quinta-feira, abril 20, 2006

Mulher a ler


(Edward Hopper)

Se te queres matar

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...


(Álvaro de Campos)

quarta-feira, abril 19, 2006

Pela memória


No "pogrom" de Lisboa de 19 de Abril de 1506, durante o reinado do Rei Manuel I, um "cristão-novo" (judeu obrigado a converter-se ao catolicismo sob pena de morte) expressa as suas dúvidas sobre as visões milagrosas na Igreja de S. Domingos em Lisboa. Como consequência, cerca de 4000 judeus, homens, mulheres e crianças, foram massacrados pela população católica, incitados por frades dominicanos. Os judeus foram acusados, entre outros "males", de deicídio e de serem a causa da profunda seca que assolava o país. A matança durou três dias.

No seguimento deste massacre, do clima de crescente anti-semitismo em Portugal e do estabelecimento da Inquisição, (o tribunal da Inquisição entrou em funcionamento em 1540 e perdurou até 1821) muitas famílias judaicas fugiram do país.


(Wikipedia)

terça-feira, abril 18, 2006

Meninas

A macieira estava florida como uma princesa. Mas as estevas venceram pelo número e pela convicção.

Relógio

O médico tinha-lhe dado um ano de vida. À sua frente, várias pilhas de livros para ler. Nunca tinha aprendido a calendarizar a leitura. Alteravam-lhe qualquer tentativa de sequência planeada os livros oferecidos, emprestados, aparecidos em livrarias em dias de chuva, ou simplesmente concordantes com o fim de livros anteriores. O tempo para ler um livro, isso nem valia a pena tentar antever. Os mais finos e de versos curtos podiam ser os mais demorados, as epopeias podiam ler-se de uma vez sem perder o fôlego, e os contratempos fora do papel podiam sempre trocar-lhe as voltas. Como agora. Como fazer?

(Claude Monet)

El Infante Arnaldos

¡Quien hubiera tal ventura      sobre las aguas del mar
como hubo el infante Arnaldos      la mañana de San Juan!
Andando a buscar la caza      para su falcón cebar,
vio venir una galera      que a tierra quiere llegar;
las velas trae de sedas,      la ejarcia de oro terzal,
áncoras tiene de plata,      tablas de fino coral.
Marinero que la guía,      diciendo viene un cantar,
que la mar ponía en calma,      los vientos hace amainar;
los peces que andan al hondo,      arriba los hace andar;
las aves que van volando,      al mástil vienen posar.
Allí hablo el infante Arnaldos,      bien oiréis lo que dirá:
— Por tu vida, el marinero,      dígasme ora ese cantar.
Respondióle el marinero,      tal respuesta le fue a dar:
— Yo no canto mi canción      sino a quién conmigo va.


(Romancero)

quinta-feira, abril 13, 2006

Laca?


(Pam Cresswell)

Existe outro material com a capacidade da laca para ser desagradável a todos os sentidos? (Fechem os olhos ao aplicar o spray!)

"Me confesso / o dono das minhas horas"

Livro de Horas

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)

Splash!

Dispara-se para chegar com as mãos ao fundo da piscina. Depois, ensaia a posição fetal, para regressar ao cimo como um ovo. Abandona-se por fim à superfície. Mil búzios ecoam na ondulação em volta, abafando a música ambiente e as vozes distantes. A luz do sol vem filtrada como uma carícia. A tecnologia permite dispensar o cloro, mas usa os óculos para que a água não atrapalhe a visão. Fecha os olhos e goza.

quarta-feira, abril 12, 2006


(Paul Sérusier)

Eli, Eli...

Hesito, por vezes, em transcrever aqui alguns dos meus textos preferidos: não quero ser desmancha-prazeres para quem vá ainda ler a obra em causa. Por isso, hoje evoco apenas, do livro "Contacto", de Carl Sagan, os extraordinários registos sobre fé e revelação. Quem leu há-de saber ao que me refiro (mas não quem apenas viu o filme).

terça-feira, abril 11, 2006

O segundo sexo

(Simone de Beauvoir fotografada por Henry Cartier-Bresson)


"O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo fez correr rios de tinta e está agora mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso... No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as volumosas tolices lançadas neste último século tenham realmente esclarecido a questão.

(...)

"A propósito de uma obra, de resto assaz irritante, intitulada Modern Woman, a Lost Sex, Dorothy Parker escreveu: «Não posso ser justa em relação aos livros que tratam da mulher como mulher... A minha ideia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados seres humamos.» Mas o nominalismo é uma doutrina um tanto limitada; e os anti-feministas não têm dificuldade em demonstrar que as mulheres não são homens. (...) Em verdade, basta andar de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses e ocupações são manifestamente diferentes: talvez essas diferenças sejam superficiais, talvez se destinem a desaparecer. O certo é que por enquanto elas existem com uma evidência gritante.

(...)

"A fim de provar a inferioridade da mulher, os anti-feministas apelaram não só para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo «a igualdade dentro da diferença». Essa fórmula, que conheceu grande êxito, é muito significativa: é exactamente a que utilizam, em relação aos negros dos E.U.A., as leis Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações."

(Simone de Beauvoir, O segundo sexo, primeira edição francesa em 1949)