quinta-feira, abril 13, 2006

Laca?


(Pam Cresswell)

Existe outro material com a capacidade da laca para ser desagradável a todos os sentidos? (Fechem os olhos ao aplicar o spray!)

"Me confesso / o dono das minhas horas"

Livro de Horas

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)

Splash!

Dispara-se para chegar com as mãos ao fundo da piscina. Depois, ensaia a posição fetal, para regressar ao cimo como um ovo. Abandona-se por fim à superfície. Mil búzios ecoam na ondulação em volta, abafando a música ambiente e as vozes distantes. A luz do sol vem filtrada como uma carícia. A tecnologia permite dispensar o cloro, mas usa os óculos para que a água não atrapalhe a visão. Fecha os olhos e goza.

quarta-feira, abril 12, 2006


(Paul Sérusier)

Eli, Eli...

Hesito, por vezes, em transcrever aqui alguns dos meus textos preferidos: não quero ser desmancha-prazeres para quem vá ainda ler a obra em causa. Por isso, hoje evoco apenas, do livro "Contacto", de Carl Sagan, os extraordinários registos sobre fé e revelação. Quem leu há-de saber ao que me refiro (mas não quem apenas viu o filme).

terça-feira, abril 11, 2006

O segundo sexo

(Simone de Beauvoir fotografada por Henry Cartier-Bresson)


"O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo fez correr rios de tinta e está agora mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso... No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as volumosas tolices lançadas neste último século tenham realmente esclarecido a questão.

(...)

"A propósito de uma obra, de resto assaz irritante, intitulada Modern Woman, a Lost Sex, Dorothy Parker escreveu: «Não posso ser justa em relação aos livros que tratam da mulher como mulher... A minha ideia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados seres humamos.» Mas o nominalismo é uma doutrina um tanto limitada; e os anti-feministas não têm dificuldade em demonstrar que as mulheres não são homens. (...) Em verdade, basta andar de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses e ocupações são manifestamente diferentes: talvez essas diferenças sejam superficiais, talvez se destinem a desaparecer. O certo é que por enquanto elas existem com uma evidência gritante.

(...)

"A fim de provar a inferioridade da mulher, os anti-feministas apelaram não só para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo «a igualdade dentro da diferença». Essa fórmula, que conheceu grande êxito, é muito significativa: é exactamente a que utilizam, em relação aos negros dos E.U.A., as leis Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações."

(Simone de Beauvoir, O segundo sexo, primeira edição francesa em 1949)

segunda-feira, abril 10, 2006

Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.

(Luís de Camões)

(Isaac Sarabbat, A Virgem e o Menino Jesus)

Onde é que apareceu esta gravura neste blog?

domingo, abril 09, 2006

Carta(s) a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde


II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida


III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem -
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse

Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
- Grandioso vencedor e tão amargo vencido -
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos


IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta



(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, abril 07, 2006

Mulher a ler


(Henry J. Hudson, Neaera reading a letter from Catallus)

Evangelhos apócrifos

2ª Epístola de Clemente de Roma 5, 2-4 e 8, 5

O Senhor diz: «Vós sereis como cordeiros no meio de lobos.» Pedro responde-lhe: «E se os lobos despedaçarem os cordeiros?» Jesus diz a Pedro: «Os cordeiros, após a sua morte, já não têm porque recear os lobos. E não tenhais medo de pessoas que vos matam, pois em seguida já não vos podem fazer mal. Receai antes aquele que, após a vossa morte, tem poder para vos lançar, alma e corpo, no martírio do corpo.»[1]

[1] Mateus 10, 16; Lucas 10, 3.

*

Papiro 654

Jesus diz: «Que aquele que procura não cesse de procurar, até que encontre, e quando tiver encontrado ficará cheio de espanto. Espantado, ele reinará, e reinando, conhecerá o repouso.»


*

Pseudo-Clementinas, Homilia 11, 35

Também aquele que nos[2] enviou disse: «Muitos virão a mim, vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes». Será pelos seus frutos que vós os reconhecereis.»

[2] Neste evangelho, os doze apóstolos apresentam-se como os narradores, e Mateus como o redactor.

*

Clemente de Alexandria, Stromata 3, 6, 9, 13

A Salomé, que lhe perguntava «Até quando a morte nos tomará sob o seu poder?», o Senhor respondeu: «Até que vós, todas as mulheres, cesseis de conceber.» Não que a vida seja má e perversa a criação, mas tal é a ordem da natureza: geração e corrupção encadeiam-se inelutavelmente.»

Alguns, movidos por uma piedosa continência, opõem-se à criação de Deus e citam estas palavras de Jesus a Salomé, que eu acabo de recordar. Encontram-se, salvo erro, no evangelho segundo os Egípcios. Eles afirmam que o próprio Senhor declarou: «Eu vim destruir as obras da mulher.» Por mulher, entendam as paixões; pelas suas obras, o nascimento e a morte.

Como a conversa se debruçava sobre a consumação dos tempos, Salomé, muito a propósito, perguntou: «Até quando é que os homens morrerão?» (A Escritura dá à palavra homem um duplo sentido, designando a pessoa visível e a alma, ou ainda o que está salvo e o que não está. E o pecado é chamado a morte da alma.) E o Senhor deu-lhe esta sagaz resposta: «Enquanto as mulheres conceberem.»

Disse-lhe ela: «Fiz bem em não ter gerado, pensando que a geração era um mal»; ora o Senhor respondeu-lhe: «Come qualquer erva, mas evita aquelas que são amargas.»[3]

Como Salomé lhe perguntasse quando se realizariam os acontecimentos de que ele falara, o Senhor disse: «Quando vocês espezinharem o vestido da vergonha e quando o dois for um, o masculino se unir ao feminino e não houver mais homem nem mulher.»

[3] Os encratitas consideravam o casamento como uma «erva amarga».


("Evangelhos Apócrifos", Editorial Estampa)

quinta-feira, abril 06, 2006

Aos vinte e três ou vinte e quatro anos

Tinha estado desde as dez e meia no café,
à espera de que o outro viesse.
A meia-noite passou - e ainda esperava.
E passava agora de uma e meia; o café
quase por completo se esvaziara.
Fartara-se já de ler os jornais
maquinalmente. Dos seus três solitários xelins
apenas um restava: tanto tempo à espera,
e os outros gastara em cafés e brândi.
Fumara todos os cigarros.
Tão longa espera acabava-o. Porque,
assim sòzinho horas, começara
a ser tomado por inquietos juízos
da vida dissoluta que levava.

Mas então viu o seu amigo entrar - num instante
cansaço e tédio, e pensamentos sérios foram-se.

O amigo trazia grandes novidades:
ganhara ao jogo sessenta libras.

E os rostos belos deles, a juventude explêndida,
o sensual amor que havia entre ambos,
renovaram-se, reanimaram-se, ganharam novas forças,
com as sessenta libras da casa de jogo.

Radiantes de alegria, transbordando vida,
os dois saíram - não para casa de suas respeitáveis famílias
(onde aliás não eram desejados),
mas para uma casa conhecida, casa
de má nota. Foram e pediram
um quarto, bebidas caras, e beberam.

E quando as bebidas caras se acabaram
lá pelas quatro horas da manhã,
alegremente entregam-se ao desejo.


Hände von Jean Cocteau

[1927]

Constantino Cavafy
(tradução de Jorge de Sena)