalupa."
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
"Na noite de 24, com satisfação geral, o vento enfraqueceu e o céu clareou. Comemos a nossa magra ração com maior prazer. A noite foi bela, também, mas, como continuávamos ensopados de água do mar, o frio não deixou de atormentar-nos. Apesar disso, tive a felicidade de verificar que a manhã ensoalhada fazia renascer nalguns o entusiasmo e o bom humor. Pela primeira vez em quinze dias apreciámos as delícias do calor do sol. Despimo-nos e pendurámos a roupa interior e os fatos a secar, umas e outros tão puídos, tão usados, que não ofereciam qualquer protecção contra o frio e a humidade. De tarde, grande número de pássaros que, como as andorinhas-do-mar, jamais se aventuram longe de terra, veio esvoaçar à volta da chalupa."
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
quinta-feira, julho 06, 2006
Mulher a ler

(Frank Millet, A Cosey Corner)
Este quadro, ao contrário do da anterior mulher que não lê, de Gauguin, tem ponto de fuga, mas, na minha opinião, tem também um pequeno "erro de casting". Paciência. Reparem nas três maçãs.
O quadro, muito realista, de 1884, foi oferecido ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque. Gosto da riqueza dos detalhes. A cozinha parece pobre, porque pequena e sem chaminé, e a roupa clara da rapariga sugere que tem vestido um fato domingueiro. O sapato vai no mesmo sentido. (Onde andará o outro pé?) O que trás na cabeça não parece um chapéu, mas um lenço de cor dissonante para proteger o cabelo durante trabalhos de limpeza... Gostos. O livro é de tamanho reduzido mas com um número não muito pequeno de páginas, de leitura desconfortável. Poderia ser um missal. Ou não. O que poderia uma rapariga norte-americana ler em 1884? Muitas coisas interessantes, parece-me.
A mão da rapariga que não está a segurar o livro puxa a cortina para trás para deixar entrar mais luz, a partir de um exterior com árvores. O banco, construído na parede, deve ser frio. Fica, aliás a dúvida sobre se será realmente um banco, por ser muito estreito e alto, a exigir uma caixa para apoiar os pés.
Em cima, no apoio sobre a divisória, há uma espingarda, um machado, vários candelabros e outros utensílios. Não há objectos para embelezar a casa, tudo tem um fim prático.
Em toda a divisão impera a ordem e o asseio: na janela, sobre a divisória, no chão em pedra e no fogão. Só a parede junto ao fogão vai enegrecendo com o fumo. As ervas que secam junto ao fumeiro, sem cor específica, sugerem vagamente um agrado ao olfacto ou ao paladar. Ao lado do fogo, sobre uma coluna, está esquecida uma chávena de chá, indicação de uma leitura atenta.
O fogo, em cores muito realistas, continua a aquecer o bule suspenso pela asa. A emoldurar as três maçãs que cozem sobre a plataforma do fogão, duas curiosas figuras de ferro. Estarão presas ao fogão? Estranho. A chita e o peitinho em renda do vestido, as cores diversas nas pedras do chão, o verde no exterior da janela, as figuras inúteis de ferro, e, claro, as três maçãs, são, afinal, os adornos simples da cena.
Uma viagem providencial (X)
Meio mortos
Ao dealbar do dia 20, declara o comandante, alguns homens pareciam meio mortos. O espectáculo oferecido por aqueles seres lívidos, descarnados e andrajosos era qualquer coisa de horrível. "Onde quer que o meu olhar pousasse - relata -, apenas deparava com sofrimento, angústia, tortura moral, esgotamento físico. Os terrores da fome torturavam-nos a todos, mas ignorávamos quase totalmente os da sede. Quase não sentíamos necessidade de beber, e creio que até esse desejo fora saciado através da nossa pele. Dormíamos por assim dizer dentro de água e acordávamos com cãibras e dores insuportáveis nos ossos. Ao meio-dia, o Sol espreitou, reanimando-nos a todos.
"Durante toda a tarde do dia 21 de Maio, a chuva e as vagas inundaram-nos de tal maneira que mal nos divisávamos uns aos outros. O frio tornou-se agreste, fazendo-nos temer a aproximação da noite, e o sono, em que concentrávamos todos os nossos desejos, não nos dava qualquer alívio. Pelo meu lado, vivi praticamente sem dormir todos esses terríveis dias.
"A 22 achámo-nos à beira da catástrofe final. Éramos obrigados a seguir a direcção das ondas e tínhamos de evitar a todo o preço colocarmo-nos de través: o mínimo erro na manobra da cana do leme significaria a destruição imediata. Durante todo o dia, o vento soprou com fúria e a água do céu e do mar caiu, sem parar, sobre nós.
"O suplício dessa noite ultrapassou em horror o da anterior. Os vagões que se abatiam sobre a chalupa, e que nos submergiam com brutalidade inaudita, condenavam-nos a esgotar a água continuamente, com ansiedade que raiava o pavor. Ao nascer do dia estávamos todos extenuados. A miséria física de alguns era tão grande que comecei a recear que nova noite tão torturante como aquela lhes fosse fatal: pareciam incapazes de suportar os seus sofrimentos. Distribuí uma ração de duas colheres de rum. Depois de a bebermos, de torcermos as nossas roupas encharcadas e de comermos o nosso pequeno-almoço de pão e água, sentimo-nos um pouco melhor."
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
Ao dealbar do dia 20, declara o comandante, alguns homens pareciam meio mortos. O espectáculo oferecido por aqueles seres lívidos, descarnados e andrajosos era qualquer coisa de horrível. "Onde quer que o meu olhar pousasse - relata -, apenas deparava com sofrimento, angústia, tortura moral, esgotamento físico. Os terrores da fome torturavam-nos a todos, mas ignorávamos quase totalmente os da sede. Quase não sentíamos necessidade de beber, e creio que até esse desejo fora saciado através da nossa pele. Dormíamos por assim dizer dentro de água e acordávamos com cãibras e dores insuportáveis nos ossos. Ao meio-dia, o Sol espreitou, reanimando-nos a todos.
"Durante toda a tarde do dia 21 de Maio, a chuva e as vagas inundaram-nos de tal maneira que mal nos divisávamos uns aos outros. O frio tornou-se agreste, fazendo-nos temer a aproximação da noite, e o sono, em que concentrávamos todos os nossos desejos, não nos dava qualquer alívio. Pelo meu lado, vivi praticamente sem dormir todos esses terríveis dias.
"A 22 achámo-nos à beira da catástrofe final. Éramos obrigados a seguir a direcção das ondas e tínhamos de evitar a todo o preço colocarmo-nos de través: o mínimo erro na manobra da cana do leme significaria a destruição imediata. Durante todo o dia, o vento soprou com fúria e a água do céu e do mar caiu, sem parar, sobre nós.
"O suplício dessa noite ultrapassou em horror o da anterior. Os vagões que se abatiam sobre a chalupa, e que nos submergiam com brutalidade inaudita, condenavam-nos a esgotar a água continuamente, com ansiedade que raiava o pavor. Ao nascer do dia estávamos todos extenuados. A miséria física de alguns era tão grande que comecei a recear que nova noite tão torturante como aquela lhes fosse fatal: pareciam incapazes de suportar os seus sofrimentos. Distribuí uma ração de duas colheres de rum. Depois de a bebermos, de torcermos as nossas roupas encharcadas e de comermos o nosso pequeno-almoço de pão e água, sentimo-nos um pouco melhor."
Sir John Barrow, "Revolta na Bounty", tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Publicações Europa-América, 1972
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