sexta-feira, março 17, 2006

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

(António Gedeão)

Agradecimentos

Aos blogs Klepsydra pelo destaque à entrada feminista, Posto de Escuta pelo destaque à entrada pessoana, e especialmente ao amável Abrupto pelo destaque à entrada metacognitiva: muito obrigada!

domingo, março 12, 2006


(Jean Valette-Penot)

Fábula

Era uma vez uma formiga que levava uma vida de formiga. E um coleccionador de formigas, que a observava com uma lupa, curioso. A formiga bem reparou na atenção que lhe era prestada. No início, até sentiu um certo orgulho nisso. Mas depois, sem poder deixar o seu carreiro, achou que podia tentar comunicar com o coleccionador. Ela sabia que ele era mais inteligente do que ela e que tinha meios para rapidamente aprender a linguagem das formigas. Mas foi em vão que esperou a sua oportunidade. Nunca os homens tentaram comunicar com as formigas, talvez por acharem que elas apenas se regem por imperativos químicos, e que as podem compreender bastando, para isso, acompanhar os seus movimentos. Mas, assim, nunca o coleccionador pôde saber dos seus sonhos comuns.

Os outros lados

Até que ponto não se lê apenas o que se quer ler? Que espaço se dá à surpresa na leitura? Que hipóteses à corrosão de estereótipos? Será uma questão de tempo ou dinheiro o que provoca a compartimentação das ideias a que hoje se assiste? A rejeição da empatia pelos pontos de vista que são os do outro? E será esta uma vantagem competitiva?

Mulher a ler

Ao som de um riacho e de um piano.



(Walter Crane, Such sights as youthful poets dream on summer eves by haunted stream)

*

Tower'd cities please us then
And the busy hum of men,
Where throngs of knights and barons bold,
In weeds of peace, high triumphs hold,
With store of ladies, whose bright eyes
Rain influence, and judge the prize
Of wit or arms, while both contend
To win her grace, whom all commend.
There let Hymen oft appear 125
In saffron robe, with taper clear,
And pomp, and feast, and revelry,
With mask, and antique pageantry;
Such sights as youthful poets dream
On summer eves by haunted stream.

Then to the well-trod stage anon,
If Jonson's learned sock be on,
Or sweetest Shakespeare, Fancy's child,
Warble his native wood-notes wild.


(John Milton)

sábado, março 11, 2006

Pessoa(s)

Como se materializaria hoje a heteronímia pessoana? Se fosse blogger, escreveria Fernando blogs díspares, com assinaturas de gente que não seria de carne e osso? Faria a ligação entre todos através de profiles comuns, de referências nos blogrolls, ou de uma qualquer outra forma?

Encontra-se, entre os blogs, cérebros do tamanho dos de galinhas, mas também pessoas cultas, witty, com grande verve. Escrever para gavetas abertas ao público, para críticos ao virar de um click, para audiências medidas com rigor... que novas possibilidades trará? Que génios insuspeitos poderão surgir? (E será seguro que não passarão despercebidos?) Que gostos novos poderão desenvolver-se? Que fidelidades de leitores?

sexta-feira, março 10, 2006

quarta-feira, março 08, 2006

Mulher a ler


(Edward Coley Burne-Jones)

Respect

(oo) What you want
(oo) Baby, I got
(oo) What you need
(oo) Do you know I got it?
(oo) All I'm askin'
(oo) Is for a little respect when you come home (just a little bit)
Hey baby (just a little bit) when you get home
(just a little bit) mister (just a little bit)

I ain't gonna do you wrong while you're gone
Ain't gonna do you wrong (oo) 'cause I don't wanna (oo)
All I'm askin' (oo)
Is for a little respect when you come home (just a little bit)
Baby (just a little bit) when you get home (just a little bit)
Yeah (just a little bit)

I'm about to give you all of my money
And all I'm askin' in return, honey
Is to give me my profits
When you get home (just a, just a, just a, just a)
Yeah baby (just a, just a, just a, just a)
When you get home (just a little bit)
Yeah (just a little bit)

------ instrumental break ------

Ooo, your kisses (oo)
Sweeter than honey (oo)
And guess what? (oo)
So is my money (oo)
All I want you to do (oo) for me
Is give it to me when you get home (re, re, re ,re)
Yeah baby (re, re, re ,re)
Whip it to me (respect, just a little bit)
When you get home, now (just a little bit)

R-E-S-P-E-C-T
Find out what it means to me
R-E-S-P-E-C-T
Take care, TCB

Oh (sock it to me, sock it to me,
sock it to me, sock it to me)
A little respect (sock it to me, sock it to me,
sock it to me, sock it to me)
Whoa, babe (just a little bit)
A little respect (just a little bit)
I get tired (just a little bit)
Keep on tryin' (just a little bit)
You're runnin' out of foolin' (just a little bit)
And I ain't lyin' (just a little bit)
(re, re, re, re) 'spect
When you come home (re, re, re ,re)
Or you might walk in (respect, just a little bit)
And find out I'm gone (just a little bit)
I got to have (just a little bit)
A little respect (just a little bit)


(Otis Redding)

terça-feira, março 07, 2006

Espanto

Então ainda há quem entenda literalmente a palavra "t-e-n-d-e-n-c-i-a-l-m-e-n-t-e" na constituição? Há muitos candidatos ao rótulo de "h-i-p-ó-c-r-i-t-a", não?

domingo, março 05, 2006

Capas de jornais

Que os jornais optem por apresentar nas suas capas um título maior e uma imagem que não lhe corresponde é coisa que me escapa, mas que deve ter as suas razões de marketing ou jornalísticas. Que, além disso, nos respectivos sites, não tenham ligações directas para essas duas notícias em destaque é, além de incompreensível, francamente irritante.